quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Ano Novo

Daniel F. Gerhartz
As últimas horas que restam são de incrível exorcismo.
Os meninos curtem, sonolentos, brinquedos de Papai Noel,
mas as luas que me restam são roteiros irrecuperáveis.
Nem todos os sinos repicam ao mesmo tempo
e nem todos os seios amamentam com o mesmo leite.
Os pândegos comemoram à sua maneira,
e há sintomas de medo e espanto.
Jogo na cesta papéis sem memória
que os rios levam nas suas mesmas águas.
Meia-noite… Subo ao céu para beijar a estrela
porque já sou Ano-novo.
E ela nunca mais será a mesma rosa.

Wilson Frade (1920-2000)

Nascimento

O ano foi vinte e dois. Criatura de desejo
e sonho. Carne e luar na boca das profecias.

Aqui está recém-nascido úmido de lágrimas
e leite, filho das dores, criança concebida
na injustiça.

Jacinta Passos (1914-1973)

O poema refere-se ao Partido Comunista Brasileiro, fundado em 1922.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Diógenes de Sínope (413 - 323 a.C.)

John William Waterhouse
Diógenes foi aluno de Antístenes, fundador da escola cínica. Em sua época Diógenes foi destaque e símbolo do cinismo pois tornou sua filosofia uma forma de viver radical. Diógenes expressava seu pensamento através da frase "procuro um homem". Conforme relatos históricos ele andava durante o dia em meio às pessoas com uma lanterna acessa pronunciando ironicamente a frase. Buscava um homem que vivesse segundo a sua essência. Procurava um homem que vivesse sua vida superando as exterioridades exigidas pelas convenções sociais como comportamento, dinheiro, luxo ou conforto. Ele buscava um homem que tivesse encontrado a sua verdadeira natureza, que vivesse conforme ela e que fosse feliz.
Jean Léon Gérôme
Para ele os deuses deram aos homens formas para viverem de modo fácil e feliz, mas esses mesmos deuses esconderam essas formas dos homens. Diógenes buscava descobrir esses modos de viver tentando demonstrar que as pessoas tem a seu dispor tudo aquilo que realmente precisam para ser feliz. Mas para isso as pessoas tem que conhecer a sua natureza e as verdadeiras exigências que essa lhe faz. Pensando nisso ele afirma que a música, a física, a matemática, a astronomia e a metafísica são inúteis pois são formuladoras de conceitos, muito além dos conceitos o que importa é a ação, o comportamento e o exemplo. Nossas reais necessidades são para ele aquelas que nos impõe a nossa condição animal, como nos alimentar por exemplo. O animal também não tem objetivos para viver, ele não tem que responder pelos seus atos para a sociedade, ele não precisa de casa ou conforto. É nas necessidades básicas dos animais que o homem deve se espelhar para conduzir sua vida.
Diógenes pôs em pratica seus pensamentos e passou a viver perambulando pelas ruas na mais completa miséria tomando por moradia um barril o que se tornou um ícone do quão pouco os homens precisam para viver. Alimentava-se do que conseguia recolher em sua cuia. Tinha por proteção um manto que usava para dormir e usava os espaços públicos para fazer tudo mais que precisava. Segundo ele esse modo de viver o deixava livre para ser ele mesmo, pois eliminava a necessidade de coisas supérfluas. Ele acreditava atingir essa liberdade cansando o corpo para se habituar a dominar os prazeres até desprezá-los por completo, pois para os cínicos os prazeres enfraquecem o corpo e a alma, pondo em perigo a liberdade do homem, pois o torna escravo dos mesmos.
Os cínicos contestavam ainda o matrimônio e a convivência em sociedade. Eles se declaravam cidadãos do mundo. Acreditavam que o homem deve ser autônomo e auto suficiente tratando o mundo com indiferença, pois a felicidade deve vir de dentro do homem e não do seu exterior.
Outro fato conhecido de Diógenes é seu encontro com Alexandre, então o homem mais poderoso conhecido. Alexandre solicitou que Diógenes pedisse o que quisesse e este pediu que Alexandre saísse de sua frente, pois estava tapando o sol. Diógenes estava com esse ato demonstrando o quão pouco ele necessitava para viver bem conforme sua natureza.


segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Haicai

Jehan Georges Vibert
Frescura:
os pés no muro
ao dormir a sesta

Matsuo Bashô (1644-1694)
Tradução: Jorge Sousa Braga

domingo, 28 de dezembro de 2014

Aos meus Amigos

Edgar Degas
Os deuses ainda vos dão
Dias e noites de alegria,
E amáveis moças vos estão
A examinar com simpatia.
Folgai, cantai, ficai a fruir
A noite, amigos, passageira,
E a vosso prazer sem canseira,
Hei de, entre lágrimas, sorrir.

Alexander Pushkin (1799-1837)

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Encontros amorosos entre sapiens e neandertais

Randii Oliver - Reconstituição moderna de uma família de neandertais
Nos rostos dos adultos que se agacham ao redor da cova e do fogo, é possível discernir uma sugestão de dor ou tristeza enquanto a fumaça aromática de pinheiro selvagem deixa devagar a gruta. Quando a fogueira se extingue, o corpo do menino está pronto para fazer sua última viagem. A mortalha de pele, salpicada de ocre, mancha a criança, que tem outros enfeites: no peito, um colar feito de uma só concha; na fronte, um diadema de dentes de veado; ao lado, como último presente, um filhote de coelho...
Separado do século XXI por pelo menos 25 mil anos, esse enterro de criança está ajudando a superar um abismo de tempo ainda mais vasto, e sobre as próprias origens da humanidade. Traços do esqueleto desse menino, morto com não mais que cinco anos de idade perto de onde hoje é a cidade de Leiria, em Portugal, sugerem que ele é o resultado da mistura entre neandertais e humanos modernos, ocorrida entre 2 mil e 3 mil anos antes do seu nascimento.
A ideia de que houve um longo processo de contato e mestiçagem entre ambos os povos, com efeitos aparentes milênios depois do desaparecimento dos neandertais 'puros', é a principal conclusão de um trabalho de 610 páginas publicado em 2003 em Lisboa. A monografia, batizada com o título Portrait of the Artist as a Child (Retrato do artista quando criança), reafirma uma posição polêmica que vem pondo em polvorosa o mundo da antropologia desde que foi exposta pela primeira vez, em 1999. Para os autores, não há mais discussão: ao deixar a África e colonizar a Europa, a humanidade moderna não exterminou os antigos habitantes do continente, mas, em maior ou menor grau, misturou seus genes aos deles. E o esqueleto do menino é a prova mais cabal disso. [...]
Ninguém poderia imaginar que a criança, apelidada de "menino do Lapedo", graças ao nome do vale português onde foi encontrado, fosse gerar tamanha controvérsia. Como acontece com nove entre 10 achados antropológicos ou arqueológicos importantes, o esqueleto veio à luz por acaso. Em 1998, um estudante da Universidade de Évora chamado Pedro Ferreira, sem muitas ideias para um trabalho da faculdade, resolveu explorar o vale do Lapedo em busca de exemplares de arte rupestre, e acabou encontrando uma ou outra figura antropomórfica nos penhascos calcários da região. A notícia do achado chegou ao Instituto Português de Arqueologia (IPA) através da Sociedade Torrejana de Espeleologia e Arqueologia (STEA), e João Zilhão, o diretor do instituto à época, pediu a dois membros da sociedade para verificarem o relato de Ferreira.
A análise dos restos prosseguiu rapidamente, embora boa parte deles tivesse sido espalhada para fora da sepultura original por causa de uma terraplanagem. Por um bom tempo, não passou pela cabeça de ninguém a ideia de que o menino fosse diferente de uma criança humana moderna; o osso do queixo saliente, traço que só se torna bem desenvolvido no Homo sapiens, parecia falar por si só. Trinkaus, contudo, começou a notar o que se tornaria, para a equipe, a noção definidora do menino do Lapedo: uma mistura complexa de características ósseas, um mosaico.

