sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

A Criação

Diego Rivera - A Criação
A Mulher e o Homem sonhavam
que Deus os estava sonhando.
Deus os sonhava enquanto cantava e agitava seus
maracás, envolvido em fumaça de tabaco.
E se sentia feliz, e também estremecido pela
dúvida e pelo mistério.
Os índios Makiritare sabem
que, se Deus sonha com comida, frutifica e dá de
comer. Se Deus sonha com a Vida,
nasce e dá de nascer.
A Mulher e o Homem sonhavam
que no sonho de Deus aparecia
um grande ovo brilhante.
Dentro do ovo, eles cantavam, e dançavam,
e faziam um grande alvoroço,
porque estavam loucos de vontade de nascer.
Sonhavam que no sonho de Deus
a alegria era mais forte que a dúvida e o mistério,
e Deus sonhando os criava, e cantando dizia:
- Quebro este ovo, e nasce a Mulher, e nasce
o Homem, e juntos viverão e morrerão.
Mas nascerão novamente.
Nascerão e tornarão a morrer,
e outra vez nascerão.
E nunca deixarão de nascer,
porque a morte é uma mentira.

Eduardo Galeano
- Memórias de Fogo.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Charles Landseer - O Pão de Açúcar

Charles Landseer (1799 - 1879) foi um pintor e aquarelista inglês que se tornou conhecido por acompanhar Charles Darwin como desenhista no primeiro trecho da sua viagem exploratória pelo mundo.
Após, em julho de 1825, o pintor chegou ao Rio de Janeiro com a missão diplomática inglesa encarregada de negociar o reconhecimento do Império do Brasil, aqui permanecendo até maio de 1826.
Produziu mais de 300 trabalhos em bico de pena, aquarelas, carvão e pinturas fixando a paisagem brasileira da época.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

O homem não pode tudo

Ridolfo di Domenico
(...) que consolo para o homem ver que Deus não pode tudo: mesmo que quisesse não poderia matar-Se, o que é sem dúvida nosso maior privilégio; não poder fazer com que os mortais sejam imortais nem que os mortos não sejam mortos; nem tampouco que quem haja vivido não tenha vivido; que quem tenha sido homenageado não o tenha sido; Sua intervenção no passado restringe-se ao esquecimento.
Caio Plínio (23-79)

sábado, 21 de fevereiro de 2015

A Rendeira

Johannes Vermeer - A Rendeira
Considerada uma das pinturas mais famosas de Vermeer, calcula-se que tenha sido produzida entre os anos de 1669 e 1670. Como muitas outras obras do artista, A Rendeira retrata uma pessoa realizando uma tarefa, rodeada de seus elementos de trabalho.
A jovem está absolutamente envolvida em seu trabalho minucioso, manipulando cuidadosamente pinos e fios coloridos. O trabalho doméstico é o indicador de sua virtude. Distante da realidade do mundo, a jovem presta atenção apenas ao seu dever.
Outro aspecto importante da obra é que nela prevalece o detalhe e uma luminosidade suave. Seus diversos pontos de luz desfocados são um dos melhores exemplos da interpretação da luz conduzida por Vermeer e que agradava muito os impressionistas. O quadro foi considerado por Renoir a pintura mais bela do mundo.
Ficha Técnica - A Rendeira
Autor: Johannes Vermeer
Onde ver: Museu do Louvre, Paris, França
Ano: 1669 e 1670
Técnica: Óleo sobre tela
Tamanho: 24Cm x 21cm
Movimento: Barroco Holandês

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Soneto 73

Jean-Honoré Fragonard
Esta estação do ano podes vê-la
em mim: folhas caindo ou já caídas;
ramos que o frémito do frio gela;
árvore em ruína, aves despedidas.
E podes ver em mim, crepuscular,
o dia que se extingue sobre o poente,
com a noite sem astros a anunciar
o repouso da morte, gradualmente.
Ou podes ver o lume extraordinário,
morrendo do que vive: a claridade,
deitado sobre o leito mortuário
que é a cinza da sua mocidade.
Eis o que torna o amor mais forte:
amar quem está tão próximo da morte.

William Shakespeare (1564-1616)
Tradução: Carlos de Oliveira

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Referências

Gustav Klimt
Uma árvore fina se balança
aos pés dos edifícios

não suponham reverências
na sua grande ironia:
ter os pés no chão não a impede
de se sacudir na ventania.

