segunda-feira, 30 de junho de 2014

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Henri Fantin-Latour – Immortality
Um dia terei a morte aparente que têm todos os seres e todas as coisas.
A minha alma irá para Deus.
Meu coração, separado da sua amiga, irá para o seio da terra,
Para onde vão os corações que as almas deixaram.
Não haverá tristeza na separação…não é triste cumprir-se destino…
Mas um dia Deus reparará que no mundo, entre as alegrias profundas,
está faltando aquela suave alegria da minha alma e do meu coração.
E mandará minha alma à terra para junto do meu coração.
Meu coração sentirá uma planta qualquer
Sugar o seu húmus, lançar pela terra raízes tenazes…
Contente dará vida a essa planta, porque é destino dos corações
Darem vida às plantas, ao desfazerem-se em adubo da terra.
E perceberá feliz que a minha alma estará florindo na haste da planta,
Tornada em flor extremamente simpática.
A minha alma, abrindo a corola a todo o sol, a todo vento, a todo
dia, e a toda noite, dirá baixinho:
"Coração, como é linda a vida! Como é lindo este Universo de Deus!"
E meu coração, como fazia em meu peito,
Responderá saltando contente no peito da terra…

Rodrigues de Abreu (1897-1927)

sábado, 28 de junho de 2014

Sorte

Tardio, ainda assim
eu me invento.
Vozes chegam
de outro tempo
e devolvem
meu silêncio:
nele, calo o medo
e todo corte.

Alberto Bresciani

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Haikai

Ma Yuan

Ao entardecer
são as pessoas e o mundo
meras silhuetas.


Delores Pires

terça-feira, 24 de junho de 2014

Vestibular da Unesp

Marc Chagall
Analise os textos abaixo:
Texto 1
A verdade é esta: a cidade onde os que devem mandar são os menos apressados pela busca do poder é a mais bem governada e menos sujeita a revoltas, e aquela onde os chefes revelam disposições contrárias está ela mesma numa situação contrária. Certamente, no Estado bem governado só mandarão os que são verdadeiramente ricos, não de ouro, mas dessa riqueza de que o homem tem necessidade para ser feliz: uma vida virtuosa e sábia.
(Platão. A República, 2000. Adaptado)
Texto 2
Um príncipe prudente não pode e nem deve manter a palavra dada quando isso lhe é nocivo e quando aquilo que a determinou não mais exista. Fossem os homens todos bons, esse preceito seria mau. Mas, uma vez que são pérfidos e que não a manteriam a teu respeito, também não te vejas obrigado a cumpri-la para com eles. Nunca, aos príncipes, faltaram motivos para dissimular quebra da fé jurada.
(Maquiavel. O Príncipe, 2000. Adaptado)

Comente as diferenças entre os dois textos no que se refere à necessidade de virtudes pessoais para o governante de um Estado.

Platão era defensor da aristocracia, contudo não no sentido da riqueza material. Os filósofos e homens de nobreza intelectual e de caráter deveriam governar.
Maquiavel sustentou uma antropologia pessimista: o homem seria naturalmente mau. Assim, o Estado precisa ser coerente com seus fins, deixando de lado virtudes morais, como promessas, que podem corroer a boa administração pública.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Os Dois Horizontes

Shawna Erback
“Dois horizontes fecham nossa vida:
Um horizonte: — a saudade
do que não há de voltar.
Outro horizonte: — a esperança
dos tempos que hão de chegar”.

Machado de Assis (1839-1908)
Fragmento

domingo, 22 de junho de 2014

Ladainha da Aranha

Don Paulson
Aranha, anha
tão muda e mole
teu fio da lua
soluça ao sol.

Aranha, anha
que ninguém ama
teu fio de lua
é a tua cama.

Aranha, anha
de noite e dia
teu fio de lua
ninguém o fia.

Aranha, anha
que o mundo mata
teu fio de lua
ninguém desata.

Matilde Rosa Araújo (1921–2010)

quinta-feira, 19 de junho de 2014

haikai

Suave serena
a rosa saudando a vida
ao toque do vento.

