sábado, 30 de abril de 2011

Duy Huynh
Pelas sombras temerosas
Onde vai esta canoa?
Vai tripulada ou perdida?
Vai ao certo ou vai à toa?
Semelha um tronco gigante
De palmeira, que s'escoa...
No dorso da correnteza,
Como bóia esta canoa!...
Mas não branqueja-lhe a vela!
N'água o remo não ressoa!
Serão fantasmas que descem
Na solitária canoa?
Que vulto é este sombrio
Gelado, imóvel, na proa?
Dir-se-ia o gênio das sombras
Do inferno sobre a canoa!...
Foi visão? Pobre criança!
À luz, que dos astros coa,
É teu, Maria, o cadáver,
Que desce nesta canoa?
Caída, pálida, branca!...
Não há quem dela se doa?!...
Vão-lhe os cabelos a rastos
Pela esteira da canoa!...
E as flores róseas dos golfos,
— Pobres flores da lagoa,
Enrolam-se em seus cabelos
E vão seguindo a canoa!...

Castro Alves (1847-1871)

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Cada um à espera do outro...
Sempre.

Eu, disposto
já parti para uma espera certa
à minha maneira...
Ando em cantar.

O que sai da minha garganta é canção.
O que se sufoca na minha garganta é também canção.
Com elas, estrangulo a distância
e faço dela uma porta aberta
para uma história.

Cada um à espera do outro
sempre
sempre.

Yao Feng
(Yao Feng, pseudônimo de Yao Jing Ming)
John Willian Waterhouse - The Shrine
Ó tu que vens de longe, ó tu que vens cansada,
entra, e sob este teto encontrarás carinho:
Eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho.
Vives sozinha sempre e nunca foste amada...

A neve anda a branquear lividamente a estrada,
e a minha alcova tem a tepidez de um ninho.
Entra, ao menos até que as curvas do caminho
se banhem no esplendor nascente da alvorada.

E amanhã quando a luz do sol dourar radiosa
essa estrada sem fim, deserta, horrenda e nua,
podes partir de novo, ó nômade formosa!

Já não serei tão só, nem irás tão sozinha:
Há de ficar comigo uma saudade tua...
Hás de levar contigo uma saudade minha...

Alceu Wamosy (1895-1923)

quinta-feira, 28 de abril de 2011

WikiLeaks

‘Metade dos presos em Guantânamo era inocente’
Sarah Folkman
Os jornais El País,The New York Times e Washington Post publicaram em seus sites na noite deste domingo (24) uma série de documentos secretos que revelam informações detalhadas sobre a base militar norte-americana de Guantânamo. Os três veículos tratam de fichas de 759 dos 779 presos que passaram pela prisão.
Com data entre 2002 e 2009, os registros revelam que o governo dos Estados Unidos usou a prisão de Guantânamo ilegalmente para obter informação dos detidos, independentemente de serem suspeitos ou não. Informam também que parte dos prisioneiros afegãos e paquistaneses era inocente, incluindo motoristas, agricultores e cozinheiros, que foram detidos durante operações de inteligência em zonas de guerra.
O El País cita ainda o caso de um homem de 89 anos preso em Guantânamo. Ele sofria de demência senil, artrite e depressão. Foi detido porque os soldados encontraram um telefone no complexo de casas onde ele vivia que continha números de pessoas "suspeitas" de ligação com o Talebã. O idoso não sabia de quem era o telefone, tampouco sabia manusear o aparelho. Tempos depois, as autoridades concordaram que ele não sabia de nada e que não oferecia perigo.
Um dos presos foi um adolescente afegão de 15 anos que não era apenas inocente, como também uma vítima do "inimigo". Antes de ser detido pelos EUA, um grupo armado Talibã sequestrou e estuprou o jovem.
Desde a criação da prisão norte-americana, em 2002, morreram sete presos no local, segundo dados oficiais. Sua manutenção não encontra amparo em nenhuma convenção internacional e, portanto, não há como fiscalizar o que acontece em seu interior, motivo pelo qual os EUA são criticados por organizações de direitos humanos. Os EUA também não permitem que a ONU (Organização das Nações Unidas) inspecione as condições da base e do tratamento recebido pelos detidos.

Fonte: Opera Mundi
Veja matéria completa
∗ É essa democracia que os EUA exercem para com o mundo.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Indio

Índios caçando onça-Rugendas
Índio brasileiro
Pataxó de nascimento
Penacho na cabeça
Corpo avermelhado
No dia do descobrimento
Suas terras foram tomadas
Sem dó e nem piedade
Pela volúpia do homem branco
Vivem em um tempo de incertezas
Nas reservas e isolados
Perderam suas identidades
Seus costumes, raízes e cultura
Não vivem mais da caça e da pesca
Transformaram-se em artesões
De roceiros a curandeiros vendendo ervas nas ruas
Hoje vivendo de esmolas dos brancos
Que compra suas bugigangas
Vendem a sua imagem
Aparecem na foto
Sorriem pelo dinheiro recebido
E o turista envaidecido
Mostrará o retrato do índio brasileiro.

