sábado, 31 de janeiro de 2015

O Olhar do Historiador: As Cruzadas

Francesco Hayez - Cruzados sedentos perto de Jerusalém
No entanto, essa barbárie dos povos do Ocidente não se assemelhava à dos turcos, cuja religião e costumes repeliam toda espécie de civilização e de luz [...]. Foi nas vizinhanças de Helenópolis que os cruzados viram acorrer para suas tendas vários soldados do exército de Pedro, que, tendo fugido à matança, tinham se escondido nas montanhas e nas florestas vizinhas. Uns estavam cobertos de andrajos, outros, nus, muitos, feridos. Mortos de fome, sustentavam dificilmente os restos de uma vida miserável, que tinham disputado, por sua vez, às estações do ano e à barbárie dos turcos. O aspecto desses infelizes fugitivos, a narração de suas misérias espalharam a tristeza no exército cristão; correram lágrimas de todos os olhos, quando souberam dos desastres dos primeiros soldados da cruz [...]. Os cruzados avançavam em silêncio, encontrando por toda a parte ossadas humanas, trapos e bandeiras, lanças quebradas, armas cobertas de poeira e de ferrugem, tristes restos de um exército vencido. No meio desses quadros sinistros, não puderam ver, sem estremecer de dor, o acampamento onde [...] os cristãos tinham sido surpreendidos pelos muçulmanos, mesmo no momento em que seus sacerdotes celebravam o sacrifício da Missa. As mulheres, as crianças, os velhos, todos os que a fraqueza ou a doença conservava sob as tendas, perseguidos até os altares, tinham sido levados para a escravização ou imolados por um inimigo cruel. A multidão dos cristãos massacrada naquele lugar, tinha ficado sem sepultura.
J. F. Michaud. História das cruzadas. São Paulo: Ed. das Américas, 1956. p. 58.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Enquanto na fábrica: o amor "visto de baixo"

Giuseppe Pellizza da Volpedo
A afirmação [...] da feminista Maria Lacerda de Moura: "Ambos, homens e mulheres, nasceram pelo amor e para o amor" seria realidade para todos? Ao mesmo tempo em que o país passava a crise do café, a crise das Bolsas de 29, a criação de pequenas indústrias, na base da pirâmide formava-se nova classe com regras próprias de organização. Nela, os "casamentos", ou melhor dizendo, as uniões, eram precoces, as uniões, consensuais e concubinatos eram regra embora sujeitos à instabilidade e a circulação de crianças, "bastardas", na casa de parentes e familiares, bastante comum. Longe de ser fruto de "ignorância" ou "irresponsabilidade", como acusavam médicos higienistas e juristas, essa classe trabalhadora possuía uma cultura diversa daquela das elites. Uma cultura popular que se chocava, muitas vezes, com a das camadas dominantes. Era difícil, se não impossível, adaptar-se à camisa de força dos valores burgueses quando se tinha de sobreviver em condições tão árduas.
No mundo do trabalho, cada vez mais urbano ou industrializado, a confusão entre a mulher fácil e a esposa e mãe era enorme. Por um lado, embora as mulheres correspondessem à grande parcela da força de trabalho e esses fossem tempos de forte militância em favor de seus direitos, a mentalidade machista era muito arraigada. Mesmo entre anarquistas e comunistas, a fábrica, espaço de trabalho para milhares de imigrantes e seus descendentes, era considerada um "lupanar", um "bordel", um "antro de perdição". A maior parte da imprensa operária atacava as mulheres que deixavam seus lares para trabalhar no seu ganha-pão. Não poucas operárias tinham de provar em casa que trabalhavam em "serviço honesto". Outras contavam com o depoimento de amigos e colegas para testemunhar que "na fábrica, se comportava bem..." O jornal A Razão, em editorial de 29 de julho de 1919, repetia argumentos já conhecidos pelo leitor. Seduzidas pelas facilidades do mundo moderno, pelo discurso radical do feminismo e do anarquismo e convivendo de perto com o submundo da prostituição, as mulheres deixariam de ser mulheres: "O papel de uma mãe não consiste em abandonar seus filhos em casa e ir para a fábrica trabalhar, pois tal abandono origina, muitas vezes, consequências lamentáveis".
De fato, algumas dessas consequências eram dramáticas para as casadas ou noivas. O assédio de chefes e patrões não era raro. É da operária Luiza Ferreira de Medeiros o depoimento sobre o cotidiano na Fábrica Têxtil Bangu, no subúrbio do Rio de Janeiro, durante a Primeira Guerra:
Mestre Cláudio fechava as moças no escritório para forçá-las à prática sexual. Muitas moças foram prostituídas por aquele canalha. Chegava a aplicar punições de dez a quinze dias pelas menores faltas, e até sem faltas, para obrigar as moças a ceder a seus intentos. As moças que faziam parte do sindicato eram vistas como meretrizes, ou pior do que isso: eram repugnantes.
Com a crescente incorporação das mulheres ao mercado de trabalho e à esfera pública, lembra a historiadora Margareth Rago, a questão do trabalho feminino era motivo de discussão com outros temas que envolviam as mulheres: virgindade, casamento e prostituição. Enquanto o mundo do trabalho cabia como uma luva na metáfora do "cabaré", o lar era valorizado como o espaço sagrado da "santa rainha do lar", do "reizinho da família". Com o vertiginoso crescimento urbano das primeiras décadas do século, o mundo do trabalho passou a ser visto como algo profundamente ameaçador para as mulheres e não faltavam críticos dessa situação:
São Paulo caminha para uma perdição moral [...]. Outrora, em suas ruas onde só se encontravam famílias e casas habitadas por quem tem o que fazer, se veem hoje, caras impossíveis, mostrando, embora cobertas pelo cold cream e pelo creme Simon, polvilhado pelo pó de arroz, os sulcos que não se extinguem, deixados pelo deboche e pelas noites passadas em claro libando, em desenvolta moralidade, as taças de champagne falsificado, entre os pechisbeques do falso amor.
Junto ao clamor pela "volta ao lar" dessas que não se sabia se trabalhadoras direitas ou prostitutas disfarçadas, corria também a preocupação de médicos, como o Dr. Potyguar de Medeiros, com a educação como meio de escapar ao ineroxável meretrício. Em seu estudo de 1921, Sobre a phrophylaxia da syphilis, dizia que as jovens trabalhadoras não tinham meios para se defender das armadilhas do mundo moderno.
Nas habitações coletivas que se erguiam nas cidades em crescimento, nas pensões, nos porões ou casebres de favelas, casais se faziam e desfaziam ao sabor das necessidades de uma população itinerante. Elas são o espaço de outra moral, de outra família e, por conseguinte, de outros afetos e amores. Uma série de fatores somava-se para que as mulheres pobres garantissem sua autonomia: a ausência de propriedade, os entraves burocráticos, a dificuldade de homens pobres se fazerem, como os burgueses, de únicos mantenedores da família. Não deviam ser poucas a pensar, como a mulata Rita Baiana, do romance O cortiço, de Aluísio de Azevedo: "Casar? Protestou Rita. Nessa não cai a filha do meu pai! Casar! Livra! Para quê? Para arranjar cativeiro? Um marido é pior que o Diabo, pensa logo que a gente é escrava! Nada! Qual! Deus te livre! Não há como viver cada um senhor e dono do que é seu!".
Mary Del Priore
Historiadora