Juliana Bernardo

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

O Incêndio dos Aspectos

René Magritte
O Desenlace (aqui) petrificado
isto de istmo, era de hera
a qualidade em resultado absoluto.

aqui reverdecendo - o jorro e a perna
na só imagem que unifica a frase
no extremo sopro da velocidade.

- Verbo de pedra em profecia, sem
a pedra - substância, no não do sopro
que ilumina a terra no interior da terra.

António Ramos Rosa (1924-2013)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

História da matemática

Domenico Fetti – Archimedes
1- Da Pré-História ao Egito
Na Pré-História, artefatos africanos de mais de 20 mil anos já indicam as primeiras tentativas de quantificar a vida cotidiana. Acredita-se que os antigos egípcios já usavam cálculos complexos de álgebra e geometria três mil anos antes de Cristo. Mas os símbolos matemáticos como os conhecemos só começaram a ser inventados por volta do século XVI, de modo que antes, as equações eram escritas por extenso, o que consumia um bocado de tempo.
2- Da Suméria à Babilônia
Na Mesopotâmia, a partir de 2.500 a.C., os sumérios escreveram tábuas de multiplicação em tabletes de argila e também resolveram neles exercícios de geometria e problemas de divisão. Na Babilônia, a matemática era usada com base sexagecimal (referente ao número 60). É daí que vem a divisão de uma hora em 60 minutos e de um minuto em 60 segundos - como o número tem muitos divisores, ele facilitava os cálculos de então.
3- Da Grécia à Pérsia
Devemos à matemática da Grécia o teorema de Pitágoras (num triângulo retângulo, o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos), do século VI a. C.. Igualmente famoso foi Tales de Mileto, que usou a geometria para calcular a altura de pirâmides e a distância de navios da costa. Já na Pérsia, no século IX, o matemático Muhammad ibn Musa al-Khwarizmi fez grandes progressos em álgebra e aritmética. De seu nome derivam as palavras ?algarismo? e ?algoritmo?.

Fonte:
Jornal "O Globo": ( História da matemática )

Família Pré Histórica

Viktor M. Vasnetsov – Pré-história
[...]
Ao se tornar dependente da carne, o Homo erectus se transformou num parasita das manadas desse jogo - e, portanto, precisava segui-las ou explorar novos territórios onde procurá-las - e era mais provável se estabelecer e se multiplicar em alguns locais do que em outros. Assim, foram estabelecidas as bases de moradia.
[...]
A família que vivia na base de moradia também se desenvolvia. A existência desta base já tornou mais provável que a futura família humana fosse muito diferente das famílias animais. Isto ficou mais evidente quando os antecessores do Homo sapiens se tornaram maiores. Por exemplo, cabeças maiores, necessárias para acomodar cérebros maiores, significavam que as crianças seriam maiores antes do nascimento e isto se refletia em mudanças na pelve feminina que permitiram o nascimento de bebês com crânios maiores e também foi necessário um período mais longo de crescimento depois do nascimento para que as crianças amadurecessem. Nenhuma mudança fisiológica na fêmea podia fornecer aos fetos acomodação que os protegesse até a maturidade física. Em consequência, as crianças humanas - diferentes da maioria dos mamíferos, cujos filhotes amadurecem em meses - necessitam de cuidados maternos até bem depois do nascimento. Uma infância prolongada, dependência e apoio às crianças pela família e pela sociedade durante a imaturidade significava que as famílias humanas se desenvolveram de forma muito diferente das famílias dos outros animais. Em parte isto era resultado de uma seleção genética: grandes ninhadas deixaram de ser a maneira pela qual se assegurava a sobrevivência das espécies. Em vez disso, as sociedades humanas aprenderam a dar atenção maior e mais demorada à proteção, à alimentação e ao treinamento dos seus jovens [...]. Apareceram diferenças mais agudas entre os padrões de vida de machos e fêmeas. As mães hominídeas eram muito mais tolhidas do que as mães de outros primatas e os pais passaram a se envolver mais na provisão de comida por meio da caça, o que demandava uma atividade árdua e prolongada da qual as fêmeas não podiam participar facilmente.
John Morris Roberts
em "O Livro de Ouro da História do Mundo".

