sábado, 29 de novembro de 2014

Canção

Alex Alemany
“Quem nos cantará uma canção, uma canção matinal, uma canção leve, tão aérea e ensolarada que consiga não expulsar as ideias negras, mas ao contrário, as convide a partilhar as nossas danças e os nossos cantos?”.
Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900)

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Saudade

Josephine Wall
Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos,
já não se adoçará junto a ti a minha dor.

Mas para onde vá levarei o teu olhar
e para onde caminhes levarás a minha dor.

Fui teu, foste minha. O que mais? Juntos fizemos
uma curva na rota por onde o amor passou.

Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te ame,
daquele que corte na tua chácara o que semeei eu.

Vou-me embora. Estou triste: mas sempre estou triste.
Venho dos teus braços. Não sei para onde vou.

... Do teu coração me diz adeus uma criança.

E eu lhe digo adeus.

Pablo Neruda (1904-1973)

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Vestibular Unicamp

Crianças Ladronas
Jorge Amado – Capitães da Areia
TEXTO I
“Já por várias vezes o nosso jornal, que é sem dúvida o órgão das mais legítimas aspirações da população baiana, tem trazido notícias sobre a atividade criminosa dos Capitães da Areia, nome pelo qual é conhecido o grupo de meninos assaltantes e ladrões que infestam a nossa urbe”.
(Jorge Amado, Capitães da Areia. São Paulo: Companhia das Letras).
TEXTO II
“O Sem-Pernas já tinha mesmo (certo dia em que penetrara num parque de diversões armado no Passeio Público) chegado a comprar entrada para um [carrossel], mas o guarda o expulsou do recinto porque ele estava vestido de farrapos. Depois o bilheteiro não quis lhe devolver o bilhete da entrada, o que fez com que o Sem-Pernas metesse as mãos na gaveta da bilheteria, que estava aberta, abafasse o troco, e tivesse que desaparecer do Passeio Público de uma maneira muito rápida, enquanto em todo o parque se ouviam os gritos de: “Ladrão!, ladrão!” Houve uma tremenda confusão enquanto o Sem-Pernas descia muito calmamente a Gamboa de Cima, levando nos bolsos pelo menos cinco vezes o que tinha pago pela entrada. Mas o Sem-Pernas preferiria, sem dúvida, ter rodado no carrossel (...)”.
(Jorge Amado, Capitães da Areia. São Paulo: Companhia das Letras)

Comparando os textos verifica-se que o 1º é um texto jornalístico e identificam-se com a voz e a ideologia das classes dominantes baianas, que estão no controle dos meios de comunicação, e, nesse sentido, opõem-se à voz narradora do livro.

Já o 2º texto é do autor Jorge Amado que é simpático ao universo dos marginalizados e excluídos, universo que inclui diversos recortes possíveis, como negros, mulheres, pobres, operários e, como nesta obra de Amado, crianças e adolescentes abandonados. A intrusão do narrador, ao final do trecho (Mas o Sem-Pernas preferiria, sem dúvida, ter rodado no carrossel...), reforça esta adesão, na medida em que o narrador não deixa de identificar no Sem-Pernas o desejo e o sentimento infantil. Além disso, o trecho deixa claro também o objetivo da denúncia social que move a voz do narrador, uma vez que ela se lança à representação positiva do excluído, tanto no seu aspecto social, quanto psicológico.

sábado, 22 de novembro de 2014

Ecce Homo

Mihaly Munkacsy - Le Christ devant Pilate
Sim, eu sei de onde venho!
Insatisfeito como o fogo
Ardo para me consumir.
Aquilo em que toco torna-se flama,
Em carvão aquilo que abandono:
Sou fogo, com certeza.
“Que me importam bondade, finura e gênio, se o homem que possui essas virtudes tolera no seu coração a mornice da fé, do juízo, se a exigência da certeza não é o seu mais profundo desejo, a sua mais íntima necessidade!”

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Desejo de Libertação

Francis Sydney Muschamp
“Ainda que o homem compreendesse de forma clara suas possibilidades de libertação, isso não poderia fazê-lo progredir um passo no sentido de sua realização.
Para estar em condições de realizar essas possibilidades, ele deve ter um desejo muito ardente de libertação, deve estar pronto a tudo sacrificar, a tudo arriscar para sua libertação”.
P.D. Ouspensky (1878-1947)

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Herança

Arthur Timótheo da Costa
“Eu pareço com aquele que levava o tijolo consigo
para mostrar ao mundo como era sua casa.”