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Quem tem alma de pássaro não se aquieta em terra firme

Sou um ser livre. Nasci assim. Minha mãe sempre dizia que eu não gostava de usar sapatos, nem de prender os cabelos, e que era um sacrifício me vestir porque as roupas me apertavam. Gostava de tomar banho de chuva, de sentir o vento no rosto, e tinha a pertinente ideia de mudar de ideia amiúde. Moral da história: Continuo assim. Sou desprendida por natureza e gaiola nenhuma me segura por muito tempo.
Gosto dessa soltura que me encoraja ir e vir na vida, e até mesmo dentro de mim. Costumo viajar até o pensamento mais improvável e reviver lembranças distantes sem freios nem culpa. Lá nos meus esconderijos corro sem fim nas ruelas do coração. Visito a minha alma, saio e volto para a minha casa quando bem entendo, para esse lugar só meu, onde tudo posso, tudo sou e tudo vivo.
Ser livre é a maior fortuna do ser humano. Não há nada que compre e que pague a maravilha de ser seu único e intransferível proprietário. E quando eu digo livre, não falo dessas loucuras que se vê por aí, de correr pelado na rua, mandar o chefe pro inferno, a sogra pastar. Nada disso. Aliás, a liberdade não deveria ser entendida dessa forma tão rasa. Vejo como as pessoas esbravejam, levantam bandeiras, abaixam as calças. Querem mostrar uma independência e autonomia para o mundo, enquanto, no fundo, são escravas dos seus próprios medos e incertezas. Alguém deve ir lá e dizer à elas que cuspir ofensas na cara dos outros não faz de ninguém um ser livre. Quem faz isso é chato, presunçoso, qualquer outra coisa. Por favor, não confundam liberdade de expressão com oferta gratuita de hostilidade.
A liberdade é muito, mas muito maior do que um topless na praia e esse discurso pobre de cidadão livre na ponta da língua. Ela é sim, íntegra, quando está embutida dentro de cada um, na capacidade de se desfazer dos preconceitos preestabelecidos e mandar embora todo o medo da rejeição, junto com a sofrida necessidade de ser aceito. A liberdade enxerga os rótulos como absolutamente ridículos, destruindo protótipos e modelos de como ser e agir de acordo com as expectativas alheias.
Um homem livre é aquele que não se submete à prisão de nenhum tipo, muito menos àquelas impostas por outros, até porque ser prisioneiro seria um tremendo sacrilégio contra a sua própria natureza. Ele é livre porque pensa por si só, porque faz as suas escolhas e assume os seus riscos. E pronto.
Decerto que algumas vezes acabamos por nos afastar de nós mesmos nos percalços da vida. Por revolta, frustração, ódio ou rancor, e sem dar-nos conta, nos perdemos do que um dia fomos. Vamos parar longe, sei lá onde, sei lá porquê. Seguimos um fluxo como ovelhas no meio do rebanho sem muito critério de direção, até que um dia a gente olha para trás e diz: “Caramba! Como que eu vim parar aqui? Que saudade do que eu fui um dia…” E talvez ainda seja. Porque liberdade é isso também. Ela é imensurável. Sempre há tempo para partir e voltar mais tarde, ir de novo, explorar, trocar. Por isso tem gente que não cabe em uma casa, que o escritório pinica e a rotina sufoca. Essas pessoas voam e voam pra bem longe, gorjeiam, seguem o rumo do vento. Por obra da sorte ou do destino, um dia pode ser que elas voltem, como aves que reencontram o ninho depois de várias estações. Não se sabe se elas ficarão ali pousadas por muito tempo, porque quem tem alma de pássaro não se aquieta em terra firme.
A gente deveria mesmo é ser autônomo para tudo, sabe? Começando por ser livre para amar, já que o amor é um sentimento de libertação de altíssima potência e um alcance gigantesco. Clausura não combina com ele. O amor é tão genuíno que não deveria se acorrentar à nenhum coração partido. Mesmo amando muito o melhor é deixar o outro seguir seu rumo, porque corrente não traz felicidade. Não digo que seja fácil, mas o ideal é ser livre conosco para libertar o próximo.
Livre para ser cada um à sua maneira, mantendo a identidade preservada e, assim, desamarrar os personagens criados ao longo dos anos, como palhaços treinados para entreter e divertir os outros.
Ser livre para sentir. Sim! Sentir sem medo de ser tachado de boboca sentimentalista e chorar — por que não? — abrindo as torneiras que estiveram entupidas tanto tempo. Nocivo é não se emocionar com um livro, um filme de amor, uma canção que fale de saudade. Sejamos livres para abraçar longamente, sair distribuindo beijos aos amigos, vizinhos, parentes, como forma sincera e singela de gratidão e apreço.
Quando formos propriamente livres aqui dentro, tudo ao redor se tornará mais leve e menos penoso. Então, a decisão de ir ou ficar, voar ou repousar, será apenas um pequeno detalhe. Porque os portões estarão escancarados para ser e sentir.

Veja mais aqui:
( Revista Bula )

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segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Uma dúzia de livros que ninguém leu, mas mentem que sim.

Uma dúzia de livros que ninguém leu, mas mentem que sim. Faz parte das regras de etiqueta da alta sociedade PIMBA (Pseudo-intelectuais metidos a besta) exaltar efusivamente ou criticar severamente livros que não leu, que leu apenas a orelha, leu trechos ou breves comentários na internet.