Antonio Vendramini Neto

És meu amor triste e lúcido

Sir Edward Burne-Jones - Cupid and Psyche
Espero-te desde o começo,
Desde o tempo das pianolas,
Desde a luz de querosene.

És meu amor triste e lúcido,
Por ti me vinguei da vida,
Matei a figura estéril
E fiz a pedra florir.

Céu e terra se tocaram
Com grande aplauso do fogo,
Ondas bravas se abraçavam
No início do nosso idílio.

Áspera e doce criatura,
És o arquétipo encarnado
Das mulheres oceânicas
E ao mesmo tempo tranquilas.

Nosso amor será uma luta:
Ao som de clarins vermelhos
Subiremos pelo arco-íris
Semimortos de paixão,
Até encontrarmos o Hóspede.

Murilo Mendes (1901-1975)

terça-feira, 26 de abril de 2011

Inglória é a vida, e inglório o conhecê-la.
Quantos, se pensam, não se reconhecem
Os que se conheceram!
A cada hora se muda não só a hora
Mas o que se crê nela, e a vida passa
Entre viver e ser.

Ricardo Reis
Fernando Pessoa (1888-1935)

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Alice Ruiz

Michel Cheval
sem luto
pelo obsoleto

…...
ab ………….....
so
………………..... luto.
Alice Ruiz

domingo, 24 de abril de 2011

Sir Edward John Poynter- Psyche in the Temple of Love
Talvez se a morte é espécie, e não pode haver retorno,
Vamos voltar para a terra uma noite perfumada,
E levar essas pistas para encontrar o mar, e dobra
Respirar o mesmo madressilva, baixo e branco.

Vamos descer à noite para estas praias retumbante
E o trovão longa e suave do mar,
Aqui, por uma hora à luz das estrelas larga
Nós estaremos felizes, pois os mortos estão livres.

Sara Teasdale (1884-1933)
‘Figurinhas’
Janice Friend
Onde está meu quintal
amarelo e encarnado,
com meninos brincando
de chicote-queimado,
com cigarras nos troncos
e formigas no chão,
e muitas conchas brancas
dentro da minha mão?

E Júlia e Maria
e Amélia onde estão?

Onde está meu anel
e o banquinho quadrado
e o sabiá na mangueira
e o gato no telhado?

- a moringa de barro,
e o cheiro do alvo pão?
E a tua voz, Pedrina,
sobre meu coração?
Em que altos balanços
se balançarão?...

Cecília Meireles
(1901-1964)

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Páscoa

‘Páscoa’
Raffaello Sanzio – Ressurreição de Cristo
O nome Páscoa surgiu a partir da palavra hebraica "pessach" ("passagem"). Páscoa significa a passagem da escravidão para a liberdade. É a maior festa do cristianismo e, naturalmente, de todos os cristãos, pois nela se comemora a Passagem de Cristo - "deste mundo para o Pai", da "morte para a vida", das "trevas para a luz".
Considerada, essencialmente, a Festa da Libertação, a Páscoa é uma das festas móveis do nosso calendário, vinda logo após a Quaresma e culminando na Vigília Pascal.
Entre os seus símbolos encontram-se:
1. O Ovo de Páscoa
A existência da vida está intimamente ligada ao ovo, que simboliza o nascimento.
2. O Coelhinho da Páscoa
Por serem animais com capacidade de gerar grandes ninhadas, sua imagem simboliza a capacidade da Igreja de produzir novos discípulos constantemente.
3. A Cruz da Ressurreição
A cruz mistifica todo o significado da Páscoa, na ressurreição e também no calvário de Jesus Cristo. Desde a ano 325 d.C. é considerada como símbolo oficial do cristianismo.
4. O Cordeiro
Simboliza Cristo, que é o cordeiro de Deus, e se sacrificou em favor de todo o rebanho.
5. O Pão e o Vinho
Na ceia do senhor, Jesus escolheu o pão e o vinho para dar vazão ao seu amor. Representando o seu corpo e sangue, eles são dados aos seus discípulos, para celebrar a vida eterna.
6. Vela
As velas são uma marca das celebrações religiosas pascais. Em certos países, os católicos apagam todas as luzes de suas igrejas na Sexta-feira da Paixão. Na véspera da Páscoa, fazem um novo fogo para acender o principal círio pascal e o utilizam para reacender todas as velas da igreja. Então, acendem suas próprias velas e as levam para casa a fim de utilizá-las em ocasiões especiais.
No Sábado Santo a celebração católica é iniciada com a bênção do fogo, chamado de "fogo novo".
7. O Círio
É a grande vela que se acende na Aleluia. Quer dizer: "Cristo, a luz dos povos". Alfa e Ômega nela gravadas querem dizer: "Deus é o princípio e o fim de tudo".
8. Colomba Pascal
De origem italiana, a colomba é bem semelhante ao panetone de Natal, mas com o formato de uma pomba, que representa a vinda do Espírito Santo sobre os Apóstolos quando Cristo ressuscita. Além do que a pomba é também um símbolo da almejada paz.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Gota d'água

