quinta-feira, 30 de maio de 2013

"A forca, a guilhotina e a cadeira elétrica"

“O que enobreceu a “guilhotina” diante do “garrote vil” – e da forca – não foram as cabeças nobres degoladas em seu surgimento, para as quais monsieur Guillotin expressamente a dedicou, mas muito mais o propósito manifesto de aniquilar a vida sem descartar a efusão de sangue: o significado vitimário do sacrifício. A invenção moderna da “cadeira elétrica”, usada na América do Norte, se tornou, porém, em comparação com seus antepassados homicidas nobres e plebeus, mais racional e científico; embora não nos pareça, talvez, muito filosófico. Diz-me como matas, e te direi o modo de vida que preferes. O aparelho que executa mortalmente uma razão de Estado simboliza cruelmente o modo de vida social que a lei desse Estado prefere e protege tão racionalmente. A Igreja condenava à morte nas chamas.
A forca, a guilhotina e a cadeira elétrica, ou a câmara de gás, com estilos muito distintos, coincidem em um mesmo jogo. Têm uma expressão correspondente de espanto, um mesmo gesto atroz de seriedade racionalista e uma idêntica careta patibular. Traçam um sinal sarcástico de interrogação semelhante à história social de um mundo que o homem chama de civilização e de progresso; seu objetivo é sublinhar e marcar sua autenticidade fratricida, legalizando-a pela mão irresponsável do carrasco”.
José Bergamín

segunda-feira, 27 de maio de 2013

domingo, 26 de maio de 2013

Canto de Xambioá

Foto da época da Guerrilha
Xambioá
Mata virgem e escura, foi lá
Que no meio da mata
Um amigo de infância
Tentou começar

Ah foi por lá
Onde o povo sofreu pra contar
Como um jovem sozinho
Valia por trinta
Em qualquer lugar

Ei Araguaia
Rio manso pra se navegar
Quando o braço da gente
Abraça a nascente
O novo raiar

Eh Marabá,
Altamira, Estreito, olhe lá
Ainda brilha até hoje
A vida do povo
Que morreu por lá

Ei meu irmão
Você fez renascer o sertão
E o maior contingente
Não viu o tamanho do seu coração

Pedra não para o caminho
Fogo não queima o luar
Eu já não canto sozinho
Canto em Xambioá.

Abílio Pacheco

sexta-feira, 24 de maio de 2013

As Três Graças

As Três Graças são uma das mais famosas composições plásticas da Grécia antiga, a qual tem vindo a ser reproduzida e recriada por múltiplos artistas ao longo dos séculos, desde a antiguidade clássica até aos nossos dias, sobretudo durante o Império Romano, a época do Renascimento (séculos XV e XVI) e a do Neoclassicismo (séculos XVIII e XIX). Na arte contemporânea, voltamos a encontrar As Três Graças em diversas obras de vários artistas, por vezes num contexto iconoclasta e de subversão do conceito original.
Na mitologia grega, as Graças ou Cárites são as deusas do encantamento, da beleza. Ao que parece, seu culto se iniciou na Beócia, onde eram consideradas deusas da vegetação.
O nome de cada uma delas varia nas diferentes lendas. Na Ilíada de Homero aparece uma só Cárite, esposa do deus Hefesto. Apesar das variações regionais, o trio mais frequente é:
1. Aglaia - a claridade;
2. Tália - a que faz brotar flores;
3. Eufrosina - o sentido da alegria.
Embora pouco relevantes na mitologia greco-romana, a partir do Renascimento as Graças se tornaram símbolo da idílica harmonia do mundo clássico. Nas primeiras representações plásticas, elas apareciam vestidas. Mais tarde, contudo, foram representadas como jovens desnudas, de mãos dadas. Esse modelo, do qual se conserva um grupo escultórico da época helenística, foi o que se transferiu ao Renascimento e originou quadros célebres como A primavera, de Botticelli (1445-1510), e As três Graças, de Rubens (1577-1640).
Lucas Cranach - As três Graças
Yvonne Jeanette Karlsen - As três graças
Primavera - Boticelli
Peter Rubens – As três graças