1 — Finnegans Wake, de James Joyce

2 — O Capital, de Karl Marx

3 — Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust

4 — A Nervura do Real, de Marilena Chauí

5 — O Jogo da Amarelinha, de Júlio Cortázar

6 — A Origem das Espécies, de Charles Darwin

7 — Minha Luta, de Adolf Hitler

8 — A Divina Comédia, de Dante Alighieri

9 — Os Sertões, de Euclides da Cunha

10 — Por que Ler os Clássicos, de Italo Calvino

11 — O Corão

12 — A Bíblia

Veja mais aqui:
( Revista Bula )

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domingo, 25 de janeiro de 2015

Palavras

Francis Sydney Muschamp
"...as palavras não são mais concebidas ilusoriamente como simples instrumentos, são lançadas como projeções, explosões, vibrações, maquinarias, sabores: a escritura faz do saber uma festa. (...) a escritura se encontra em toda parte onde as palavras têm sabor (saber e sabor têm, em latim, a mesma etimologia). (...) É esse gosto das palavras que faz o saber profundo, fecundo."
- Roland Barthes (1915-1980)


sábado, 24 de janeiro de 2015

A Epopeia de Virgílio

Eneias é um personagem da mitologia greco-romana cuja história é contada na Ilíada, de Homero, e, sobretudo, na Eneida, de Virgílio.
Segundo a lenda, Eneias foi o mais famoso dos chefes troianos, filho da deusa Afrodite (a romana Vênus).
Na Guerra de Troia, Eneias foi um corajoso guerreiro troiano que recebia a proteção dos deuses. Filho de Afrodite e Anquises, sua mãe o salvou na luta com Diomedes e Poseidon o salvou da morte na luta com Aquiles. Com a queda de Troia, sua mãe o aconselhou a deixar a cidade levando consigo sua família, pois estaria reservado a ele o destino de fazer reviver a glória troiana em outras terras.
Federico Barocci - Eneias foge de Troia em chamas
Sob a proteção de Afrodite, Eneias deixou a cidade de Troia que foi incendiada pelos gregos junto com vários soldados, sua esposa Creusa, o filho Iulo ou Ascânio e seu velho pai Anquises que ele carregou nas costas. Porém durante o caminho sua esposa desapareceu sem deixar vestígios e ele embarcou em um navio navegando pelo Mar Mediterrâneo em busca de uma nova pátria.
Na Ilha de Delos o oráculo o aconselhou a seguir para a terra de seu primeiro antepassado. Somente seu pai Anquises poderia guiá-lo através dessa viagem à procura das terras do Rei Teucro que vivera em tempos remotos na Ilha de Creta, cuja filha Bátia se casara com Dárdano pai do Rei Tros, fundador de Troia.
Ao aportar em Creta, imediatamente eles começaram a construir a cidade de Pergamo; lavraram a terra e semearam. Quando tudo parecia brotar, inesperadamente uma seca arruinou as colheitas além de desencadear uma epidemia. Anquises interpretou isto como um sinal evidente da desaprovação divina e aconselhou Eneias a voltar ao templo de Apolo para receber novas instruções do oráculo.
Pierre-Narcisse Guérin - Eneias fala a Dido sobre a queda de Troia
Depois de muito tempo aporta em Cartago e, por artimanhas de Vénus e Cupido, torna-se amante de Dido, rainha e fundadora da cidade africana. Primeiro tinha sido Hera quem queria isto, para Eneias ficar com Dido e não chegar a Itália, mas Afrodite viu que o amor da rainha podia ser proveitoso para Eneias.
Porém não era ainda esse o seu destino final. Hermes, enviado por Zeus, pergunta-lhe por que estava ele construindo uma cidade que não seria do seu filho, para a sua descendência. Eneias fugira de Troia para não se submeter aos gregos e estava agora a submeter-se a Dido e seus conterrâneos!
Adverte-o, então, para que deixe Cartago e funde uma cidade e um reino para os seus. Ao deixar a cidade, mesmo a contragosto, vê Dido, extremamente apaixonada, suicidar-se numa pira funerária que tinha mandado fazer na sua fortaleza.
Após esse episódio, Eneias aportou na Itália.
Prosseguindo a viagem eles enfrentaram muitas dificuldades, inclusive o ataque das Harpias que eram mulheres vampiras com o corpo metade humana, metade pássaro. Fugindo delas eles chegaram a Épiro, nas terras de Heleno e tiveram instruções para seguir viagem. Quando chegaram à ilha do Ciclope Polifemo, salvaram Aqueménides que se perdera dos Argonautas. Anquises que já era bem velho, morreu antes deles deixarem a Sicília.
A partir daquele instante Eneias não poderia contar com a experiência de seu pai. Aportando em Cartago, Eneias se tornou amante de Dido, rainha e fundadora da cidade africana. Porém não era ainda esse o seu destino final. Hermes, enviado por Zeus, o aconselhou a partir daquela cidade e ir em busca da construção de sua nova cidade.
Ao aportar na Itália Eneias foi para o Lázio onde Latino, rei do Lázio, ofereceu-lhe terras e a mão de sua bela filha Lavínia. Ela era prometida a Turno, Rei dos Rútulos, porém havia uma profecia que Lavínia deveria casar-se com um estrangeiro para assim dar origem a uma raça poderosíssima que governaria o mundo.
Vendo-se na iminência de perder a princesa prometida e em consequência o reino, Turno declarou guerra a Eneias e aos seus troianos. Porém o Rei Latino interviu, sugerindo um combate apenas entre Eneias e Turno. O vencedor se casaria com Lavinia. Eneias venceu Turno e casou-se com Lavinia. No entanto abdicou do trono a favor do seu filho Iulo e voltou para reconstruir Troia.
Após a morte de Eneias seu filho Iulo fundou Alba Longa. Seus descendentes foram reis sucessivos e quase 400 anos depois Reia Silvia, filha de descendentes de Eneias, deu a luz aos gêmeos Rômulo e Remo que fundariam Roma no ano 753 a.C. Assim como havia sido previsto por Afrodite, nasceria o Grande Império Romano.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Camus e Sartre