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Religião na Colônia

Jean-Baptiste Debret
Segundo testemunho do viajante norte-americano Thomas Ewbank, a cruz era considerada um dos símbolos religiosos mais poderosos entre a população da Corte. Esta aquarela representa um grupo de tropeiros que transitava entre o Rio de Janeiro e a região de Minas Gerais. Observe que os três homens colocados no primeiro plano possuem crucifixos em torno do pescoço, certamente visando à proteção contra os perigos mais comuns durante a viagens: ataques de salteadores e de quilombolas, acidentes, picadas de cobra e doenças.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

O Meu Amor

Photography - Ruth Bernhard
O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca
Quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada, ai

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos
Viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo
Ri do meu umbigo
E me crava os dentes, ai

Eu sou sua menina, viu?
E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha
Do bem que ele me faz

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
Que me deixa maluca
Quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba malfeita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Quando ele se deita
O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios
De me beijar os seios
Me beijar o ventre
E me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo
Como se o meu corpo fosse a sua casa, ai

Eu sou sua menina, viu?
E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha
Do bem que ele me faz.

Chico Buarque de Holanda

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Check-in

Sir Edward Burne-Jones
Não me importa entrar pela porta arabescada
Do desespero
Descer
Inferno
Destempero
Desequilíbrio
Certas cordas sem rede de proteção
Fogo
Carvão
Súcubos
Exus
Sereias amaldiçoadas, super-heróis do avesso
Nada disso me assusta
Se tiver certeza de que na saída
Eu estarei do lado de fora esperando por mim.

Greta Benitez

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Newton soube como circula a seiva nas plantas 200 anos antes dos botânicos

Há células que se tornam clássicos nas aulas de microscopia como as células-guarda, nas plantas. Em forma de rim, estas células existem aos pares, formando estomas na superfície das folhas e permitindo às plantas respirar. É pelo buraco do estoma que as plantas libertam o vapor de água e criam a tensão suficiente para obrigar a água a entrar pelas raízes. Deste modo, a planta consegue transportar a água e sais minerais — a seiva — por toda a árvore.
Mas no início da década de 1660 é difícil acreditar que o famoso cientista britânico Isaac Newton tivesse alguma vez visto um estoma. O microscópio era ainda recente e o termo “célula” só foi aplicado pela primeira vez em 1665, pelo inglês Robert Hooke, aos pequenos espaços ocos observados ao microscópio na cortiça. A primeira descrição do estoma é só de 1675. No entanto, Newton avançou com uma hipótese para explicar a circulação da seiva nas plantas. A proposta vem escrita em menos de meia página num caderno do físico, que ele arranjou algures entre 1661 e 1665, quando frequentou como estudante o Trinity College na Universidade de Cambridge. O manuscrito está disponível no site da universidade desde 2011, quando foram aí colocadas cópias digitalizadas dos materiais de Newton, incluindo o caderno que, mais tarde, se descobriu ter a proposta sobre a seiva. Agora, o biólogo inglês David Beerling, da Universidade de Sheffield, no Reino Unido, analisou este pequeno texto intitulado Vegetais e comparou-o com a teoria moderna sobre a circulação de seiva nas plantas, proposta em 1895 pelos botânicos. Para David Beerling, o físico previu como ocorria a ascensão da água nas plantas, num artigo que publicou ontem na revista Nature Plants.
“Na mente da maioria das pessoas, a ligação entre Newton e as plantas começa e acaba com o famoso incidente da queda da maçã e a descoberta da gravidade. Mas as notas que estão escondidas num dos cadernos de licenciatura de Newton sugerem outra perspectiva”, escreve.
O físico inglês ficou para sempre conhecido pela sua obra-prima Principia, de 1687, na qual enunciava as três leis do movimento. Escrito mais de duas décadas antes, o seu caderno de estudante é um acervo de textos sobre o mundo natural, mostrando uma curiosidade que disparava para todos os lados. O texto sobre a circulação de seiva está ao lado de textos como Atração eléctrica & filtração ou Dos meteoros, numa secção denominada Certas questões filosóficas.
Escreveu Newton: “Suponha-se que ‘b’ [esteja] no poro de um vegetal cheio de fluido e matéria e que um glóbulo ‘c’ atinge e afasta a partícula ‘b’, então o resto da matéria nos poros ascende do ponto ‘a’ para o ponto ‘b’.”
David Beerling descodifica a explicação. O “glóbulo ‘c’” é a luz, que naquele século era considerada como uma substância em vez de energia. Para Beerling, a descrição de Newton em que o “glóbulo ‘c’ atinge e afasta a partícula ‘b’” não é mais do que a explicação da transpiração em que a água é libertada pelos poros devido ao calor do Sol. E quando o físico refere que a “matéria nos poros ascende do ponto ‘a’ para o ponto ‘b’”, está a explicar que a perda de água a nível das folhas obriga a seiva a subir do caule para as folhas.
“Esta interpretação coincide com a maneira de pensar da época em que se defendia que ‘os vapores e as exalações’ ascendiam das entranhas da Terra e depois caiam na forma de chuva”, diz David Beerling. “No entanto, esta forma de pensar encaixa perfeitamente no contexto do funcionamento das plantas”, defende ainda o biólogo, acrescentando que os “poros” a que Newton se referia não eram os estomas, mas deviam ser os vasos que conduzem a seiva nos caules das plantas. A teoria da tensão-coesão que explica este fenómeno só surge pela primeira vez em 1895, passados mais de 200 anos.
No caderno de Newton não há mais nenhuma entrada sobre vegetais. David Beerling contou ao PÚBLICO que encontrou este texto, por acaso, “há um ano” e “infelizmente” não sabe o que levou o físico a refletir sobre a questão. Escreve o biólogo que a capacidade “de previsão” das origens deste fenómeno não o surpreende vindo daquele gênio: “É bom pensar que até Newton não era imune ao charme e aos desafios que o reino das plantas oferece às mentes criativas.”
O manuscrito de Newton sobre certas questões filosóficas inclui uma reflexão sobre a circulação da seiva nas plantas, escrito em 1660. Só em 1895 é que os botânicos propuseram a teoria que hoje é aceita.

