segunda-feira, 29 de março de 2010

Entre Deus flor beleza
e Deus mel nutrição
está Deus abelha trabalho.

Hermógenes
Jim Warren
O amor não é, principalmente, uma relação para com uma pessoa específica; é uma atitude, uma orientação de caráter, que determina a relação de alguém para com o mundo como um todo, e não para com um "objeto" de amor. Se uma pessoa ama apenas a uma outra pessoa e é indiferente ao resto dos seus semelhantes, seu amor não é amor, mas um afeto simbiótico, ou um egoísmo ampliado. Contudo, a maioria crê que o amor é constituído pelo objeto e não pela faculdade. De fato, acredita-se mesmo que a prova da intensidade do amor está em não amar ninguém além da pessoa "amada". Este o mesmo equívoco de que acima já falamos. Por não se ver que o amor é uma atividade, uma força da alma, acredita-se que tudo quanto é necessário encontrar é o objeto certo — e tudo o mais irá depois por si. Tal atitude pode ser comparada à de alguém que queira pintar mas, em vez de aprender a arte, proclama que lhe basta esperar pelo objeto certo, passando a pintá-lo belamente quando o encontrar. Se verdadeiramente amo alguém, então amo a todos, amo o mundo, amo a vida. Se posso dizer a outrem, "Eu te amo", devo ser capaz de dizer: "Amo em ti a todos, através de ti amo o mundo, amo-me a mim mesmo em ti.
Dizer que o amor é uma orientação que se refere a todos e não a um não implica, entretanto, a idéia de que não haja diferenças entre vários tipos de amor, que dependem da espécie de objeto que é amado.
Erich Fromm - "A arte de amar."

sexta-feira, 26 de março de 2010

John Willian Waterhouse
Talvez houvesse uma flor
aberta na tua mão.
Podia ter sido amor,
e foi apenas traição.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua. . .
Ai de mim, que nem pressinto
a cor dos ombros da Lua!

Talvez houvesse a passagem
de uma estrela no teu rosto.
Era quase uma viagem:
foi apenas um desgosto.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua...
Só o fantasma do instinto
na cinza do céu flutua.

Tens agora a mão fechada;
no rosto, nenhum fulgor.
Não foi nada, não foi nada:
podia ter sido amor.

David Mourão Ferreira (1927-1996)
“No vazio da montanha, não vejo pessoa alguma,
Mesmo assim, ouço uma voz humana.
Raios de luz penetram na sombra do bosque,
Iluminando o musgo, tão verde”.

Wang Wei (701-761)

terça-feira, 23 de março de 2010

Josephine Wall
“Sentado sozinho, em meio aos bambus;
Toco minha cítara, e as notas reverberam.
No segredo da mata, ninguém pode ouvir;
Apenas a clara Lua, vem brilhar sobre mim”.

Wang Wei (701-761)
Se os olhos não fossem solares
Jamais o Sol nós veríamos;
Se em nós não estivesse a própria força divina,
Como o divino sentiríamos?

Goethe
Aceitarás o amor como eu o encaro?...
... Azul bem leve, um nimbo, suavemente
Guarda-te a imagem, como um anteparo
Contra estes móveis de banal presente.
Tudo o que há de melhor e de mais raro
Vive em teu corpo nu de adolescente,
A perna assim jogada e o braço, o claro
Olhar preso no meu, perdidamente.
Não exijas mais nada. Não desejo
Também mais nada, só te olhar, enquanto
A realidade é simples, e isto apenas.
Que grandeza... A evasão total do pejo
Que nasce das imperfeições. O encanto
Que nasce das adorações serenas.