Bertolt Brecht
Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles negros e índios supliciados. Todos nós brasileiros somos, por igual, a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal, que também somos. Como descendentes de escravos e de senhores de escravos seremos sempre servos da maldade destilada e instilada em nós, tanto pelo sentimento da dor intencionalmente produzida para doer mais, quanto pelo exercício da brutalidade sobre homens, sobre mulheres, sobre crianças convertidas em pasto de nossa fúria.
A mais terrível de nossas heranças é esta de levar sempre conosco a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta a explodir na brutalidade racista e classista.
Darcy Ribeiro (1922-1997)

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

O poeta

Auguste Jean Baptiste Vinchon
“O poeta desperta no homem através de um acontecimento inesperado, um incidente externo ou interno: uma árvore, um rosto, um "motivo", uma emoção, uma palavra. E às vezes é uma vontade de expressão que começa a partida, uma necessidade de traduzir o que se sente; mas às vezes é, ao contrário, um elemento de forma, um esboço de expressão que procura sua causa, que procura um sentido no espaço da minha alma... Observem bem esta dualidade possível de entrada em jogo: às vezes, alguma coisa quer se exprimir, às vezes, algum meio de expressão quer alguma coisa para servir.”
Paul Valéry (1871-1945)

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Carcará

Carcará, pega mata e come
Carcará não vai morrer de fome
Carcará, mais coragem do que "hôme"
Carcará, pega mata e come

Carcará, lá no sertão
É um bicho que "avoa" que nem avião
É um pássaro malvado
Tem o bico volteado que nem gavião
Carcará, quando vê roça queimada
Sai voando e cantando, Carcará
Vai fazer sua caçada
Carcará come "inté" cobra queimada

Mas quando chega o tempo da invernada
No sertão não tem mais roça queimada
Carcará mesmo assim não passa fome
Os "burrego" que nascem na baixada

Carcará, pega mata e come
Carcará não vai morrer de fome
Carcará, mais coragem do que "hôme"
Carcará, pega mata e come
Carcará, é malvado é valentão
É a águia lá do meu sertão
Os "burrego" novinho não podem andar
Ele pega no umbigo "inté" matar
Carcará...
José Cândido e João do Vale

A cadeia alimentar pode ser assim representada:
► planta (produtor – primeiro nível trófico)
► roedor (consumidor primário – segundo nível trófico)
► cobra (consumidor secundário – terceiro nível trófico)
► carcará (consumidor terciário – quarto nível trófico)

domingo, 16 de novembro de 2014

O Homem

Joan Miró
Eis o homem,
Nu e essencial.
Corpo estendido sobre a terra,
Olhos voltados para o céu,
Gafanhoto pousado na mão de Deus.
Cabelos revoltos,
Barba que desponta,
Carne ainda virgem de pregos e espinhos.
Dentro do ovo,
A vida aspira irromper.
E o bater de asas da eternidade
Resgata o sonhador de seu torpor.
Adão que emerge da lama a cada instante,
Sopro sempre renovado.

Kabir (1440– 1518)
Poeta Hindu

sábado, 15 de novembro de 2014

Separação:

Mario Weinert
Só eu sei quanto me dói a separação!
Na minha nostalgia fico desterrado
À míngua de encontrar consolação.

À pena no papel escrever não é dado
Sem que a lágrima trace, caindo teimosa,
Linhas de amor na página da face.

Se o meu grande orgulho não obstasse
Iria ver-te à noite: orvalho apaixonado
De visita às pétalas da rosa.

Al-Mutamid (1040 e 1095)
Tradução: Adalberto Alves

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Enem

Uma norma só deve pretender validez quando todos os que possam ser concernidos por ela cheguem (ou possam chegar), enquanto participantes de um discurso prático, a um acordo quanto à validade dessa norma.

Segundo Habermas, a validez de uma norma deve ser estabelecida pela:

a) Liberdade humana, que consagra a vontade.
b) Razão comunicativa, que requer um consenso.

c) Conhecimento filosófico, que expressa a verdade.

d) Técnica científica, que aumenta o poder do homem.

e) Poder político, que se concentra no sistema partidário.

