sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Fim

Vou parar de postar neste blogue. Foi muito bom! Tem coisa interessante, mas vou parar.
Obrigada para quem me visitou aqui.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Encontrar o que se perdeu

Edmund Dulac
Encontrar o que se perdeu
dentro da cabeça
antes de usar a mão
para pegá-lo fora dela
e encontrar-se no sentimento
longínquo, quase esquecido
é encontrar os óculos para ver melhor
a hora certa do dia, reaprender
apreender, usufruir de novo
o gosto de saber, guardar
ainda que for para dar ou dividir
porque assim não estará
nem perdido, nem preso, nem à parte.

Armando Freitas Filho

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Ilusões da Vida

Gustav Klimt
Quem passou pela vida em branca nuvem
E em plácido repouso adormeceu,
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu;
Foi espectro de homem, não foi homem,
Só passou pela vida, não viveu.

Francisco Otaviano (1825-1889)

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Capítulo 433

Yusuf Adebayo Cameron Grillo
Passei entre eles estrangeiro porém nenhum viu que eu o era. Vivi entre eles espião, e ninguém, nem eu, suspeitou que eu o fosse. Todos me tinham por parente: nenhum sabia que me haviam trocado à nascença. Assim fui igual aos outros sem semelhança, irmão de todos sem ser da família.
Vinha de prodigiosas terras, de paisagens melhores que a vida, mas das terras nunca falei, senão comigo, e das paisagens, vistas se sonhava, nunca lhes dei notícia. Meus passos eram como os deles nos soalhos e nas lajes, mas o meu coração estava longe, ainda que batesse perto, senhor falso de um corpo desterrado e estranho.
Ninguém me conheceu sob a máscara da igualha
¹, nem soube nunca que era máscara, porque ninguém sabia que neste mundo há mascarados. Ninguém supôs que ao pé de mim estivesse sempre outro, que afinal era eu. Julgaram-me sempre idêntico a mim. Abrigaram-me as suas casas, as suas mãos apertaram as minhas, viram-me passar na rua como se eu lá estivesse; mas quem sou não esteve nunca naquelas salas, quem vivo não tem mãos que outros apertem, quem me conheço não tem ruas por onde passe, a não ser que sejam todas as ruas, nem que nelas o veja, a não ser que ele mesmo seja todos os outros.
Vivemos todos longínquos e anônimos; disfarçados, sofremos desconhecidos. A uns, porém, esta distância entre um ser e ele mesmo nunca se revela; para outros é de vez em quando iluminada, de horror ou de mágoa, por um relâmpago sem limites; mas para outros ainda é essa a dolorosa constância e quotidianidade da vida.
Saber bem que quem somos não é conosco, que o que pensamos ou sentimos é sempre uma tradução, que o que queremos o não quisemos, nem porventura alguém o quis saber tudo isto a cada minuto, sentir tudo isto em cada sentimento, não será isto ser estrangeiro na própria alma, exilado nas próprias sensações?
Mas a máscara, que estive fitando inerte, que falava à esquina com um homem sem máscara nesta noite de fim de Carnaval, por fim estendeu a mão e se despediu rindo. O homem natural seguiu à esquerda, pela travessa a cuja esquina estava. A máscara — dominó sem graça — caminhou em frente, afastando-se entre sombras e acasos de luzes, numa despedida definitiva e alheia ao que eu estava pensando.
Só então reparei que havia mais na rua que os candeeiros acesos, e, a turvar onde eles não estavam, um luar vago, oculto, mudo, cheio de nada como a vida...
Bernardo Soares
(heterônimo de Fernando Pessoa)
Livro do Desassossego.
¹, Igualha = Identidade de condição ou posição social, naipe: cada um com os da sua igualha, com os seus iguais.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Destino