Fonte:
Jornal Público ( Isaac Newton )

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Apolônio de Tiana

Apolônio de Tiana (15 d.C. – 100 d.C.) foi um filósofo neo-pitagórico e professor de origem grega. Seus ensinamentos influenciaram o pensamento científico por séculos após a sua morte.
A principal fonte sobre a sua biografia é a "Vida de Apolônio", de Flávio Filóstrato, na qual alguns estudiosos identificam uma tentativa de construir uma figura rival à de Jesus Cristo. Apolônio também é citado nas obras "A Vida de Pitágoras", de Porfírio, e "A Vida Pitagórica", de Jâmblico. Acredita-se ainda que ele seja o personagem "Apolo", citado na Bíblia em Atos dos Apóstolos e I Coríntios.
Apolônio foi vegetariano e discípulo de Pitágoras, com base no seu escrito, abaixo:
“Por mim discerni certa sublimidade na disciplina de Pitágoras, e como certa sabedoria secreta capacitou-o a saber, não apenas quem ele era a si mesmo, mas também o que ele tinha sido; e eu vi que ele se aproximou dos altares em estado de pureza, e não permitia que a sua barriga fosse profanada pelo partilhar da carne de animais; e que ele manteve o seu corpo puro de todas as peças de roupa tecidas de refugo de animais mortos; e que ele foi o primeiro da humanidade a conter a sua própria língua, inventando uma disciplina de silêncio descrito na frase proverbial, 'Um boi senta-se sobre ela.' Eu também vi que o seu sistema filosófico era em outros aspectos oracular e verdadeiro. Então corri a abraçar os seus sábios ensinamentos…”
Nascido na cidade de Tiana (Turquia), na província da Capadócia, na Ásia Menor, então integrante do Império Romano, alguns anos antes da era cristã, foi educado na cidade vizinha de Tarso, na Cilícia, e no templo de Esculápio em Aegae, onde além da Medicina se dedicou às doutrinas de Pitágoras, vindo a adotar o ascetismo como hábito de vida em seu sentido pleno.
Após manter um juramento de silêncio por cinco anos, ele partiu da Grécia através da Ásia e visitou a Índia, absorvendo o misticismo oriental de magos, brâmanes e sacerdotes. Durante esta viagem, e subsequente retorno, ele atraiu um escriba e discípulo, Damis, que registrou os acontecimentos da vida do filósofo. Estas notas, além de cobrirem a vida de Apolônio, compreendem acontecimentos relacionando a uma série de imperadores, já que viveu 100 anos. Posteriormente essas notas chegaram às mãos da imperatriz Julia Domna, esposa de Septímio Severo, que encarregou Filóstrato de usá-las para elaborar uma biografia do sábio. Escreveu muitos livros e tratados sobre uma ampla variedade de assuntos durante a sua vida, incluindo ciência, medicina, e filosofia.
As suas teorias científicas foram finalmente aplicadas à ideia geocêntrica de Ptolemeu que o Sol revolvia ao redor da Terra. Algumas décadas após a sua morte, o Imperador Adriano colecionou os seus trabalhos e assegurou a sua publicação por todo o império.
