segunda-feira, 30 de abril de 2012

Um Minuto na Noite

A cidade dorme
o sono da madrugada.
Nenhum ser vivo
àquela hora silente.
O mundo noturno
cala-se...
Bares cerrados.
Apenas luminárias
com propagandas
de refrigerantes
permanecem despertas,
exibindo letras vermelhas
e grandes.
A cidade está
só,
com os sentimentos
da noite.

Delores Pires
Ivan kramski
Estava

na noite
escura.
Andava
ao léu,
passos
incertos.
A estrela
me viu
tristonho
e me fez
companhia...

Delores Pires

domingo, 29 de abril de 2012

Noite
simplesmente
noite
Sem mais
sinais
de outra
Noite
sem sonho
sem sexo
Noite
sobre
noite
Sem sirenes
sereias
sursis
Noite
nítida
na mente
Augusto Massi

sábado, 28 de abril de 2012

Às vezes, fico observando
a rapidez do tempo se esvaindo,
como que obedecendo a um comando,
fazendo com que a vida vá diminuindo.

Os minutos não cessam de correr,
como os pássaros que estão a voejar:
tão rápido que ninguém os pode suster,
nem conseguir as mãos, neles, pousar.

Bem que poderia ser mais lento,
para que pudéssemos ter mais encanto
até para apreciar o passar do vento,
enquanto estamos nesse recanto.

O tempo é sempre inclemente;
chega rápido para nos fustigar,
transformando a vida da gente
num eterno e triste recordar.

Maria Tomasia

Código Florestal

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Salvador Dali
Areias do mar são vermelhas
Onde o sol se põe e estremece
Areias do mar são amarelas
Onde a lua oblíqua oscila.

Carl Sandburg (1878-1967)
O Areópago
Jean-Léon Gérôme - Areópago
O Areópago era um celebre tribunal de Atenas que funcionava numa colina consagrada a Marte. Seus membros eram da aristocracia ateniense, cujas atribuições, sofreram alterações ao longo do tempo.
No período democrático cumpria a função de um tribunal julgando os crimes de homicídio premeditado, envenenamento e incêndio, entre outros.
A integridade desse tribunal era tal que nunca, até a sua decadência, foi suspeitada. Nunca um acusado murmurou contra as suas sentenças.
A partir de Péricles (499-429 a.C), o Areópago foi constituído por 31 membros, antigos arcontes, encarregados do julgamento das causas criminais mais graves.
A Bíblia conta, em seu Novo Testamento, através do evangelista Lucas, no livro dos Atos dos Apóstolos, capítulo dezessete, que o areópago era o lugar onde os atenienses e estrangeiros residentes na cidade passavam o tempo a contar ou a ouvir novidades.
Diz ele que Paulo foi ao local e, de pé, discursou movido pelo sonho e compromisso com a verdade, consciente que seu encontro é garantia da direção certa para a vida. É, também, possibilidade de correções de rumos e entendimentos que podem aprimorar a cidadania na sua integridade.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Jules Frederic Ballavoine
“Esta boa e sutil felicidade na leitura,
esta alegria que não arrefeceu com a idade,
este vício educado e impunível,
esta intoxicação serena da vida-inteira”.

Logan Pearsall Smith (1865-1946)

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Teatro RJ

Di Cavalcanti - Mural no Teatro João Caetano - RJ
[restaurado e modificado pelo próprio autor em 1964]
Robert Reid
Há um pássaro azul
no meu coração que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar ninguém ver-te.
Há um pássaro azul
no meu coração que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso não estejas triste.
Depois, coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
e dormimos juntos assim
com o nosso pacto secreto e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e tu?

Charles Bukowski (1920-1994)

Histórias do Cotidiano

Em Histórias do Cotidiano, Mary Del Priore envolve agradavelmente leitores e leitoras com sua conversa amistosa sobre convivência, corpo, mulheres, relações familiares, jovens e velhos. Por meio de textos ágeis e bem escritos, nos conduz em um passeio instigante em que se utiliza da enorme bagagem adquirida em anos de atividade acadêmica ligada à História das Mentalidades para discorrer com desenvoltura sobre temas que vão de sutiãs a aviões, de maternidade a modernidade, de solidão a casamento, de sujeira nas ruas a sujeira na política, de férias no sítio à violência urbana, de heranças do passado a novos desafios.
O livro é divido em cinco capítulos temáticos que discutem corpo, família, convívio, mulher e crianças, jovens e velhos. Nele, a historiadora Mary Del Priore trabalha questões do cotidiano, coisas que costumam ser banais e comuns a nós. É uma leitura agradável e bastante interessante.
Eis um livro - misto de bate-papo, História, Sociologia, Psicologia e crônica social - para apreciar com gosto e cuidado.
Mary Del Priore
Historiadora

terça-feira, 24 de abril de 2012

Perdi a capacidade de assombro

Jacques Jourdan - Tea Time
Perdi a capacidade de assombro
mas continuo perplexa:
esta cidade é minha, este espaço
que nunca se retrai,
mas onde o ardor da antiga
chama, que me movia no mínimo
gesto?
Esperei tanto, no entanto, esvaem-se
na relva, ao sol, no vento,
os sonhos desorbitados,
parte da minha natureza
sempre em luta com o fado.
Perdi também no contato
com o mundo, pérola radiosa, vão pecúlio,
uma certa inocência;
ficou a nostalgia de uma antiga
união com o que existe,
triste alfaia.
Marly de Oliveira (1935-2007)