Fonte:
Revista Scientific: ( Encontros amorosos entre sapiens e neanderthal)

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Versos de Natal

Pablo Picasso
Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!

Mas se fosses mágico,
Penetrarias até o fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.

Manuel Bandeira (1886-1968)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Aborto: uma longa história

Giorgione (Giorgio Barbarelli) - Vênus adormecida
Desde a Antiguidade até o advento da pílula, o aborto representou a arma de controle contraceptivo de casais legítimos, mas era, sobretudo, utilizado no quadro das relações extraconjugais. Embora não tenhamos dados sobre a frequência com que se abortava no Brasil - ao contrário da França setecentista, na qual as declarações de gravidez feitas obrigatoriamente à justiça do Estado permitiam calcular o número de abortos realizados - esse "crime" já fora comentado nas primeiras cartas jesuíticas como um hábito corrente entre as mulheres indígenas do Brasil Colonial. Essas, segundo os padres da Companhia de Jesus, apertavam as barrigas, carregavam peso e preparavam beberagens capazes de fazê-las "mover", contrariando teses debatidas em concílios, sermões e cânones que não perdiam uma única oportunidade para denunciar o aborto. Condenando a alma das crianças mortas ao limbo, o aborto era um pecado contra o corpo e sobretudo contra Deus que, depois da queda dos anjos rebeldes, precisava repovoar o paraíso com almas batizadas.
A luta contra o aborto entrou pelo século XIX, provocando em sua passagem perplexidade e rejeição. O viajante Debret, ao retratar uma vendedora de arruda nas ruas do Rio de Janeiro, anotava:"...esta planta tomada como infusão provoca o aborto, triste reputação que aumenta sua procura". As leis do reino de Portugal vigorando no Brasil Colônia condenavam o aborto voluntário, exigindo proceder sumário no caso de haver "mulheres infamadas de fazer mover outras" ou "médicos, cirurgiões e boticários que dão remédio para este dolo mau". Os quadros da Igreja eram também inquiridos sobre a familiaridade que teriam com esse crime. Os processos de admissão aos seminários perguntavam diretamente se o noviço teria sido causa de "algum aborto, fazendo mover alguma mulher". Prontuários de teologia moral condenavam violentamente a "agência, auxílio e conselho para fazer aborto depois de animado o feto". Nos documentos coloniais encontra-se a crença herdada da Antiguidade de que o feto não estaria animado senão depois de passados 40 dias, o que deixava amplas margens para medidas abortivas levadas a termo por mulheres que não estavam de todo desarmadas diante de uma gravidez indesejada. A Igreja era sensível a essa realidade e admoestava as que procuravam medicamentos e remédios para o dito fim "depois de estar animado o feto". Ela não deixava, tão pouco, de examinar os casos em que a mulher grávida, estando enferma, tomava remédios dos quais se seguia indiretamente aborto.
Essa prática foi aplicada por meio do uso indiscriminado de sangrias e laxantes. Sem contar os instrumentos pontiagudos como fusos de roca, broches de ferro, colheres e canivetes, eficientes para provocar o aborto, mas também infecções mortais. Os párocos das capelanias eram instados a indagar às suas penitentes se tomavam "alguma beberagem ou mezinha para mover [...] e de que meses eram prenhas quando moveram e se moveram macho ou fêmea". O olhar penetrante da Igreja varria a intimidade das mães, arrancando-lhes até informações sobre a identidade do fruto recusado. "Bebeste alguma coisa para vos causar aborto? Movesse porventura? Apertasse a barriga com as mãos para mover? Mataste vossa criança no ventre?" E os párocos inventariavam os gestos tradicionais do aborto, os mecanismos que derivavam da atrição ou os farmacológicos, que se utilizavam da fitoterapia, sobretudo da arruda. Cabia também ao confessor convencer a mulher da importância de conservar seu fruto, da mesma forma com que deviam "sofrer com paciência as incomodidades da prenhez e as dores do parto como pena do pecado"; dizia um pregador ao qual cabia, antes do parto, "cuidar para que por sua culpa não suceda algum aborto ou parto intempestivo".
A reflexão do confessor bem expressava a convicção da Igreja de que na maternidade residia o poder feminino de dirimir pecados. E, dentre eles, o maior de todos: o original. Causa central da expulsão do paraíso terreal, a mulher podia resgatar o gênero humano do vale de lágrimas em que bracejava, chamando a si permanente tarefa da maternidade. Nessa perspectiva, o aborto corporificava a maior monstruosidade. Além de privar o céu de anjinhos, ao "privar-se das incomodidades da prenhez" a mulher fugia às responsabilidades de salvar, no seu papel de mãe, o mundo inteiro. Junto com o horror ao aborto, a Igreja convivia ainda com outra forma de controle malthusiano: o infanticídio, ou o dito "afogamento dos filhos", no leito conjugal. O hábito das mães deitarem-se com seus bebês e os esmagarem durante o sono estava tão disseminado no Antigo Regime que as Constituições dos bispados previam punição de penitência "a pão e água por 40 dias" para esse crime. A dita penitência devia estender-se por três anos, se a criança fosse batizada, e por cinco, se não fosse.
Os dados capturados pelo historiador no discurso da Igreja não permitem saber quem abortava. Seriam as mães solteiras, as viúvas, as casadas, as adúlteras? Delas não há um retrato nítido. Por que abortavam? O desespero diante do filho indesejado, o pânico diante do estigma social ou da expulsão familiar parecem respostas possíveis. Mas que tipo de estigmatização poderia sofrer a mulher? O pior crime não parece ter sido o de ter filhos fora do matrimônio, como sublinhava a Igreja, mas ter matado o próprio fruto. Parece inegável que a valorização da maternidade, a eleição do corpo feminino como pagador de pecados solidificaram uma mentalidade de proteção da gravidez e exaltação da fecundidade da mulher na qual o aborto aparecia como uma mácula.
O interessante é que o preconceito contra a mulher que abortava já existia no dia-a-dia das comunidades. Não são poucos, em nosso folclore, os relatos de filhos mortos que retornam para queixar-se do abandono da mãe. O mais conhecido deles é o da "porca dos sete leitões". Mito europeu e ibérico, ativo desde a Idade Média, nele a porca representa os apetites baixos da sua carnalidade sexual, bem expressa na pecha com a qual as esposas criticavam as atividades extraconjugais dos maridos: "trata-se sempre da alma de uma mulher que pecou com o filho nascituro. Quantos forem os abortos, tantos serão os leitões", diz o especialista Câmara Cascudo. A Igreja encontrava, portanto, respaldo para combater o aborto na rejeição à mulher que rompia o acordo com a natureza. Ao que tudo indica, a Igreja passou a reforçar a imagem da mulher-que-aborta com aquela da mulher-que-vive-a-ligação-ilegítima. Ela distinguia as primeiras por não ter um casamento protetor, no seio do qual pudessem criar de maneira cristã, daquelas outras que educavam os filhos à sombra do sagrado matrimônio.
Ao combater o aborto, combatiam-se os chamados "mores dissolutos" cujo desdobramento - os filhos ilegítimos - podia levar a mulher a desejar a interrupção da gravidez. O aborto passava a ser visto, depois da longa campanha da Igreja, como uma atitude que "emporcalhava" a imagem ideal que se desejava para a mulher. A "porca dos sete leitões" tornava-se na mentalidade popular a antítese da mãe ideal, casada sob a bênção do padre. Como se pode ver, o papel da Igreja, ontem, ajuda a explicar sua atitude hoje, revelando também que temas importantes para a sociedade brasileira, como o do aborto, têm de ser examinados à luz das transformações sociais. O tabu do divórcio acabou, as famílias monoparentais se multiplicam e os jovens não fazem questão de casar para ter filhos. Por isso é sempre bom lembrar que, embora guardemos marcas do nosso passado, não vivemos mais no século XVIII!
Mary Del Priore
Historiadora