terça-feira, 21 de maio de 2013

Ilíada em quadrinhos

Ilíada de Homero ganha versão em quadrinhos.
A professora da Faculdade Letras da UFMG Tereza Virgínia Ribeiro Barbosa lança o livro Ilíada de Homero: uma tradução em quadrinhos. O livro foi escrito a seis mãos com Andreza Caetano e Paulo Côrrea e tem ilustrações de Piero Bagnariol.
A tradução do clássico de Homero para os quadrinhos tem como objetivo demonstrar que as mensagens da obra continuam comunicando ao longo do tempo, renovando-se e se ajustando às novas realidades.
Outro objetivo é oferecer ao jovem leitor um instrumento para identificar e compreender figuras de linguagem, que não só configuram a base da Ilíada e de textos poéticos, mas também do discurso cotidiano.
A equipe se propôs a utilizar os quadrinhos como idioma gráfico que pudesse trazer à compreensão toda a riqueza literária do poema, sem abandonar traços importantes de Homero. O pesquisadores recorreram a um referencial iconográfico que vai dos vasos gregos ao uso da paleta de cores.

domingo, 19 de maio de 2013

Desastres silenciosos e inspiradores.

Frank Tschakert

O Sermão sobre a Queda de Roma
Autor: Jérôme Ferrari
Tradução: Samuel Titan Jr.
Editora: 34

As civilizações cumprem um ciclo semelhante à vida humana: nascem, conhecem o apogeu e definham até a morte. Tal máxima vale tanto para o Império Romano, que desabou no ano de 410, como para a União Soviética, cujo poderio se extinguiu simbolicamente com as primeiras marretadas que derrubaram o muro de Berlim, em 1989. "Sempre me interessei por esses desastres silenciosos, em que a corrosão só se torna evidente quando o edifício inteiro finalmente rui", comenta o escritor francês Jérôme Ferrari, um dos principais destaques estrangeiros da próxima Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, que ocorre entre 3 e 7 de julho, na cidade fluminense.
Aos 45 anos, Ferrari tornou-se uma celebridade das letras no ano passado, quando seu livro O Sermão Sobre a Queda de Roma ganhou o Goncourt, o mais prestigioso prêmio francês. A obra chega agora ao Brasil sob a chancela da Editora 34, que inicia, assim, em alto estilo, sua Coleção Fábula - o próximo volume será uma nova tradução de Cândido, de Voltaire. E, em julho, será a vez de Carmen, de Prosper Mérimée.
Não foi uma tarefa fácil - com uma linguagem torturada (como observou o jornal francês Figaro), Jérôme Ferrari oferece uma reflexão sobre o declínio do mundo ocidental a partir da história de dois amigos de infância, Matthieu e Libero, que resolvem abandonar os estudos de filosofia em Paris para se lançar em uma aventura aparentemente fadada ao fracasso: assumir o controle do único bar de uma vila na Córsega. Na verdade, as confusões etílicas da dupla compõem algumas das diversas histórias do romance, que vão de Paris a Argel, da Indochina francesa às antigas colônias na África.
Em outro ponto da narrativa, o leitor acompanha a tortura mental de um idoso, Marcel Antonetti, que, logo no início da trama, é descoberto mirando com tristeza uma velha fotografia de família, pobre relíquia de uma França devastada pela 1ª Guerra Mundial. Sua memória só reteve momentos tenebrosos, sucessão de fracassos pessoais e profissionais.
"Escrevendo numa linguagem muito pessoal e trabalhada, que alterna frases longas e falas brevíssimas, Ferrari compõe uma narrativa circular e vertiginosa. O ápice vem com o sermão final, momento de bela prosa oratória que põe o romance sob o signo da sentença agostiniana: o mundo é como o homem - nasce, cresce e morre."
A referência não é gratuita. Ferrari não esconde a grande influência do Sermão 81, de Santo Agostinho (354-430), especialmente por utilizar a queda de Roma como forma de expressar sua desilusão com o enfraquecimento do Cristianismo como religião unificadora. "Foi a leitura do trecho desse sermão que me inspirou", disse Ferrari ao Estado, por telefone, desde Abu Dabi, capital dos Emirados Árabes, onde leciona filosofia. "Ele dizia que não deveríamos ficar surpresos com o desaparecimento de Roma, pois o mundo é como o homem, que nasce, cresce e morre. Isso não só me motivou como se transformou na epígrafe do meu livro."
Ele conta que o projeto estava engavetado fazia anos, com o título provisório de Os Mundos. "O que pretendi em Sermão era oferecer um resposta inovadora para a pergunta: 'O que é o mundo?'", explica. "Busquei criar várias camadas enquanto pensava no filósofo alemão Leibniz para quem, em cada mundo, há um número infinito de elementos. Ou seja, tanto pode ser Roma e seu império decadente como o bar de uma aldeia erma, cenário do meu romance. Realmente levo a sério as palavras de Santo Agostinho, pois a trama se constrói a partir do nascimento de um mundo representado por diversos personagens, que atingem um apogeu até chegar sua derrocada. Acredito existir uma coerência mecânica, um ciclo de lógica, que regem o funcionamento do romance."
Apesar de a filosofia ser o seu ganha-pão, Ferrari não a utiliza como ferramenta ao escrever ficção. "Não sou um filósofo de fato por conta da incapacidade de criar conceitos - não bastam opiniões racionais. Assim, a literatura é minha melhor forma de expressão", confessa. "Parece-me que não podemos conceber um bom romance em que os personagens são apenas a máscara de um conceito ou uma crença ideológica, moral etc. Por conta disso, adoro romances metafísicos, eu me inspiro em escritores como Dostoievski e Styron, que mapeiam com sensibilidade a alma humana. O romance tem, na minha opinião, uma vantagem sobre a filosofia ao refletir melhor a complexidade da realidade, sem se preocupar com as exigências da lógica."
Bom conhecedor de literatura, Ferrari desconhece, porém, o trabalho de qualquer autor brasileiro. "Minha cultura latino-americana se resume aos de língua espanhola, como García Márquez, Borges e Cortázar. E é irônico que minha primeira visita ao continente seja justamente no Brasil - será minha chance de redenção."