LONDRES - Eles eram filósofos que fumavam sem parar e cuja amizade azedou publicamente. Na verdade, quando um deles escreveu: "l'enfer, c'est les autres" (o inferno são os outros), era fácil imaginar que ele estava se referindo ao seu rival. Agora, uma carta antes desconhecida enviada de Albert Camus para Jean-Paul Sartre mostra que os dois homens eram amigos mais que queridos apenas alguns meses antes de eles se desentenderam.
Acredita-se que a carta não datada, autenticada por especialistas, foi escrita na primavera de 1951. "(Ela) foi adquirida por um colecionador de autógrafos na década de 1970 e mantida em um quadro acima de sua lareira desde então", disse Nicolas Lieng da Le Pas Sage Bookstore, especializada em literatura dos séculos 19 e 20. "Ela foi vendida para um colecionador francês, que é dono de uma das coleções mais bonitas de Camus, há uma semana", acrescentou.
Abrindo com "meu querido Sartre", a longa carta assinada por Camus termina com "eu aperto sua mão". O ganhador do prêmio Nobel e autor de "O estrangeiro" inclui uma recomendação para que Sartre considere uma atriz chamada Aminda Valls para sua nova peça. Camus descreveu a atriz, que também era amiga da estrela de palco francesa Maria Casarès, como uma "espanhola republicana" e "maravilha da humanidade".
Na época, Sartre estava se preparando para levar aos palcos sua peça "O diabo e o bom deus", que estreou em 1951, no Théâtre Antoine, em Paris. Enquanto Casarés conseguiu o papel de Hilda, Valls acabou não fazendo parte da produção. Camus também deixa claro que ele escreveu a carta de seu apartamento na Rue Madame, onde viveu entre 1950 e 1954, em Paris. Esta não é a primeira vez que uma correspondência entre as duas estrelas intelectuais de Paris foi descoberta recentemente. No ano passado, uma pequena nota escrita de Camus para Sartre em 1940 lançou alguma luz sobre uma das amizades mais infames do século 20. Os dois homens estavam intimamente ligados ao longo de suas carreiras.
Eles se conheceram durante a ocupação alemã na França e se tornaram famosos da noite pro dia quando Paris foi libertada. Ambos eram ensaístas, dramaturgos, críticos literários e de teatro, filósofos, jornalistas e editores-chefes.
Eles tinham a mesma editora. Ambos foram premiados com o Nobel de literatura. Camus aceitou o prêmio em 1957, enquanto Sartre recusou a designação sete anos mais tarde, embora tenha ressaltado que não se sentiu insultado "porque Camus havia recebido antes de mim". No entanto, a dupla se distanciou no meio da Guerra Fria e começou a discordar sobre filosofia e política.
Apenas alguns meses depois da carta, Camus publicaria "O homem revoltado", que foi duramente criticado por Sartre. Isso causou uma amarga entre eles e um desentendimento público.
Sartre escreveu em uma carta aberta: "Caro Camus, nossa amizade não foi fácil, mas vou perdê-la", e acusou seu ex-amigo de "incompetência filosófica". Ele também destruiu quase toda a correspondência trocada entre os dois. O racha, no verão de 1952, dividiu filosoficamente intelectuais parisienses.
Os dois intelectuais nunca mais se falaram novamente, apesar de continuarem a discordar publicamente, através de códigos, até a morte de Camus em 1960.
Quinze anos mais tarde, Sartre com então 70 anos, perguntado sobre sua relação com Camus em uma entrevista para a "Les Temps Modernes", disse: Camus era "provavelmente o meu último bom amigo".

Fonte:
( Jornal O Globo )

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Morfeu

Pierre-Narcisse Guérin - Morpheus and Iris
Morfeu é o deus grego dos sonhos.
Morfeu tem a habilidade de assumir qualquer forma humana e aparecer nos sonhos das pessoas como se fosse a pessoa amada por aquele determinado indivíduo. Seu pai é o deus Hipnos, do sono. Os filhos de Hipnos, os Oneiros, são personificações de sonhos, sendo eles Ícelo e Fântaso. Morfeu foi mencionado na obra Metamorfoses de Ovídio como um deus vivendo numa cama feita de ébano numa escura caverna decorada como flores.
A droga morfina tem seu nome derivado de Morfeu, visto que ela propicia ao usuário sonolência e efeitos análogos ao sonho. Quando uma pessoa augura: vá para os braços de Morfeu, sugere dormir bem.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Crepúsculo

Laurie Morgan - Bougainvillea at Sunset
Crepúsculo é ...
quando um espelho, no quarto,
se enfastia;
Quando a noite se destaca
da cortina;
Quando a carne tem o travo
da saliva,
e a saliva sabe a carne
dissolvida;
Quando a força de vontade
ressuscita;
Quando o pé sobre o sapato
se equilibra...
E quando às sete da tarde
morre o dia
- que dentro de nossas almas
se ilumina,
com luz lívida, a palavra
despedida.

David Mourão Ferreira (1927-1996)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Aurora Deusa do amanhecer

Evelyn Pickering De Morgan – Aurora "Deusa do amanhecer".
Céfalo era um belo jovem que, amando os exercícios, levantava-se todos os dias antes do amanhecer para caçar. Em uma destas ocasiões, Eos viu-o e apaixonou-se, raptando-o. Céfalo, no entanto, amava profundamente Prócris, filha de Erecteu, com quem havia recentemente se casado, e resistiu aos encantos de Eos. Esta, irritada, despediu o mortal dizendo-o ingrato e que instigando-o a voltar para a esposa, que um dia lhe traria grandes lamentos.
Céfalo voltou a sua esposa e retomou sua felicidade assim como suas atividades no bosque.
No final de suas caçadas diárias, Céfalo se encontrava muito cansado. Assim, adorava a brisa que refrescava seu corpo nos momentos de descanso. Adorava tanto que clamava por ela. Alguém ouviu suas clamações e contou o fato à Pócris que, no dia seguinte, escondeu-se na mata para verificar se o fato era verídico ou não. Então, eis que Pócris ouviu seu amado clamando pela brisa. Pócris pensou que a "brisa" era o nome de uma amante e se entristeceu. Céfalo nesse instante percebeu que havia alguém ou algo perto de si no momento e, achando que poderia ser uma caça, atirou seu dardo contra Pócris. Vendo que atingira sua amada, Céfalo implorou que ela vivesse, porém em vão.


sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Anima

Stevie Taylor
Os homens não me entenderam
me quiseram freira ou prostituta
me esteriotiparam
nunca me aceitaram
no que sou de santa e puta.

Só fizeram mesmo foi trair
os homens que não entenderam o amor
que abre o coração
junto com as pernas.

Escrevo com o meu corpo
sobre este veneno de cobra
que os homens me impuseram.
Pois os amei, os homens
que me sujaram
e me aborreceram
com suas gravatas,
e suas bravatas.
Igual a meu pai, que me batia
com o cinturão de soldado,
e me fez civil
pra sempre.

Yêda Schmaltz (1941-2003)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Decameron