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

As perseguidas: as mulheres nos romances filosóficos do século XVIII

Se tomadas por paixões, as mulheres não raciocinam com a cabeça, e sim com a genitália. Pelo menos era nisso que acreditava o filósofo Denis Diderot (1713-1784), que ainda emendava: as mulheres estariam tão submetidas a seus impulsos que suas almas - se é que mulher possuía alguma - estariam em suas vaginas. Em seus escritos, ele chamava a genitália feminina, "carinhosamente", de "joia": "Acho que a joia leva uma mulher a fazer mil coisas sem que ela perceba. Já reparei, mais de uma vez, que uma mulher que pensava estar seguindo sua cabeça, na verdade estava obedecendo à sua joia. Um grande filósofo situava a alma masculina no cérebro. Se eu atribuísse às mulheres uma alma, sei onde a situaria."
François Boucher - Louise O' Murphy - amante do rei Luís XV.
Diderot não foi o único a pensar na mulher desta forma. Boa parte dos "romances filosóficos" concebia suas personagens femininas como "emocionalmente desequilibradas" e "irrascíveis em suas paixões", mais propensas a caírem, inclusive, em um desregramento sexual. A origem desses romances, no século XVIII, está relacionada ao Iluminismo. Alguns filósofos da chamada "Época das luzes" tentaram responder a perguntas sobre uma possível natureza feminina. Afinal, o que se vê nas mulheres que não é possível ver nos homens? Existe uma superioridade masculina com relação ao controle dos sentimentos? Quais seriam, então, os "atributos" de uma "mulher virtuosa"? Em diferentes oportunidades, os pensadores responderam a suas inquietações por meio dos chamados "romances filosóficos".
Além de Diderot, Montesquieu (1689-1755), Voltaire (1694-1778), Rousseau (1712-1778) e Crebillon Fils (1707-1777) fizeram dos romances importantes veículos para a divulgação das ideias e dos ideais iluministas, que criticavam a sociedade hierarquizada e a Igreja Católica. Talvez tenha sido esse um dos motivos pelos quais os romances foram tão perseguidos pela censura portuguesa no século XVIII. Mas as luzes - e, consequentemente, os romances - não se preocuparam apenas em avaliar e ironizar o trono e o clero. É certo que entre os temas mais abordados pelas narrativas também apareceu, de forma recorrente, a questão do feminino. Não teria sido fortuito, por exemplo, o fato de que vários romances, logo em seus títulos, já fizessem menção ao "belo sexo". Foi o caso dos romances Teresa Filósofa (1749), de Jean-Baptiste de Bayer, o marquês d'Argens (1704-1771), A Religiosa (1760), de Denis Diderot, Júlia ou A Nova Heloísa (1761), de Rousseau, e A Princesa de Babilônia (1768), de Voltaire.
Duas fases marcaram as opiniões dos "romances filosóficos" sobre as mulheres. Em uma fase inicial - na primeira metade do século XVIII -, as mulheres foram descritas de forma bastante pejorativa, quase sempre relacionadas a "paixões". Mas as mulheres não eram descritas como possuidoras de uma paixão que, bem moderada, incentivava as pessoas a cumprir seus objetivos. Não. Elas eram associadas a uma "má paixão", descontrolada, sem limites. Em suma: uma paixão que transformava os seres humanos em criaturas quase irracionais.
Essa imagem lasciva da mulher teve importantes consequências na caracterização das personagens dos romances. Em geral, as heroínas da primeira metade do século XVIII possuíam características físicas e psicológicas - juventude, beleza e voluptuosidade - que as inclinavam "naturalmente" a viver suas paixões. Jovens, as personagens representavam uma dupla imagem: a da mulher a ser deflorada e a da menina que começava a ser impelida ao sexo por seus próprios sentidos - situação vivida, por exemplo, pela personagem Teresa, do romance Teresa Filósofa. Bonitas, elas seriam sempre desejadas e convidadas a viver suas paixões. Manon Lescaut, a sensual protagonista de A História do Cavalheiro Des Grieux e Manon Lescaut (1731), escrita pelo abade Prévost (1697-1763), é um exemplo lapidar. Voluptuosas, as mulheres estariam constantemente com suas paixões afloradas, como Fatmé, coadjuvante de Cartas Persas, romance de Montesquieu publicado em 1721 e proibido pela censura portuguesa em 1771.
Jean Léon Gérôme - Piscina em um harém.
Nessa obra, as "mulheres orientais" são descritas por Montesquieu como seres tão desejosos de sexo que, para não se "perderem", deveriam ser trancafiadas e vigiadas, dia e noite, por eunucos. Vistas como lúbricas ao extremo, estas infelizes prisioneiras não conseguiam suportar a ausência do falo masculino. Somente por meio dele suas "paixões" poderiam ser temporariamente saciadas. Fatmé, ao longo de todo o romance, ilustrou bem este discurso. Presa em um serralho e distante de Usbek, seu "senhor", ela lamentava não poder saciar os desejos que tanto a castigavam. Sofrendo com os ataques de suas paixões, Fatmé oscilava entre a resignação - a fidelidade a Usbek - e o desespero - o anseio incontrolável por sexo. Até que, no limite de sua resistência, desabafa, com rara franqueza, em carta a Usbek: "Como é infeliz a mulher que tem desejos tão violentos quando está privada do único meio de saciá-los; quando abandonada a si mesma, nada tendo que a possa distrair, ela tem de habituar-se aos suspiros e viver no furor de uma paixão irritada".
Se havia interesse pela juventude e pela voluptuosidade, o mesmo não se pode dizer sobre personagens que viessem a representar os papéis de esposas e mães. Pouquíssimas obras, entre 1721 e 1760, apresentavam esse perfil. A razão parece óbvia: maternidade e matrimônio exigiam uma postura mais equilibrada das mulheres. E, definitivamente, os romances da primeira metade do século XVIII não viam, nem queriam ver, o feminino de tal forma. Interessavam-se mais pelas mulheres apaixonadas. Afinal, na opinião manifestada em alguns romances, eram as que melhor representavam a tão discutida e controvertida "natureza feminina". Além disso, tais personagens seriam, segundo os escritores do período, mais interessantes para o público leitor. Sendo loucas em suas paixões, a possibilidade de as heroínas se envolverem em cenas lascivas seria bastante considerável. E entre ver esposas cuidando de seus afazeres domésticos e bisbilhotar belas jovens se entregando ao sexo, muitos preferiam esta última opção.
Uma alternativa que agradava aos leitores deveria desagradar, e muito, aos censores portugueses. Basta lembrar que boa parte dos romances proibidos foi de obras escritas e publicadas na primeira metade do século XVIII. Boa parte, mas não a totalidade. A censura portuguesa também proibiu um número considerável de obras lançadas após 1750. Entre elas estava Júlia ou A Nova Heloísa, de Jean-Jacques Rousseau, proibida pelo Edital da Real Mesa Censória em 24 de setembro de 1770. Uma proibição que - pensando especificamente no feminino - chega a surpreender. Sob vários aspectos, a obra proibida de Rousseau se alinhava às opiniões de uma moral religiosa que era apregoada às mulheres e que os tribunais censórios portugueses tanto defendiam. Em vez de corromper e ridicularizar valores como a virgindade, o casamento, a fidelidade conjugal, o "dever" da mulher de ser obediente ao homem - primeiro ao pai, depois ao marido - e o zelo materno, temas caros à religião católica. A Nova Heloísa os defendeu de forma explícita.
François Boucher - A refeição da tarde.
Romance epistolar, com narrativa desenvolvida a partir de cartas trocadas entre os personagens, A Nova Heloísa marcou outro momento dos "romances filosóficos", com novas opiniões sobre o feminino. Nele, as mulheres não foram descritas apenas pelo ângulo das "paixões". O "belo sexo" passava a ser relacionado também a uma ideia de virtude, que estava estreitamente ligada a três pilares: à virgindade na juventude - afinal, "o amor nas moças é indecente e escandaloso e apenas um esposo autorizaria um amante" -, ao matrimônio e à maternidade. Segundo Rousseau, quando adulta, a mulher deveria saber qual é o seu lugar. A "mulher virtuosa" seria a esposa casta e submissa e a mãe que prepara os filhos para serem educados pelos homens: "Mas há um longo caminho dos seis anos aos 20; meu filho não será sempre criança e, à medida que sua razão comece a nascer, a intenção de seu pai é de realmente a deixar exercer. Quanto a mim, minha missão não vai até lá. Alimento crianças e não tenho a presunção de querer formar homens. Espero, disse olhando seu marido, que mãos mais dignas venham a se encarregar desse trabalho. Sou mulher e mãe, sei manter-me em meu lugar. Ainda uma vez, a função de que estou encarregada não é a de educar meus filhos, mas de prepará-los para serem educados".
Essas opiniões novamente se refletiram na caracterização das próprias personagens. Se nos romances anteriores à obra de Rousseau as heroínas não foram pensadas para viver a maternidade e o matrimônio, e sim para deixarem transparecer "os efeitos das paixões", na Nova Heloísa a situação se inverte. Neste romance, as personagens estão envolvidas com suas futuras obrigações de mãe e esposa durante quase toda a narrativa. De Montesquieu a Rousseau, os "romances filosóficos" estiveram longe de propagandear uma emancipação feminina. Suas personagens bem demonstraram isso. Apaixonadas ou virtuosas, as mulheres foram sempre vistas nas obras como seres inferiores aos homens, tanto em sua capacidade psicológica quanto nos seus direitos perante a sociedade. A situação era bem difícil: se ousassem expor seus sentimentos, seriam encaradas como escravas de suas paixões. Se optassem por não abraçar a maternidade e o matrimônio, estariam se afastando da virtude. Mas, apesar de tanta resistência, as mulheres, mesmo vivendo em tal contexto, conquistaram importantes avanços. E continuam conquistando. Apaixonados e virtuosas.
Renato Sena Marques.
As Perseguidas.
In: Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 7 / Nº 79 / Abril 2012. p. 48-51.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

A Cigarra e a Formiga

“Depois de acumular barras e barras de ouro,
a formiga, afinal, sentiu o último alento,
pesarosa, talvez, como bom avarento,
de não poder levar consigo o seu tesouro.

–“A minha vida foi um trabalho incessante!
Trabalhei! Trabalhei sem parar um instante!”

Naquele mesmo dia, estranha coincidência,
exausta de cantar, a boêmia da cigarra.
o derradeiro adeus deu, cheia de eloquência,
à vida que levara, ao léu, sempre na farra.

– “Cantei! Cantei, alheia ao mais, despreocupada,
que a vida é só amor; o resto não é nada!”

E, juntas, para o céu elas foram subindo.
A cigarra cantava, estuante de alegria:
– “Mas que dia! E que sol! Como tudo está lindo!”
– “O meu ouro ficou…” a formiga gemia.

Foi recebê-las Deus: — “Responde-me cigarra;
o que fizeste lá? O que fizeste, narra.” .

– “Cantei. Sempre cantei, em meio à humana dor,
a alegria da vida, a alegria do amor”.

