terça-feira, 31 de março de 2015

O Fator Deus

“Por causa e em nome de Deus é que se tem permitido
e justificado tudo, principalmente o mais horrendo e cruel.”

José Saramago
Auguste Rodin - O Pensador
[...] As fotografias da Índia, de Angola e de Israel atiram-nos com o horror à cara, as vítimas são-nos mostradas no próprio instante da tortura, da agônica expectativa, da morte ignóbil. Em Nova York tudo pareceu irreal ao princípio, episódio repetido e sem novidade de mais uma catástrofe cinematográfica, realmente empolgante pelo grau de ilusão conseguido pelo engenheiro de efeitos especiais, mas limpo de estertores, de jorros de sangue, de carnes esmagadas, de ossos triturados, de merda. O horror, agachado como um animal imundo, esperou que saíssemos da estupefação para nos saltar à garganta. O horror disse pela primeira vez “aqui estou” quando aquelas pessoas saltaram para o vazio como se tivessem acabado de escolher uma morte que fosse sua. Agora o horror aparecerá a cada instante ao remover-se uma pedra, um pedaço de parede, uma chapa de alumínio retorcida, e será uma cabeça irreconhecível, um braço, uma perna, um abdômen desfeito, um tórax espalmado. Mas até mesmo isto é repetitivo e monótono, de certo modo já conhecido pelas imagens que nos chegaram daquele Ruanda-de-um-milhão-de-mortos, daquele Vietnã cozido a napalm, daquelas execuções em estádios cheios de gente, daqueles linchamentos e espancamentos daqueles soldados iraquianos sepultados vivos debaixo de toneladas de areia, daquelas bombas atômicas que arrasaram e calcinaram Hiroshima e Nagasaki, daqueles crematórios nazistas a vomitar cinzas, daqueles caminhões a despejar cadáveres como se de lixo se tratasse. De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta aos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em nome de Deus. Já foi dito que as religiões, todas elas, sem exceção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, que, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana. Ao menos em sinal de respeito pela vida, deveríamos ter a coragem de proclamar em todas as circunstâncias esta verdade evidente e demonstrável, mas a maioria dos crentes de qualquer religião não só fingem ignorá-lo, como se levantam iracundos e intolerantes contra aqueles para quem Deus não é mais que um nome, nada mais que um nome, o nome que, por medo de morrer, lhe pusemos um dia e que viria a travar-nos o passo para uma humanização real. Em troca prometeram-nos paraísos e ameaçaram-nos com infernos, tão falsos uns como outros, insultos descarados a uma inteligência e a um sentido comum que tanto trabalho nos deram a criar. Disse Nietzsche que tudo seria permitido se Deus não existisse, e eu respondo que precisamente por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o pior, principalmente o mais horrendo e cruel. Durante séculos a Inquisição foi, ela também, como hoje os talebãs, uma organização terrorista que se dedicou a interpretar perversamente textos sagrados que deveriam merecer o respeito de quem neles dizia crer, um monstruoso conúbio pactuado entre a religião e o Estado contra a liberdade de consciência e contra o mais humano dos direitos: o direito a dizer não, o direito à heresia, o direito a escolher outra coisa, que isso só a palavra heresia significa.
E, contudo, Deus está inocente. Inocente como algo que não existe, que não existiu nem existirá nunca, inocente de haver criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer os maiores crimes para logo virem justificar-se dizendo que são celebrações do seu poder e da sua glória, enquanto os mortos se vão acumulando, estes das torres gêmeas de Nova York, e todos os outros que, em nome de um Deus tornado assassino pela vontade e pela ação dos homens, cobriram e teimam em cobrir de terror e sangue as páginas da história. Os deuses, acho eu, só existem no cérebro humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que os inventou, mas o “fator Deus”, esse, está presente na vida como se efetivamente fosse o dono e o senhor dela. Não é um deus, mas o “fator Deus” o que se exibe nas notas de dólar e se mostra nos cartazes que pedem para a América (a dos Estados Unidos, não a outra…) a bênção divina. E foi o “fator Deus” em que o deus islâmico se transformou, que atirou contra as torres do World Trade Center os aviões da revolta contra os desprezos e da vingança contra as humilhações. Dir-se-á que um deus andou a semear ventos e que outro deus responde agora com tempestades. É possível, é mesmo certo. Mas não foram eles, pobres deuses sem culpa, foi o “fator Deus”, esse que é terrivelmente igual em todos os seres humanos onde quer que estejam e seja qual for a religião que professem, esse que tem intoxicado o pensamento e aberto as portas às intolerâncias mais sórdidas, esse que não respeita senão aquilo em que manda crer, esse que depois de presumir ter feito da besta um homem acabou por fazer do homem uma besta.
Ao leitor crente (de qualquer crença…) que tenha conseguido suportar a repugnância que estas palavras provavelmente lhe inspiraram, não peço que se passe ao ateísmo de quem as escreveu. Simplesmente lhe rogo que compreenda, pelo sentimento de não poder ser pela razão, que, se há Deus, há só um Deus, e que, na sua relação com ele, o que menos importa é o nome que lhe ensinaram a dar. E que desconfie do “fator Deus”. Não faltam ao espírito humano inimigos, mas esse é um dos mais pertinazes e corrosivos. Como ficou demonstrado e desgraçadamente continuará a demonstrar-se.
José Saramago (1922-2010)
[Artigo publicado na Folha de S. Paulo em 19/09/2001]