Primeiro Livro Realista da Literatura
John William Waterhouse - The Decameron
A estrutura do Decameron, obra-prima de Boccaccio, é composta de cem contos e novelas.
A Primeira Jornada começa por uma descrição dos efeitos da Peste Negra nas cidades, e assim justifica a razão para o encontro casual, em pleno campo, dos dez jovens de Florença, que darão voz às histórias.
Eles se dirigem para um local, a duas milhas da cidade, onde encontram um palácio curiosamente vazio e arrumado, dotado de excelente adega. Ali será o palco de o Decameron.
Eleita Pampinéia para dirigi-los na primeira noite de histórias, esta principia dando ordens aos criados de cada um, dividindo as tarefas para o bom andamento das jornadas.
O "papel" principal de cada Rei ou Rainha é o de determinar a temática das estórias a serem narradas.
Decameron: – vocábulo com origem no grego antigo: deca, "dez", hemeron, "dias", é uma coleção de cem novelas escritas por Giovanni Boccaccio entre 1348 e 1353. A obra é considerada um marco literário na ruptura entre a moral medieval, em que se valorizava o amor espiritual, e o início do realismo, iniciando o registro dos valores terrenos, que veio redundar no humanismo; nele não mais o divino, mas a natureza, dita o móvel da conduta do homem. Foi escrito em dialeto toscano.
Franz Xavier Winterhalter – The Decameron
A obra e seu Contexto
Decameron marca com certa nitidez o período de transição vivido na Europa com o fim da Idade Média, após o advento da Peste Negra - aliás é neste período de terror que a narrativa se passa.
Dez jovens (sete moças e três rapazes) fogem das cidades tomadas pela pandemia que dizimava impiedosamente o continente europeu ao se recolherem a uma casa de campo. Aconselhados por Pampinéia, a mais velha entre as mulheres, estabeleceram que escolheriam um chefe para o grupo para cada dia. Sendo ela a primeira escolhida, definiu: "(...)Para os que vierem depois, o processo de escolha será o seguinte: quando se vier aproximando a hora do surgimento de Vênus, no céu, à tarde, o chefe será, à vez de cada um, escolhido por aquele, ou aquela, que estiver comandando durante o dia.(...)"
Decameron rompendo com a mítica literatura medieval. As circunstâncias descritas em Decameron têm o senso medieval de numerologia e significados místicos. Por exemplo, é amplamente acreditado que as sete moças representam as Quatro Virtudes Cardinais (Prudência, Justiça, Fortaleza, Temperança) e as Três Virtudes Teologais (Fé, Esperança e Caridade). E mais além é suposto que os três homens representam a Divisão da Alma em Três Partes (Razão, Ira e Luxúria) da tradição helênica.
As moças tinham idade entre 18 e 28 anos, eram bonitas e de origem nobre, e seu comportamento honesto. Agrupadas por acaso na igreja de Santa Maria Novela, resolvem continuar juntas e logo surgem três moços, com idade a partir dos 25 anos, agradáveis e bem educados, que procuravam suas amadas, que eram 3 das moças ali reunidas.
Raffaelo Sorbi - The Decameron
A Peste
A narrativa oferecida por Boccaccio sobre o flagelo da peste negra que dizimara a Europa constitui um verdadeiro documento acerca desta praga que devastara o continente. Seu relato ilustra a doença (suas manifestações, evolução, sintomas, etc), bem como a reação das pessoas diante da perspectiva de uma morte horrenda, a ineficácia da religião católica dominante até aquele momento e de uma medicina quase ou totalmente ineficaz...
Estimando as vítimas em Florença e arredores em cem mil mortos, o autor revela também dois tipos principais de conduta: um, da luxúria desenfreada (as pessoas que passavam a beber e entregar-se aos prazeres); outro, onde pessoas se recolhiam, fechadas em grupos, orando e praticando o ascetismo – além de tantos que agiam entre estes dois tipos, adotando condutas intermediárias. Numerosas levas de gente saíam das cidades, vagando pelos campos, reunindo-se nas igrejas. Foi numa delas que encontrou-se o inusitado grupo que serve como narrador do Decameron.
A forma inovadora e realista na qual os contos foram escritos por Boccaccio fez com que o Decameron se tornasse uma fonte de referência para muitos escritores vindouros.
O primeiro conto (que fala do falso “São Ciappelletto”) foi depois vertido para o latim por Olímpia Fulvia Morata, e depois por Voltaire. Molière usou esta segunda tradução para criar a personagem título do seu Tartufo.
Martinho Lutero revisa o segundo conto, no qual um judeu se converte ao catolicismo após visitar Roma e ver a corrupção da hierarquia católica. Mas na sua versão ele e Philipp Melanchthon tentam converter o judeu em visita a Roma.
A parábola dos anéis (terceiro conto) está presente na obra de Gotthold Ephraim Lessing, em seu livro Nathan der Weise – um apelo à tolerância religiosa. Numa carta a seu irmão, datada de 11 de agosto de 1778 ele diz claramente ter conseguido sua história no Decameron. Jonathan Swift também utilizou esta mesma história para A Tale of a Tub, seu primeiro trabalho publicado, uma bem humorada sátira religiosa. Shakespeare fez uma tradução para o inglês do conto Frederico de Jennen, cujo enredo foi baseado no nono conto da segunda jornada. E “O Mercador de Veneza” teve clara influência do nono conto da terceira jornada.
Antonio Vivaldi escreveu a sua ópera Griselda sobre o argumento da décima novela da décima jornada.
Molière e Félix Lope de Vega usaram o terceiro conto da terceira jornada como base para suas respectivas peças teatrais: L'ecole de maris e Discreta enamorada. Percy Bysshe Shelley, Alfred Tennyson, e muitos outros beberam na fonte do Decameron em muitas de suas obras – uma influência que perpassa através dos séculos e das escolas literárias.
Não apenas Boccaccio influenciou os pósteros, foi ele próprio influenciado por outros autores, não apenas italianos, franceses e latinos – alguns de seus contos parecem ter sua origem remota em lugares como a Espanha, Pérsia, Índia, etc.
Os contos do Decameron ultrapassam seus antecedentes, em complexidade, qualidade e capacidade narrativa. Embora muito poucos deles sejam longas narrativas, têm como características diálogos verossímeis, que prendem a atenção do leitor, de forma que suas ações e conclusão sejam perfeitamente lógicas em seu contexto.
Boccaccio também tornava as histórias que eram já conhecidas mais complexas e inteligentes. Um claro exemplo disso é o sexto conto da nona jornada, baseada num conto do francês Jean de Boves, em que desce a detalhes ao narrar as mudanças de camas ocorridas durante a noite, bem como a passagem da esposa do anfitrião por todas elas – que são elementos criado por Boccaccio, tornando a história mais humorística e complexa.

Erik Satie para Piano

Pierre Auguste Renoir
As notas vêm sós por harmonias
como de escalas que se cruzam
em sequências descontínuas de figuras
singelamente acorde surpreendido
de se encontrar num instante pensativo.

São como vagas vindo no perlado
tão diminutas, solitárias mas ligadas
de pura sucessão ocasional
que se rebusca em cálculos descaso
contrário ao hábito de estarem escritas,
ou juntas ou seguidas. Mas é como
se desde sempre este hesitante fluido
houvera de estar pronto a ser pensado
e a soar tranquilo em espaço diminuto
não por ser breve mas por ser silêncio
de uma memória em que a surpresa ecoa
lembranças perpassantes de quanto não foi,
não existiu, não foi vivido e entanto
pungente fere as águas espelhadas
onde de imagens passam vultos claros
em túnicas voando transparentes
e muito curtas sobre membros duros
que dançam devagar a dança juvenil
num salpicar de pés do tempo antigo.

Jorge de Sena (1919-1978)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Precisa-se de uma bola de cristal

John William Waterhouse - A bola de cristal
Precisa-se de uma bola de cristal
que mostre um futuro grávido de paz:
que a paz brilhe no escuro
com o brilho especial que algumas
palavras possuem
mas que seja mais do que a palavra,
mais do que promessa:
seja como uma chuva que sacia a sede da terra.

