terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Manuel de Barros

Manoel de Barros
Esse é Bernardo. Bernardo da Mata. Apresento.
Ele faz encurtamento de águas.
Apanha um pouco de rio com as mãos e espreme nos vidros
Até que as águas se ajoelhem
Do tamanho de uma lagarta nos vidros.
No falar com as águas rás o exercitam.
Tentou encolher o horizonte
No olho de um inseto - e obteve!
Prende o silêncio com fivela.
Até os caranguejos querem ele para chão.
Viu as formigas carreando na estrada 2 pernas de ocaso
para dentro de um oco... E deixou.
Essas formigas pensavam em seu olho.
É homem percorrido de existências.
Estão favoráveis a ele os camaleões.
Espraiado na tarde -
Como a foz de um rio - Bernardo se inventa...
Lugarejos cobertos de limo o imitam.
Passarinhos aveludam seus cantos quando o veem.

Manoel de Barros
Bernardo da Mata é a própria emanação do "eu" de Manoel (na imagem). Ali ele enxerga, meio a simplicidade campeira, sertaneja, a jazida que tanto lhe produziu versos brilhantes. Na realidade Bernardo foi um dos peões da fazenda de Manoel. O mais matreiro, o mais próximo da terra, aquele com quem até os insetos conversavam, em quem pássaros pousavam, um ser humano além do humano, parte integral da natureza a ponto de obter respeito dela. Coisas que somente o transcendental explicaria: como o poeta encontrou-se com sua poesia viva, vivificada, "coisada" e sobretudo humana. Típica coincidência sincrônica que acontece em vida...quase como o evangelista se visse o próprio Cristo viver em sua frente.

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