Resolução:
Habbermas desenvolve o conceito de razão comunicativa que busca superar o conceito de racionalidade instrumental, ampliando o conceito de razão, para o de uma razão que contenha em si as possibilidades de reconciliação consigo mesma e com todos.
Portanto a alternativa correta é ------------ B -----------

Unge-me

Edwin Howland Blashfield
“Unge, ó Deus, meus olhos
Com os raios de luz
Para que eu possa Te ver
Em toda a criação: no calor da sepultura,
Nas águias do céu, nas ondas do mar,
Nos poços da terra, nas flores,...
Na relva, no pó do ouro, na areia dos desertos”.

Mikhail Naimy (1889-1988)

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Enem

“Quando é meio-dia nos Estados Unidos, o sol, todo mundo sabe, está se deitando na França. Bastaria ir à França num minuto para assistir ao pôr-do-sol”.
(SAINT-EXUPÉRY, A. O Pequeno Príncipe)

A diferença espacial citada é causada por qual característica física da Terra?

a) Achatamento de suas regiões polares.
b) Movimento em torno do seu próprio eixo.
c) Arredondamento de sua forma geométrica.
d) Variação periódica de sua distância do Sol.
e) Inclinação em relação ao seu plano de órbita
----------------- Alternativa B ---------------------

Enem

Felix Parra - Galileo Galilei
“A filosofia encontra-se escrita neste grande livro que continuamente se abre perante nossos olhos (isto é, o Universo), que não se pode compreender antes de entender a língua e conhecer os caracteres com os quais está escrito. Ele está escrito em língua matemática, os caracteres são triângulos, circunferências e outras figuras geométricas, sem cujos meios é impossível entender humanamente as palavras; sem eles nós vagamos perdidos dentro de um obscuro labirinto”.
(GALILEU, G. O ensaiador. Coleção Os Pensadores).

No contexto da revolução cientifica do século XVII, assumir a posição de Galileu significava defender:

a) continuidade do vinculo entre ciência e fé dominante na Idade Média.
b) necessidade de o estudo linguístico ser acompanhado do exame matemático.
c) oposição a nova física quantitativa aos pressupostos da filosofia escolástica.
d) importância da independência da investigação cientifica pretendida pela Igreja.
e) inadequação da matemática para elaborar uma explicação racional da natureza.
----------------- Alternativa C ---------------------

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Enem

Jean-Auguste-Dominique Ingres - O estudo das tragédias gregas
TEXTO I
“Olhamos o homem alheio às atividades públicas não como alguém que cuida apenas de seus próprios interesses, mas como um inútil... decidimos as questões públicas por nós mesmos, ou pelo menos nos esforçamos por compreendê-las claramente, na crença de que não é o debate que é o empecilho à ação, e sim o fato de não se estar esclarecido pelo debate antes de chegar a hora da ação”.
(Tucídides, História da Guerra do Peloponeso)
TEXTO II
“Um cidadão pode ser definido por nada mais nada menos que pelo direito de administrar a justiça e exercer funções públicas; algumas destas, todavia, são limitadas quanto ao tempo de exercício, de tal modo que não podem de forma alguma ser exercidas duas vezes pela mesma pessoa, ou somente podem sê-lo depois de certos intervalos e tempo prefixados”.
(ARISTÓTELES. Política. Brasília Ed Unb)

Comparando os textos I e II, tanto para Tucídides (no século V a.C.) quando para Aristóteles (no século IV a.C.) a cidadania era definida pelo:

a) Prestígio social
b) Acúmulo de riqueza.
c) Participação política.
d) Local de nascimento.
e) Grupo de Parentesco.
----------------- Alternativa C ---------------------

Enem

“Alguns dos desejos são naturais e necessários; outros, naturais e não necessários; outros, nem naturais nem necessários, mas nascidos de vã opinião. Os desejos que não nos trazem dor se não satisfeitos não são necessários, mas o seu impulso pode ser facilmente desfeito , quando é difícil obter sua satisfação ou parecem geradores de dano”.
EPICURO DE SAMOS. Doutrinas principais.
In: SANSON, V. F. Textos de filosofia.
Rio de Janeiro. Eduff, 1974.

No fragmento da obra filosófica de Epicuro, o homem tem como fim:
a) alcançar o prazer moderado e a felicidade.
b) valorizar os deveres e as obrigações sociais.
c) aceitar o sofrimento e o rigorismo da vida com resignação.
d) refletir sobre os valores e as normas dadas pela divindade.
e) defender a indiferença e a impossibilidade de se atingir o saber.

