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terça-feira, 2 de dezembro de 2014

O Bom Escritor

Jean-Louis Ernest Meissonier
“O bom escritor não diz mais do que pensa. E isso é muito importante. É sabido que o dizer não é apenas a expressão do pensamento, mas também a sua realização. Do mesmo modo, o caminhar não é apenas a expressão do desejo de alcançar uma meta, mas também sua realização. Mas a natureza da realização - faça justiça à meta ou se perca, luxuriante e imprecisa no desejo - depende do treinamento de quem está a caminho. Quanto mais mantiver a disciplina e evitar os movimentos supérfluos, desgastantes e oscilantes, tanto mais cada postura do corpo satisfará a si própria e tanto mais apropriada será sua atuação. Ao mau escritor ocorrem muitas coisas, e nisso se gasta tanto quanto o mau corredor não treinado no movimentos indolentes e gesticulados dos músculos. Mas exatamente por isso nunca pode dizer exatamente o que pensa. É dom do bom escritor, com seu estilo, conceder ao pensamento o espetáculo oferecido por um corpo gracioso e bem treinado. Nunca diz mais do que pensou. Por isso, o seu escrito não reverte em favor dele mesmo, mas daquilo que quer dizer”.
Walter Benjamin (1892-1940)
Do livro: Rua de Mão Única

sábado, 17 de maio de 2014

Pensamentos:

Josephine Wall
“Ponha fogo em sua vida. Busque aqueles que abanam as suas chamas”.
Jalal al-Din Rumi

“A verdadeira viagem de descobrimento não consiste
em ver novas paisagens, mas em ter olhos novos”.

Marcel Proust

“Quem és tu que queres julgar,
com vista que só alcança um palmo,
coisas que estão a mil milhas?”.

Dante Alighieri

“Quanto mais esquecido de si mesmo está quem escuta,
tanto mais fundo se grava nele a coisa escutada”.

Walter Benjamin

sábado, 7 de julho de 2012

Soneto

Alex Tavshunsky
Era a memória ardente a inclinar-se
à giesta do tempo por frescura
mas o que em seu espelho se figura
vê que está só e a mesma dor foi dar-se

noite e dia e silente de amargura
uma saudade em febre o viu queimar-se
até vir por um "sim" a consolar-se
e do perdão mudo hino lhe assegura

levando imagens e sinais de vez
O olhar liberto penetrou no assento
do alto luto onde da palidez

dos invernos se erguia outro rebento
de cálices que embalam as sementes
dando ao nome louvado descendentes.

Walter Benjamin (1892-1940)
Tradução: Vasco Graça Moura

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Soneto

Stiles - Dusk Fire
Tira-me ao tempo a que escapaste brusco
Dá-me de dentro o que teu perto estende
como a rosa vermelha ao lusco-fusco
da frouxa ordem das coisas se desprende
Vera afeição e amarga voz ausência
que sinto calmo e do rubro da boca
crestada pela negra incandescência
com que o cabelo em sombra púrpura toca
a fronte aflita E a imagem far-me-á falta
de cólera e louvor que me oferecias
no pisar nobre em que levavas a alta
bandeira cujo signo me anuncias
só porque em mim pões teu nome bendito
sem imagens qual Amen aflito.

Walter Benjamin (1892-1940)
Tradução: Vasco Graça Moura

segunda-feira, 1 de março de 2010

Elo entre gerações

O passado arrasta consigo um índice secreto que remete à salvação. Será que não há, em vozes a que prestamos atenção, um eco de vozes agora silenciadas? Será que as mulheres que cortejamos não têm irmãs que elas mesmas não chegaram a conhecer? Se assim é, então existe um acordo secreto entre as gerações passadas e a nossa.
Walter Benjamin (1892-1940)