Roseana Murray

sábado, 10 de janeiro de 2015

Asherah

Deus bíblico pode ter tido uma esposa,
afirmam pesquisadores

Tese é polêmica: outros especialistas dizem que
Deus só 'absorveu' atributos da deusa.
Dante Gabriel Rossetti
Será que uma deusa pagã, atacada na Bíblia como uma das maiores inimigas do culto ao Deus verdadeiro, poderia ser, na verdade, a esposa Dele? De forma bastante simplificada, esse é um dos principais debates que dividem os historiadores da religião do antigo Israel nos últimos tempos. Inscrições misteriosas, pequenas estatuetas de cerâmica e o próprio texto da Bíblia indicariam que a deusa em questão, conhecida como Asherah, não teria sido adorada como rival de Javé, o Deus judaico-cristão, mas sim como sua companheira.
Isso, é claro, para um dos lados do debate. Para outros pesquisadores, os símbolos da deusa Asherah (cujo nome às vezes é aportuguesado como "Asserá") teriam sido simplesmente "incorporados" pelo culto de Javé, sem que a deusa fosse adorada como entidade distinta pelos antigos israelitas. A ambigüidade é, em parte, lingüística: embora Asherah fosse o nome de uma deusa dos cananeus (habitantes pagãos da Palestina), a palavra também é um substantivo comum, "asherah", que designa um poste de madeira usado para cerimônias religiosas.
"As posições estão bem marcadas: uns acreditam que se trata de um símbolo cúltico, outros já assumem que se trata de uma deusa. No entanto, uma coisa não necessariamente exclui a outra, porque o poste também simbolizava a deusa, de forma que uma referência a ele sugere o culto a Asherah", diz Osvaldo Luiz Ribeiro, doutorando em teologia bíblica da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ).
"Na Bíblia hebraica existem mais de 40 referências a Asherah e ao seu símbolo, inclusive demonstrando a sua presença dentro do Templo de Jerusalém, o Templo de Javé", conta Ana Luisa Alves Cordeiro, mestranda em ciências da religião na Universidade Católica de Goiás. Nessas referências, a deusa é sempre retratada como uma influência religiosa negativa dos povos vizinhos sobre os israelitas, competindo com o culto do verdadeiro Deus. Cordeiro está estudando o impacto da reforma religiosa liderada por Josias, rei de Judá (o reino israelita do sul), por volta do ano 620 a.C., na qual o símbolo da deusa teria sido arrancado do Templo e queimado.
No entanto, o culto a Asherah parece ter sido mais importante fora de Jerusalém, nos chamados "lugares altos", afirma a pesquisadora. Em tais locais, o poste de madeira era substituído por árvores vivas como símbolo da deusa. "Eram santuários ao ar livre, nos topos das montanhas. Isso evidencia uma profunda ligação com a natureza", diz Cordeiro. O culto a Asherah seria uma forma de reverenciar a fertilidade feminina e o papel da mulher como doadora ou mantenedora da vida. "E a árvore é o símbolo dessa abundância", avalia a pesquisadora.
Durante muito tempo, esse tipo de culto foi considerado uma influência religiosa estrangeira sobre o povo de Israel, conforme o que dizia a Bíblia. Mas o consenso atual é que os israelitas não tiveram uma origem separada dos cananeus, seus vizinhos pagãos. A maior parte dos habitantes de Judá e Israel (nome um tanto confuso do reino israelita do norte) parecem ter sido um grupo de origem majoritariamente cananéia que foi assumindo uma entidade cultural distinta aos poucos. E, entre os cananeus, Asherah era a esposa de El, o soberano dos deuses -- mais ou menos como Zeus, na mitologia grega, tinha sua mulher divina, a deusa Hera. É aqui que a arqueologia traz dados surpreendentes sobre a questão. O sítio arqueológico mais importante para o debate sobre Asherah talvez seja o de Kuntillet Ajrud, localizado no Sinai egípcio, perto da fronteira com Israel. O lugar parece ter sido uma espécie de "pit stop" de caravanas no deserto, e também ter abrigado um antigo santuário.
Inscrições e desenhos em fragmentos de cerâmica de Kuntillet Ajrud revelam frases, datadas em torno do ano 800 a.C., pedindo a benção de "Javé de Samaria [capital do reino israelita do norte] e sua Asherah" e "Javé de Teiman e sua Asherah". No caso da primeira frase, há um desenho estranhíssimo de duas figuras com corpo humano e cabeça que lembra a de bovinos, uma delas com traços mais masculinos e outra com traços mais femininos. Será que era assim que alguns dos antigos israelitas imaginavam Javé e sua esposa Asherah?
"Temos outros dados que indicam a associação de Javé com a figura do touro, representando a força, o poder, principalmente no culto de Samaria", afirma Osvaldo Ribeiro, da PUC-RJ. Outros pesquisadores, como Mark S. Smith, da Universidade de Nova York, contestam a associação de Javé com uma consorte chamada Asherah nessas inscrições. Para eles, a gramática do hebraico é esquisita: o termo "sua Asherah" parece se referir a um objeto, não a uma pessoa ou a uma deusa.
"Eu acho complicado tirar uma conclusão como essa simplesmente com base no que sabemos do hebraico bíblico, porque se trata de uma língua morta. Nunca vamos ter certeza se realmente era impossível usar o pronome em 'sua Asherah' para se referir a uma pessoa", diz Ribeiro. De qualquer maneira, afirma o pesquisador, há outro dado arqueológico importante: inúmeras estatuetas de cerâmica, encontradas em todo o território israelita e com idades que abrangem centenas de anos, que parecem indicar uma deusa da fertilidade, com barriga de grávida e seios protuberantes. "Essas imagens continuam sendo comuns até o século 6 a.C., quando Jerusalém é destruída e parte de seus habitantes são exilados na Babilônia", lembra ele.
Se o culto a Asherah era tão comum quando esses indícios esparsos indicam, o que teria levado ao fim dele? A Bíblia explica o processo como uma contaminação constante da religião de Israel pelos povos pagãos, a qual nem muitas reformas religiosas purificadoras, como a do rei Josias, foram capazes de apagar antes do exílio na Babilônia.
Ribeiro, no entanto, diz acreditar que muitas dessas histórias de reforma foram projeções dos sacerdotes do Templo de Jerusalém, elaboradas na época depois do exílio. "A comunidade dos que voltam da Babilônia se organiza em torno do Templo de Jerusalém, sob a liderança dos sacerdotes e com o apoio do Império Persa [que dominou a região depois de vencer a Babilônia]. Então, toda ameaça a esse processo de centralização do poder sacerdotal foi combatida, de forma que só acabou sobrando o culto a Javé. Foi um acidente histórico, num momento crítico, que acabou se tornando a visão dominante."
Já para Ana Luisa Cordeiro, da Universidade Católica de Goiás, os eventos antigos têm implicações para a própria visão excessivamente masculina de Deus que acabou se tornando dominante entre judeus e cristãos. Não é que a sociedade na qual Asherah era adorada fosse necessariamente igualitária entre homens e mulheres, pondera ela, mas pelo menos abria espaço para enxergar o sagrado com um lado feminino.
"Reimaginar o sagrado como Deusa é reimaginar as relações de poder, não numa tentativa de apagar a presença de Deus, mas sim de dar espaço ao feminino no sagrado, o feminino não como um atributo do Deus masculino, mas como Deusa", avalia Cordeiro.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Os maiores acidentes aéreos