----------------- Alternativa A ---------------------

domingo, 9 de novembro de 2014

Por que os homens amam com os olhos e a mulheres com os ouvidos

René Magritte - Os amantes
Vai, portanto, não hesites.
Procura conquistar todas as mulheres.
Em mil, haverá talvez uma para te resistir.
E quer cedam, quer resistam, todas gostam de ser cortejadas.
Mesmo se fores derrotado, a derrota será sem perigo.
Mas por que serias repelido,
já que toda volúpia nova parece mais gostosa
e somos mais seduzidos por aquilo que não nos pertence?
A colheita é sempre mais abundante no campo alheio,
e o rebanho do vizinho tem as tetas mais grossas.

(Ovídio – Sec. I a.C)
Esta frase foi escrita por Ovídio no seu livro “A arte de Amar” no século I a.C. Este livro levou Ovídio a ser expulso de Roma pelo imperador Augusto, uma vez que promovia o amor extraconjugal, algo intolerável para um governo que valorizava a família e os bons costumes. Apesar de ser um livro muito antigo, suas ideias ainda permanecem atuais, pois a natureza humana não se modificou de lá para cá. O homem sempre foi um ser sexual e a mulher sempre foi um ser afetivo. Mas por que isso sempre foi assim? Por que o homem é um animal tão devotado ao sexo e a mulher aos sentimentos? Numa primeira análise, somos levados a crer que esses impulsos são naturais. Mas numa análise mais atenta, percebemos que esses impulsos foram determinados historicamente. O homem não é somente um ser biológico determinado pela natureza, mas também é determinado historicamente pelas práticas sociais. A sexualidade e a reprodução são características imanentes no ser humano, assim como a função da alimentação; no entanto, o amor transcende a mera reprodução e sexualidade. O amor não surge como algo pronto e acabado, mas sim se desenvolve historicamente. Tal é a hipótese que tentaremos demonstrar.
Tornou-se comum pensar que o amor surge na espécie através da atração sexual. Ele seria um sentimento inconsciente que a espécie usou para se reproduzir. Contudo, o amor não pode ser definido apenas como desejo sexual. Do nosso ponto de vista, o amor não tem por fim a sexualidade e a reprodução. A reprodução teve um papel fundamental na criação do amor na espécie humana; todavia, em sua evolução ele transcendeu a mera sexualidade.
A psicologia e a psicanálise sempre partiram do pressuposto de que os acontecimentos da infância deixam marcas profundas na estruturação da personalidade. Esse postulado nos faz pensar a infância da humanidade. Essa infância deixou marcas indeléveis na natureza humana e determinou as diferenças entre os homens e a mulheres. Para entendermos a relação amorosa em nossos dias, devemos buscar uma resposta nos primórdios da humanidade, quando o homem era ainda um antropoide. A resposta para entendermos a origem do sentimento do amor se encontra numa época onde o homem ainda não se diferenciava da natureza. Os impulsos animais ainda não haviam se transformados em impulsos humanos. O nosso argumento parte de pressuposto que há traços mnemônicos de épocas passadas que ressoa em nós. O passado da humanidade permanece determinando nossas ações, nossos sins e nãos, nossas escolhas e necessidades.
Foi longo o processo que formou o amor ao sexo oposto, foram necessários muitos estímulos repetitivos para que o desejo se tornasse nivelado. Hoje o homem ama com os olhos e a mulher com os ouvidos. O homem é atraído quando olha uma bela forma, um corpo bem definido, uma beleza estonteante. Já a mulher é atraída por uma boa conversa, pelo cavalheirismo, pela delicadeza e pelos bons modos. O homem é mais visual, suas emoções, desejos estão ligadas ao olhar. Já a mulher é auditiva, com uma simples frase ela pode ser conquistada. Já dizia o filósofo alemão Nietzsche, “lançou uma frase no ar, como diversão, e essa frase fez cair uma mulher”. O homem é como um beija-flor, quer copular todas as flores e a mulher é como uma árvore, quer criar raízes e um abrigo para seus pássaros. Mas como será que surgiram estes dois impulsos básicos no homem e na mulher?