– “E tu?” — “Eu trabalhei. E tudo lá ficou…”
Depois de ouvi-las, Deus bondoso lhes falou:

–“O trabalho merece e a glória do Paraíso.
Mas tu, (disse esboçando esplêndido sorriso,

sob a fascinação do canto da cigarra)
se levaste, afinal, uma vida bizarra

alegraste, porém os corações aflitos
que sangravam de dor, dos humanos precitos”.

… E à flor dos lábios tendo seu melhor sorriso,
abriu para a cigarra as portas do Paraíso.

Afonso Louzada

sábado, 20 de dezembro de 2014

Confúcio

Confucionismo
Introdução:
Religião oriental baseada nas ideias do filósofo chinês Confúcio (551-479 a.C.). Conhecido pelos chineses como Junchaio (ensinamentos dos sábios). O princípio básico do Confucionismo é a busca do Caminho (Tao), que garante o equilíbrio entre as vontades da terra e as do céu.
Seu Nascimento e Juventude:
Confúcio, também conhecido como K'ung Ch'iu (Mestre Kong), nasceu em meados do século VI (551 a.C.), em Tsou, uma pequena cidade no estado de Lu, hoje Shantung. Este estado é denominado de "terra santa" pelos chineses. Confúcio estava longe de se originar de uma família abastada, embora seja dito que ele tinha descendência aristocrática. Seu pai, Shu-Liang Hê, antes magistrado e guerreiro de certa fama, tinha setenta anos quando se casou com a mãe de Confúcio, uma jovem de quinze anos chamada Yen Chêng Tsai, que diziam ser descendente de Po Ch'in, o filho mais velho do Duque de Chou, cujo sobrenome era Chi.
Dos onze filhos, Confúcio era o mais novo. Seu pai morreu quando ele tinha três anos de idade, o obrigando a trabalhar desde muito novo para ajudar no sustento da família. Aos quinze anos, resolveu dedicar suas energias à busca do aprendizado. Em vários estágios de sua vida empregou suas habilidades como pastor, vaqueiro, funcionário e guarda-livros. Aos dezenove anos se casou com uma jovem chamada Chi-Kuan. Apesar de se divorciar alguns anos depois, Confúcio gerou um filho, K'ung Li, que nasceu um ano após seu casamento, e uma filha.
Fundo Histórico da China:
Confúcio viveu numa época em que a China se encontrava dividida em estados feudais que lutavam pela supremacia do poder. Estas guerras eram seguidas de execuções em massa. Soldados eram pagos para trazer as cabeças de seus inimigos. Populações inteiras eram disseminadas através da decapitação de mulheres, crianças e velhos. Estes números chegavam a 60.000, 80.000, 82.000, e até 400.000. A longa e complexa história política do povo evolveu na desunião e diversidade, que estavam refletidos nas características sociais e culturais da Dinastia Chou. A renascença social e moral advogada por Confúcio não tinha aprovação universal, principalmente nos círculos de poder, e seu ardente desejo era um posto governamental. Foi então que na idade de trinta anos ele deixou Lu e viajou para o Estado de Ch'i em companhia do Duque Chao, que fugia por ser o perdedor de uma dura luta política.
Seus Anos de Serviço Público:
Aos 51 anos de idade foi indicado como funcionário chefe da cidade de Chung Tu e, pelo seu desempenho chegou a ser promovido ao posto de Oficial dos Serviços Públicos, e depois, ao de Grande Oficial da Justiça em sua província. Aos 55 anos partiu numa jornada de treze anos visitando os estados vizinhos e falando aos senhores feudais sobre suas ideias. Foi recebido como um erudito, mas nenhum dos governantes pensou em colocar essas ideias em prática. Confúcio acreditava que a implementação de seus pontos de vistas pelo governo estabeleceria a utopia do "estado como um bem público", e prepararia o caminho para paz entre os homens.
Regressou a sua terra natal quando tinha 68 anos, onde continuou se dedicando ao ensino de um grupo de discípulos. A escola privada, fundada por Confúcio, cresceu a ponto de ter 3.000 alunos. Destes, setenta e dois eram chamados de seus discípulos mais eruditos. Ele tentou transformá-los em Jens, seres humanos perfeitos que praticassem o exercício do amor e da bondade. Segundo seus preceitos, a sociedade humana deve ser regida por um movimento educativo, o qual parte de cima, e equivale ao amor paterno, e por outro de reverência, que parte de baixo, como a obediência de um filho. O Confucionismo considera o homem bom e possuidor do livre arbítrio, sendo a virtude sua recompensa. O único sacrilégio é desobedecer a regra da piedade.
Segundo a história, Confúcio morreu em 479 a.C., velho, desapontado, mal sucedido e murmurando: “A grande montanha terá que desmoronar! A forte viga terá que quebrar! O homem sábio murcha como a planta! Não existe ninguém no império que me queira como mestre! Meu tempo de morrer chegou.”
(Anacletos, 56).
Seus discípulos o lamentaram por três anos, e um deles permaneceu junto à sua sepultura por seis anos em Ch'u Fü. Hoje, o local tornou-se a denominada Floresta K'ung.
Confucionismo - Filosofia ou Religião?
Tendo em vista que o Confucionismo trata primariamente de condutas morais e de ordem social, esta religião é frequentemente categorizada como um sistema ético e não como uma religião. Em sua visão de reforma, Confúcio advogava justiça para todos como o fundamento da vida em um mundo ideal, onde os princípios humanos, cortesia, piedade filial, e virtudes da benevolência, retidão, lealdade e a integridade de caráter deviam prevalecer. Porém, deve-se atentar às perspectivas do povo chinês na época de Confúcio, e observar as influências que ele trouxe, as quais não se limitam a uma esfera ética.
O Confucionismo permaneceu como religião oficial da China desde sua unificação, no século II, até sua proclamação como República pelo Kuomintang em 1911. Durante a Dinastia de Han do Imperador P'ing (202-221 a.C.), seus funcionários foram recrutados entre os confucionistas. As primeiras críticas ao Confucionismo surgiram com a República. Entre 1966 e 1976, durante a Grande Revolução Cultural Proletária, foi novamente atacado por contrariar os interesses comunistas. Atualmente, apesar do comunismo banir todo tipo de religião, 25% da população chinesa afirma viver segundo a ética confucionista. Fora da China, o Confucionismo possui cerca de 6.3 milhões de adeptos, principalmente no Japão, na Coréia do Sul e em Cingapura.