domingo, 29 de março de 2015

Conheça desastres aéreos provocados intencionalmente por pilotos

26 de setembro de 1976: 12 mortos
Um piloto russo roubou um avião Antonov 2 e despenhou-o num bloco de apartamentos onde vivia a ex-mulher dele.
2 de agosto de 1979: 4 mortos
Um mecânico de 23 anos, que tinha sido despedido do aeroporto de Bogotá, na Colômbia, roubou um avião militar de transporte e levantou voo, antes de o despenhar numa zona residencial.
21 de agosto de 1994: 44 mortos
Um avião da Royal Air Maroc despenhou-se na Cordilheira do Atlas, em África, após ter descolado de Agadir, em Marrocos. O acidente terá sido causado pelo piloto, que desligou o piloto automático e despenhou a aeronave deliberadamente.
19 de dezembro de 1997: 104 mortos
O voo 185 da Silk Air Flight fazia a ligação entre Jakarta, na Indonésia, e Singapura, despenhando-se após um enorme decréscimo da velocidade cruzeiro. As autoridades indonésias não conseguiram determinar as causas do acidente, mas várias fontes da investigação sugeriram que o piloto pudesse ter cometido suicídio, uma vez que desligou ambos os gravadores de voo e colocou o avião numa trajetória descendente, após o copiloto ter abandonado o cockpit.
31 de outubro de 1999: 217 mortos
O voo 990 da Egypt Air Flight entrou em queda trinta minutos após partir do aeroporto John F. Kennedy, em Nova Iorque, EUA, pouco depois do piloto ter abandonado o cockpit. A investigação sugeriu que o acidente foi um ato deliberado do copiloto, mas não foram apuradas provas conclusivas.
29 de novembro de 2013: 33 mortos
O voo 470 da companhia aérea moçambicana LAM entrou numa trajetória descendente a alta velocidade enquanto fazia a travessia Maputo-Luanda. Acabou por se despenhar na Namíbia, causando a morte de todos os passageiros e tripulantes. Os resultados da investigação preliminar indicaram que o acidente foi intencional: o piloto fez com que o avião descesse em direção ao solo.
24 de março 2015 - 150 mortos
Andreas Lubitz copiloto do Airbus A320 da companhia alemã Germanwings no voo U4 9525 derrubou deliberadamente o avião nos Alpes franceses matando 150 pessoas.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Alegoria dos 7 pecados capitais