Fonte:
Jornal Estadão: ( Desastres silenciosos e inspiradores)

sábado, 18 de maio de 2013

Grandes livros

A Selva
Upton Sinclair
"A Selva" é um livro-denúncia escrito por Upton Sinclar (1878-1968), publicado originalmente em 1906. O livro trata da exploração dos trabalhadores pelos trustes dos alimentos enlatados de Chicago. O autor narra, com detalhes, as selvagens condições vividas por uma família de imigrantes, onde os homens adoeciam por excesso de trabalho estafante; as mulheres se prostituíam e os filhos morriam em acidentes nas fábricas. Curiosamente, os leitores se interessaram mais por um breve trecho que descreve a falta de higiene do processo manufatureiro do enlatamento dos alimentos, levando Sinclair a declarar que visava atingir o coração do público, mas acidentalmente, havia atingido o estômago. Desejando aterrorizar o País pintando um quadro daquilo que seus senhores industriais estavam fazendo com suas vítimas, ele havia totalmente por acaso se daparado com outra descoberta: como era feito o abastecimento de carne do mundo civilizado. O livro causou uma enxurrada de críticas, derrubando as vendas dos produtos enlatados, e fazendo com que, sob pressão popular, os congressistas aprovassem uma lei regulando as condições higiênicas na linha de produção industrial, mas no geral pouco foi feito para aliviar as condições desumanas impostas aos trabalhadores.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Tarde de Maio

Camille Pissarro
Como esses primitivos que carregam por toda parte o
maxilar inferior de seus mortos,
assim te levo comigo, tarde de maio,
quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra,
outra chama, não perceptível, tão mais devastadora,
surdamente lavrava sob meus traços cômicos,
e uma a uma, dejeta membra, deixava ainda palpitantes
e condenadas, no solo ardente, porções de Minh’ alma
nunca antes nem nunca mais aferidas em sua nobreza
sem fruto.

Mas os primitivos imploram à relíquia saúde e chuva,
colheita, fim do inimigo, não sei que portentos.
Eu nada te peço a ti, tarde de maio,
senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível,
sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de
converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém
que, precisamente, volve o rosto e passa...
Outono é a estação em que ocorrem tais crises,
e em maio, tantas vezes, morremos.
Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera,
já então espectrais sob o aveludado da casca,
trazendo na sombra a aderência das resinas fúnebres
com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro
fúnebre, tarde de maio, em que desaparecemos,
sem que ninguém, o amor inclusive, pusesse reparo.
E os que o vissem não saberiam dizer: se era um préstito
lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco.
Nem houve testemunha.

Nunca há testemunhas. Há desatentos. Curiosos, muitos.
Quem reconhece o drama, quando se precipita, sem máscara?
Se morro de amor, todos o ignoram
e negam. O próprio amor se desconhece e maltrata.
O próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados;
não está certo de ser amor, há tanto lavou a memória
das impurezas de barro e folha em que repousava. E resta,
perdida no ar, por que melhor se conserve,
uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Amo o Brasil

Tarsila do Amaral
Amo este céu constelado
Céu do Brasil — manto azul –
Sobre ele, em ouro bordado,
Vê-se o Cruzeiro do Sul.

