quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Chacina de Quintino, uma história reescrita 41 anos depois

Era 29 de março de 1972 quando quatro militantes da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), a mesma organização a que pertenceu a presidente Dilma Rousseff, estavam reunidos na casa de número 72 da Avenida Suburbana 8.985, em Quintino, na Zona Norte do Rio. Segundo a versão oficial que consta no registro da Delegacia de Ordem Política e Social (Dops), agentes da área de Segurança Nacional foram recebidos à bala ao penetrar no aparelho subversivo e, em legítima defesa, revidaram. De acordo com o documento, jaziam nos fundos da casa os corpos de duas mulheres e um homem. Quarenta e um anos depois, a versão dos militares para a Chacina de Quintino, como ficou conhecido o episódio, cai por terra.
Com base em documentos de várias fontes e depoimentos de vizinhos e do perito que examinou os corpos no Instituto Médico Legal (IML), a Comissão Estadual da Verdade do Rio (CEV-Rio) elucidou as circunstâncias em que ocorreram as mortes de Antônio Marcos Pinto de Oliveira, Maria Regina Lobo Leite de Figueiredo e Lígia Maria Salgado Nóbrega.
Novos testemunhos obtidos pela comissão, somados ao laudo cadavérico que não aponta resquícios de pólvora na mão dos militantes, levam à conclusão de que as vítimas não receberam os policiais à bala, ao contrário do que sustentaram o Dops e o DOI-Codi.
Em depoimento à comissão, vizinhos que moravam à época na vila onde fica a casa, e que ainda vivem no local, afirmam que não escutaram tiros partindo de dentro da casa. Eles revelaram que a polícia já estava por ali desde o final da tarde daquele trágico dia.
— Foi tudo bem caladinho. Mas eles (os agentes) chegaram aqui na janela mandando a gente se proteger e ficar debaixo da cama. (...). De dez para onze horas da noite. Na hora em que eles foram fazer a execução, foi que eles pediram que nós ficássemos em casa, porque eles (as vítimas) podiam ter munição também e atirar, mas era muita gente, eles não podiam — contou à comissão Orlando de Brito, de 78 anos.
James Allen, companheiro de Lígia e líder da VAR-Palmares naquele momento, conseguiu fugir pulando o muro dos fundos da casa, rumo à linha de trem. Em algumas fontes, Wilton Ferreira aparece como uma quarta vítima da chacina, o que a comissão conseguiu provar se tratar de uma confusão.

Lígia foi “morta” outras duas vezes
Outra vizinha, Heloísa Helena de Almeida, de 69 anos, afirmou que os tiros não partiam de dentro da casa:
— O tiroteio comeu, o tiroteio comeu. A polícia que atirava. Quando eles (as vítimas) viram que o negócio estava assim, tentaram entrar na casa 70 lá por trás, que tinha muito caminho, e eles queriam fugir por trás, por essa rua. E a polícia metralhou.
Em seu relato, Heloísa se refere a Lígia como a moça bonita que se fantasiava de feia. Diz que ela se rendeu, mas foi morta. Lígia estava grávida de dois meses, um filho de James. Os depoimentos dão conta de que a militante morreu na lateral do imóvel, ao ser atingida pelos primeiros tiros. Ela recebeu os policiais com as mãos para o alto e foi baleada na cabeça.
A militante, aliás, morreu outras duas vezes para os militares — e em dias consecutivos. Segundo registros do Dops sobre dois assaltos diferentes, ocorridos nos dias 8 e 9 de junho de 1972, Lígia foi assassinada nas duas ocasiões pelos mesmos motivos: ao reagir à voz de prisão das autoridades da repressão.
E os elementos que levam a conclusões não param por aí. Também em depoimento à CEV-Rio, o médico-legista Valdecir Tagliari, responsável por assinar o óbito das vítimas, relatou como encontrou os corpos.
— Era como se tivessem sofrido golpes de coronha de fuzil. Era armamento pesado, porque houve esmagamento total das mãos e de parte dos braços — lembra, afirmando que o laudo que enviou à direção, como de costume, foi totalmente modificado, segundo ele viu num microfilme anos mais tarde.
No processo que o Grupo Tortura Nunca Mais moveu, no Conselho Regional de Medicina do Rio (Cremerj), contra o perito por conta da chacina, e no qual ele foi absolvido, constam afirmações de Tagliari sobre os laudos.
“(O perito) Refere ter lembrança nítida das lesões cervicais e peitorais, que correspondem a sinais típicos de ‘estrangulamento’ ou ‘tentativa’, além de corte profundo em punho esquerdo”, diz o trecho do processo sobre declarações de Tagliari em relação ao laudo de Antônio Marcos.
Ele nega ser de sua autoria o documento e diz que “não consta a sua assinatura no final do laudo”. Membro da CEV-Rio responsável pelo caso, João Ricardo Dornelles ressalta que ninguém dá coronhada em uma pessoa que já está morta. Além disso, o laudo cadavérico de Maria Regina mostra que o corpo apresentava livores violáceos, ou seja, hematomas, um indicativo de que houve tortura.
— Os depoimentos dos vizinhos e do perito são importantes porque, além disso, o laudo cadavérico mostra que havia hematomas no corpo. São provas reais de que houve espancamento — afirmou Dornelles.

Divergência nos horários

Num primeiro momento, pensou-se que o corpo de Antônio Marcos seria o de James Allen, que era quem os militares queriam capturar por comandar ações no grupo guerrilheiro. Outros documentos da época mostram que o corpo de Antônio Marcos foi reconhecido como sendo Nelson Rodrigues Filho (filho do dramaturgo homônimo), o Prancha, do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), pelo próprio irmão de Nelson, Jofre Rodrigues, que chegou a chorar copiosamente ao lado do cadáver. Depois verificou-se tratar de um engano. Segundo a comissão, a partir da Chacina de Quintino, o Serviço Nacional de Informações (SNI) mudou o método para reconhecimento de corpos, passando a exigir exames das impressões digitais e arcada dentária.
Existia ainda uma divergência sobre o possível horário dos disparos e dia das mortes. Isso porque, em identificação no IML, a data de falecimento aparecia como sendo o dia 30 de março. No documento oficial, consta que o DOI-Codi fez a comunicação do episódio ao Dops à 0h20m. Mas a certidão de óbito mostra que as mortes ocorreram no dia 29. Sobre o horário do tiroteio, os vizinhos contam que o episódio aconteceu por volta das 21h do dia 29.
A pesquisa se debruçou ainda sobre a afirmação de que Wilton Ferreira seria mais uma vítima da Chacina de Quintino, conforme fontes atuais de pesquisa, como a publicação “Direito à Memória e à Verdade”, da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos.
No livro de diligências do Dops, em que os agentes passavam informações do que tinha ocorrido para os que iam trabalhar no turno posterior, há um comunicado posterior ao de Quintino, exatamente às 4h. Esse documento informa que o estouro de um aparelho na Rua Silva Vale, número 55, no bairro de Cavalcante, foi feito pela mesma equipe de Quintino, que fica a cerca de dez minutos de distância. Lá estava Wilton, que foi morto e transferido para o IML junto com as vítimas da chacina, o que gerou a confusão de que ele seria um quarto militante abatido pelas forças de repressão na casa de Quintino.
— Eles forjavam mortes em confronto, mas, na verdade, tratava-se de execuções sumárias, como hoje existem os autos de resistência. Naquela época, era morte em confronto. A Chacina de Quintino também serve para mostrar isso, como a mentira não era só um instrumento ideológico. A mentira, no estado ditatorial, serve pra acobertar crimes e era o que a ditadura fazia — declarou o presidente da CEV-Rio, Wadih Damous.