Eugène Delacroix - Procession of Musicians in Tangier
“O destino gosta de inventar desenhos e figuras. A dificuldade dele reside no complicado. A vida mesma, porém, é difícil pela simplicidade. Tem apenas algumas coisas de um tamanho que nos não é adequado. O santo, rejeitando o destino, escolhe estas coisas, em face de Deus. Mas que a mulher, conforme à sua natureza, tenha de fazer a mesma escolha em relação ao homem, é o que evoca a fatalidade de todas as relações de amor: resoluta e sem destino como uma eterna, ergue-se ela ao lado dele, dele que se transforma. Sempre a amante ultrapassa o amado, porque a vida é maior do que o destino. O dom de si mesma quer ser desmedido: é esta a sua ventura. A dor inominada do seu amor, porém, foi sempre esta: que se exija dela que limite este dom de si mesma.”
Rainer Maria Rilker (1875-1926)
Tradução: Paulo Quintela

domingo, 13 de setembro de 2015

O Adjetivo

Jeanie Tomanek
O adjetivo? Que horror
quando não é incisivo
quando atira para o vago
o pobre substantivo
ou o circunda de um halo
de um falso resplendor,
em que o ouro utilizado
não é ouro é só dourado!

O sol assim captado
é sol, mas sol de teatro,
ouro em falsete, luz barata,
e no prego não dá nada,

que o prego não acredita
(senão já estava falido)
nesse ouro sem quilate
que usam a valdevina

e o poeta que se orna
(que orneia, melhor diria)
de luzidias mentiras,
de poética poesia.

Disse pouco do que queria
na parte que antecede.
Se é discursiva, a poesia
também não serve...

Voltando ao adjetivo
(nada tenho contra ele):
é melhor ficar despido,
cosido com a própria pele,

do que pedir emprestada
a piedosos enchumaços
aquela largura de ombros
que nos faz ginasticados,

quando, em verdade, não temos
mais ginástica do que essa
em que somos atletas
e que se resume apenas

no aguentar alegre
do peso quotidiano
(pode ser que para o ano
a terra nos seja leve).

Tal como do mal o menos
- e nesta regra redijo-
antes quero sóbrios termos
do que fingir que sou rico...

Alexandre O'Neill (1924-1986)

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

A língua na nossa identidade

Theresa Bernstein – Os Imigrantes
“Por um tempo, assim como tantos outros emigrantes, estive, para todos os efeitos, sem linguagem, e da tristeza daquela condição, compreendi o quanto o âmago da nossa existência, a nossa compreensão de identidade, depende de ter uma língua viva dentro de nós. Perder toda a linguagem interna é sucumbir a uma escuridão inarticulada em que nos tornamos estrangeiros para nós mesmos; perder a habilidade de descrever o mundo é retratá-lo um pouco menos vívido, um pouco menos lúcido. E além, a riqueza na articulação propicia tonalidades de sutileza e nuance às nossas percepções e ao pensamento. Para mim, uma das passagens mais sensíveis na escrita de Nabokov é sua invocação dos sons do russo, ao final de Lolita. Lá ele evoca não só a melodia, a eufonia dos sons do russo, de maneira convincente, mas também a profundidade e a totalidade da existência da língua no nosso ser. É essa relação com a língua, mais do que o domínio superficial dela, que é difícil de duplicar nas línguas que se aprende posteriormente.”
Eva Hoffman

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Duma outra infância, inventada...

Stanhope Alexander Forbes
Duma outra infância, inventada,
Guardo memórias que são
Reais reversos do nada
Que as verdadeiras me dão.

Estas, se acaso regressam,
Em tropel e confusão
Ao limiar-me, tropeçam
No corpo das que lá estão.

Assim, mentindo as raízes
Do meu confuso começo,
Segrego imagens felizes
Com que as funestas esqueço.

Reinaldo Ferreira (1922-1959)