Princípios da Doutrina Confucionista:
As doutrinas confucionistas podem ser resumidas em seis palavras-chaves:
1. Jen - humanitarismo, cortesia, bondade, benevolência. É a norma da reciprocidade, ou seja, "não faça aos outros o que você não gostaria que lhe fizessem." Esta é a virtude mais elevada do Confucionismo. Segundo ensinam, se o homem colocá-la em prática, ele poderá viver em paz e em harmonia com as outras pessoas (Anacletos 15:24). Porém, desde o princípio da humanidade, o gênero humano nunca foi por si próprio, ou pelo seu esforço, capaz de estabelecer esta paz ou harmonia. O exemplo vemos na história antiga e contemporânea: Egito, Babilônia, Grécia, Roma, I & II Guerras Mundiais, Bósnia, Ruanda, Iraque, e a lista não teria fim.
2. Chun-tzu - homem superior, virilidade. Segundo Confúcio, o homem para ser perfeito deve ter humildade, magnanimidade, sinceridade, diligência e amabilidade. Somente assim, ele poderá transformar a sociedade em um estado de paz. Porém, a realidade do ser humano é outra. O homem natural é egoísta, soberbo e mal contra seu próximo. Isso podemos contemplar com os nossos olhos dia-a-dia, sem mencionar as injustiças e atrocidades contra os direitos humanos no Holocausto e na Praça Tiananmem em Beijing.
3. Cheng-ming - Retificação dos nomes. Este conceito ensina que para uma sociedade estar em ordem, cada cidadão deveria ter um título designativo ou um papel, e afirmar-se neste papel no esquema da vida. O rei, atuando como rei, o pai como pai, o filho como filho, o servo como servo. (Anacletos, 12:11; 13:3)
4. Te - poder, autoridade. Confúcio ensinava que a virtude do poder, e não a força física, era necessária para dirigir qualquer sociedade. Todo governante, segundo ele, deveria ter esta autoridade para inspirar seus súditos à obediência. Este conceito perdeu-se durante o tempo de Confúcio, dado à predominância das guerras e sobrepujança das dinastias entre si.
5. Li - padrão de conduta exemplar, propriedade, reverência. Este conceito é tratado no Livro das Cerimônias (Li Ching), um dos Cinco Clássicos. Segundo Confúcio, cada governante deveria ser benevolente, proporcionar um bom padrão de vida para o povo e promover a educação moral e os ritos. Sem esta conduta, o homem não saberia oferecer a adoração correta aos espíritos do universo, não saberia estabelecer a diferença entre o rei e o súdito, não saberia a relação moral entre os sexos, e não saberia distinguir os diferentes graus de relacionamento na família (Li Ching, 27). Como exemplo perfeito de benevolência, ele exaltava o legendário Imperador Yao e seu sucessor, o Imperador Shun, os quais foram renomeados e constituíram, como diziam, "uma idade de ouro da antiguidade".
6. Wen - artes nobres, que inclui: música, poesia e a arte em geral. Confúcio tinha uma grande estima pela arte vinda do período da Dinastia Chou, e considerava a música como a chave da harmonia universal. Ele cria que toda expressão artística era símbolo da virtude e que deveria ser manifesta na sociedade. "Aqueles que rejeitam a arte, rejeitam as virtudes do homem e do céu" (Anacletos, 17:11, 3:3). Para Confúcio, a música era um reflexo do homem superior e espelhava seu caráter verdadeiro.
Sucessores de Confúcio:
Entre os sucessores de Confúcio destacam-se Mêncio Meng-tseu (371-289 a.C) e Hsun-tzu (315-236 a.C.). Mêncio partiu do conceito confuciano de benevolência para desenvolver a doutrina da bondade inata do homem, a qual precisa ser descoberta e aprimorada por meio da meditação. Hsun-tzu, ao contrário, defende a teoria da maldade inata. Segundo ele, o homem é mau e indisciplinado por natureza e somente as regras e leis podem possibilitar a vida social.
Processo da Deificação de Confúcio:
Desde o início da era cristã, iniciou-se uma veneração oficial a Confúcio. Por séculos em Pequim, tanto os imperadores chineses como os mandarins adoravam e faziam rituais de ofertas e sacrifícios à Confúcio. Uma média de 62.606 animais eram oferecidos anualmente nos altares de mais de 1.560 templos em toda China.
Templo de Taichung, dedicado à Confúcio. O Confucionismo deixou de ser um sistema ético e se tornou uma religião.
Os Escritos Confucionistas:
Confúcio compilou, editou e escreveu alguns escritos depois dos seus 43 anos de idade. Seus ditos, juntamente com os de Mêncio e de outros discípulos, foram reunidos no "Wu Ching" (os "Cinco Clássicos") e no "Shih Shu" (os "Quatro Livros"), onde se incluiu o Anacleto (ditos de Confúcio).
Os Cinco Clássicos:
1. Shu Ching (Livro dos Documentos), sobre a organização política de cinco dinastias da China
2. I Ching (Livro das Mutações), sobre a metafísica
3. Li Ching (Livro das Cerimônias), sobre a visão social
4. Shi Ching (Livro das Poesias), sobre a antologia secular e religiosa
5. Chun-Chiu (Anais das Primaveras e Outonos), sobre a História da China.
Os Quatro Livros:
1. Ta Hsio (Grande Aprendizado), ensinamentos sobre a virtude
2. Chung Yung (Doutrina do Meio), ensinamentos sobre a moderação perfeita
3. Lun Yu (Anacletos), coleção das máximas de Confúcio, seus princípios éticos
4. Meng-Tze (Mêncio), obra do grande expositor de Confúcio.
No Confucionismo não existe igrejas, clero, ou credo. Entretanto, a religião influencia as formas de pensamento, educação e governo do povo chinês. De 125 a 1905 d.C., os membros da classe de servidores públicos dos mandarins eram nomeados para os postos governamentais, com base no exame dos clássicos de Confúcio. Este sistema permitiu que muitos indivíduos de procedência humilde atingissem a proeminência e premiou a honestidade do governador e do súdito.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Ternura e Cavalheirismo