Conclusões apresentadas na comissão:

Pesquisas documentais e depoimentos concluídos, a comissão localizou uma testemunha-chave para elucidar a morte de Wilton. Hélio da Silva, também militante da VAR-Palmares, esclareceu que Wilton não era militante. Ele foi cooptado por James para tomar conta da garagem em Cavalcante onde eram guardados os carros roubados da organização.
— (Ele) Não tinha profissão, fazia bico. Ele não era do movimento, não era de facção nenhuma, era só um cara em que o Ciro (codinome de James) confiou e levou para o aparelho de Cavalcante. Na garagem que o Ciro mandou fazer para botar os carros roubados. A função dele era só ser confidente e beber, não tinha compromisso político nem nada — disse Hélio à CEV-Rio.
Hélio, sob a fachada de motorista de táxi, fazia a ligação entre a organização e outros grupos, como o MR-8, a Aliança Libertadora Nacional (ALN) e o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). O carro em que ele estava para ir ao encontro de James foi interceptado pelos agentes da repressão na Avenida Brasil. Ele foi preso naquela manhã do dia da chacina e foi levado para o Batalhão da Polícia Militar no Méier, na Zona Norte, e posteriormente para o DOI-Codi, onde foi torturado.
James, percebendo que o colega não aparecia no local marcado no horário estipulado, e nem no ponto de segurança (segundo local marcado para o caso de não se aparecer no primeiro por conta de algum atraso), fez uma reunião na casa em que morava com Lígia, em Quintino. Antônio Marcos e Maria Regina foram para lá. Indagado pela comissão sobre se foi o responsável pela queda do aparelho de Quintino, Hélio negou e explicou que, para se ver livre da tortura e proteger o aparelho de Quintino, preferiu entregar a garagem de Cavalcante, imaginando que ela poderia estar vazia.
Segundo a comissão, a documentação recolhida e os depoimentos dados permitem supor que os tiros da Chacina de Quintino foram dados com os militantes em estado de agonia ou depois da morte na tortura. Único a conseguir escapar, James morreu em um acidente de carro no Rio Grande do Sul em circunstâncias e data não esclarecidas. No laudo, a causa da morte é infarto.

Fonte:
Jornal O Globo: ( Chacina de Quintino )

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Dia de São Judas Tadeu

Sir Anthony van Dyck - São Judas Tadeu
São Judas Tadeu é um santo cristão e um dos doze apóstolos de Jesus.
A Igreja Apostólica Armênia honra Tadeu juntamente com São Bartolomeu como santo padroeiro e responsável por ter levado o Cristianismo à Arménia. É o santo patrono das causas desesperadas e das causas perdidas na Igreja Católica Romana. O atributo de São Judas é a maça. Ele também é geralmente mostrado nos ícones com uma chama à volta da cabeça, que representa a sua presença durante o Pentecostes, quando ele recebeu o Espírito Santo juntamente com os outros Doze apóstolos. Outro atributo comum é ver Judas Tadeu segurando uma imagem de Jesus Cristo, a imagem de Edessa. Em algumas ocorrências, ele pode ser visto segurando um rolo ou um livro (supostamente a Epístola de Judas) ou uma régua de carpinteiro.
A tradição conta que São Judas pregou o Evangelho na Judeia, Samaria, Idumeia, Síria, Mesopotâmia e Líbia antiga. Acredita-se também que ele visitou Beirute e Edessa, embora o emissário desta última missão seja também identificado por outras fontes como sendo Tadeu de Edessa, um dos Setenta. Sua morte teria ocorrido junto com a de Simão, o zelote na Pérsia, onde teriam sido martirizados.
A lenda reporta ainda que São Judas teria nascido de uma família judaica em Paneas, uma cidade na Galileia que, quando foi posteriormente reconstruída pelo Império Romano, foi renomeada para Cesareia de Filipe. É quase certo que ele falava tanto o grego quanto o aramaico, assim como os seus contemporâneos naquela região, e que era um fazendeiro de profissão. Ainda de acordo com a lenda, São Judas era filho de Cleofas e sua esposa, Maria, uma irmã da Virgem Maria. Esta mesma tradição afirma que seu pai fora assassinado por sua devoção aberta e irrestrita ao Cristo ressuscitado.
Embora São Gregório, o Iluminador seja creditado como sendo o "Apóstolo dos Armênios", quando ele batizou o rei Tirídates III em 301 d.C., convertendo os armênios, os apóstolos Judas e Bartolomeu são tradicionalmente acreditados como tendo pela primeira vez levado o cristianismo para a Armênia e são, por isso, venerados como santos padroeiros pela Igreja Apostólica Armênia. Ligada à esta tradição estão os mosteiros de São Tadeu (hoje no norte do Irã) e o São Bartolomeu (hoje no sudeste da Turquia), ambos tendo sido construídos no que então era parte da Armênia (província romana).
Suas relíquias se encontram supostamente na Basílica de São Pedro, em Roma, para onde teriam sido trasladadas e são veneradas até hoje.

sábado, 26 de outubro de 2013

Um paradoxo

Natalia Gontcharova
Há possibilidade no cosmo vasto
De que eu coma uma noz sem que eu sinta fome,
Sem que haja razão para fazê-lo
Exceto a de que existe a possibilidade de ser feito.
Esse fato reveste-se da mais alta importância.
Enquanto for possível a um homem comer uma noz
Sem que sinta fome,
Sem que haja razão para fazê-lo
Exceto a de que existe a possibilidade de ser feito,
Não haverá uma única verdade no mundo.

Rama si

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Oração Budista pela Paz

Guy Cambier
Que todos os seres, de todos os lugares, afligidos por sofrimentos do corpo e da mente sejam logo libertados de suas enfermidades.
Que os temerosos deixem de ter medo e os agrilhoados sejam libertos.
Que o impotente encontre forças e que os povos desejem a amizade uns dos outros.
Que aqueles que se encontram a ermo sem caminhos e amedrontados - as crianças, os velhos e os desprotegidos - sejam guiados por entes celestiais benéficos e que rapidamente atinjam a condição de Buda.

domingo, 20 de outubro de 2013

Nas asas das horas

Camille Pissarro
As asas das horas passam ligeiras
Como andorinhas riscando o ar…
Ruídos de penas de aves viageiras
Que as minhas penas vêm aumentar.

Porque no voo do tempo a vida
Passa com as horas, de braços dados.
Quanta poesia mal compreendida!
Quantos amores mal compensados!

E as horas passam levando a vida
Como andorinhas nos céus nublados.

E os rios passam levando a vida…
Tudo que corre, tudo que voa,
O vento… as águas… E, na corrida,
Quanto castelo no ar se esboroa,
Quanta esperança desiludida!