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Família

Minha família é disfuncional, completamente. Nunca existiu amor lá. Só ódio, rancor e cobrança.
Meu pai abusou de mim sexualmente a primeira vez que me lembro eu deveria ter 8 a 9 anos. Mas acredito que antes disso deva ter feito outras coisas porque a memória da gente capta apenas alguns fragmentos e isso é estranho. Eu reagi com muito espanto e indignação, mas não obtive apoio familiar, ao contrário minha mãe pegou ódio de mim e ai eu fui abusada com espancamentos, fome, humilhações, abusos psicológicos e tortura. Fui queimada duas vezes com ferro de passar roupa super quente e nem ao médico me levaram.
Meu pai ao chegar e ver meu braço e meu choro foi buscar uma pomada e minha mãe nem aí.
Meu irmão que fez isso pela primeira vez o fez antes de ir para a faculdade, ou seja, era adulto e estudado, mas não se arrependeu.
Depois de uns meses uma irmã mais velha fez o mesmo, além dela me cortar o cabelo de maneira totalmente humilhante e por trás, traiçoeiramente, pois ela tem ódio de mim porque eu nasci e tirei o colo do pai dela.
Eu fiquei menstruada com 13 anos e não me compravam Modess. Foi porque eu "roubei" um Modess dela que ela me queimou.
Só fui comprar Modess quando comecei a trabalhar de doméstica de depois na Gessy-Lever.
Eu ia para a escola com uniforme sujo, inclusive de sangue de menstruação, sapato aberto, ou seja, com sola saindo, saia sem barra e com fome, sem almoço. Repeti de ano ai tiraram-me da escola, pois eu não me esforcei para passar de ano.
Ai ficávamos eu e minha mãe em casa e ela aproveitava para me dar surras imensas com cordão de ferro. Dizia quero te matar! Fez isso muitas vezes eu tinha que ficar fora de casa até a hora de dormir até o dia em que a xinguei de todos os nomes possíveis e imagináveis. Ai ela parou. Logo depois comecei a trabalhar e ela ficou doente. Teve câncer e morreu. Isso até meus 23 anos.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Cadernos do Subterrâneo

Sir Edward John Poynter
Oh, se eu não fizesse nada só por preguiça! Meu Deus, que respeito teria por mim. E teria esse respeito, precisamente, porque era capaz, pelo menos, de ter preguiça; haveria em mim, pelo menos, a certeza de uma característica definida. Se perguntassem de mim: quem é? E respondessem: um mandrião — isso ser-me-ia extremamente agradável de ouvir. Quer dizer que tinha uma característica determinada, logo, era possível dizer algo de mim. «Mandrião!» — mas isso é um título, um cargo, uma carreira. Não é brincadeira, é verdade. Nesse caso, seria membro de pleno direito de um clube de primeira e passava a vida a respeitar-me. Conheci um sujeito que toda a vida se orgulhou de ser perito em champanhe Laffite. Considerava isso uma grande qualidade sua e nunca duvidava de si mesmo. Morreu, não só de consciência tranquila, mas de consciência triunfante, e tinha absoluta razão. Quanto a mim, escolheria uma carreira de mandrião e glutão, mas não de um simples e corriqueiro mandrião e glutão, antes, por exemplo, de adepto de tudo o que é belo e sublime. Que tal, na vossa opinião? Tive esta ideia há muito tempo. Muito esse «belo e sublime» me oprimiu a nuca, chegado aos meus quarenta anos; mas isso foi aos quarenta — se fosse antes, teria sido outra coisa! Teria também achado para mim, com toda a certeza, a minha correspondente atividade, como seja: beber brindando à saúde de tudo o que é belo e sublime. Não deixaria passar qualquer ocasião de verter, primeiro, uma lágrima no copo e, depois, de o emborcar em honra de tudo o que é belo e sublime. Tornar-me-ia lacrimejante como uma esponja embebida. Por exemplo, um artista pintava um quadro de Gay *. Imediatamente eu brindava à saúde do artista que pintava um quadro de Gay, porque gosto de tudo o que é belo e sublime. Um autor escrevia que «cada um faz o que lhe dá na gana»; de imediato brindo pela saúde de «quem me dá na gana» porque gosto de todo o «belo e sublime». Exigiria que me respeitassem por isso mesmo, perseguiria quem não me mostrasse respeito. Vivo sossegado, morro solenemente — mas é uma maravilha, uma verdadeira maravilha! E que barriga deixaria crescer, que papo triplo cultivaria, que nariz de sândalo elaboraria; e qualquer um diria olhando para mim: «Este tem pinta! Tem algo de verdadeiramente positivo!» Seja como for, é extremamente simpático ouvir características destas no nosso século negativo, meus senhores.
Fiódor Dostoiévski (1821-1881)
Tradução: Nina Guerra e Filipe Guerra

* Esta frase sarcasticamente invertida refere-se ao pintor russo Nikolai Gay (1831-1894) e ao seu quadro Última Ceia, que Dostóievski achava transmitir uma ideia falsa.