Hoje sabemos que o homem tem uma natureza mais sexual que as mulheres. Ele é mais visual, vive mais esteticamente, vive para forma e beleza da mulher. Por sua natureza sexual, o homem quer sempre satisfazer suas pulsões com mulheres sempre diferentes, e sempre se mostra farto de cada uma isoladamente. Ele não é atraído pela individualidade da mulher. Os homens são naturezas eróticas, seu amor é genérico. Quando o homem deixou de usar a força para usufruir o objeto do desejo, a vida se tornou carência. Desde que o homem tornou-se sedentário, passando a constituir famílias, o amor passou a ser uma conquista para suprir uma carência afetiva O homem é carente de beleza. Ele busca o belo em todos os lugares. A beleza é medida, harmonia, proporção. A beleza é fonte de satisfação e bem-estar, ela encanta gerando o desejo e o amor. O amor desde os primórdios da vida conjugal sempre teve como motor a carência. Para superá-la ele teve que ser calculista e engenhoso. No amor o que vale é a esperteza, o engano, a ludibriação. A conquista depende da astúcia do homem. O homem deseja sair de um estado de penúria para um estado de riqueza e satisfação. O amor oscila entre possuir a pessoa amada e não possuir. O cálculo, o procedimento eficaz, a coordenação dos meios com os fins na busca amorosa tornou-se uma necessidade. Coube ao homem usar de todos os artifícios para conquistar a mulher. O desejo não se detém diante de nada, nem mesmo diante do perigo. A mulher, por sua vez, é mais afetiva, vive para o cuidado da casa e da família. A necessidade de casar, constituir família e criar filhos é uma necessidade, um instinto. A mulher que não alcança esse objetivo se frustra, torna-se infeliz. Por isso ela se preocupa com a beleza. A beleza é sua astúcia e a sedução é sua arma, seu cálculo, sua forma de operar. A busca da mulher é sempre por amor e segurança. Ela busca inconscientemente um macho que cuide de sua prole tal como nos primórdios da humanidade. A mulher, de forma geral, quando se trata de enfrentar a realidade social e econômica se sente mais confiável ao lado de um homem. Ela busca inconscientemente um apoio de um marido. Além disso, o amor da mulher, ao contrário do homem, é singular. Ela não ama todo mundo, mas apenas ama um indivíduo em particular. Ela ama naquele instante apenas um, como se houvesse no mundo apenas esse. Talvez seja por isso que a mulher primeiro se apaixona para depois fazer amor, já o homem primeiro faz amor para depois se apaixonar.
Foi a partir do Neolítico, portanto, que surgiu a necessidade de unidade e indivisão com outro ser. A partir do neolítico o desejo sexual de reprodução entre dois seres transcendeu a genitalidade e tornou-se amor. A reprodução e a sexualidade não são mais o fator primordial na relação entre dois seres. Há uma ruptura, uma quebra, uma transcendência do amor em relação à vida. O amor torna-se harmonia e união dos contrários, torna-se atração dos opostos e desejo de unidade e indivisão. No amor buscamos o ser complementar. Amamos o que nos completa, na busca do pleno preenchimento e da perfeição. A vida sem amor torna-se uma vida sem sentido. “O fato de ao instinto do acasalamento, que serve apenas para a reprodução da vida, ter-se juntado o amor, que não se preocupa com ela, é uma imensa libertação em relação à vida. Do mesmo modo que a arte é uma, quando se ergue acima do natural”. (SIMMEL, 1993, p.175). O amor ao emancipar-se dos fins de procriação tornou-se um fim em si mesmo. O amor em seu movimento interno, sua força e ritmo tornou-se vida no indivíduo. “O amor, que se tornou algo totalmente autônomo, transvital, em que se realiza a ruptura em relação à vida e seu serviço, transforma-se de novo em vida na natureza erótica (…)”. (SIMMEL, 1993, 175). Desde que o homem abandonou sua condição de nômade, a vida a dois foi assimilada por seu cérebro como prioridade. O amor tornou-se um impulso orgânico. A partir daí ele nunca mais conseguiu ser só. A vida a dois foi assimilada como um bem supremo, como princípio e fim da vida feliz. Quando o indivíduo está só, sente angústia e insatisfação. É comum o desanimo, a solidão, a ansiedade e a depressão no homem solitário. Mas quando há o amor, toda essa insatisfação desaparece, dando lugar à alegria e a satisfação consigo mesmo.

