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segunda-feira, 26 de maio de 2014

↷ É preciso transver o mundo

“O olho vê, a lembrança revê,
e a imaginação transvê.
É preciso transver o mundo.”

Manoel de Barros

terça-feira, 22 de abril de 2014

Miró

Joan Miró
Para atingir sua expressão fontana
Miró precisava de esquecer os traços e as doutrinas
que aprendera nos livros.
Desejava atingir a pureza de não saber mais nada.
Fazia um ritual para atingir essa pureza: ia ao fundo
do quintal à busca de uma árvore.
E ali, ao pé da árvore, enterrava de vez tudo aquilo
que havia aprendido nos livros.
Depois depositava sobre o enterro uma nobre
mijada florestal.
Sobre o enterro nasciam borboletas, restos de
insetos, cascas de cigarra etc
A partir dos restos Miró iniciava a sua engenharia
de cores.
Muitas vezes chegava a iluminuras a partir de um
dejeto de mosca deixado na tela.
Sua expressão fontana se iniciava naquela mancha
escura.
O escuro o iluminava.

Manoel de Barros

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

O apanhador de desperdícios

George Dunlop Leslie
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água, pedra, sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos,
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Manoel de Barros

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

↷ Difícil de entender

Violeta Lopiz
[...]
― Difícil de entender, me dizem, é sua poesia;
o senhor concorda?
― Para entender nós temos dois caminhos: o da
sensibilidade que é o entendimento do corpo; e
o da inteligência que é o entendimento do
espírito.
Eu escrevo com o corpo
Poesia não é para compreender, mas para
Incorporar
Entender é parede; procure ser uma árvore.
[...]
Meu olho perde as folhas quando a lesma
A gente comunga é sapo
Nossa maçã é que come Eva
Estrela é que tem firmamento
Mas se estrela fosse brejo, eu brejava.
[...]
― E como é que o senhor escreve?
― Como se bronha.
E agora peço desculpas
Estou arrumado para pedra.

Manoel de Barros
in: Arranjos para Assobio.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Manuel de Barros

Caricatura
Esse é Bernardo. Bernardo da Mata. Apresento.
Ele faz encurtamento de águas.
Apanha um pouco de rio com as mãos e espreme nos vidros
Até que as águas se ajoelhem
Do tamanho de uma lagarta nos vidros.
No falar com as águas rás o exercitam.
Tentou encolher o horizonte
No olho de um inseto - e obteve!
Prende o silêncio com fivela.
Até os caranguejos querem ele para chão.
Viu as formigas carreando na estrada 2 pernas de ocaso
para dentro de um oco... E deixou.
Essas formigas pensavam em seu olho.
É homem percorrido de existências.
Estão favoráveis a ele os camaleões.
Espraiado na tarde -
Como a foz de um rio - Bernardo se inventa...
Lugarejos cobertos de limo o imitam.
Passarinhos aveludam seus cantos quando o veem.

Manoel de Barros
Bernardo da Mata é a própria emanação do "eu" de Manoel (na imagem). Ali ele enxerga, meio a simplicidade campeira, sertaneja, a jazida que tanto lhe produziu versos brilhantes. Na realidade Bernardo foi um dos peões da fazenda de Manoel. O mais matreiro, o mais próximo da terra, aquele com quem até os insetos conversavam, em quem pássaros pousavam, um ser humano além do humano, parte integral da natureza a ponto de obter respeito dela. Coisas que somente o transcendental explicaria: como o poeta encontrou-se com sua poesia viva, vivificada, "coisada" e sobretudo humana. Típica coincidência sincrônica que acontece em vida...quase como o evangelista se visse o próprio Cristo viver em sua frente.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Pois pois

Guido Reni
O Padre Antônio Vieira pregava de encostar
as orelhas na boca do bárbaro.
Que para ouvir as vozes do chão
Que para ouvir a fala das águas
Que para ouvir o silêncio das pedras
Que para ouvir o crescimento das árvores
E as origens do Ser. Pois Pois.
Bernardo da Mata nunca fez outra coisa
Que ouvir as vozes do chão
Que ouvir o perfume das cores
Que ver o silêncio das formas
E o formato dos campos. Pois Pois.
Passei muitos anos a rabiscar, neste caderno,
os escutamentos de Bernardo. Ele via e ouvia inexistências.
Eu penso agora que esse Bernardo tem cacoete para poeta.

Manoel de Barros

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Fui escolhido

Robin Anderson - Masai Mara
“Penso que não tive escolha
Fui escolhido e gostei da escolha
Faço o que sonho
Faço o que gosto
Sou um pouco irresponsável
com os passarinhos, isto seja:
Sou livre
Amo a palavra”.

Manoel de Barros

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A quinze metros do arco-íris

“A quinze metros do arco-íris o sol é cheiroso.
Caracóis não aplicam saliva em vidros; mas,
nos brejos, se embutem até o latejo.
Nas brisas vem sempre um silêncio de garças.
Mais alto que o escuro é o rumor dos peixes.
Uma árvore bem gorjeada, com poucos segundos,
passa a fazer parte dos pássaros que a gorjeiam.
Quando a rã de cor palha está para ter —
ela espicha os olhinhos para Deus.
De cada vinte calangos, enlanguescidos por estrelas,
quinze perdem o rumo das grotas.
Todas estas informações têm soberba
desimportância científica — como andar de costas”.

Manoel de Barros

domingo, 10 de outubro de 2010

Incompletude

Edward Cucuel
A maior riqueza do homem é sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.
Não aguento ser apenas um sujeito que abre
portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que
compra pão às 6 da tarde, que vai lá fora,
que aponta lápis, que vê a uva etc. etc.
Perdoai.
Mas eu preciso ser Outros.

Eu penso
renovar o homem usando borboletas.

Manoel de Barros