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Alegria

Sascalia
“Sim, eu quero viver muitos anos mais.
Mas não a qualquer preço.
Quero viver enquanto estiver acesa, em mim,
a capacidade de me comover diante da beleza.
A comoção diante da beleza tem o nome de ‘alegria’,
mesmo quando as lágrimas escorrem pela face.
A alegria e a tristeza são boas amigas.
(…)
Essa capacidade de sentir alegria é a essência da vida”.

Rubem Alves

Arcadismo

Arcadismo
Jean-Antoine Watteau
O Arcadismo, também conhecido como Neoclassicismo, surgiu no continente europeu no século XVIII, durante uma época de ascensão da burguesia e de seus valores sociais, políticos e religiosos. Esta escola literária caracterizava-se pela valorização da vida bucólica e dos elementos da natureza. O nome originou-se de uma região grega chamada Arcádia (morada do deus Pan).
Os poetas desta escola literária escreviam sobre as belezas do campo, a tranquilidade proporcionada pela natureza e a contemplação da vida simples. Portanto, desprezam a vida nos grandes centros urbanos e toda a vida agitada e problemas que as pessoas levavam nestes locais. Os poetas arcadistas chegavam a usar pseudônimos (apelidos) de pastores latinos ou gregos.

O Arcadismo no Brasil
No Brasil, o arcadismo chega e desenvolve-se na segunda metade do século XVIII, em pleno auge do ciclo do ouro na região de Minas Gerais. É também neste momento que ocorre a difusão do pensamento iluminista, principalmente entre os jovens intelectuais e artistas de Minas Gerais. Desta região, que fervia culturalmente e socialmente nesta época, saíram os grandes poetas.
Entre os principais poetas do arcadismo brasileiro, podemos destacar:
  • Cláudio Manoel da Costa (autor de Obras Poéticas),
  • Tomás Antônio Gonzaga (autor de Liras, Cartas Chilenas e Marília de Dirceu),
  • Basílio da Gama (autor de O Uruguai) ,
  • Frei Santa Rita Durão (autor do poema Caramuru) e
  • Silva Alvarenga (autor de Glaura).
    Características do Arcadismo:
    As principais características das obras do arcadismo brasileiro são:
  • valorização da vida no campo,
  • crítica a vida nos centros urbanos (fugere urbem = fuga da cidade),
  • uso de apelidos,
  • objetividade,
  • idealização da mulher amada, abordagem de temas épicos,
  • linguagem simples,
  • pastoralismo e
  • fingimento poético.

domingo, 22 de abril de 2012

Parecia um pássaro

Jane Bucci
Parecia um pássaro, um frêmito
de folha, uma líbélula,
uma coisa evanescente
e volátil:
não era nada, um pensamento
[de amor?]
que se ensaiou na sombra
e desapareceu qual rã.
Marly de Oliveira (1935-2007)
22 • Dia do Planeta Terra
Com o crescimento acelerado das áreas urbanas nas últimas décadas, o Planeta Terra se viu atropelado pelas mudanças e em muitas regiões do mundo a capacidade do homem de modificar a natureza acabou por destruir grande parte das riquezas naturais. Por isso, a Rede Mundo Verde convida a todos os nossos leitores, clientes e amigos para que reflitam sobre como muito do que fazemos diariamente pode ser prejudicial para o planeta.

sábado, 21 de abril de 2012

Fonte

Velha na fonte -
os cântaros se enchem
o sol se esconde.