Os maiores acidentes aéreos
Ano
País
Voo
Nº de Mortos
1977 Ilhas Canárias KLM 4805 583
1985 Japão 123 Japan Air Lines 520
1996 Índia Bg 747-100B e Ilyushin-76 349
1974 Turquia Turkish Airlines 981 345
1980 Arábia Saudita 163 Saudi Arabian Airlines 301
2003 Irã Guarda Revol Irã Il-76MD 275
1979 Estados Unidos American Airlines 191 273
1994 Japão A300B4-622R,China Airlines 264
1991 Nigéria Airways Flight 2120 261
1985 Canadá DC-8-63 da Arrow Air 248


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Livros essenciais para conhecer o Brasil

1. Darcy Ribeiro: O povo brasileiro (1995),
2. Sérgio Buarque de Holanda: Raízes do Brasil (1936),
3. Manuela Carneiro da Cunha: História dos Índios do Brasil (1992),
4. Kátia de Queirós Mattoso: Ser escravo no Brasil (1982),
5. Gilberto Freyre: Casa grande e senzala (1933),
6. Caio Prado Júnior: Formação do Brasil Contemporâneo (1942),
7. Manuel Bonfim: A América Latina, males de origem (1905),
8. Sérgio Buarque de Holanda: Do Império à República (1972),
9. Euclides da Cunha: Os Sertões (1902),
10. Vitor Nunes Leal: Coronelismo, enxada e voto (1949),
11. Florestan Fernandes: A Revolução burguesa no Brasil (1974),
12. Joaquim Nabuco: Um estadista do Império (1897,

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O Enigma da Pintura em Paul Cézanne

Paul Cézanne
É a sua existência que o artista expressa em tela. Cézanne evidencia em suas pinturas, sua solidão, sua melancolia, sua evasão do mundo humano, seu ser esquizoide, contempla a natureza. A natureza sem qualquer evidência humana. É a sua percepção e relação com o mundo que o artista almeja exprimir. A sua singularidade é o que há de mais expoente para a arte que se aflora no século XX na França.
Paul Cézanne foi um pintor impressionista que viveu até o início do século XX. Seus trabalhos serviram de bastante referência para a arte que estava prestes a nascer na modernidade na frança. Viveu sua infância na cidade Aix-in-Provence, mas decidindo tornar-se pintor e duvidando sobre sua capacidade como artista, vai á Paris em que entrará em contato com mais artistas.
Cézanne sempre trabalhou sozinho, sem alunos. A sua pintura era sua maneira de existir. Sua vida fora marcada e envolvida por sua melancolia e cólera que permeava a sua vida inócua, instável, indecisa. Pinta na tarde em que sua mãe morre. Não é admirado por parte da família. Ao envelhecer acreditava que a sua pintura era fruto apenas dos distúrbios visuais que perseguiam seu corpo. Duvidava do seu talento e da genialidade que o transbordava, pois as circunstâncias e as reviravoltas da vida, não permitiam o reconhecimento de suas produções. A fraqueza e a baritimia o perseguiram no percurso de sua vida. Quando se mudou para Paris, decidindo ser pintor, escreve “Não faço mais do que mudar de lugar e o tédio me persegue”. Não conversava, pois não sabia argumentar. Preferia a solidão. Encontrar os amigos em Paris, quando via casualmente algumas vezes, apenas os cumprimentavam à distância evitando conversas prolongadas. “A vida assusta”, dizia Cézanne.
Suas pinturas estão envolvidas de todo traço de sua personalidade, da maneira de como poderia perceber e ver a vida. A característica peculiar de sua pintura “direta da natureza” é derivada da instabilidade de Cézanne quanto aos humanos. Volta-se a observação da natureza, como cor, profundidade, e todos os aspectos que envolvem técnicas de pintura. O visível para ele será apenas no âmbito natural. A natureza é o que pretende observar. Sua personalidade o fez fugir do mundo essencialmente humano, “a alienação de sua humanidade”. E se inclina essencialmente a natureza.
Apesar de ter obtido forte influência do impressionismo, Cézanne rompe com o movimento. Pois esse determinava os modos de como os objetos afetavam a visão do artista que o percebia. Enquanto os impressionistas queriam representar os objetos em tela com a mesma vivacidade de cores e propriedades que é visto na atmosfera, como, reflexos, cores que mudam de acordo a luz atmosférica, respeitando a ligação entre a luz e o ar. Cézanne queria demonstrar os objetos por trás da atmosfera, ele toma a natureza como modelo e em tela quer representá-la um pedaço dela.
Paul Cézanne não se preocupou em partir na elaboração de suas obras, seguindo aspectos fixados como modos de observação pelos impressionistas ou pela pintura tradicional, o laço entre sensibilidade e inteligência. O próprio almeja uma visão própria em relação à natureza, uma ótica lógica. Almejava a fusão, um contraste entre sensibilidade e inteligência. A arte para ele é uma visão pessoal, direta do mundo, enquanto a inteligência ajuda a organiza-la em obra. Cézanne deseja voltar-se a natureza, onde existe uma ordem das coisas. Uma natureza viva e que o homem ainda não interferiu. Somente após o uso da inteligência sobre a natureza é que surgem as ciências e as ideias. É a natureza primitiva que Cézanne quer pintar. A natureza na qual o homem ainda não interferiu. Por isso as suas pinturas constituem de um vazio humano, consiste em uma natureza primordial onde a inteligência ainda não se instalou.
O enigma da pintura, a percepção de mundo que Cézanne obtém é sustentando pelos traços de sua personalidade. Evasão do mundo humano e a volta a retratação da natureza visível. Embora uma natureza primitiva, uma natureza em ordem antes da intervenção do homem e da inteligência e da fomentação da ciência sobre a natureza. A sua arte, assim é fruto da sua essência.
O enigma da pintura se instala, seja em qualquer tempo da história da humanidade, seja em qualquer civilização, ou em qualquer religião, a pintura sempre se voltará aos problemas da visibilidade. Ela é fruto do processo de visão do mundo, em que o corpo se volta às coisas deste. O corpo que é visível e vidente se percebe, mas as coisas do mundo que ele ver com olhos carnais, o artista transforma em pintura. Uma exteriorização do interior, visto que o corpo individual possui a sua própria ótica interior das coisas que constitui o ser.
É com a visão que o pintor cria suas obras. Quando um pintor pinta uma tela, ele apenas pinta o que já fora alguma vez visto por ele. Só é passível de ser pintado o que os olhos da carne já viram. O que o faz meramente pintor é a inclinação de constituinte do mundo a partir dos olhos e apenas do que é visível, somente o que é despertado na visão das coisas do mundo tonar-se arte. A pintura é uma mesclagem do ser, visto que ao pintar em tela as coisas do mundo que é prolongamento do corpo, é assim, retratar todos os aspectos do ser. É retratar a união entre o sujeito que ver o mundo e o objeto, que com Merleau-Ponty, rompe a visão tradicional.
Dessa forma, os problemas dessa existência visual é a construção de uma teoria mágica da visão. O que como o pintor artista se pretende é projetar em tela o que nele se ver. Suas fascinações consistem em capturar o mais peculiar possível do que é visto, contribuindo para seu ressurgimento. O pintor pinta para na tela reconhecer-se como vidente e visível. Portanto, o homem cria a arte, nesse caso pinta, para nela reconhecer as instâncias do ser, do olho que ver e do espírito que cria e reflete.