Edmund Blair Leighton
Quem morreu primeiro: a ternura ou cavalheirismo ?
A mulher está mais agressiva. O homem, menos gentil.
Quem começou isso primeiro ?
A noite está uma guerra – queixa-se a moça bonita e solteira. Agora nem preciso mais chegar junto – festeja o carinha de calça skinny e barba de oito dias. Vou meter o dedo no olho dela – ameaça a namoradinha, vendo uma periguete arrastando a asa pros seus domínios. Nós somos Constantinopla e elas são os turcos – comemora Marcos Palmeira na abertura do longa “E Aí, Comeu?”, de Felipe Joffily.
Já vem acontecendo faz tempo, não é novidade. Pode ser resquício da queima de sutiãs ou das primeiras CEOs, não sei. Fato é que elas estão se portando como iguais aos homens. Estão mais objetivas, mais focadas, com menos mimimi. Também vão pra cima, também xavecam, também derrubam. Fazem isso em plena luz do dia, no trabalho, nas aulas de Cross Fit, no trânsito. E repetem o comportamento durante a noite também, claro. Mordem e deixam roxo. O Alfa se ressente. Gosta da pegada varejo que a night se tornou, mas reclama: a mulherada perdeu a ternura. Perdeu mesmo, verdade. Há registros inclusive de uma moça que recusou flores, porque teria que pôr no vaso e eventualmente regar. Estão muito brutas – diz outro queixoso. Me atacaram como se eu fosse um objeto – acusa o gatinho, sorrindo dentes quebrados.
Ainda ganham menos, segundo pesquisas (coisa que daria outra crônica; se quiserem escrevo). Ganham menos até nos torneios de tênis. Agora, se as mulheres perderam um pouco a ternura, os homens também deixaram de ser cavalheiros. Pararam de seguir a etiqueta das relações afetivas – para seguir o Bolsonaro no "feice". Elas vieram pra cima, e eles deixaram de ser gentis. Coisa mais comum do mundo, hoje, é dividir a conta – algumas vezes até separando uma cerveja a mais num lado, uma caipirinha de saquê no outro. Vixe, nossa, uia. Não abrimos mais a porta do carro pra elas. Credo. Tem gente até que deixa a moça no ponto de táxi, depois do dois-vira-quatro-acaba. O homem, diante de um rebolado, parou de receber a verve de Fernando Pessoa para encarnar Compadre Washington. Gente do céu ! Estamos tratando as mulheres como iguais ! Tudo bem que elas querem isso mesmo, mas não precisa tratar como igual o tempo todo. Se isso é bom para o ambiente corporativo, é no mínimo cegueira anatômica para a vida lá fora (que é onde as melhores coisas acontecem).
Mas quem começou primeiro ? Os homens, que desencanaram da sedução protocolar básica – ou as mulheres, que desistiram do modelo de conduta consagrado desde Maria Madalena ? Qual foi o primeiro pé que chutou as convenções ? Quem começou com essa de ser igual até na sedução ? Quem é ovo e quem é ave, aqui ?
Eu não sei responder. Sei, isso sim, que ficou pálido, sem nenhuma cor. Ternura nunca fez mal a ninguém, pelo contrário. Não fosse a ternura não haveria o filho mais velho dela (o cafuné), nem o irmão caçula (o bolo de chocolate). E ser cavalheiro é tipo Stones, Michelangelo e jeans com camiseta branca. Básico. Moderno.
Digo tudo isso acima porque me parece ser assunto quente para esta semana pré-natal, quando as pessoas costumam se refugiar bastante em bar. Amigo secreto, encontros de escola aterradores, festa da firma, não falta mesa. Também não vai faltar menino querendo rachar conta e menina querendo conversar de homem pra homem. Me parece o ambiente adequado para discussões infindáveis como essa, apesar da ressaca que inapelavelmente virá em seguida. Então, aqueçam os argumentos e me digam: quem começou primeiro ?