Amo estas matas virentes
Verdes, de eterno verdor
Onde há frutos recendentes,
De delicioso sabor.

Amo esta água cristalina
Dos rios, viva, a correr,
Fazendo mato e campina
Serra e vale florescer.

As belas árvores amo,
Povoadas de passarinhos,
Onde a vida em cada ramo
Palpita em flores e ninhos.

Água e mata, céu e terra
Flores do campo gentis,
Amo tudo quanto encerra
Meu grande e belo País.

Amo as amáveis cantigas
Que ouvi, criancinha, a cantar,
Em doces vozes amigas,
No berço me acalentar.

Amo a nossa gente boa
Feita só de coração,
Que, por vingança, perdoa
E esquece por compaixão.
Amo os nomes bem-fadados,
Dos que lutaram por nós;
Dos nossos antepassados,
Avós dos nossos avós.

Poetas, sábios e guerreiros
Que a história em seus livros traz,
Nobres heróis brasileiros
Grandes na guerra e na paz.

Em tudo que amo e bendigo
A minha pátria se vê.
Amo, porque amo! Não digo
Nem que me perguntem por quê.

Amo os meus pais. Necessito
Dizer por que amo os meus pais?
Assim proclamo, assim grito:
Amo o Brasil! Nada mais.

Sinto-o em mim, no mais profundo
Da minh’alma juvenil.
Adoro a Deus; e no mundo
Amo, adoro o meu Brasil.

Bastos Tigre (1882-1957)

domingo, 12 de maio de 2013

Testamento do Poeta

Herbert Kehrer
Todo esse vosso esforço é vão, amigos:
Não sou dos que se aceita... a não ser mortos.
Demais, já desisti de quaisquer portos;
Não peço a vossa esmola de mendigos.

O mesmo vos direi, sonhos antigos
De amor! olhos nos meus outrora absortos!
Corpos já hoje inchados, velhos, tortos,
Que fostes o melhor dos meus pascigos!

E o mesmo digo a tudo e a todos, - hoje
Que tudo e todos vejo reduzidos,
E ao meu próprio Deus nego, e o ar me foge.

Para reaver, porém, todo o Universo,
E amar! e crer! e achar meus mil sentidos!....
Basta-me o gesto de contar um verso.

José Régio (1901-1969)

sábado, 11 de maio de 2013

Preste Atenção!

William Powell Frith
A massa mantém a marca,
a marca mantém a mídia e
a mídia controla a massa.

George Orwell (1903-1950)
Cuidado Senhores!
Não se permitam ser manipulados.
Vamos pensar.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