Realizou milagres, curou os doentes, alimentou os famintos e expulsou os demônios. Por onde passava promulgava a paz para as multidões que o seguiam. Denunciava os opressores do povo e por fim foi julgado e condenado em um tribunal romano, até hoje nada se sabe de seu cadáver. A fama de Apolônio ainda era evidente em 272, quando o Imperador Aureliano sitiou Tiana, que tinha se rebelado contra as leis romanas. Num sonho ou numa visão, Aureliano afirmava ter visto Apolônio falar com ele, suplicando-lhe poupar a cidade de seu nascimento. À parte, Aureliano contou que Apolônio lhe disse "Aureliano, se você deseja governar, abstenha-se do sangue dos inocentes! Aureliano, se você conquistar, seja misericordioso!" O Imperador, que admirava Apolônio, poupou desse modo a cidade. Também no século III, Flávio Vopisco, em seu escrito sobre Aureliano, cita Apolônio.
O Livro de Pedras, do alquimista medieval islâmico Jabir ibn Hayyan, é uma análise prolongada de trabalhos de alquimia atribuídos a Apolônio. Devido a algumas semelhanças de sua biografia com a de Jesus, Apolônio foi, nos séculos seguintes, atacado pelos Padres da Igreja sendo considerado desde um impostor até um personagem satânico. Mas houve também quem o exaltou comparando-o aos grandes magos do passado, como Moisés e Zoroastro.
Apolônio faleceu em Éfeso, cerca de 100 da Era Cristã.
Com toda a discussão sobre quem copiou e quem foi copiado, a verdade é que suas histórias de Jesus e Apolônio de Tiana são muito semelhantes.
Nascidos na mesma época (Cristo também nasceu entre 4 e 6 a.C), mortos no mesmo séculos e com atos que inspiraram muitos... A diferença apontada por muitos pesquisadores é de que a vida de Apolônio recebeu atenção de muitas pessoas que a registrou, não apenas na região em que viveu mas nas regiões vizinhas, coisa que não aconteceu com seu xará Galileu, o que faz muitos apontarem para a possibilidade de Jesus ser uma cristificação da imagem de Apolônio. Mais do que isso, muitos dos rituais e símbolos usados nos sacramentos romanos podem ser seguidos de volta no tempo até repousarem nos pés de Apolônio. O missal, o altar, as vestimentas dos padres e muitos outros detalhes não tem qualquer relação com as histórias descritas na bíblia, mas podem facilmente ser atribuídas a uma herança direta aos elementos de alta magia apresentados por Apolônio.

Dânae

Ticiano - Dânae
Dânae foi, segundo a mitologia grega, uma princesa que foi alvo do amor de Zeus, de quem teve um filho. Dânae era filha de Acrísio, rei de Argos, e de Eurídice. Desapontado por não ter herdeiros masculinos, Acrísio procura um oráculo, o qual respondeu-lhe que, mesmo se escondesse no fim da Terra, seria morto pelo seu neto, filho de Dânae.
A princesa era ainda virgem e, para que jamais tivesse um filho, o rei aprisionou-a numa torre de bronze (segundo a tradição, poderá tê-la escondido também num quarto subterrâneo, cujas paredes se ergueram em bronze, ou numa caverna), que manteve constantemente vigiada por seus guardas mais valorosos. Pretendia, assim, evitar que ela lhe desse um herdeiro, seu futuro assassino.
Apesar de todos esses cuidados, Zeus, tomado de amores pela jovem e bela princesa, transmuta-se numa chuva de ouro, e penetra no edifício por um orifício no teto deste, caíndo sobre o colo de Dânae, engravidando-a.