Fonte:
Filosofonet: ( Michel Aires de Souza )

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Eu passeava no jardim

Charles White
“Eu passeava no jardim. A primeira coisa que senti em meu coração, é que estava liberto de tudo. Eu tinha um sentimento de liberdade, de força nova.
Tive a experiência de um toque extraordinário que me preenchia com uma força desconhecida...
Uma doce efusão, repentina e indescritível, preencheu minha alma, e tudo em mim se inflamou. O mundo desapareceu aos meus olhos e já não tive senão um sentimento de amor, de paz, de eternidade.
Lágrimas inundavam meu rosto, derramando em meu corpo todo a harmonia quente do coração.”
Gregory Skovoroda (1722-1794)
Filósofo e místico da Ucrânia.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Como devemos viver a vida segundo Omar Kahayyán

Omar Khayyám (1048-1131)
A vida não é um mar de rosas. A experiência nos mostra que pessoas honestas são perseguidas, que a hipocrisia e a mentira são normas e lei nas relações sociais, que os idiotas e ineptos são engrandecidos e adulados, que ter nascido não é uma graça divina, e que a vida é uma escravidão onde tudo é claustro, frívolo e precário. Quem pensa assim é Omar Kahayyán, o maior filósofo pessimista da Pérsia, atual Irã. Nasceu por volta do ano 1080 perto da cidade de Nishapur e veio morrer aos oitenta e cinco anos de idade. Era filósofo, matemático e astrônomo preocupado em entender o sentido da vida e o enigma do universo. Apesar de enxergar friamente a vida, tal como ela é, encontrou na poesia, no vinho e nas mulheres a razão do seu viver. O ocidente o conhece graças as suas poesias. Ele as escrevia despreocupadamente como uma forma de desabafo e de alívio de suas frustrações. Seus poemas foram denominados pela tradição de “Rubaiatas”, plural de Rubaía, cujo significado é quadra, estrofe de quatro versos. São três os motivos de seus rubaiatas: a tristeza de se viver neste mundo; a insensatez dos dogmas da religião; e os prazeres do vinho e da sensualidade.
Para ele a vida é sem sentido, sem rumo, sem finalidade; negava o mundo e o concebia como um “cárcere asfixiante”.
Em um de seus poemas Omar Khayyán dizia que se tivessem consultado sobre sua vinda a terra, teria dito não. Sentia-se triste por ter nascido, achava que a vida é um algoz que nos força a aceitar um destino que não escolhemos. Ele nunca aceitou o fato de viver nesse mundo. Sentia-se perplexo e desajustado, também sentia angustia diante da morte, uma vez que ela nos leva a um aniquilamento final inexorável.
Ele também criticou as crenças e valores de sua época. Achava impossível ao homem provar a realidade de Deus. Em seus poemas usava a ironia desvelando as contradições dos dogmas religiosos.
Rubaiatas Poema 08

O Allah!
semeaste de armadilhas
e eriçaste de pecados
as curvas do meu caminho!

E depois advertiste:
- Ai de ti se caíres!

Sabemos
que nem um só átomo se esconde
à Tua visão
Em todo o universo

Ora,
se determinaste
que assim se me desdobrasse
o percurso da existência
e se tão meticulosamente
preparaste a minha queda,

Allah!
Por que me chamas
Pecador?
Apesar de seu extremo pessimismo Omár Khayyán cultivava um ideal hedonista de vida. Incitava seus contemporâneos a renunciar a tudo neste mundo: poder, fama, cargos e dinheiro. Achava que esses desejos só traziam perturbação à alma, eram indícios inexoráveis de infelicidade.
Para ele o afeto, o amor e a compreensão são os alicerces da vida. “A vida é amor e nada mais”. O mais importante na existência é conquistar o quinhão de ventura no decorrer de cada dia e nos entregarmos a nossa amada com uma taça de vinho nas mãos. Também dizia que devemos ter poucas necessidades. Se diariamente um homem consegue um pedaço de pão e um pouco de água, por que deveria trabalhar para outro? Por que precisa se humilhar diante de um estranho?
Para ele, quanto mais necessidades temos, mais dores e sofrimentos colhemos para o corpo e para a alma. Dizia que na vida devemos ser livres e tranquilos.
Ele asseverava que não devemos molestar, não odiar e não causar dano ou prejuízo a ninguém. Temos que idealizar uma vida serena, em quietude suportando risonhos as ofensas e todo horror das calúnias. Também não devemos culpar o destino pelo mal de que padecemos e não devemos agradecer os céus pelos bens que desfrutamos. Toda fatalidade, alegria ou tristeza que temos surge à revelia. Tudo que ocorre no mundo é contingente.
Diante das tristezas e percalços da vida aconselhava-nos a beber vinho. O vinho é exaltado e enaltecido em quase a metade de suas poesias. Para ele, o vinho nos abre as portas da percepção e não nos deixa alheios à vida, fazendo com que satisfaçamos nossos instintos mais primordiais. Assim nos liberta da dor, do sofrimento e nos propicia alegria e prazer. Em toda sua vida Omar Khayyán só encontrou consolo na bebida e nas mulheres. Sentia-se perplexo diante da incógnita da existência, era uma alma torturada em busca da verdade. Não encontrou respostas as suas indagações, sentiu depressão, angústia, desespero e acabou por se resignar. O vinho não era uma fuga ou apenas um simples prazer dos sentidos, muito pelo contrário, era um instrumento de êxtase místico para se atingir a verdade. Uma verdade que ele nunca encontrou.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Moralismo Capenga