E pelos ares, angustiado
Coro de vozes longe ressoa:
“Tempo maldito! Tempo apressado!
Ventos bravios! Águas correntes!
Não corram tanto! Vão devagar!…”

E as andorinhas indiferentes
Passam ligeiras, riscando o ar…
Olegário Mariano (1889-1958)

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Dia de São Lucas

Guercino - São Lucas
Hoje é Dia de São Lucas. Evangelista cristão de formação grega nascido em Antióquia (atual Síria) é, segundo, a tradição, o autor do Evangelho de São Lucas e dos Atos dos Apóstolos - o terceiro e quinto livros do Novo Testamento. É o santo padroeiro dos pintores, médicos e curandeiros.
Chamado por Paulo de “O Médico Amado” (Colossenses 4:14), pode ter sido um dos cristãos do primeiro século que conviveu pessoalmente com os doze apóstolos.
Seus textos são os de maior expressão literária do Novo Testamento. Por seu estilo literário, acredita-se que pertencia a uma família culta e abastada e, de acordo com a tradição, exercia a profissão de médico e tinha talento para a pintura.
Converteu-se ao cristianismo e tornou-se discípulo e amigo de Paulo de Tarso, porém segundo seu próprio relato, não chegou a conhecer pessoalmente Jesus Cristo, pois ainda era muito criança quando o Messias foi crucificado.
Acompanhou Paulo em duas viagens missionárias. Também esteve presente na prisão de Paulo em Cesaréia e o acompanhou até Roma. Com a execução do apóstolo e seu mestre (67), deixou Roma e, de acordo com a tradição cristã, enquanto escrevia seu Evangelho, teria pregado em Acaia, na Beócia e também na Bitínia, onde teria morrido (70).
O exame do vocabulário de seu Evangelho levou a crítica moderna a confirmar a antiga tradição de que era um médico e excelente escritor, preocupado em manter-se fiel aos fatos históricos e, politicamente, com as injustiças sociais.
Taylor Caldwell, uma escritora inglesa, escreveu um livro chamado "Médico de Homens e de Almas". Para escrever este livro a autora pesquisou durante 46 anos e virou best seller. Eu li este livro e amei.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Maria Conceição Arruda Toledo (1920-2013)

Maria Conceição de Arruda Toledo: Natural de Jaguariúna SP, nasceu em 08 de outubro de 1920. Cidadã Campineira em 1970. Jornalista e Escritora. Pertence à Academia Campinense de Letras, Centro de Poesia e Arte, Casa do Poeta, Instituto Histórico e Geográfico e Clube dos 21 Irmãos Amigos, todos de Campinas.
Faleceu no dia 13 de outubro de 2013 em Campinas. Teve vida participativa, laboriosa e foi muito querida por todos que a conheceram!
Foto de Maria Conceição Arruda Toledo
Cansei
Cansei de fingir uma força que não tenho.
cansei de segurar as lágrimas de dor.
cansei de prender os soluços na garganta.
cansei de passar aos outros aquilo que já fui:
a guerreira contumaz e persistente
que luta, que enfrenta as situações
que se antepõem a seus objetivos.
não sou mais a corajosa e intrépida
lutadora do passado. sinto-me frágil,
incapaz de fazer frente às tragédias
que a vida me vem reservando. cansei.
quero chorar todas as lágrimas
que venho ultimamente reprimindo. cansei.
vou soluçar sem constrangimento
na garganta, para aliviar
o peso que trago escondido
no mais íntimo da alma. cansei. cansei.
o coração que bate no meu peito,
apertado de saudade do meu filho
que se foi para sempre, sentirá aliviado.
às favas a guerreira, a falsa fortaleza
que julgam existir em mim e que já não é.

Maria Conceição Arruda Toledo (1920-2013)

sábado, 12 de outubro de 2013

Mulheres na Filosofia

Mulheres na Filosofia
A história da filosofia demonstra a presença de várias mulheres filósofas. Seus trabalhos não foram reconhecidos e difundidos por questões culturais, mas a filosofia desde as suas origens pertenceu ao gênero humano independente do sexo.
Vamos destacar algumas:
Safo de Lesbos (630-612 a.C.)
Amanda Brewster Sewell - Safo
Poeta grega nascida em Lesbos, ilha do mar Egeu entre 630 a.C. e 612 a.C.. Dizia-se que era pequena e escura. É provável que, segundo afirmam várias crônicas, tenha sido banida com outros aristocratas e vivido algum tempo na Sicília, mas a maior parte de sua vida, passou em Mitilene, Lesbos, onde morreu.
Líder de uma das sociedades informais que reunia senhoras que se entretinham sobretudo com a composição e a declamação de poemas, atraiu grande número de admiradores, e foi considerada a mais hábil em criar uma relação íntima e pessoal com o leitor.
Escrevia em linguagem simples, de forma concisa e direta, sobre assuntos pessoais: os amores, ciúmes e rivalidades que surgiam entre as mulheres com quem se reunia, e as relações com seu irmão Charaxus.
Reflexiva, discorria com tranquilidade sobre os próprios êxtases e sofrimentos, sem que isso reduzisse o impacto emocional dos poemas. Não se sabe como seus poemas circularam entre seus contemporâneos e nos três ou quatro séculos que se seguiram. No século III a. C. os eruditos alexandrinos reuniram sua obra em dez livros, mas essa edição não sobreviveu ao início da Idade Média. De sua obra conservam-se apenas fragmentos e um único poema completo, recolhidos em obras de outros autores e em papiros egípcios.
Safo sofreu um golpe amoroso com a perda de Átis e inspirou a ela um de seus mais belos poemas de amor. Aqui, duas estrofes:
Safo - Pintura do séc. V a.C.
“- Mas, ah, que triste a nossa sina!
Eu vou contra a vontade, juro, Safo”.-
“Seja feliz", eu disse.

E lembre-se de quanto a quero.
Ou já esqueceu?
Pois vou lembrar-lhe
Os nossos momentos de amor”.

Aspásia de Mileto (470-410 a. C.)
Hector Leroux - Péricles e Aspásia admirando
a gigantesca estátua de Atena no estúdio de Fidias.
Foi uma cortesã e sofista grega, amante de Péricles, com quem teve um filho. Pelas leis atenienses, Péricles não podia casar novamente após a separação de sua primeira esposa, com quem conviveu por dez anos.
Aspasia inaugurou uma escola para jovens mulheres de boas famílias e que teria sido responsável pela invenção do método socrático. Ao lado de Diotima de Mantinea, Aspasia é referida por Sócrates como uma das mais importantes personalidades a orientá-lo em seu desenvolvimento intelectual e filosófico, sobretudo na arte da retórica.
Muito influente no círculo filosófico e político de Atenas, promovia reuniões literárias em sua casa e participava do debate político da época.
Os relatos de sua habilidade como argumentadora e educadora, bem como sua influência política sobre Péricles encontram-se na obra de Platão.
Pela crença de que teve grande influência sobre o marido, foi acusada de ter sido responsável pela Revolta de Samos (440 a. C.) contra Atenas e pela Guerra do Peloponeso (431-404 a. C.).