Iluminura francesa do século XV com alegoria aos sete pecados capitais, representados por figuras humanas em cima das bestas:
a ira = javali;
a avareza = lobo;
a luxúria = cão;
a inveja = macaco;
a soberba = leão;
a preguiça = burro;
a gula = urso.

terça-feira, 24 de março de 2015

A camiseta se populariza

Segunda Guerra foi decisiva para que o formato ficasse popular.
Amedeo Modigliani
Um dos maiores fenômenos da moda, a camiseta com corte básico em forma de T, com mangas curtas (daí o nome com que foi patenteada, T-Type Shirt, logo simplificado para T-shirt) e gola fechada no pescoço, apareceu em 1942, ano em que a Marinha dos Estados Unidos a adotou como parte do uniforme, sendo logo imitada pelas demais Forças Armadas americanas. Antes, em 1913, a Marinha adotara um modelo semelhante, mas com gola em V, para ser usado por baixo da farda.
Antes de ter o modelo assim adaptado, a camiseta era uma espécie de colete fechado com cadarços sobre os ombros, sem mangas. Era usada como roupa de baixo — para que a transpiração não manchasse as roupas — e só exibida em público por trabalhadores braçais mal-educados.
A Segunda Guerra foi decisiva para que o formato dos anos 40 se tornasse popular. Usada por 11 milhões de militares americanos ao redor do mundo, logo as T-shirts se viram associadas a ideais de heroísmo, bravura, virilidade. Elas eram, a essa altura, produzidas por duas empresas, Hanes e Union Underwear.
Hollywood também fez sua parte. Marlon Brando, James Dean e o rei do rock Elvis Presley exibiram seus músculos nas telas vestindo camisetas e calças jeans. A peça fazia sucesso também entre músicos — era raro ver Chet Baker sem uma.
A camiseta como veículo de mensagens variadas, ao gosto do freguês, ganhou impulso decisivo em 1954, com o advento da serigrafia. Quando, em 1963, surgiu a técnica de impressão a frio, que facilitava ainda mais a personalização dos recados a serem dados, as camisetas jà estavam entronizadas definitivamente como ícones da cultura jovem e contestatória.

Fonte:
Jornal O Globo: ( A camiseta se populariza )

segunda-feira, 23 de março de 2015

Heidegger: ‘Ser e Tempo’

Um dos filósofos mais influentes do século XX,
chegou a ser militante nazista.
O que é ser? Essa foi a pergunta inquietante feita em "Ser e tempo", obra-prima que o filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) publicou em 1927. Ao tentar responder essa questão, Heidegger, cuja filosofia é marcada pelo pensamento dos gregos pré-socráticos e pela obra do dinamarquês Sören Kierkegaard e do alemão Friedrich Nietzsche, tornou-se um dos filósofos mais influentes do século XX. É dele também a ideia de que apenas diante da morte o homem adquire um sentido do ser e da liberdade. O livro é "Introdução á metafísica", de 1953.
Heidegger era militante nazista e chegou a fazer parte do Partido Nacional-Socialista. Fez ainda inflamados discursos pró-Hitler na Universidade de Freiburg, da qual foi reitor de 1933 a 1934, imediatamente depois do primeiro grande expurgo dos professores de origem judaica da comunidade acadêmica alemã. Foram poucos os intelectuais cuja obra resistiu a esse tipo de vínculo.
Sua posição política fez com ele fosse afastado das salas de aula no período pós-guerra. No entanto, foi nessa mesma época que sua obra passou a ser cultuada na França. Foi Jean-Paul Sartre que a fez se popularizar por lá. Ainda que Heidegger recusasse o vínculo com o existencialismo, foi a partir dele que ele ganhou projeção mundial, contaminando do discurso psicanalítico (via Jacques Lacan) ao pop (via escritores da geração beat). Para Heidegger, esses movimentos transformavam a filosofia num pastiche.

Fonte:
Jornal O Globo: ( 1927: Heidegger publica ‘Ser e Tempo’ )

sábado, 21 de março de 2015

30 Filmes para entender a História da Arte

“A arte e nada mais que a arte!
Ela é a grande possibilitadora da vida,
a grande aliciadora da vida,
o grande estimulante da vida”.