O combate à corrupção foi palavra de ordem durante a ditadura. Nos porões do regime, porém, a ilegalidade prevaleceu.
Combater a corrupção e derrotar o comunismo: esses eram os principais objetivos que fermentavam os discursos nos quartéis, às vésperas do golpe que derrubou o governo João Goulart, em março de 1964. A noção de corrupção dos militares sempre esteve identificada com uma desonestidade específica: o mau trato do dinheiro público. Reduzia-se a furto. Na perspectiva da caserna, corrupção era resultado dos vícios produzidos por uma vida política de baixa qualidade moral e vinha associada, às vésperas do golpe, ao comportamento viciado dos políticos diretamente vinculados ao regime nacional-desenvolvimentista.
Animado por essa lógica, tão logo iniciou seu governo, o marechal Castello Branco (1964-1967) prometeu dar ampla divulgação às provas de corrupção do regime anterior por meio de um livro branco da corrupção – promessa nunca cumprida, certamente porque seria preciso admitir o envolvimento de militares nos episódios relatados. Desde o início o regime militar fracassou no combate à corrupção, o que se deve em grande parte a uma visão estritamente moral da corrupção.
Essa redução do político ao que ele não é – a moral individual, a alternativa salvacionista – definiu o desastre da estratégia de combate à corrupção do regime militar brasileiro, ao mesmo tempo em que determinou o comportamento público de boa parte de seus principais líderes, preocupados em valorizar ao extremo algo chamado de decência pessoal.
Os resultados da moralidade privada dos generais foram insignificantes para a vida pública do país. O regime militar conviveu tanto com os corruptos, e com sua disposição de fazer parte do governo, quanto com a face mais exibida da corrupção, que compôs a lista dos grandes escândalos de ladroagem da ditadura. Entre muitos outros estão a operação Capemi (Caixa de Pecúlio dos Militares), que ganhou concorrência suspeita para a exploração de madeira no Pará, e os desvios de verba na construção da ponte Rio–Niterói e da Rodovia Transamazônica. Castello Branco descobriu depressa que esconjurar a corrupção era fácil; prender corrupto era outra conversa: “o problema mais grave do Brasil não é a subversão. É a corrupção, muito mais difícil de caracterizar, punir e erradicar”.
A declaração de Castello foi feita meses depois de iniciados os trabalhos da Comissão Geral de Investigações. Projetada logo após o golpe, a CGI conduzia os Inquéritos Policiais-Militares que deveriam identificar o envolvimento dos acusados em atividades de subversão da ordem ou de corrupção. Com jurisdição em todo o território nacional, seus processos obedeciam a rito sumário e seus membros eram recrutados entre os oficiais radicais da Marinha e da Aeronáutica que buscavam utilizar a CGI para construir uma base de poder própria e paralela à Presidência da República.
O Ato Institucional n.º 5, editado em 13 de dezembro de 1968, deu início ao período mais violento e repressivo do regime ditatorial brasileiro – e, de quebra, ampliou o alcance dos mecanismos instituídos pelos militares para defender a moralidade pública. Uma nova CGI foi gerada no âmbito do Ministério da Justiça com a tarefa de realizar investigações e abrir inquéritos para fazer cumprir o estabelecido pelo Artigo 8º. do AI-5, em que o presidente da República passava a poder confiscar bens de “todos quantos tenham enriquecido, ilicitamente, no exercício de cargo ou função pública”.
Para agir contra a corrupção e dar conta da moralidade pública, os militares trabalharam tanto com a natureza ditatorial do regime como com a vantagem fornecida pela legislação punitiva. Deu em nada. Desde 1968 até 1978, quando foi extinta pelo general Geisel, a CGI mancou das duas pernas. Seus integrantes alimentaram a arrogante certeza de que podiam impedir qualquer forma de rapinagem do dinheiro público, através da mera intimidação, convocando os cidadãos tidos como larápios potenciais para esclarecimentos.