Hipátia de Alexandria (355-415)
Charles William Mitchell - Hipátia
Hipácia nasceu na cidade de Alexandria, então o caldeirão cultural da região que hoje corresponde ao Egito, em 355 d.C. Ela era filha de Theon, famoso filósofo, astrônomo e mestre de matemática no Museu desta cidade; graças a sua influência ela se destacaria no cenário intelectual posterior.
Adepta da corrente neoplatônica, Hipátia cresceu em um contexto repleto de vida cultural e filosófica; ela mantinha estreitos vínculos com a figura paterna, fonte de seu saber e de sua incessante procura de soluções para os eventos ignorados. A filósofa, mulher guerreira, pioneira na arte de desbravar os árduos caminhos da Matemática, cultivava não somente um cérebro privilegiado, mas também o corpo saudável. Visava, assim, implantar em sua própria existência esta antiga aspiração helênica.
Hipátia se tornou a maior pesquisadora da Alexandria nos campos da matemática e da filosofia, legando ao futuro grandes descobertas nestas disciplinas, bem como na física e na astronomia. Ela se devotou igualmente à prática da poética e ao exercício das artes, sobressaindo-se na Retórica.
Esta mente brilhante cursou a Academia de Alexandria e, com o tempo e o domínio das mais distintas áreas, transcendeu as próprias conquistas paternas, mas deve muito ao pai, que sempre a estimulou a vencer qualquer obstáculo que tentasse impedir seu acesso ao saber, mesmo que se tratasse de qualquer princípio de fé ou de credo.
Ao completar 30 anos, Hipátia já atingira o posto de diretora desta escola. Ao longo deste tempo ela criou várias obras e se popularizou por resolver intrincadas questões da matemática.
Neste quesito a pesquisadora sempre atendia cientistas perdidos na resolução de seus problemas, e poucas vezes os deixava sem respostas. Esta busca se transformou em ideia fixa para Hipátia, que nunca contraiu matrimônio, pois já se considerava unida à procura da verdade.
Infelizmente essa trajetória brilhante teve um desfecho sinistro, que parece ter se configurado a partir de 412, com a ascensão do patriarca Cirilo ao poder. Ele era um cristão fanático, árduo defensor da Igreja e acirrado adversário dos que ele considerava serem hereges.
Como resultado desse fanatismo, Hipátia foi violentamente atingida por um grupo de desvairados cristãos repletos de ódio. Eles a levaram para o interior de uma Igreja e lá extraíram sua pele com conchas, cortaram-na em pedaços e os queimaram, em 415 d.C. Vítima de uma vingança ou de um surto de intolerância, Hipátia seria imortalizada pela posteridade na obra de Rafael de Sanzio.

“Há cerca de 2000 anos, emergiu uma civilização científica esplêndida na nossa história, e sua base era em Alexandria. Apesar das grandes chances de florescer, ela decaiu. Sua última cientista foi uma mulher, considerada pagã. Seu nome era Hipátia. Com uma sociedade conservadora a respeito do trabalho da mulher e do seu papel, com o aumento progressivo do poder da Igreja, formadora de opiniões e conservadora quanto às ciências, e devido a Alexandria estar sob o domínio romano, após o assassinato de Hipátia, em 415, essa biblioteca foi destruída. Milhares dos preciosos documentos dessa biblioteca foram em grande parte queimados e perdidos para sempre, e com ela todo o progresso científico e filosófico da época.”
Carl Sagan escreveu em seu livro Cosmos.

O filme Ágora conta a história dela Hipátia.


Mulheres na Filosofia

Mulheres na Filosofia
Idade Media (Séc. V - XIV)
Parte 2
Hildegard von Bingen (1098-1179)
Hildegard von Bingen- O homem-microcosmo
Num mundo medieval dominado pela insegurança, pelo clero e por senhores feudais, Von Bingen não se deixou dominar. Foi a primeira feminista da história. Com muita habilidade e trabalho, construiu e administrou dois conventos, escreveu livros de teologia, medicina e ciências naturais, compôs música sacra. Sua maior batalha, no entanto, foi não se deixar calar.
Hildegard provinha de família nobre do sul da Alemanha. Já aos três anos de idade, a futura abadessa demonstrava habilidades visionárias. Mas foi somente aos 15 anos, como interna do convento junto ao mosteiro beneditino de Disibodenberg, que percebeu quão especial era a habilidade que possuía.
Como era de costume entre as famílias nobres medievais, meninas e meninos saíam de casa, já na idade de sete anos, para a formação como cavaleiros e freiras. Além disso, muitas famílias preferiam ver suas filhas num convento do que nas mãos de um bruto senhor feudal.
Além da leitura dos escritos sagrados, a curiosa Hildegard pôde, no convento beneditino, aprender a ler e a escrever rudimentos de latim. Ela não teve, no entanto, um aprendizado sistemático dos cânones do conhecimento medieval baseados nas sete artes liberais, divididas em trívio (gramática, retórica e dialética) e quadrívio (aritmética, geometria, música e astronomia). Isto era reservado aos membros masculinos da ordem.
Hildegard demonstrou grande talento como administradora. Conseguiu o apoio do papa e do arcebispo de Mainz na briga com os monges de Disibodenberg pelas terras, até então administradas pelos monges beneditinos, dadas pelas famílias das freiras que a acompanharam para o novo convento.
No convento, a abadessa afrouxa as regras beneditinas. A música é muito importante para Hildegard. Para receberem o sacramento da comunhão, suas freiras, com anel no dedo e vestidas de branco e de flores, entoam canções que ela mesmo compunha. A ideia do casamento substitui a da morte na relação com Cristo, o que explica as procissões de freiras que antes pareciam fúnebres. Para Hildegard, a Igreja é uma mulher ao lado do Senhor.
Os trabalhos no hospital e na horta do convento levam a duas outras importantes obras da abadessa, o livro de ciências naturais e o livro de medicina natural. A obra de Hildegard sobre plantas medicinais escrita em 1158 é, até hoje, referência da medicina natural. Assim como São Bernardo de Clairvaux, Hildegard não acredita encontrar Deus na razão.
Ela aprendeu a olhar os lírios dos campos e a ver neles a presença divina que também levaria a cura de doenças. Para ela, o homem saudável estava em sintonia com Deus. Hildegard aliou a antiga medicina dos gregos, propagada por Galeno, à fé cristã. Para ela, micro e macrocosmo interagem lado a lado em sua percepção do homem e de Deus. Para honrar a Deus, o homem teria que interagir com seu meio-ambiente.
O século 12 trouxe muitas mudanças para a Idade Média, que se distanciava da ideia de um Deus absoluto. Hildegard foi aristotélica avant la lettre. Somente no século seguinte, São Tomás de Aquino, o mais sábio dos santos, resgataria teologicamente o aristotelismo na doutrina cristã.
Por volta de 1150, Hildegard mudou o seu convento de Disibodenberg para Bingen, 30 km. a norte, nas margens do Reno. Mais tarde, fundou outro convento em Eibingen, na outra margem do rio.
Escreveu música e textos em honra da Virgem Maria em canto chão (gregoriano) e antífonas. Dessa época, é “Peça sobre as Virtudes”.
Escreveu ainda dois livros de visões “Livro dos merecimentos da Vida” e “Livro das Obras Divinas”.
Se o interesse pelos seus livros é hoje puramente histórico, já a sua música é objeto de enorme divulgação nos últimos decênios, com inúmeros discos gravados.
Em 2009 sua vida virou filme. O nome do filme é Vision – From the Life of Hildegard von Bingen, dirigido por Margarethe von Trotta.
Ela previu a própria morte para o dia 17 de setembro de 1179. E assim o foi. Hildegard von Bingen nunca foi canonizada pela Igreja Católica. Sua sagacidade também lhe gerou muitos inimigos. Talvez por isto seu processo de canonização foi arquivado já no século 13.
Por outro lado, como poderia ser canonizada uma mulher que ousou penetrar um terreno destinado aos homens? Como pode ser santificado alguém que sempre esteve tão próximo à terra?
Para Hildegard, Deus existia para aqueles que achavam que ele existia. Na mesma lógica, Von Bingen é santa para aqueles que acham que ela o é. O boom da medicina natural prova que, até hoje, ressoam suas ideias, pois as doenças da sociedade industrial não podem ser curadas com os remédios que ela mesmo produz.