Fonte:
© obvious: : ( Ybine Dias )

domingo, 4 de janeiro de 2015

A Madona de Conestabile

Rafael de Sânzio – A Madona de Conestabile
Última obra pintada pelo artista. A obra pertence a uma série de madonas do período pré-florentino seguindo o tema da Virgem segurando um livro. Foi adquirida pelos czares russos junto à família Conestabile, de Perugia, de onde deriva seu nome.

Sobre a dificuldade de endurecer sem perder a ternura

“Hay Que Endurecer, Pero Sin Perder La Ternura Jamás”.
Ernesto Che Guevara
Somos seres humanos feitos de carne. Mas parece que ao longo da vida, somos conduzidos a viver como se fossemos de ferro ou lata. E, aproveitando que é final de ano, muito embora escrever sobre o ano vindouro seja um clichê dos mais manjados, é válida a tentativa de colocar os pingos nos “is” que se escondem dentro de nosso alfabeto mental. Pancadas servem para encararmos a vida com mais maturidade e nos proporcionarem passeios por certas ousadias, mantendo os braços seguros e abertos para as pequenas e irretocáveis ternuras da vida. Pois há que se acreditar que elas existem. Como na música dos Beatles: “The movement you need is on your shoulder.”
Há um ditado popular que diz que quem apanha nunca esquece. E da primeira pancada da vida a gente jamais esquece mesmo. A pancada no coração, quando inesperadamente a vida lhe tira um irmão sem que ele ao menos possa apertar suas bochechas e dizer tchau. Sem que você possa dizer eu te amo pela última vez. De repente, não se tem mais aquele abraço gostoso. De repente não se tem mais os finais de semana de risadas e gozações um com o outro, nem as madrugadas ouvindo música e aprendendo a tocar violão. E os pais que se tinha antes desse irmão partir, cadê?
Não há mais ninguém no quarto ao lado. Apenas o silencio ensurdecedor da ausência que a vida lhe cobra ser suportada. O violão está mudo e desalento no canto. E você só queria aquecer seus sonhos com um abraço apertado, mas o quarto morre de frio e abandono em todos os cantos. Com o passar do tempo, para sua surpresa, alguma luz de ânimo no universo brilha acanhada e tímida, te dando forças e coragens de seguir em frente. É preciso suportar e se acostumar com esse cenário de ruídos silenciosos e ausências. Mas sem que você perceba, o seu coração que antes era de carne, lento e discretamente vai se endurecendo e sendo acometido por simultâneas fibroses. Em dias de sufocantes saudades ele até para de bater, mas chora em silencio. E antes de se necrosar por inteiro, se recorda, quando o tempo girava sem pressa, que já foi cuidado por mãos amorosas e perfumadas. E se lembra que precisa se virar sozinho. E se acostumar com os insetos que vez ou outra fazem uma visita para um café. Pois as veias que ele possuía se transformaram em raízes presas à próxima planta que ainda irá nascer. O coração já foi macio, e muitas vezes se enfeitava de rendas e tecidos coloridos, para se esbaldar em abraços fraternos e gargalhadas escandalosas nas festas da família, que um dia foi família e que hoje é apenas uma formalidade conveniente.
O coração que pulsava em encantos e possibilidades, hoje não sente mais nada que emocione. Como no filme O Mágico de Oz, parece que o tempo vai te fazendo um "homem de lata". O coração despencou pela calçada sem que ninguém percebesse, em pele e osso o amor se definhou como mendigos poetas.
Outras pancadas vieram após a primeira. Uma traição vulgar. O final monocromático de uma grande história de amor. As frustrações com amigos. As injustiças sociais e políticas do país. Os desvios éticos sutis e escancarados detectados no dia a dia em seus interlocutores. E a essa altura do campeonato, involuntariamente, eu me vi trancando a delicadeza, o amor, as emoções e a esperança em um baú de recordações que fica empoeirado em algum canto esquecido da alma e jogando a chave fora.
A conclusão? Somos seres humanos feitos de carne. Mas parece que ao longo da vida, somos conduzidos a viver como se fossemos de ferro ou lata. E, aproveitando que é final de ano, muito embora escrever sobre o ano vindouro seja um clichê dos mais manjados, é válida a tentativa de colocar os pingos nos “is” que se escondem dentro de nosso alfabeto mental. Pancadas servem para encararmos a vida com mais maturidade e nos proporcionarem passeios por certas ousadias, mantendo os braços seguros e abertos para as pequenas e irretocáveis ternuras da vida. Pois há que se acreditar que elas existem. Depende de cada um querer ou não sair da inércia emocional. Como na música dos Beatles: “The movement you need is on your shoulder.”

Fonte:
© obvious: : ( Roberta Simão )

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Arco

Pompeo Batoni
Há uma direção
agora
árvores se reúnem
sons de água
configuram-se

de onde voltamos
o rio desce
entre rochas
pousa em bacias
escapa entre falhas
detêm-se em lajes
desce entre lírios
o basalto o escurece
poeira de ouro
em suas areias
cipoais
perturbam-lhe o contorno

quanto ao moço
nele se amava
o desejo de tudo
quando parado na pedra
o mergulho e
quando nadava
lentamente

de onde voltávamos
flores se interpunham
nos caminhos
mas era como se um arco ardesse
ante o olhar entre os ânimos

o rio desce
e quem se descobre
nas águas velozes
distantes

outros campos
outros passeios
adiro à evidência
de outros vales.

Vera Pedrosa