A CGI atribuiu-se ainda a megalomaníaca tarefa de transformar o combate à corrupção numa rede nacional, atuando ao mesmo tempo como um tribunal administrativo especial e como uma agência de investigação e informação. Acabou submergindo na própria mediocridade, enredada em uma área de atuação muito ampla que incluía investigar, por exemplo, o atraso dos salários das professoras municipais de São José do Mipibu, no Rio Grande do Norte; a compra de adubo superfaturado pela Secretaria de Agricultura de Minas Gerais e as acusações de irregularidades na Federação Baiana de Futebol. Entre 1968 e 1973 os integrantes da comissão produziram cerca de 1.153 processos. Desse conjunto, mil foram arquivados; 58 transformados em propostas de confisco de bens por enriquecimento ilícito, e 41 foram alvo de decreto presidencial.
Mas o fracasso do combate à corrupção não deve ser creditado exclusivamente aos desacertos da Comissão Geral de Investigações ou à recusa de membros da nova ordem política em pagar o preço da moralidade pública. A corrupção não poupou a ditadura militar brasileira porque estava representada na própria natureza desse regime. Estava inscrita em sua estrutura de poder e no princípio de funcionamento de seu governo. Numa ditadura onde a lei degradou em arbítrio e o corpo político foi esvaziado de seu significado público, não cabia regra capaz de impedir a desmedida: havia privilégios, apropriação privada do que seria o bem público, impunidade e excessos.
A corrupção se inscreve na natureza do regime militar também na sua associação com a tortura – o máximo de corrupção de nossa natureza humana. A prática da tortura política não foi fruto das ações incidentais de personalidades desequilibradas, e nessa constatação reside o escândalo e a dor. A existência da tortura não surgiu na história desse regime nem como algo que escapou ao controle, nem como efeito não controlado de uma guerra que se desenrolou apenas nos porões da ditadura, em momentos restritos.
Ao se materializar sob a forma de política de Estado durante a ditadura, em especial entre 1969 e 1977, a tortura se tornou inseparável da corrupção. Uma se sustentava na outra. O regime militar elevou o torturador à condição de intocável: promoções convencionais, gratificações salariais e até recompensa pública foram garantidas aos integrantes do aparelho de repressão política. Caso exemplar: a concessão da Medalha do Pacificador ao delegado Sérgio Paranhos Fleury (1933-1979).
A corrupção garantiu a passagem da tortura quando esta precisou transbordar para outras áreas da atividade pública, de modo a obter cumplicidade e legitimar seus resultados. Para a tortura funcionar é preciso que na máquina judiciária existam aqueles que reconheçam como legais e verossímeis processos absurdos, confissões renegadas, laudos periciais mentirosos. Também é necessário encontrar gente disposta a fraudar autópsias, autos de corpo de delito e a receber presos marcados pela violência física. É preciso, ainda, descobrir empresários dispostos a fornecer dotações extra-orçamentárias para que a máquina de repressão política funcione com maior precisão e eficácia.
A corrupção quebra o princípio da confiança, o elo que permite ao cidadão se associar para interferir na vida de seu país, e ainda degrada o sentido do público. Por conta disso, nas ditaduras, a corrupção tem funcionalidade: serve para garantir a dissipação da vida pública. Nas democracias – e diante da República – seu efeito é outro: serve para dissolver os princípios políticos que sustentam as condições para o exercício da virtude do cidadão. O regime militar brasileiro fracassou no combate à corrupção por uma razão simples – só há um remédio contra a corrupção: mais democracia.

Fonte:
Autora: Heloisa Maria Murgel Starling
Revista de História: ( Moralismo Capenga)

terça-feira, 4 de novembro de 2014

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“Os instantes mais dolorosos de nossa vida
são aqueles que nos revelam à nós mesmos”.

Lao Tzu (604-531 a.C.)

domingo, 2 de novembro de 2014

Poema de Finados

George Edmund Butler
Amanhã que é dia dos mortos
Vai ao cemitério. Vai
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.

Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho:
O filho tem mais precisão.

O que resta de mim na vida
É a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
E em verdade estou morto aqui.

Manuel Bandeira (1886-1968)