Catalina de Siena (1347-1380)
Giovanni di Paolo - Santa Catarina trocando seu coração com Cristo
Foi uma leiga da Ordem Terceira de São Domingos, venerada como Santa Catarina na Igreja Católica.
Catarina de Siena, jovem mulher analfabeta que se tornou confidente, e até conselheira, dos papas. Sua fervorosa fé impressionava mais do que seu nível de instrução. Ditou uma obra monumental que lhe valeu ser proclamada Doutora da Igreja por Paulo VI em 1970.
Existia em Siena uma terceira ordem dominicana, um tipo de fraternidade laica de damas pias que portavam um manto negro sobre suas vestes brancas. Catarina solicita admissão, que lhe é negada. Consideram-na muito jovem e sobretudo muito exaltada. Em 1363, após muitas peripécias, é enfim recebida e veste o hábito. Vive reclusa num pobre quarto de família, que só deixa para assistir aos ofícios da igreja de São Domingos.
Eis que tem uma nova crise de êxtase. Enquanto o Carnaval corria pelas ruas de Siena, recebe em seu quarto uma suntuosa visão. Cristo cercado por Maria e um cortejo nupcial de santos e de músicas a toma por esposa e lhe passa um anel ao dedo. Pouco tempo depois, uma outra aparição lhe pede para assumir uma existência de caridade e apostolado.
Rapidamente, Catarina junta um pessoal, sua "Bela Brigada", que passa a ser conhecida pela piedade e devoção de seus membros. Ela mesma não teme sequer as pestes que assolam a região. Passa a dar conselhos espirituais e sua reputação alcança a ‘entourage’ do papa e do próprio papa Gregório XI. Os próprios dominicanos ficam intrigados com seu modo de vida e pela veneração que suscita. Convocam-na a um capítulo reunido em Florença, ouvem-na e decidem dar-lhe um orientador espiritual, Raimundo de Cápua que a acompanharia até o fim da vida.
Gregório XI desejava restabelecer em Roma a sede pontifical a fim de reforçar a unidade da Igreja. Esta intenção encontra oposição dos príncipes italianos que não manifestaram descontentamento quando autoridades espirituais, sempre prontas a intervir nos negócios temporais, estavam distantes. Para Catarina, porém, dois grandes projetos a animavam : a Cruzada para reconquistar Jerusalém e a reforma da Igreja com o retorno do papa a Roma.
Encontro com Gregório XI
Em maio de 1376, parte com sua brigada para Avignon. Deseja convencer o papa a voltar à Cidade Eterna, negociando a adesão dos florentinos a essa iniciativa. Gregório XI a recebe talvez por simples curiosidade, alertado sobre seus dons de vidência. Em 13 de setembro de 1376, Gregório XI deixa Avignon e empreende por terra e mar uma viagem à embocadura do rio Tibre. Em 17 de janeiro de 1377, o povo romano, encabeçado por Catarina, acolhe seu bispo triunfalmente.
A alegria teria curta duração. A reinstalação romana logo abre uma das mais graves crises de sua longa história : o Grande Cisma do Ocidente. Com a morte do francês Gregório XI, o povo de Roma exige a eleição de um papa italiano. É escolhido o papa Urbano VI em 7 de abril de 1378. Ao cabo de algumas semanas, os cardeais franceses declaram nula a eleição de Urbano. Com apoio do rei da França, Charles V, escolhem como substituto um cardeal francês que adota o nome de Clemente VII e se reinstala em Avignon. O cisma iria durar 40 anos.
Catarina dedica todas as suas forças para tentar convencer os soberanos europeus da legitimidade de Urbano VI. Instalada em Roma, entre o outono de 1377 e o começo de outono de 1378, dita a sua obra-prima, o Diálogo ou Livro da Doutrina Divina onde reuniu suas intuições místicas e sua experiência espiritual.
Ela falece em 28 de abril de 1380, no domingo anterior à Ascensão. Tivera tempo ainda de se comunicar com Raimundo de Cápua, confiando-lhe o cuidado de conservar o essencial de sua mensagem espiritual, o que abriu o caminho para a canonização de Santa Catarina de Siena pelo papa Pio II em 1461. Declarada padroeira da Itália por Pio XII em 1939, e da Europa por João Paulo II em 1999, ela é igualmente a padroeira de todos os ofícios da comunicação em razão de sua obra epistolar a serviço do papado.

Mulheres na Filosofia

Mulheres na Filosofia
Idade Moderna (Séc. XV - XVIII)
Parte 3
Teresa de Ávila (1515-1582) .
Freira carmelita e mística espanhola
Provavelmente o retrato mais fiel de Santa Teresa.
Trata-se de uma cópia de uma pintura original dela
feita em 1576, quando tinha 61 anos.
Santa Teresa de Ávila é sem dúvida, uma das mulheres mais admiradas da história da Igreja. Mesmo ateus e livres-pensadores a admiram. Esta freira mística escreveu um livro: "Celebração da Disciplina" que até hoje é muito discutido e apreciado.
Richard Foste, um guru da Contemplação nos diz: “Podemos descer da mente para o coração, mais que facilmente, através da imaginação... Não devemos desprezar a rota mais simples e humilde para chegar à presença de Deus... O próprio Jesus ensinou desta maneira, fazendo constante apelo à imaginação, e muitos dos mestres devocionais nos encorajam a fazê-lo”.
Santa Teresa de Ávila diz: “Quando eu não conseguia fazer reflexão com o meu entendimento, criava um retrato de Cristo dentro de mim”.
A oração prescrita por Teresa de Ávila às Quatro Mansões do Castelo Interior, é tida como um misterioso dom universal que Deus oferece a qualquer pessoa que deseje recebê-lo. A descrição de Teresa da fonte que fica cheia da nascente direta, Deus, está bem próxima das expectações dos Amigos para as orações, tanto públicas como particulares, nas quais eles se “sentam em pura quietude e silêncio de toda a carne e esperam pela luz”.
A compreensão do silêncio como uma arena ativa de condução e comunicação está muito próxima da compreensão monástica do silêncio. Basil Pennington fala do silêncio como “suficiente”. “No final, o monge aprende que Deus fala através do silêncio e pode ser ouvido em silêncio.”