Mário de Andrade
Jim Warren
“Desejava duas coisas, a primeira era a possessão absoluta. A segunda era a lembrança absoluta que ele lhe queria deixar. Os homens sabem tão bem que o amor está votado à morte que trabalham pela memória desse amor durante todo o tempo que vivem. Ele queria deixar-lhe uma grande idéia de si mesmo a fim de que o seu amor fosse grande, definitivamente. Sabia, porém, agora, que ele próprio não era grande, que ela, mais cedo ou mais tarde, o viria a saber um dia, e que, em vez da recordação absoluta, seria para ele pelo menos a morte absoluta. A vitória, a única vitória seria reconhecer que o amor pode ser grande mesmo quando o amante o não é. Mas ele ainda não estava preparado para essa terrível modéstia”.
“Há uma honra no amor. Perdida ela, o amor nada é”.
Albert Camus (1913-1960)

domingo, 21 de março de 2010

Triste isso.

Nossa geração teve pouco tempo
começou pelo fim
mas foi bela a nossa procura
ah! moça, como foi bela a nossa procura
mesmo com tanta ilusão perdida
quebrada,
mesmo com tanto caco de sonho
onde até hoje
a gente se corta.

Alex Polari
Felipe Iasi, 23 anos, que levou Cadu para assassinar Glauco e Raoni, disse que "sua geração não lê jornal, e nem sei quem era Glauco".
Em sua página na rede social Orkut, Felipe é amigo de Cadu e está nas mesmas comunidades da rede do assassino. No Orkut, os dois amigos são fãs do bairro Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, do cantor Bob Marley, de festas raves, ou seja, mesmas comunidades. Logo após a Folha publicar que Iasi se entregou à polícia, a página dele no Orkut saiu do ar.

Interessante é que ler ele tem preguiça, mas um convite para um cigarrinho de maconha ele gosta.

sábado, 20 de março de 2010

“A vida de todos os dias não me interessa. Procuro apenas os momentos elevados. Estou de acordo com os surrealistas quanto à procura do maravilhoso.
Quero ser uma escritora que lembre aos outros que estes momentos existem. Quero provar que existe um espaço infinito, um sentido infinito para as coisas, uma dimensão infinita. Mas não estou naquilo que se pode chamar de estado de graça. Tenho dias de iluminação e febre. Há dias em que a música para na minha cabeça. Então remendo peúgas, limpo árvores, apanho frutos, dou brilho ao mobiliário, mas enquanto faço isto sinto que não vivo”.
Anaïs Nin (1903-1977)
Childe Hassam - Geraniums
Por ser flor
talvez pouco entendesse
de solidão...
Talvez só compreendesse
o vento e a chuva,
a brisa que passou,
o ramo que cresceu...
Mas talvez suas cores tivessem
o brilho daquele mesmo sol
e seu perfume lembrasse
aquelas lembranças
que quase esqueci
... de passagem
... por aí...

Maria José Speglich
Somos argila dorida,
Sangrando em face dos astros,
Na vertente dos abismos.

Helena Kolody (1912-2004)

quinta-feira, 18 de março de 2010

Paul Cézanne
Eu cantarei de amor tão docemente,
Por uns termos em si tão concertados,
Que dous mil acidentes namorados
Faça sentir ao peito que não sente.

Farei que o amor a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
Brandas iras, suspiros magoados,
Temerosa ousadia e pena ausente.

Também, Senhora, do desprezo honesto
De vossa vista branda e rigorosa,
Contentar-me-ei dizendo a menor parte.

Porém, para cantar de vosso gesto
A composição alta e milagrosa,
Aqui falta saber, engenho e arte.

Luis Vaz de Camões (1524-1580)
“A principal tarefa na vida de um homem
é a de dar nascimento a si próprio.”