A viagem de Rudyard Kipling ao Brasil
Rudyard Kipling (1865-1936)
Em 1889, quando deixa a Índia para ir trabalhar como correspondente de um jornal importante daquele país, The Pioneer.
Nessa época ele visita Burma (atual Myanmar), Singapura, Hong Kong, o Cantão(Guangzhou), o Japão e os Estados Unidos.
Em 1891 vai para a África do Sul, a Austrália e a Nova Zelândia. Nesse tempo começa a escrever romances e poesias e em 1894 publica The Jungle Book, traduzido no Brasil como O Livro da Selva. O personagem importante dessa obra: Mowgli. Virou desenho da Disney em 1967. Foi um sucesso, o tal menino-lobo da floresta.
Em 1907 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. Duas décadas depois, mesmo com problemas sérios de saúde, toma um navio e viaja por dois longos anos para a região dos Trópicos. Chega ao Brasil em 1927 e fica por aqui um período de cinco semanas, o suficiente para escrever um relato de viagem cheio de informações pitorescas sobre o nosso país.
Além do Livro da Selva (dois volumes), leitura popular ainda hoje em muitos países.
E embora respeitado, laureado com um Nobel , Rudyard Kipling foi muito criticado por conta de suas convicções no tocante à posição favorável que adotou em relação ao imperialismo britânico, o qual foi considerado um porta-voz.
Mas o que Kipling tem prá dizer sobre o Brasil lá do final dos anos vinte; que será que aconteceu naqueles dias?
Rudyard Kipling - As Crônicas do Brasil
Ele é um cronista afável da vida brasileira (o racismo do autor, conhecido por sua defesa apaixonada do colonialismo britânico, está relativamente mitigado aqui). Entre os registros mais curiosos, inclui-se sua participação no Carnaval carioca, em que o ganhador do Nobel de 1907 se misturou aos foliões nas guerras de lança-perfume. A edição das crônicas é bilíngue.
São sete os capítulos que compõem as crônicas e cada um deles é precedido de poemas curtos. Curtos, e me perdoe o Rudyard, muito chatinhos. Não consegui gostar de nenhum, mas vamos dar um crédito ao colega, pode ser que tenham perdido o encanto ao serem traduzidos, vai ver foi isso.
E o livro começa assim:
Certa vez, em um sonho infantil, perambulei até o fim do mundo e encontrei coisas muito distintas de tudo o que aprendera; como apenas as crianças e os povos antigos querem que sejam. Agora o sonho se tornou realidade.
O autor encontra-se em um navio a vapor sul-americano, tendo partido do cais de Southampton e desde a saída, diz ele, as perguntas começam a ser respondidas em português e espanhol, línguas francas das conversas dali em diante.
A ocupação de Rudyard, naquela viagem, era a busca pela Beleza, que ele grafa assim mesmo, com letra maiúscula. Não lhe interessava a arquitetura e as construções locais, seu lance foi curtir as belezas naturais - coisa que um país como o Brasil tem de sobra.
A primeira terra avistada: Recife. “Era Pernambuco abrindo outro dia precioso”, relata. E depois prossegue:
(...) barcos atracados bordo-a-bordo, onde homens vendiam mangas rosas e douradas, periquitos verdes, cada mancha e clarão de cores definidas como um trabalho esmaltado (...) Por trás havia a praia, com palmeiras e bananas legítimas, praticamente imutáveis, e indícios de vilarejos em um promontório arborizado que avançava pelo mar turquesa.
Não se demora em Recife e logo o navio parte em direção à Bahia, “a Cidade-Mãe – o coração de toda a energia ardente do nascimento do Brasil.” Sobre a Bahia, que parece o haver encantado, diz o seguinte:
Aqui se encontram pratos e iguarias do antigo regime – maravilhosas confecções, na maioria derivadas do “azeite de dendê”; frutas e bebidas com suco de frutas; cores exuberantes, verdes, vermelhos, amarelos, como os da touca de uma negra; um brilho e resplendor que dominam, mas não ofendem; e o disciplinado revezamento das brisas da terra e do mar.
E o viajante chega ao Rio de Janeiro às vésperas do carnaval. O autor se surpreende com as pessoas em Copacabana, onde carros passavam com gente fantasiada, alegre e cantante. “Isso é porque o Carnaval é daqui a uma semana. Eles estão se preparando para isso”, observa, talvez com um misto de surpresa e leve entusiasmo.
No Rio tudo é novidade para o viajante inglês; o ritmo da vida que se desenrola logo cedo em frente ao Copacabana Palace, “um hotel de mármore de frente para as águas serenas”; um carioca pilotando uma motocicleta em trajes de banho; a realização de um sonho de infância, tão simples que emociona, que era o de poder ver, em seu habitat, a flor da vitória-régia. Seu desejo é realizado no parágrafo em que se propõe a descrever as maravilhas do Jardim Botânico.
Tão lindo que até ficamos com vontade de pegar o primeiro voo em direção ao Rio, o que nunca é uma má ideia.
Do Rio de Janeiro Kipling segue para Sampa. Olha só como ele começa descrevendo a cidade, lembrando que estamos viajando no ano de 1927: “uma cidadezinha, a trezentos quilômetros da costa, com novecentas mil pessoas, chamada São Paulo, onde, entre outras coisas, existe uma fábrica poderosa e eficiente relatada como ‘vale muito a pena ver’.”
A chegada a São Paulo se dá pelo porto de Santos, “sob o olhar atrevido do céu da África Ocidental”, tal como se lê no texto. No primeiro capítulo, dos quatro dedicados a Sampa, Kipling gasta muitas linhas descrevendo o sistema de distribuição de energia da cidade.
O capítulo seguinte é bem mais interessante: Visita a uma moderna fazenda de serpentes. Bom, se você é paulistano, já sabe: o autor refere-se ao Instituto Butantã. Se você nunca visitou o local, depois de ler as impressões de Kipling aposto que ficaria com vontade de dar uma passadinha por lá. E diz o Kipling que as tarântulas “são visivelmente uma criação do Demônio”.
No capítulo seguinte ao da passagem pelo Butantã, vamos ler sobre a São Paulo do Pós-Guerra, com notas sobre uma Fazenda de Café. E o Rudy gostou do que viu e do que provou: “Desse café, basta dizer que descobri nunca ter provado café antes. Pode-se beber a substância mágica em grandes xícaras, cada uma melhor que a anterior, e ter um sono abençoado mais tarde.”
Outra passagem relevante, sob um ponto de vista histórico, é o capítulo em que Rudyard escreve sobre a construção da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, a antiga San Paulo (Brazilian) Railway Company, companhia formada pelo Barão de Mauá com a participação de investidores ingleses. Amantes dos trilhos irão gostar, já que o autor não economizou nos detalhes.
Particularmente, o que mais me surpreendeu nessa narrativa de viagem foi a maneira como Rudyard Kipling conseguiu captar o ethos brasileiro, o que pode ser verificado em várias passagens da obra. Uma das mais divertidas, e que você logo identificará, diz o seguinte:

Os brasileiros que encontrei eram interessados e completamente a par dos assuntos externos, mas estes não compunham seu mundo essencial. O Deus deles – eles caçoavam – era brasileiro. Ele dava a eles tudo o que queriam e um pouco mais. Por exemplo, uma vez quando a colheita do café excedeu os limites. Ele enviou uma geada no momento certo, que podou um quarto e equilibrou confortavelmente o mercado.

O relato das cinco semanas de viagem de Kipling pelo Brasil, ou pelos Brasis, como ele sabiamente se refere ao país em alguns momentos, termina cheio de poesia e boas lembranças daquilo que viu e viveu, não deixando dúvidas de que a aventura por estas paragens lhe encantou os olhos e o coração. Bom saber que em algum lugar do passado nossa terra foi tão bem retratada por viajantes de alma aberta e sabedoria privilegiada como Rudyard Kipling.
Enquanto o navio de regresso se afastava da baía, as lembranças das últimas e magníficas semanas começaram a selecionar a si mesmas. Trilhos, automóveis, fábricas, hotéis suntuosos e casas luxuosas em que proporcionaram tantas alegrias e começaram a desvanecer.
Os rostos dos administradores decididos e urbanos tornaram-se mais claros; como também a respiração suspensa nos limites da floresta, e o consagrado crepúsculo preenchido com solenes vaga-lumes ondulantes. Como também um imenso bramido de cachoeiras ouvido em uma noite quente e sufocante.
As encostas em que nosso vapor seguia afastaram-se de nós até nos aproximarmos do extremo sul daquelas praias de areias ofuscantes “muito parecidas com roupas de linho postas para alvejar” as quais, os pilotos dos velhos tempos avisavam, demarcavam “onde tu podes ter certeza de ser levado até a Bahia”.
As crônicas do Brasil (Brazilian Sketches).
Rudyard Kipling.
Tradução Luciana Salgado. São Paulo: Landmark, 2006.

terça-feira, 7 de maio de 2013

07 • Dia do Silêncio

Dia do Silêncio
Silêncio é o eco reflexivo interior, o voo da solidão gigante, o grito eloquente no auge da dor, o clamor do oprimido, a expressão criadora do poeta. O silêncio é a ausência de barulho, sons, vozes e ruídos, segundo a definição de dicionários e enciclopédias.
Do ponto de vista da espiritualidade, o silêncio é força e caminho propício à introspeção e à meditação.
O silêncio dos imensos desertos, por onde caminham os peregrinos, em busca da fonte inesgotável de paz e harmonia.
O silêncio que nos acompanha na intimidade e está conosco no instante final, companheiro e guia no caminho da eternidade.
Silêncio é a força misteriosa, repleta de sutilezas e transparências, que nos dá a medida exata da pureza, da humildade, da riqueza interior.
Sem o silêncio a alma fica pequena.
Há o silêncio manipulador, o silêncio torturante, o silêncio chantagista, o silêncio rancoroso, o silêncio conivente, o silêncio da zombaria, o silêncio imbecil, o silêncio do desprezo.
Há pessoas que matam com seu silêncio. Há silêncios que esmagam a justiça e a bondade, na calada da noite.
O silêncio mais puro é aquele que guarda a confidência.
Este silêncio jamais é excessivo.
Não se deve apregoar aos quatro ventos o que foi murmurado na intimidade da amizade e do amor.
O silêncio mais sábio é aquele que fazemos diante dos impertinentes, intolerantes e desbocados.
É o silêncio do Cristo inocente diante dos acusadores, o silêncio dos espaços infinitos diante da quase infinita capacidade nossa de falar ou escrever sem razão.
Calar da maneira certa é deixar que uma voz mais profunda seja ouvida. A voz severa, a voz serena, a voz suave e firme da verdade.
Fonte: Kplus