A Doutora Devocional Teresa de Ávila
A Enciclopédia Americana nos informa que: Em 1560, com aprovação das autoridades eclesiásticas romanas, Teresa fundou o primeiro dos seus mosteiros, sobre a mais antiga e rigorosa regra carmelita. Foi durante esse mesmo tempo que em obediência ao seu confessor, ela escreveu ‘VIDA’, uma narrativa de suas experiências espirituais... Com aprovação de Roma [Teresa] estabeleceu vários outros mosteiros carmelitas...
Durante esse período (1563-1568), Teresa escreveu também para as freiras dos seus mosteiros "O Caminho da Perfeição" uma instrução sobre os métodos de oração e os significados do alcance da virtude. Em 1567, através de amizade com S. João da Cruz, ela começou a incentivar o estabelecimento dos mosteiros carmelitas reformados para homens.
Teresa de Ávila. Parece que ela foi atormentada pela moléstia na maior parte de sua vida. Em 1538, Teresa ficou muito doente “do que poderia ser malária” e em razão de alguns medicamentos experimentados, ela entrou “num estado de quase coma”, por três dias, e ficou sem andar por três anos.
Durante a sua moléstia e convalescença, ela fazia orações mentais diárias, as quais, por sua vez, conduziram-na a experiências com a oração mística.
Para Frei Betto, S. Teresa foi uma “feminista avant-la-lettre” que abriu espaço para mulheres numa igreja até então medieval e machista. Por pouco não foi condenada pela Inquisição, enquanto outras visionárias menos sortudas como Madalena da Cruz foram.
Frei Betto, enfim, parece subordinar a sabedoria de S. Teresa a lutas históricas (pelo feminismo, pelo “antropocentrismo”, contra uma igreja hierárquica e uma teologia abstrata) que ela supostamente ilustra. Depois dela, Deus deixaria de ser “um conceito” e viraria “uma experiência”.
Nada te perturbe, Nada te espante,
Tudo passa, Deus não muda,
A paciência tudo alcança;
Quem a Deus tem, Nada lhe falta:
Só Deus basta.
Eleva o pensamento, Ao céu sobe,
Por nada te angusties, Nada te perturbe.
A Jesus Cristo segue, Com grande entrega,
E, venha o que vier, Nada te espante.
Vês a glória do mundo? É glória vã;
Nada tem de estável, Tudo passa.
Deseje às coisas celestes, Que sempre duram;
Fiel e rico em promessas, Deus não muda.
Ama-o como merece, Bondade Imensa;
Confiança e fé viva, Mantenha a alma,
Que quem crê espera, Tudo alcança.
A maldade, a injustiça,
O abandono, não ameaçará,
Quem a Deus tem,
Mesmo que passe por momentos difíceis;
Sendo Deus o seu tesouro, Nada lhe falta.
Ainda que tudo perca, Só Deus basta.

Santa Teresa de Ávila

Mulheres na Filosofia

Mulheres na Filosofia
Idade Contemporânea (Séc. IX - XX)
Parte 4
Hannah Arendt (1906-1975).
Foto Hannah Arendt
Nasceu na Alemanha. Conhecida como a pensadora da liberdade, Hannah Arendt viveu as grandes transformações do poder político do século 20. Estudou a formação dos regimes autoritários (totalitários) instalados nesse período - o nazismo e o comunismo - e defendeu os direitos individuais e a família, contra as "sociedades de massas" e os crimes contra a pessoa.
Sua obra é fundamental para entender e refletir sobre os tempos atuais, dilacerados por guerras localizadas e nacionalismos. Para ela, compreender significava enfrentar sem preconceitos a realidade, e resistir a ela, sem procurar explicações em antecedentes históricos.
Embora fosse de família hebraica, não teve a educação religiosa tradicional judia e sempre professou sua fé em Deus de forma livre e não-convencional. É importante saber desse aspecto porque Hannah dedicou toda sua vida a compreender o destino do povo judeu perseguido por Hitler.
Foi aluna do filósofo Heidegger - com quem teve um relacionamento amoroso - na universidade alemã de Marburgo, e formou-se em filosofia em Heidelberg.
Em 1929, quando o mundo mergulhava na recessão causada pela quebra da Bolsa de Nova York, Arendt ganhou uma bolsa de estudos e mudou-se para Berlim. Quando o nacional-socialismo de Hitler subiu ao poder, em 1933, ela saiu da Alemanha e foi para Paris, a capital francesa, onde entrou em contato com intelectuais como o escritor Walter Benjamin.
Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o governo francês de Vichy colaborou com os invasores alemães e, por ser judia, Hannah foi enviada a um campo de concentração, em Gurs, como "estrangeira suspeita". Porém, conseguiu escapar e aportou em Nova York, em maio de 1941.
Exilada, ficou sem direitos políticos até 1951, quando conseguiu a cidadania norte-americana. Então começou realmente sua carreira acadêmica, que duraria até sua morte. Combateu com toda a alma os regimes totalitários e condenou-os em seus livros "Eichmann em Jerusalém" e "As origens do totalitarismo".
Arendt, a teórica do inconformismo, também defendeu os direitos dos trabalhadores, a desobediência civil e atuou contra a Guerra do Vietnã (1961-1975).

Simone de Beauvoir (1908-1986).
Foto Simone de Beauvoir
Escritora e ensaísta francesa. Teve relacionamento amoroso duradouro com o filósofo Jean-Paul Sartre. Sua obra mais conhecida é o livro “O Segundo Sexo”. É considerada uma das maiores representantes do pensamento existencialista francês.
Simone de Beauvoir nasceu em Paris. Era filha de um advogado. Teve educação católica e já tinha planos na adolescência de ser uma escritora. Quando jovem, fez exames para o bacharelado em matemática e filosofia. Estudou letras e filosofia na Universidade de Sorbonne, onde conheceu intelectuais proeminentes como Merleau-Ponty.
Simone de Beauvoir foi uma das escritoras mais influentes do ocidente. Suas ideias tratavam de questões ligadas à independência feminina e o papel da mulher na sociedade. Sua obra refletia também a luta feminina e as mudanças de papéis estabelecidos, assim como a participação nos movimentos sociais. O livro que melhor condensa suas experiências é “O Segundo Sexo”.
No romance “Os Madarins” (1945), Beauvoir escreveu indiretamente a biografia de sua vida com o filósofo Sartre, que o conheceu em Sorbonne em 1929, e viveu com a escritora um relacionamento aberto durante boa parte da vida. Outros livros, “Memórias de uma Moça Bem Comportada” (1958) e “A Força da Idade” (1960) são prolongamentos naturais de sua vida com o filósofo-escritor em situações diversas.
Outras obras importantes de Beauvoir: “Todos os Homens São Mortais” (1946) “A Força das Coisas”, (1964) e “A Velhice" (1970), só para citar alguns.
Simone de Beauvoir morreu de pneumonia aos 78 anos, em Paris.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

HISTÓRIA ROMANA

Curius Dentatus
Govert Teunisz Flinck - Curius Dentatus Preferindo Nabos a Ouro.
Curius Dentatus (270 a.C.), tinha esse cognome por ter nascido com dentes. Foi um romano célebre pelo seu talento militar e, mais ainda, por ser frugal e incorruptível.
Foi três vezes cônsul e ficou célebre por ter terminado com a guerra dos Samnitas. Estes, vencidos, foram lhe oferecer o suborno de peças valiosas de ouro afim de obter condições menos duras.
Encontraram Dentatus assando nabos numa lareira. Recusando a oferta, disse-lhes que preferia se alimentar frugalmente com nabos do que aceitar tais presentes, sendo muito mais honroso conquistar aqueles que possuíam ouro do que possuí-lo ele mesmo.
Embora a autenticidade dessa história seja contestada, ela serviu de inspiração para muitos pintores, entre eles Jacopo Amigoni e Govert Flinck.
Jacopo Amigoni - Curius Dentatus prefere nabos aos presentes dos Samnitas
Fontes:- Lello Universal -
Dicionário Enciclopédico Luso-Basileiro, Porto-Portugal e Internet

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Escola de Atenas

Raphael de Sânzio - Escola de Atenas
Os nomes entre parênteses são de personalidades contemporâneas de quem
supostamente Raphael pensou ser fisicamente semelhantes.