(Friedrich Nietzsche)
1) Carnival in Flanders, 1935
A obra retrata a chegada dos soldados espanhóis a Flandres e aspectos da escola barroca holandesa e espanhola.

2) Rembrandt, 1936
A obra retrata a mudança de vida do pintor Rembrandt e a morte de sua companheira.

3) The moon and sixpence, 1943
Obra adaptada da vida Paul Gauguin.

4) Cinco mulheres ao redor de Utamaro, 1946
Adaptação da vida do pintor japonês Utamaro.

5) Moulin Rouge, 1952
Baseada na novela de Pierre La Mure, o filme retrata momentos da vida do pintor Toulouse-Lautrec.

6) Lust for Life, 1956
Adaptação sobre a vida de Vincent Van Gogh.

7) O mistério de Picasso, 1956
Adaptação sobre a vida de Pablo Picasso.

8) Montparnasse 19, 1958
Adaptação sobre a vida do escultor e pintor Amadeo Modiglani.

9) El Greco, 1966:
Adaptação da vida de Donénikos Theotokópoulos, El Greco.

10) Frida: natureza viva, 1984
Adaptação da vida de Frida Kahlo.

11) Caravaggio, 1985
Adaptação da vida e obra de Michelangelo Merisi, Caravaggio.

12) A paixão de Camille Claudel, 1988:
Adaptação da vida da escultora Camille Claudel.

13) Dalí, 1991:
Adaptação sobre o início da fama de Salvador Dalí.

14) Vincent e Theo, 1990
Fragmentos da vida do pintor holandês Van Gogh e de seu irmão.

15) Van Gogh, 1991:

Adaptação sobre o último verão da vida de Van Gogh.

16) Surviving Picasso, 1996:
Adaptação da vida de Picasso e sua amante Françoise Gilot.

17) I shot Andy Warhol, 1996
Filme que retrata a sociedade e arte dos anos 60, baseado na história de Valerie Solanas.

18) El amor es el demonio, 1998:
Adaptação do momento de maior êxito de Francis Bacon, em confluência com o momento que seu companheiro decide acabar com a própria vida.

19) Lautrec, 1998:
adaptação da vida de Toulouse Lautrec, baseada em sua vida pessoal.

20) La hora de los valientes, 1998:
Representação do translado das obras de arte do Museo del Prado até Valência durante a Guerra Civil.

21) Goya en Burdeos, 1999:
Adaptação dos últimos meses de vida de Goya.

22) Abajo el telón, 1999
Nessa obra Diego Rivera recebe a tarefa de pintar a antecâmera do Rockefeller Center, em um período complicado para os artistas.

23) Pollock, a vida de um criador, 2000
Obra baseada no livro de Jackson Pollock, sobre a técnica de dripping.

24) Buñuel and King Solomon's table, 2000:
Recriação do tempo que passaram juntos Buñuel, Garcia Lorca e Salvador Dalí.

25) Frida, 2002
Adaptação do livro de Hayden Herrera sobre a vida de Frida Kahlo e Diego Rivera.

26) Modigliani - A paixão pela vida, 2004: Adaptação da rivalidade entre Picasso e Modigliani.

27) Klimt, 2006:
adaptação da vida de Gustav Klimt.

28) As sombras de Goya, 2006
Marcada pelo contexto da Inquisição Espanhola, a obra narra momentos históricos em que o pintor Francisco de Goya estava imerso.

29) El Greco, 2007
Adaptação da novela de Dimitris Siatíopulos sobre a vida de El Greco.