Carlos Seabra
Tiradentes e a Inconfidência Mineira
Em 21 de abril, comemora-se o Dia de Tiradentes, pois foi condenado pela Coroa portuguesa ao enforcamento, por ser um dos líderes do movimento "Inconfidência Mineira".
A Inconfidência Mineira foi fundamentada com o aumento dos impostos, afinal, a Coroa Portuguesa acreditava que os brasileiros da capitania de Minas Gerais sonegavam o ouro proveniente da Mineração. No entanto, isso não era verdade, pois a riqueza estava mesmo se tornando escassa no território. Enfim, a medida que o ouro acabava, o valor dos impostos aumentava. Indignados com a obrigação de pagar o quinto do ouro, os membros da Elite de Minas Gerais resolveram organizar uma revolta.
Os principais conspiradores eram ricos e cultos, influenciados pelos filósofos que questionavam a monarquia. Tiradentes, contudo, era o integrante mais pobre, ocupando um cargo militar.
O sacrifício de Tiradentes lhe rendeu o posto de herói brasileiro, apesar de independência ter acontecido (teoricamente) 30 anos depois, sancionada por D. Pedro I.
O fim da monarquia, que era tão almejado pelos revolucionários, só foi ocorrer em 1889 com a Programação da República.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Lasar Segall - Mário de Andrade
Gosto de estar a teu lado,
Sem brilho.
Tua presença é uma carne de peixe,
De resistência mansa e de um branco
Ecoando azuis profundos.

Eu tenho liberdade em ti.
Anoiteço feito um bairro,
Sem brilho algum.

Estamos no interior duma asa
Que fechou.

Mário de Andrade (1893-1945)

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Madrugada
Ave calada -
ninho em silêncio
na madrugada.

Carlos Seabra
Anthony van Dyck
“Se depender de mim, nunca ficarei
plenamente maduro nem nas ideias,
nem no estilo, mas sempre verde,
incompleto, experimental”.

Gilberto Freyre (1900-1987)

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Joanna Zjawinska
“... era ainda jovem demais para saber que
a memória do coração elimina as más lembranças
e enaltece as boas e que graças a este artifício
conseguimos suportar o passado” .

Gabriel García Márquez
(Trecho do livro "Amor nos tempos do Cólera")
Ayarachis musicians
Fazer política é passar do sonhos às coisas, do abstrato ao concreto.
A política é o trabalho efetivo do pensamento social: a política é a vida.
Admitir uma quebra de continuidade entre a teoria e a prática, abandonar os realizadores a seus próprios esforços, ainda que concedendo-lhes uma cordial neutralidade, é renunciar à causa humana. A política é a própria trama da história.
A história, fazem-na os homens possuídos e iluminados por uma crença superior, por uma esperança sobre-humana; os demais constituem o coro anônimo do drama.

hhhhhhhhhhkkJosé Carlos Mariátegui (1894-1930)
Intelectual marxista peruano que morreu precocemente aos 36 anos, mas nos legou uma obra fecunda, centrada na reflexão sobre que tipo de gente são os latino-americanos.

terça-feira, 17 de abril de 2012

William-Adolphe Bouguereau - A Soul Brought to Heaven
Ainda que seja um grão no deserto
o poema é meu lugar
onde tudo arrisco.
Irriga minhas veias
como a chuva à terra
em suas mil línguas.
Antigo, bem antigo,
me anuncia no vale,
me consuma real,
viajante cativo
da solidão solidária.
Sem esse jeito
de ser flor e vento,
sonho e música,
uma coisa só amor,
não há o espanto,
a lágrima, o beijo,
o riso, o epitáfio,
não há o sentido.

Cyro de Mattos

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Cheiro de Outono
Mais uma vez é um verão que nos abandona,
agonizando num temporal atrasado:
tranquila a chuva rumoreja, enquanto um cheiro
amargo e tímido vem do bosque molhado.

Na relva pálida a liliácea se retesa
em meio a grande profusão de cogumelos;
tem-se a impressão de que se esconde e se retrai
o nosso vale, ontem ainda imenso e belo.

Retrai-se e cheira a timidez e a amargura
o mundo, com toda a claridade perdida:
prontos, olhamos o temporal atrasado,
pois acabou-se o sonho de verão da vida!

Hermann Hesse (1877-1962)

domingo, 15 de abril de 2012

António Quadros
Presa às marés, outras margens me circundam.
Procuro os teus braços.
Esgota-se em cada dia, lentamente,
a viagem do tempo que expõe a rigorosa
proa no vértice dos dias.
A densidade do sal partiu-me os remos
e entranhou-se-me nas veias como um tormento.
Tenho um barco parado a obstruir-me os lábios
colados à rugosidade dos mastros.
Procuro o teu rosto.

Graça Pires

sábado, 14 de abril de 2012

Musa Infeliz
William-Adolphe Bouguereau
Todo o cuidado nestas rimas ponho;
Musa, peço-te, pois, que me remetas
Versos que tenham rútilas facetas,
E não revelem trovador bisonho.

Meia noite bateu. Sai risonho...
Brilhava — oh, musa, não me comprometas! —
O mais belo de todos os planetas
N'um céu que parecia um céu de sonho.

O mais belo de todos os prazeres
Gozei, à doce luz dos olhos pretos
Da mais bela de todas as mulheres!

Pobres quartetos! míseros tercetos!...
Musa, musa infeliz, dar-me não queres.
O mais belo de todos os sonetos!...

Artur Azevedo (1855-1908)