segunda-feira, 6 de maio de 2013

A Incrível História do Boi Voador do Recife
Zacharias Wagener - Cidade Maurícia em Pernambuco 1640
Quem nos conta com mais detalhes essa curiosa história é a ( Revista Nossa História ), da Biblioteca Nacional, com base na obra de Frei Manoel Calado.
“Quem foi, quem foi, que falou no boi voador?” A canção de Chico Buarque e Ruy Guerra parece apontar para uma história fantástica, uma fábula, uma lenda tirada do nosso folclore. Mas não, aconteceu mesmo. O boi voador foi uma invenção do príncipe Maurício de Nassau, e voou de fato no céus do Recife, no dia 28 de fevereiro de 1644.
O governador holandês, famoso pelo seu espírito empreendedor, precisava de recursos para financiar uma ponte sobre o rio Capibaribe que mandou construir – aliás existente ainda hoje, com o nome de Ponte Maurício de Nassau.
Preparou então uma grande festa e anunciou ao povo que, no final da tarde, um boi iria voar.
Seu plano incluía a cobrança de determinada quantia a quem atravessasse a ponte para ver o espetáculo. E deu certo.
André Cunha - Maurício de Nassau e a lenda do boi voador
O boi de Nassau era, na verdade, um animal empalhado. Na hora combinada, arranjaram um boi manso e o fizeram ‘subir ao alto da galeria, e depois de visto do grande concurso de gente que ali se ajuntou”, o meteram “adentro de um aposento, e dali tiraram o outro boi cheio de palha e o fizeram vir voando por umas cordas com um engenho, e a gente rude ficou admirada (...)”.
O boi foi suspenso entre as duas torres do Palácio Friburgo, sede do governo, à custa de um sistema de roldanas operado por marinheiros holandeses, e dizem até que deu cambalhotas no ar. Com esse expediente Nassau arrecadou, segundo Frei Manoel Calado, oitocentos florins, o que era muito dinheiro na época. E, por que não dizer, acrescentou aos seus títulos o de inventor do pedágio no Brasil.

sábado, 4 de maio de 2013

Aristóteles - Da Alma

Um texto intemporal… Aristóteles, filósofo grego,
escreveu este texto “Revolução da Alma
no ano 360 a.C. ... E é eterno.
Foto de Rarindra Prakarsa
“Ninguém é dono de sua felicidade, por isso: não entregue sua alegria, sua paz e sua vida nas mãos de ninguém, absolutamente ninguém!
Somos livres, não pertencemos a ninguém e não podemos querer ser donos dos desejos, das vontades ou dos sonhos de quem quer que seja. A razão da sua vida é você mesmo.
A sua paz interior é a sua meta de vida.
Quando sentir um vazio na alma, quando acreditar que ainda está faltando algo, mesmo tendo tudo, remeta seu pensamento para os seus desejos mais íntimos e busque a divindade que existe em você.
Pare de colocar sua felicidade cada dia mais distante de você. Não coloque objetivos longes demais de suas mãos, abrace os que estão ao seu alcance hoje.
Se anda desesperado por problemas financeiros, amorosos ou de relacionamentos familiares, busque em seu interior a resposta para acalmar-se. Você é reflexo do que pensa diariamente.
Sorrir significa aprovar, aceitar, felicitar. Então abra um sorriso para aprovar o mundo que quer oferecer a você o melhor.
Com um sorriso no rosto as pessoas terão as melhores impressões de você, e você estará afirmando para você mesmo, que está "pronto“ para ser feliz.
Trabalhe, trabalhe muito a seu favor. Pare de esperar a felicidade sem esforços. Pare de exigir das pessoas aquilo que nem você conquistou ainda.
Critique menos, trabalhe mais.
E, não se esqueça nunca de agradecer.
Agradeça tudo que está em sua vida neste momento, inclusive a dor.
Nossa compreensão do universo ainda é muito pequena para julgar o que quer que seja na nossa vida.
A grandeza não consiste em receber honras, mas em merecê-las.
Se você anda repetindo muito: “eu preciso tanto de você” ou, “você é a razão da minha vida” - cuide-se.
É lícito afirmar que são prósperos os povos cuja legislação se deve aos filósofos.
A inteligência é a insolência educada.
Nosso caráter é o resultado de nossa conduta. Egoísmo não é amor, mas sim, uma desvairada paixão por nós próprios.
O homem sábio não busca o prazer, mas a libertação das preocupações e sofrimentos.
Ser feliz é ser auto-suficiente...
Seja senhor de sua vontade e escravo da sua consciência.”