30) Renoir, 2013
Uma historia de amor sobre o pintor, seu filho Jean e sua musa.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Prisioneiros em obras de arte

Vasily Vereshchagin - A venda de uma criança escrava
John Everett Millais - O Resgate
Vincent van Gogh - Rodada dos prisioneiros
Victor Meirelles - São João Batista no Cárcere
Ernest Normand - Nas correntes
Charles W. Bartlett - Cativos em Roma
Oscar Rex - Maria Antonieta na prisão
Theodor Leopold Weller - Visita de prisão

terça-feira, 17 de março de 2015

Os 7 Pecados Capitais

1. Luxúria: apego e valorização extrema aos prazeres carnais, à sensualidade e sexualidade; desrespeito aos costumes; lascívia.
Noel Nicolas Coypel
2. Gula: comer somente por prazer, em quantidade superior àquela necessária para o corpo humano.
Paul Cézanne
3. Avareza: apego ao dinheiro de forma exagerada, desejo de adquirir bens materiais e de acumular riquezas.
Thomas Couture
4. Ira: raiva contra alguém, vontade de vingança.
Sir Edward Burne-Jones
5. Soberba: manifestação de orgulho e arrogância.
William Powell Frith
6. Vaidade: preocupação excessiva com o aspecto físico para conquistar a admiração dos outros.
Hans Memling - A Vaidade
7. Preguiça: negligência ou falta de vontade para o trabalho ou atividades importantes.
John William Godward

domingo, 15 de março de 2015

Depois da Queda

Jean-Honoré Fragonard
Memória do paraíso
não tenho não.
Lembro-me da dor.
Da vergonha.
Do desgosto.
Da gota de suor
pingando do rosto.

Donizete Galvão

sexta-feira, 13 de março de 2015

Grandes Paixões

Ulisses e Penélope
John William Waterhouse - Penélope
A história de Ulisses está integrada na Odisseia, contada por Homero, poeta grego. Penélope filha de Icário, um príncipe espartano. Tornou-se esposa de Ulisses, rei de Ítaca, e mãe de Telêmaco.
Penélope foi uma heroína mítica, cuja beleza não era maior que seu caráter e sua conduta. Filha de Icário, um príncipe espartano, Ulisses pediu-a em casamento conquistando-a entre muitos competidores que participaram dos jogos instituídos por seu pai. Porém depois do casamento, quando chegou o momento em que a jovem esposa deveria deixar a casa paterna, seu pai Icário não aceitando a ideia de separar-se da filha, tentou persuadi-la a permanecer ao seu lado e não acompanhar o marido a Itaca. Ulisses deixou que Penélope escolhesse e ela silenciosamente cobriu o rosto com um véu e seguiu o marido. Icário entendeu e mandou construir uma estátua do Pudor onde se havia separado da filha.
Ulisses e Penélope haviam se casado e apenas um ano depois tiveram de separar-se em virtude da partida de Ulisses para a Guerra de Tróia. Enquanto Ulisses guerreava em outras terras e seu destino era desconhecido, o pai de Penélope sugeriu que sua filha se casasse novamente, mas por ser uma mulher apaixonada e fiel ao seu marido, recusou dizendo que o esperaria a volta de Ulisses.
Durante a longa ausência de Ulisses muitos duvidavam que ele ainda estivesse vivo ou que era improvável que algum dia retornasse. Penélope foi importunada por inúmeros pretendentes, dos quais parecia não poder livrar-se senão escolhendo um deles para esposo. Contudo, Penélope lançou mão de todos os artifícios para ganhar tempo, ainda esperançosa do regresso de Ulisses.
Um de seus artifícios foi o de alegar que estava empenhada em tecer uma tela para o dossel funerário de Laertes, pai de seu marido, comprometendo-se em fazer sua escolha entre os pretendentes quando a obra estivesse pronta. Durante o dia, aos olhos de todos, Penélope trabalhava tecendo; à noite, secretamente desfazia o trabalho feito. E a famosa "Tela de Penélope" passou a ser uma expressão proverbial, para designar qualquer coisa que está sempre sendo feita mas que nunca termina.
Porém tendo sido descoberta em seu artificio, ela propôs outra condição ao seu pai. Conhecendo a dureza do arco de Ulisses, ela afirmou que se casaria com o homem que o conseguisse encordoar. Dentre todos os pretendentes, apenas um camponês humilde conseguiu realizar a proeza. Imediatamente este camponês revelou ser Ulisses, disfarçado após seu retorno. Penélope e Ulisses tiveram apenas um filho chamado Telêmaco.