Para alguns autores, esta forma alegórica subentende que o deus havia em verdade subornado regiamente aos vigias, a fim de assim entrar no claustro em que sua amada estava presa. Dânae é heptaneta de Urano, hexa-neta de Cronos e penta-neta de Poseidon.
Foi assim gerado Perseu. Tomando ciência do ocorrido, ordenou Acrísio que fossem, mãe e filho, lançados ao mar, dentro de um baú de madeira. Foi a solução encontrada para que não atraísse contra si a ira do deus, matando-lhe um filho: as águas, supostamente, matá-los-iam.
Mas o destino não favoreceu Acrísio: a pedido de Zeus, Poseidon acalmou os mares, e ambos sobreviveram. Levados pelas correntes até a ilha de Sérifo, foram encontrados por pescadores que então os levaram até o monarca local, Polidectes.
Acolhidos por Dites, irmão do soberano, este educa a criança. O rei acaba apaixonando-se por Dânae. Após alguns anos, pretende desposá-la mas, temendo que o jovem filho se opusesse, ordena-lhe que mate a terrível Medusa, esperando que este fracassasse, morrendo. Este monstro petrificava todos aqueles atingidos por seu olhar, mas o jovem herói consegue realizar seu intento e, na volta, jogos atléticos comemorativos são realizados em Lárissa.
Ali, na plateia, está presente o rei Acrísio. Este é alvejado por um dardo (ou disco, nalgumas versões) lançado por Perseu, cumprindo assim a profecia.
Simbologia
Interpreta-se este mito como sendo a chuva a fertilizar o solo com suas gotas douradas. Dânae significaria, assim, a terra ávida pela umidade, que apenas o Zeus poderia fecundar.
Variantes do Mito
A Dânae é atribuída a fundação da cidade de Ardea, na região de Lácio - hoje uma comuna de Roma.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

O Olhar do Historiador: As Cruzadas

"Nunca os muçulmanos foram humilhados dessa forma", repete al-Harawi, "nunca antes suas terras foram tão agressivamente devastadas". [...] Foi, de fato, na sexta-feira 22 do tempo de Chaaban, do ano de 492 da Hégira, que os franj se apossaram da Cidade Santa, após um sítio de quarenta dias. Os exilados ainda tremem cada vez que falam nisso, seu olhar se esfria como se eles ainda tivessem diante dos olhos aqueles guerreiros louros, protegidos de armaduras, que espelham pelas ruas o sabre constante, desembainhando, degolando homens, mulheres e crianças, pilhando as casas, saqueando as mesquitas.
Dois dias depois de cessada a chacina não havia mais um só muçulmano do lado de dentro das cidades. Alguns aproveitaram-se da confusão para fugir, pelas portas que os invasores haviam arrombado. Outros jaziam, aos milhares, em poças de sangue na soleira de suas casas ou nas proximidades das mesquitas. [...] Os últimos sobreviventes forçados a cumprir a pior das tarefas: transportar os cadáveres dos seus, amontoando-os, sem sepultura, nos terrenos baldios para em seguida queimá-los. Os sobreviventes por sua vez deveriam proteger-se para não serem massacrados ou vendidos como escravos.
Batalha de Ager
O destino dos judeus de Jerusalém foi igualmente atroz. Durante as primeiras horas de batalha, vários deles participaram da defesa de seu bairro, a Judiaria, situada ao norte da cidade. Mas quando a parte da muralha que delimitava suas casas desmoronou, os judeus se apavoravam, vendo que os louros cavaleiros começavam a invadir as ruas da cidade. A comunidade inteira, reproduzindo um gesto ancestral, reuniu-se na sinagoga principal para rezar. Os franj então bloquearam todos os acessos. Depois, empilhando feixes de lenha em torno, atearam fogo. Os que tentavam sair eram mortos nos becos vizinhos, os outros, queimados vivos.
Amin Maalouf.
As cruzadas vistas pelos árabes. São Paulo: Brasiliense, 1989. p. 12.