sexta-feira, 3 de maio de 2013

03 . Dia Mundial da Liberdade de Imprensa

Dia Mundial da Liberdade de Imprensa
Quase toda semana, a UNESCO registra a morte de mais um (a) jornalista, em decorrência de seu (sua) atividade profissional. Esse cálculo trágico lança uma grande sombra sobre a liberdade de imprensa, que é celebrada anualmente pela UNESCO, no dia 3 de maio. Neste ano, o principal evento do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa ocorrerá de 2 a 4 de maio, na Costa Rica, com uma conferência internacional sobre o tema “Falar sem medo: assegurando a liberdade de expressão em todas as mídias”.
O evento inclui também a cerimônia de premiação do Prêmio Mundial de Liberdade de Imprensa UNESCO-Guillermo Cano. A laureada de 2013 é a jornalista etíope Reeyot Alemu, que cumpre cinco anos de prisão na penitenciária Kality, na Etiópia. A diretora-geral da UNESCO, Irina Bokova, e a presidente da Costa Rica, Laura Chinchilla, presidirão a cerimônia, em 3 de maio (das 9h às 10h30min).

Fonte:
Jornal Unesco Brasil: ( Liberdade de Imprensa )

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Cristianismo, um sistema que não admite dúvidas
Walter Langley - Silent Sorrow
Não há espaço para dúvidas no cristianismo. Antes fosse por conta de suas doutrinas terem sido amplamente testadas e comprovadas, mas não é bem esse o caso...
Os fiéis e seguidores das religiões cristãs não têm muito espaço dentro de suas fés para praticar o saudável hábito da dúvida, e isso porque a doutrina, a teologia ou as regras da religião, como queiram, destes e de outros sistemas de crenças incentivam o uso de artifícios retóricos vazios, frágeis e simplórios para determinar o que é verdade e o que não é, em se tratando de fatos corriqueiros do dia a dia. Em que momento, por exemplo, deus intervém em nossas vidas, para melhor, ou para pior?
Para perguntas tão complexas e que há séculos fazem os filósofos perderem o sono, adotamos respostas ridiculamente fáceis. Tomemos alguns exemplos para esclarecer: a obstetrícia é hoje um ramo da medicina muito desenvolvido. O sistema reprodutor feminino é uma maravilhosa “máquina” perfeitamente funcional para a geração de filhos. Mas é possível, é claro, que ele apresente problemas. Com a ajuda da medicina, são diagnosticados os problemas, bem como tratadas as mais complexas causas de infertilidade com as mais diversas técnicas.
Agora considere uma mulher cristã casada que queira formar uma família, mas que esteja há muitos anos tendo dificuldades e insucessos na gravidez. Sua fé a condicionou tanto ao conformismo – e o pior, tirou tanto a possibilidade de dúvida em sua cabeça – que, se ela for realmente fiel à sua crença, pensará, apesar de todos os esforços dos médicos: “se a gravidez não vier, será por vontade de deus; se vier, será um milagre de deus”. Percebem como não há o menor espaço para: “eu sempre fui tão bondosa, generosa, sempre ajudei os outros, fiz a minha parte, e deus não me contempla com um filho, enquanto outras tantas mulheres que não merecem colocam crianças no mundo para serem abandonadas?”.
É muito simples o motivo por que o cristão evita dar esse salto de qualidade de uma fé cega e conformista para um tipo de fé questionadora: ele vai começar a sentir necessidade de aplicar a dúvida aonde até há pouco tempo só haviam “certezas”. E eis que o seu mundo, inesperadamente, começa a desmoronar bem diante dos seus olhos.
É por isso que o cristianismo, desde muito cedo na história, foi moldado para extirpar a dúvida e o debate da sua doutrina, muitas vezes até de forma violenta. A obediência e não a dúvida é uma necessidade para que a igreja tenha alguma serventia na vida das pessoas.