Fonte:
Jornal Estadão: ( Autor: Lusa Silvestre)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

A Disciplina do Amor

Carl Vilhelm Holsoe
“Solução melhor é não enlouquecer mais do que já enlouquecemos, não tanto por virtude, mas por cálculo. Controlar essa loucura razoável: se formos razoavelmente loucos não precisaremos desses sanatórios porque é sabido que os saudáveis não entendem muito de loucura. O jeito é se virar em casa mesmo, sem testemunhas estranhas. Sem despesas.”
- Lygia Fagundes Telles

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

As Meninas

Renoir-Girls Picking Flowers
"Vocês me parecem tão sem mistério, tão descobertas, chego a pensar que sei tudo a respeito de cada uma e de repente me assusto quando descubro que me enganei, que sei pouquíssima coisa."
- Lygia Fagundes Telles

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Platão

Anne-François-Louis Janmot - O Voo da Alma
Síntese das ideias de Platão:

✓ Em "A República", ele analisa a política grega, a ética, o funcionamento das cidades, a cidadania e questões sobre a imortalidade da alma.

✓ Ele valorizava os métodos de debate e conversação como formas de alcançar o conhecimento.

✓ Platão distinguiu dois níveis de saber: opinião e conhecimento.

✓ Platão aplica sua teoria a conceitos como beleza, justiça, bondade.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Ditadura Militar

“A preservação da memória do país é fundamental,
[pois] a democracia começa a ser construída
a partir da escola pública”.

Henrique Paim
Ministro da Educação
No dia 5 de dezembro de 2014, o governo federal lançou uma plataforma eletrônica sobre o período da repressão civil-militar mais dura já imposta ao país.
É um dever de todos se empenharem no "resgate" para que a verdade histórica seja conhecida, por mais dolorosa que possa ser, por mais arrependimentos que traga e principalmente para que a maioria que hoje tem muito acesso à informação (não necessariamente ao conhecimento) possa balizar e compreender a raiz de tanta violência. A mesma violência que mata nas áreas periféricas, que ensina a dominar, humilhar e exterminar como solução. Meditar a respeito das razões desse traço tão hipócrita, cínico e mentiroso em tantas vertentes da vida nacional, no serviço público de modo geral e a influência dessa praga na sociedade que espelha de forma fiel o que reproduz como parte da elite e maioria dos corruptos que só almejam o lucro fácil, é uma tarefa quase inglória. Os que tentarem, vão provar se sim, ou se não.
Estamos nisso até o pescoço e apesar de toda a dor, todo o sofrimento, toda a perseguição e principalmente todas as violações de direitos, pensamos que sim: vale a pena. "Tudo vale a pena se a alma não é pequena" (disse o poeta Fernando Pessoa) e não somos mesquinhos, nem medíocres, tampouco ladrões...
Os que roubaram, há 50 anos, sonhos, vidas, corpos... Esqueceram que a verdade rompe toda e qualquer barreira. Hoje, bem mais depauperados, mostram que são apenas os covardes de sempre, se escondendo atrás da idade, da avançada canalhice que o tempo não pode esconder... E tem medo! Não querem responder pelos crimes.
São os valentões de ontem, que prendiam, arrebentavam e matavam, os mesmos que hoje abusam do poder que o estado lhes dá, para provocar, mentir, reunir quadrilhas de canalhas que assediam com ofensas, agressões covardes porque engendradas entre seus asseclas, processos entre comparsas que também se reúnem como todos os marginais, acusações orquestradas e arranjadas entre outros delinquentes que o estado paga para perseguirem pessoas dignas que eles invejam e nunca vão alcançar, julgamentos nulos e tão planejados quanto os encontros e orgias que acontecem nas sombras da região dos "jardins" quanto nas casas de massagem da augusta... Pior: esses caras posam por aí com honrarias de bijou que trocam entre si reciprocamente e depois do rega-bofe todos sabem que testosterona é a única droga não existente na forma sintética, por isso... Todos se encontram onde o swing é moeda de troca e processos de jurisdicionados acabam virando almofada de pele flácida.
Tem senhoras idosas que saem de SP para protestos que pedem a volta da ditadura em Brasília e tem outras que saem de Brasília á procura de alguma dita... Mas só encontram a maria-mole.
Por fim, tem os canalhas que pensam ser os exemplares únicos de inteligência na pista de rolamento e mesmo assim ainda não conseguiram ver o óbvio: das 2 coisas que ninguém come sozinho, uma é a melancia grande... A cobertura que usam, todos sabem qual é.
No contraponto da verdade histórica que começa a despontar com o relatório que já pôs a nocaute muito valentão que bateu em gente algemada, que matou e sumiu com corpos, que pensou que "juizite" salvaria sua pele em ocultações criminosas, que torturou e perseguiu e pensou que nunca nada disso lhe seria cobrado, temos uma história muito linda, de amor ao próximo, de respeito, de solidariedade, algo que brasileiros ainda não sabem direito o que é!
É a mulher solitária, valente e muito corajosa, que venceu o medo. Felizes saudações aos bons e último aviso aos canalhas: está quase no ponto-zygote!
Sandra Paulino