1: Zenão de Cítio ou Zenão de Eléia
2: Epicuro
3: Frederico II, duque de Mântua e Montferrat
4: Anicius Manlius Severinus Boethius ou Anaximandro ou Empédocles
5: Averroes
6: Pitágoras
7: Alcibíades ou Alexandre, o Grande
8: Antístenes ou Xenofonte
9: Hipátia de Alexandria (Francesco Maria della Rovere or Raphael's mistress Margherita.)
10: Ésquines ou Xenofonte
11: Parménides
12: Sócrates
13: Heráclito (Miguelângelo).
14: Platão segurando o Timeu (Leonardo da Vinci).
15: Aristóteles segurando Ética a Nicômaco
16: Diógenes de Sínope
17: Plotino
18: Euclides ou Arquimedes acompanhado de estudantes (Bramante)
19: Estrabão ou Zoroastro (Baldassare Castiglione ou Pietro Bembo).
20: Ptolomeu R: Apeles (Rafael).
21: Protogenes (II Sodoma ou Pietro Perugino).

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Rasputin - As Origens de um Devasso

Clive Uptton - Grigori Rasputin
Pouco se sabe sobre a vida de Grigori Rasputin antes de ele começar a fazer parte da corte russa. Estima- se que ele nasceu em 22 de janeiro de 1869, na aldeia de Pokroskoye, em Tolbolks, na Sibéria. O monge era filho de um camponês siberiano, e já em sua terra natal ganhou a alcunha de Rasputin, que em russo significa "devasso". O envolvimento com bebidas, mulheres e brigas ajudou a compor o personagem de curandeiro doido. Além disso, pouco mais se sabe sobre sua vida pregressa, embora corram boatos a respeito de uma viagem ao Oriente Médio, um casamento, e algumas peregrinações. Dizem que ele tinha comportamento rude e era semi-analfabeto.
Ao contrário da sobriedade e discrição da Igreja Ortodoxa Russa, Rasputin era adepto da seita dos "flagelantes". Acreditava que o caminho da redenção espiritual passava pela entrega ao pecado e o arrependimento era o caminho para a iluminação.
A maioria dos pesquisadores costuma concordar que Rasputin participou de uma seita chamada Khlysty, que significa "flagelantes". Esse grupo doutrinário foi banido pela Igreja Ortodoxa por pregar que todos os desejos dos homens deveriam ser satisfeitos, e expressava seu fervor religioso por meio da realização de orgias noturnas. Essa era a filosofia de Rasputin: o caminho para a redenção passava pela entrega ao pecado, que era seguida do arrependimento. Foi durante o período em que passou entre os seguidores da seita que ele teria desenvolvido seu dom para magnetizar e impressionar as pessoas.
Além da vida religiosa, dizem que Rasputin casou com uma mulher, com quem teve quatro filhos. Um dos meninos morreu quando ainda era criança. O outro sofria de retardo mental e ficou com a mãe na aldeia siberiana. As duas filhas foram para São Petersburgo com o pai, e lá foram educadas e viveram com Rasputin até ele morrer, embora não se exista nenhum registro do destino delas após a morte do monge.
Rasputin teria visto o "caminho da iluminação" depois de passar alguns meses em um mosteiro siberiano, onde se tornou um starets, termo russo que se refere a líderes espirituais. Ele costumava dizer: "se para a salvação do espírito é necessário o arrependimento, para o arrependimento acontecer é preciso o pecado. Então o espírito que quer ser salvo, deve começar a pecar o quanto antes".
Durante uma de suas peregrinações, Rasputin foi parar em São Petersburgo, capital da Rússia até 1918. Lá, o monge começou a curar as pessoas por meio do mesmo método que depois usou com o filho do czar: se jogava no chão e começava a rezar. Dizem que todos os enfermos saiam das sessões curados. O curandeiro procurou o padre João de Kronstadt, o mais venerado da cidade. Diante do clérigo, Rasputin se apresentou como um pecador arrependido. Sua humildade e habilidade como pregador arrebatado impressionou Kronstadt, a ponto de ele e outros religiosos o considerarem apto a trabalhar junto aos camponeses analfabetos. Foi assim que Rasputin conquistou admiradores em São Petersburgo, e acabou sendo apresentado ao czar Nicolau II. Os tempos de andanças e fome acabaram para o curandeiro.
Sérgio Pereira Couto
Revista Leituras da História

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Educação para a vida deveria incluir aulas de solidão

Mary Jane Ansell
Quem nunca sentiu em plena luz do dia o mundo cinzento e circunspecto à sua volta, levante a mão. As palavras saindo da boca sem ordem e sem juízo. O discurso atrapalhado, estendendo os braços por detrás de sentenças inteiras sobrepostas umas sobre as demais.
Afinal, qual a diferença entre solidão e o se sentir solitário?
Solidão é algo imenso, calmo, às vezes até grandioso. Uma nobreza ímpar — tingida, com frequência, de um lilás bem clarinho. Uma cor que se mantém delicada e transparente mesmo em dias de vento forte. Em um de seus líricos desabafos, Machado de Assis sentenciou: “Desesperado, cuidei que o ar e a solidão me aplacassem o ânimo”.
Os dicionários comentam da qualidade feminina e substantiva da solidão. Entretanto, há controvérsias que se agitam nas definições. Alguns arriscam entendê-la como um “estado de quem está totalmente só; imerso em Isolamento moral e interiorização espiritual”. Outros atribuem modalidades ásperas, ariscas, queixumes de abandono a esta palavra, que se preenche inteira de suas singulares percepções.
Estados particulares de experimentar momentos quase orientais de aprofundamento e introspecção. Um mergulho calmo e visceral, recheado de possibilidades de se constatar como alguém único.
Faremos agora um passeio pelo cotidiano. Pela existência opaca de muitos de nós, enfiados frequentemente em relacionamentos sem eco e sem ruídos. “Eu quero, eu preciso daquele vestido!” a mulher se exaspera, ameaça iniciar um escândalo a varejo, dentro do quarto e sala sem varanda, e nem vaga de garagem. Um antigo ditado sentencia: “antes só do que mal acompanhado”. Mas quem aguenta a própria e mirrada companhia, confundida com uma legião de avatares dispersos nas comunidades de infinitas redes sociais?
Admita: você nunca se multiplicou em tantos personagens, nos dias atuais e nem se sentiu tão sozinho. São as frágeis promessas da vida virtual que o cercam, enroscadas em carências de todos os tamanhos e procedências.
Conferir um upgrade na potência de existir, afinal, faz bem à vaidade, e também, a um difuso sentimento de insegurança. Introduzir piercings e próteses debaixo da pele, adereços de contornos surreais, traduz-se em gesto solidário para combater a própria solidão.
Imiscuir-se no álcool e em outras deleitáveis drogas traz um conforto sem precedentes a tantas criaturas toscas que vagueiam pelas noites à espreita de minguados e provisórios contatos físicos. Porque convenhamos, agora você tira sarro é do seu smartphone, dos tablets e gadgets afins ávidos de sua plena atenção.
O casal almoçando aos sábados sempre no mesmo restaurante — há alguns anos ungido pelo sagrado exercício do matrimônio, mas sem emitir qualquer som, durante o pretenso momento de lazer, é digno de registro. As conversas, convém elucidar, foram esquecidas no sótão da casa onde moram, junto a utensílios em desuso.
Poucos são os que fruem de uma solidão próspera, rica de pormenores tão íntimos quanto os discretos recantos da alma. Solidão grávida de inventividade, carisma, originalidade e prazer, por que não?
A solidão fecunda, enraizada nos jardins das legítimas escolhas pessoais gera milagres, encantos, deliciosas singelezas. Talvez quase ninguém se dê conta disso, nesta “Era do Vazio”, título, aliás, de uma obra do pesquisador Gilles Lipovetsky, centrada no hipernarcisismo e individualismo contemporâneos.
Sentir-se solitário, entretanto, faz-se acompanhar de muletas de toda espécie. Drogas, sexo indistinto e em profusão, gula gigantesca, fala interminável, saídas compulsivas para programas em todos os lugares, apenas com o intuito de se livrar da própria tenebrosa e asfixiante companhia.
Os eremitas, anacoretas, monges silentes deslizando por mosteiros enormes soam incompreensíveis às regras de bem-viver coletivo, delineadas pelas instituições, família, escola, igreja, antes mesmo de nascermos.
A solidão para muitos significa exílio e prisão. Sem entender que estes raros e consentidos encontros devem ser brindados especialmente Com um champanhe dos deuses, sorvido prazerosamente em taças do mais puro cristal francês.