Delores Pires

terça-feira, 17 de junho de 2014

A importância da História

“A história que mais me interessa é a que procura analisar o que ocorreu em vez de simplesmente descobrir o que aconteceu”.
Eric Hobsbawm (1917-2012)

Lado Tevdoradzea
“Os fatos falam apenas quando o historiador os aborda: é ele quem decide quais os fatos que vem à cena e em que ordem e em que contexto”.
Edward Carr (1892-1982)

“A história não é prisão ao passado.
Ela é mudança, é movimento, é transformação”
Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982)

segunda-feira, 16 de junho de 2014

"Folhas de Relva"

Amanda Cass
Acredito em você, minha alma...
o outro que sou não tem que se rebaixar pra você,
E nem você tem que se rebaixar pro outro.
Vadie na relva comigo... solte o nó da garganta,
Nada de palavras música rima alguma...
nem bons-costumes ou sermões, nem mesmo os melhores,
Só quero sua calma, o zunzum de sua voz valvulada.
Lembro da gente deitado em junho, numa transparente manhã de verão;
Você pousou sua cabeça em meus quadris e delicadamente veio pra cima de mim,
E desabotoou a camisa do meu peito, e mergulhou sua língua no meu coração nu,
E estendeu a mão até tocar minha barba, depois até tocar meus pés.
De repente se ergueram e grassaram à minha volta a paz
e a sabedoria que superam toda arte e argumento desta terra;
E sei que a mão de Deus é minha irmã primeva,
E sei que o espírito de Deus é meu irmão primevo,
E que todos os homens que já nasceram até hoje são meus irmãos...
e todas as mulheres minhas irmãs e amantes,
E que o amor é a quilha da criação;
E infinitas são as folhas tensas ou pensas pelos campos,
E as formigas marrons nas poças sob elas,
E a sebe cheia de ervas de musgos, pilha de pedras,
sabugueiro, verbasco e erva-dos-cancros.

Walt Whitman (1819-1892)
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Fragmento

Auguste Rodin - O Pensador
“ - Que ela é imbecil, é, assim como eu; agora tu, o que és, um sabichão, que fica aí deitado feito um saco e ninguém te vê fazendo nada? Antes tu dizias que saías para dar aulas a crianças; e agora, por que não fazes nada?
- Eu faço… – pronunciou Raskólnikov sem querer e em tom severo.
- O que?
- Um trabalho…
- Que trabalho?
- Penso – respondeu sério, depois de uma pausa.
Nastácia rolou de rir. (…)”
Fiódor Dostoiévski (1821-1881)
- Crime e Castigo.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Auto-retrato

Cândido Portinari
“Vim da terra vermelha e do cafezal.
As almas penadas, os brejos e as matas virgens
Acompanham-me como o espantalho,
Que é o meu auto-retrato.
Todas as coisas frágeis e pobres
Se parecem comigo.”

Cândido Portinari (1903-1962)

terça-feira, 10 de junho de 2014

Dante

Michelino da Besozzo
O inferno — tão exato como um atestado.
O purgatório — falso como toda alusão ao Céu.
O paraíso — mostruário de ficções e de insipidezes...
A trilogia de Dante constitui a mais alta
reabilitação do diabo empreendida por um cristão.

Emil Michel Cioran (1911-1995),
in Silogismos da amargura.

domingo, 8 de junho de 2014

Dom Casmurro

Maxine Noel
“Eu gosto de olhos que sorriem,
de gestos que se desculpam,
de toques que sabem conversar
e de silêncios que se declaram”.

Machado de Assis (1839-1908)

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Sobre felicidade e infortúnios

Albert Herter
“Foi observado em todas as épocas que as vantagens da natureza, ou da fortuna, contribuíram muito pouco para a promoção da felicidade; e que aqueles a quem o esplendor da sua classe social, ou a extensão das suas capacidades, colocou no topo da vida humana não deram muitas vezes ocasião justa de inveja por parte dos que olham para eles de uma condição mais baixa; quer seja que a aparente superioridade incite a grandes desígnios e os grandes desígnios corram naturalmente o risco de insucessos fatais; ou que o destino da humanidade seja a miséria, os infortúnios daqueles cuja eminência atraiu sobre eles a atenção universal foram mais cuidadosamente registados, porque, em geral, eram mais bem observados e foram, na realidade, mais conspícuos do que outros, mas não com maior frequência nem severidade.”
Samuel Johnson (1709 -1784)

quinta-feira, 5 de junho de 2014

A Esperança

George Cochran Lambdin
Talvez nenhum sentimento seja tão necessário à sobrevivência quanto a esperança. Mais do que o amor, é a esperança que faz com que sigamos em frente diante de um diagnóstico desfavorável, é a esperança que faz com que tentemos mais uma e outra e outra vez concretizar um sonho antigo, é ainda a esperança que faz com que corações quebrados (como o meu, como o seu) continuem se levantando da cama todas as manhãs.
Stella Florence

terça-feira, 3 de junho de 2014

Sundara Fawn
“Eu quero desaprender para aprender de novo.
Raspar as tintas com que me pintaram.
Desencaixotar emoções, recuperar sentidos”.

Rubem Alves

domingo, 1 de junho de 2014

Somos todos jardins

Alena Lazareva
Somos todos jardins.
Ora semente...
Ora flor...
Ora morrendo junto a terra
para novamente florescer...
Somos todos jardins.

Arnalda Rabelo