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A Adormecida

........................ [à Lucien Fabre]
Noel Nicolas Coypel
Que segredo incandesces no peito, minha amiga,
Alma por doce máscara aspirando a flor?
De que alimentos vãos teu cândido calor
Gera essa irradiação: mulher adormecida?

Sopro, sonhos, silêncio, invencível quebranto,
Tu triunfas, ó paz mais potente que um pranto,
Quando de um pleno sono a onda grave e estendida
Conspira sobre o seio de tal inimiga

Dorme, dourada soma: sombras e abandono.
De tais dons cumulou-se esse temível sono,
Corça languidamente longa além do laço,

Que embora a alma ausente, em luta nos desertos,
Tua forma ao ventre puro, que veste um fluido braço,
Vela, Tua forma vela, e meus olhos: abertos.

Paul Valéry (1871-1945)
Tradução: Augusto de Campos

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

História

Louis Jean François Lagrenée - History
“Pensar o passado para compreender o presente e idealizar o futuro”.
Heródoto
A palavra História tem sua origem nas investigações de Heródoto, cujo termo em grego antigo é Ἱστορίαι (Historíai). Desde os gregos antigos até o presente, a História se conjuga como método de investigação das relações e ações humanas em diferentes épocas. O historiador é o principal proponente nesse processo de investigação, sua tarefa não é julgar o passado, mas compreender por meio dele, as ações humanas que interferem sobre seu próprio presente.
Os primeiros Historiadores
Heródoto e Tucídides são considerados os primeiros historiadores. Viveram aproximadamente em fins do século V a.C.
Heródoto (484-5a.C - 420a.C.), considerado por Cícero como o pai da História era de Halicarnasso e Tucídides (460 a.C. - 396 a.C.) de Atenas.
Heródoto em sua obra intitulada Histórias é um importante catálogo historiográfico acerca das guerras greco-pérsicas do século V a.C. Heródoto também é considerado o pai da narrativa histórica, pela sua forma de escrita sem compromisso obrigatório com os documentos e fontes. Este escrevia o que via e sentia ao observar o fato com seus próprios olhos.
Tucídides, ao contrário, se propôs escrever os fatos com rigor metodológico, principalmente no que se refere às fontes, a forma e o público-alvo de seus escritos. Sua Obra, Guerra do Peloponeso, visava compreender o processo da guerra e sua interferência direta na sociedade grega de seu tempo. Seu método e objetivo, era compreender não só este processo, mas as inferências que poderia fazer sobre o futuro da Grécia ao analisar as possíveis consequências da guerra.
Assim Heródoto é considerado "pai da historiografia" e Tucídides, "pai do rigor histórico".

domingo, 7 de dezembro de 2014

Civilização Branca

David Alfaro Siqueiros
Lincharam um homem
entre os arranha-céus
(li num jornal)
procurei o crime do homem
o crime não estava no homem
estava na cor de sua epiderme...

Solano Trindade (1908-1974)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Perfumes e Amor – na primeira folha dum álbum

Jing Yi - Album
A flor mimosa que abrilhanta o prado
ao sol nascente vai pedir fulgor;
E o sol, abrindo da açucena as folhas,
Dá-lhe perfumes - e não nega amor.
Eu que não tenho, como o sol, seus raios,
Embora sinta nesta fronte ardor,
Sempre quisera ao encetar teu álbum
Dar-lhe perfumes - desejar-lhe amor.
Meu Deus! nas folhas deste livro puro
Não manche o pranto da inocência o alvor,
Mas cada canto que cair dos lábios
Traga perfumes - e murmure amor.
Aqui se junte, qual num ramo santo,
Do nardo o aroma e da camélia a cor,
E possa a virgem, percorrendo as folhas,
Sorver perfumes, respirar amor.
Encontre bela, caprichosa sempre,
Nos ternos hinos d’infantil frescor
Entrelaçados na grinalda amiga
Doces perfumes - e celeste amor.
Talvez que diga, recordando tarde
O doce anelo do feliz cantor:
- “Meu Deus! nas folhas do meu livro d’alma
Sobram perfumes - e não falta amor!”

Casimiro de Abreu (1839-1860)

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

O Bom Escritor

Jean-Louis Ernest Meissonier
“O bom escritor não diz mais do que pensa. E isso é muito importante. É sabido que o dizer não é apenas a expressão do pensamento, mas também a sua realização. Do mesmo modo, o caminhar não é apenas a expressão do desejo de alcançar uma meta, mas também sua realização. Mas a natureza da realização - faça justiça à meta ou se perca, luxuriante e imprecisa no desejo - depende do treinamento de quem está a caminho. Quanto mais mantiver a disciplina e evitar os movimentos supérfluos, desgastantes e oscilantes, tanto mais cada postura do corpo satisfará a si própria e tanto mais apropriada será sua atuação. Ao mau escritor ocorrem muitas coisas, e nisso se gasta tanto quanto o mau corredor não treinado no movimentos indolentes e gesticulados dos músculos. Mas exatamente por isso nunca pode dizer exatamente o que pensa. É dom do bom escritor, com seu estilo, conceder ao pensamento o espetáculo oferecido por um corpo gracioso e bem treinado. Nunca diz mais do que pensou. Por isso, o seu escrito não reverte em favor dele mesmo, mas daquilo que quer dizer”.
Walter Benjamin (1892-1940)
Do livro: Rua de Mão Única

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Poema para Galileo

Justus Sustermans
Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.
Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…
Eu sei… Eu sei…
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!

Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar – que disparate, Galileo!
– e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação –
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.

Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?

Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se tivesse tornado num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.

Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas – parece-me que estou a vê-las –,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e escrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai Galileo!
Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo,
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileo Galilei.
Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão direta do quadrado dos tempos.

António Gedeão (1906-1997)