Sophie Gengembre Anderson - The Song
Já lhe dei meu corpo
Minha alegria
Já estanquei meu sangue
Quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor...
Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água...
Já lhe dei meu corpo
Minha alegria
Já estanquei meu sangue
Quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor...
Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água
Pode ser a gota d'água.

Chico Buarque

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Todo amor é passageiro,
cobra oculta na folhagem.
Que bandeira me convida
a respirar outra aragem?

O mar arrasta o navio
à resplandecente margem.
A morte, por mais solene,
não passa de uma bobagem.

Entre a estiva e o sol raiante
vai a linguagem, produto
que não paga armazenagem.

Vaga, saga,chaga aberta!
Rumo a que matalotagem
me encaminha o céu deserto?

Lêdo Ivo (1924-2012)

terça-feira, 19 de abril de 2011

Parafraseando Chico: “Ele é um pote até aqui de mágoa...”

O Tempo

Hans Andersen Brendekilde
Passa um dia,
e outro a correr atrás dele
e outro e outro...

O tempo a todos impele,
tal o vento
levando, em doida correria,
revoadas de folhas outonais,
folhas de calendários sempre iguais,
uma a uma arrancadas,
perdidas nas estradas...

Nunca mais... Nunca mais...

Saúl Dias (1902-1983)

Leitura

Herman Wessel (1878-1969)
Era um quintal ensombrado, murado alto de pedras,
As macieiras tinham maçãs temporãs, a casca vermelha
de escuríssimo vinho, o gosto caprichado das coisas
fora do seu tempo desejadas.
Ao longo do muro eram talhas de barro.
Eu comia maçãs, bebia a melhor água, sabendo
que lá fora o mundo havia parado de calor.
Depois encontrei meu pai, que me fez festa
e não estava doente e nem tinha morrido, por isso ria,
os lábios de novo e a cara circulados de sangue,
caçava o que fazer pra gastar sua alegria:
onde está meu formão, minha vara de pescar,
cadê minha binga, meu vidro de café?
Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera.

Adélia Prado

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Efeito Político para Aécio Neves

Perfume da ausência

Willem Haenraets
Seguirei as trilhas
que apartam minha alma
levando para longe
tua voz sem melodia

Alternei a saudade
e o desapego, pela música
dos teus passos caminhantes

Ficou o perfume da ausência,
o silêncio do olhar,
o querer do ficar,
a necessidade de ir,
um vazio no ar,
a lágrima no sorrir.

Conceição Bentes

domingo, 17 de abril de 2011

Saudosismo

No final dos anos 50 o Brasil já representava um bom mercado para cosméticos e produtos de beleza. A mulher mostrada na ilustração já lembra um rosto brasileiro, e Marta Rocha com os seus olhos verdes pode ter sido a inspiradora desta ilustração. O cartaz, criado em clima de sedução, além do talco, da água de colônia e do pó-de-arroz, anunciava um quarto produto – o óleo perfumado, para os cabelos. O slogan “Mais encanto para você com Cashmere Bouquet”, completava o feitiço.
“Amor! Sonho! Poesia! Romance!
Tudo isto lhe inspira o sublime perfume
do pó de arroz Cashmere Bouquet”.

sábado, 16 de abril de 2011

Haikai

Trinado ao longe.
O rouxinol não sabe
que te consola.

Jorge Luis Borges
Tradução de Gustavo Felicíssimo

Cultivar

Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que leem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.

Jorge Luis Borges
In O Meu Tempo é Quando

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Ah! Essas esculturas de gaze do vento,
Sempre errantes entre o céu e a terra,
Como nos sonhos dos homens.

Mario Quintana (1906-1994)

Parasol

Parasol
O Parasol foi catalogado oficialmente na França, em 1650, quando passou a ser acessório de moda para mulheres. Na América foi introduzido após 1740. Após o século XVII foi incorporado nas tradições culturais e artísticas dos povos, expressas, por exemplo, na pintura, na dança, em coreografias clássicas ou populares (como o Frevo e a Congada no nordeste do Brasil). Na fotografia artística, é um dos elementos indispensáveis, no controle do excesso de luz, na captura da imagem; na primitiva Capoeira Angola, foi usado como instrumento de defesa, disfarçado de componente coreográfico.
Abaixo temos pinturas famosas com Parasol:
Montet
Francisco Goya
Renoir

Edgar Degas
Umbrella Sky