Fonte:
Revista Bula: ( Solidão )

terça-feira, 1 de outubro de 2013

A saga das mulheres brasileiras

Historiadora traz à tona a saga das mulheres brasileiras desde o Brasil Colônia até o século XXI, traçando uma análise daquelas que marcaram a história e a independência das atuais, em que muitas ainda estão submetidas ao mito da eterna beleza.
Mary Del Priore
Mary Del Priore, escritora e historiadora, entende bem de empoderamento feminino. Escreveu 37 livros, dos quais 25 fazem referência ao histórico da mulher, direta ou indiretamente. Em suas análises, considera que as mulheres do século XXI são feitas de rupturas e permanências. As rupturas empurram-nas para a frente e as ajudam a expandir todas as possibilidades, a se fortalecer e a conquistar. As permanências, por outro lado, apontam fragilidades: “São criadas em um mundo patriarcal e machista, não conseguem se enxergar fora do foco masculino de serem belas. Vivem pelo olhar do homem, do ‘outro’. As meninas crescem com o sonho cor-de-rosa da Barbie. Quando conseguem a independência, querem apenas encontrar um príncipe encantado. Têm filhos, mas se sentem culpadas por deixá-los em casa. São machistas, quando não estimulam os homens a lavarem louças e arrumarem os quartos. Em casa, querem sair para trabalhar, mas sem uma ideologia definida. “Se cheinhas, querem emagrecer, a vida é controlada pela balança. Se magras, desejam seios, nádegas e o que mais tiverem direito... em silicone”, diz.
Obra feminista
No mais recente livro, Histórias e Conversas de Mulher, da editora Planeta, publicado este ano, Mary trata de namoros com homens mais jovens, a paixão por usar botinhas de salto, do corpo trabalhado artificialmente para projetar seios e nádegas e ficar mais voluptuoso. “Foi preciso mais de 200 anos para que as mulheres conquistassem direitos que permitem a livre expressão e o exercício da cidadania, onde a futilidade não pode prevalecer: votar, usar anticoncepcionais, divorciar-se, ir à praia de biquíni, ocupar cargos de alto escalão em empresas multinacionais, é o que importa.”
Dentro do aspecto histórico em que a autora se distingue, o livro mais premiado foi Condessa de Barral, em que traça um perfil de uma personalidade pouco conhecida, mas nem por isso irrelevante: Luísa Margarida Portugal e Barros, aquela que manteve durante 30 anos um relacionamento lendário com o Imperador do Brasil, D. Pedro II. “Muito mais do que uma simples amante, esta filha de um senhor de engenhos apaixonado pelas letras foi uma das figuras femininas mais originais e interessantes de seu tempo.” Naquela época, a maioria das mulheres vivia como mera sombra dos homens. No entanto, segundo a escritora, o imperador se apaixonou por Barral não só pela sua personalidade. “Os dois se viam como almas gêmeas, porque encaravam o amor de outra forma, como uma amizade com finas sintonias emocionais e intelectuais. Isso não significa que os dois não tenham se entregado ao desejo, mas não era esse o cerne de sua ligação”, observa.
Em Castelo de Papel, há uma mescla de fábulas de princesa e o panorama político: um mundo em transição através do romance da princesa Isabel com o conde D’Eu, um casamento arranjado embora feliz dentro dos padrões. É revelada a participação de ambos no movimento abolicionista, a derrocada do Império, a intimidade do casal e as tensões com D. Pedro II. “Tudo como se o leitor estivesse dentro do palácio”, considera a historiadora.
O livro Histórias Íntimas retrata o sexo sob o aspecto pecaminoso. “As mulheres levantavam as saias e os homens abaixavam as calças e ceroulas. Tirar a roupa era proibido. No entanto, o proibido aguçava a vontade, e a Igreja, instituição que mais repreendia os afoitos, ironicamente acabou se tornando o templo da perdição”, comenta.
Em A Carne e o Sangue é descrito o famoso triângulo do imperador D. Pedro I, a imperatriz Leopoldina e Domitila, a marquesa de Santos. “O leitor confere detalhes íntimos dessas relações, numa leitura que envolve erotismo e ciúme, apelidos e intrigas, a linhagem e o prazer, que caminham lado a lado com a história do Brasil.”
Em Histórias do Cotidiano, um dos aspectos enfocados é a vida da mulher, em textos curtos e ágeis, que também abordam o cotidiano do tempo presente, conduzindo leitores e leitoras a um passeio instigante pelos assuntos relativos ao corpo, à família, ao convívio social e à condição de crianças, jovens e velhos em nossa sociedade. Em uma agradável viagem literária, a obra passa por temas diversos: de sutiãs a aviões, de maternidade à modernidade, de solidão a casamento, da sujeira nas ruas à sujeira na política, de férias no sítio à violência urbana, de herança do passado a novos desafios, em que demonstra a necessidade das mulheres irem para as ruas no exercício de suas cidadanias.
Já na obra Corpo a Corpo com a Mulher, a professora acompanha as transformações ocorridas no corpo das brasileiras ao longo da nossa história. Documentos do século XVI ao XVIII embasam esse resgate de personagens e situações anônimas, que revelam as marcas deixadas pela diferença de gênero, que ainda hoje fazem parte do imaginário brasileiro. “Um dos exemplos é o estereótipo da santa-mãezinha provedora, piedosa, dedicada e assexuada, arquétipo que ainda hoje permanece vivo.”
Para atingir as mais diferentes leitoras, História das Mulheres no Brasil levanta nossa história falando para adultos e jovens, especialistas e curiosos, estudantes e professores. “Procuro arrastá-los numa viagem em que viveram e morreram as mulheres, o mundo que as cercava, do Brasil colonial aos nossos dias.” Não é apenas a história delas, mas também da família, da criança, do trabalho, da mídia, da literatura e das suas imagens frente à sociedade.