Erich Fromm (1900-1980)
Dois homens brincavam como se fossem crianças. O primeiro fazia castelos na areia, o segundo fazia castelos no ar. O primeiro dizia: a areia é o material do meu jogo, e sujava-se plantando os dedos como retroescavadoras, enquanto fazia "vruum-vrrum". O segundo olhava o ar e dizia: o silêncio é o material do meu jogo, enquanto inspirava carregando-se da mesma brisa com que enchia as altas torres. Cada um era uma criança à sua maneira. Ambos foram construindo incríveis castelos com princesas e dragões lá dentro. O primeiro homem quis entrar no castelo de areia, mas não podia, por ser muito grande e pesado, e se o fizesse, ao primeiro passo que desse, acabaria por o esmagar, já que era, na verdade, um enorme gigante. O segundo homem queria entrar no castelo imaginado suspenso no ar, bem por cima das nuvens, mas como era muito pequenino - como o polegarzinho - não conseguia chegar sequer à fechadura do portão de entrada. Os dois adultos decidiram, então, brincar ainda mais, e, por isso, resolveram construir juntos um castelo, só que agora feito com uma metade de ar e outra de areia. No fim, o castelo era do tamanho preciso e correto e, desta forma, puderam realmente brincar, ao entrarem para salvar a princesa, com espadas de fogo e unicórnios voadores, mas isso já é outra história.
Carlos Vaz - "O estrangulador de bonecos de neve"
19 de março de 1964:
Marcha da Família com Deus pela Liberdade, único grande êxito de mobilização de massas pela direita brasileira em mais de 500 anos. Prepara o Golpe de 1964.
A marcha, o terço e o livro: catolicismo conservador e ação política estão na conjuntura do golpe de 1964. Destinadas a converter a opinião pública e a mobilizar a "sociedade como um todo" contra a ameaça de uma "república sindicalista" e da política reformista do governo João Goulart, enfim anunciada no Comício da Central, as "Marchas da Família" foram a expressão ideológica prática mais explícita do anticomunismo e do antipopulismo e segui-se o Golpe que durou 20 anos.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Claude Théberge
Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo
Quero apenas contar-te a minha ternura
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás
Eu te pudesse repor
- Eu soubesse repor -
No coração despedaçado
As mais puras alegrias de tua infância!

Manuel Bandeira (1886-1968)
Pode alguém dizer-me
até onde vai a minha vida?
Sou um sopro na tempestade,
uma onda no lago?
Ou serei, talvez,
essa branca e pálida bétula
arrepiada de primavera?

Rainer Maria Rilke (1875-1926)

terça-feira, 16 de março de 2010

Milagre

Camille Pissarro
Com cinco pães o Cristo
Deu de comer a cinco mil pessoas!
Eu não me assombro disto,
Pois tu, que o meu espírito magoas,
Tens um só coração,
E amas, contudo, uma população!

Artur Azevedo (1855-1908)
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

Cecília Meireles (1901-1964)
"O primeiro homem que inventou de cercar uma parcela de terra e dizer "isto é meu", e encontrou gente suficientemente ingênua para acreditar nisso, foi o autêntico fundador da sociedade civil. De quantos crimes, guerras, assassínios, desgraças e horrores teria livrado a humanidade se aquele, arrancando as cercas, tivesse gritado: Não, impostor."
Jean-Jacques Rousseau

Leia também essa ótima reportagem: Revista Espaço Acadêmico

domingo, 14 de março de 2010

Sophie Gengembre Anderson
“Aquilo que se faz por amor,
parece ir sempre além
dos limites do bem e do mal”.

Nietzsche (1844-1900)

sábado, 13 de março de 2010

Federico Andreotti
Eu não sou tão pura quanto pareço
Nem como você pensa que sou.
Queria ser o avesso
Dessa imagem que te ofereço
Onde nem Deus nem um artista talhou
Fui feita de desespero, por isso sou o que sou.

Não sou santa, nem tão calma
Meu coração é revolto
Minhas mãos às vezes arranham
Meus olhos às vezes enganam.

Mas busco,
E busco a cada minuto
Refazer-me, me possuir serena.
Busco em cada pensamento um porquê
Das coisas terrenas... Pequenas.

O que sinto me condena
Mas é nele que encontro forças
Para prosseguir.
Que coisa estranha...
Buscar no meu pecado
A luz em mim
Mais pura, plena e santa.

Maria José Speglich