O Mito de Penélope mostra uma das mais claras e populares imagens de feminilidade, da pessoa que espera pelo amor e enquanto espera, pacientemente, borda, tece, junta os fios e as cores. A referência à difícil trama dos tapetes, do desencontro dos fios e da combinação das cores, tanto nos reporta aos acontecimentos da própria existência, tecidos por uma dolorosa memória, como nos fala de criação, invenção e a possibilidade de conhecer outros caminhos.
A tela que Penélope tece tem o objetivo de protegê-la e aquecê-la. Destituída de afeto, ela tece para cuidar de si mesma em seus piores momentos de solidão e, ainda que espere por Ulisses por toda sua vida, não tece porque espera, ela tece a sua solidão, seu sentimento de abandono, de orfandade e rejeição. Enquanto espera, desfaz os pontos antigos, cria outros desenhos, novas matizes à espera de si mesma. A espera é uma contagem regressiva da esperança que Penélope coloca nos Laços e Nós de sua tapeçaria.

terça-feira, 10 de março de 2015

Grandes Paixões

Eneias e Dido
Pierre-Narcisse Guérin - Eneias e Dido
A história de Eneias e Dido aparece na obra “ A Eneida”, obra da autoria de Virgílio (poeta romano). Nesta obra apresenta-nos Eneias como herói troiano.
Aquando da destruição da sua cidade Tróia, o herói viu-se obrigado a fugir, levando consigo o seu velho pai, daí o nome "Dius Eneias", alguns companheiros e os deuses troianos. Navegando pelo mar Mediterrâneo, Eneias acaba por ancorar em Cartago. Esta cidade era governada pela rainha Dido.
Eneias partira de Tróia com o compromisso de formar uma nova cidade. Eneias é um príncipe troiano mencionado na Ilíada, é filho de Anquises e de Afrodite. Pertence a um ramo mais jovem da família real de Tróia; em valentia, é apenas excedido por Heitor. Graças à sua piedade, goza da proteção dos deuses que, em duas ocasiões, o salvam da morte em combate. Num desses períodos, o deus Poseidon anunciou que Eneias sobrevivera à destruição de Tróia e que a realeza futura dos troianos lhe pertencerá e aos seus descendentes.
A literatura latina do séc. III a.C. em diante aproveita e considera-o antepassado lendário do povo romano: assim faz Névio, Énio, Fábio Pictor, Catão, Varrão e finalmente Virgílio que dele faz o protagonista da Eneida. A tradição variada e complexa pode considerar-se sistematizada nas seguintes linhas gerais: saído de Tróia na companhia do velho pai, Anquises e do filho Ascânio ou Iulo, ainda pequeno e trazendo consigo piedosamente os deuses ancestrais alcança finalmente a Itália, depois de errões e aventuras, e estabelece-se no lácio. Aí casa com Lavínia, filha do rei latinus, e funda Lavínia. O seu filho Ascânio ou Iulo fundará mais tarde Alba longa, cidade de que virá a provir Roma. Séculos mais tarde, Rómulo, descendente de Eneias, fundará Roma.
Nas suas peregrinações, depois da fuga de Tróia, aportou em Cartago, onde decorre o episódio amoroso com a rainha Dido. A qualidade dominante do herói é a reverência pelos deuses já conhecida dos gregos. Em Virgílio a "pietas" piedade de Eneias compreende também o profundo respeito filial e o culto dos antepassados.
Segundo algumas vozes, Dido, filha do rei de Tiro, Belus, também conhecida por Elisa, viúva de Siqueu, refugiou-se no norte de África, onde fundou Cartago. O rei local, Iarbas, que lhe concedera terras para a fundação da cidade quis forçá-la a casar consigo. Para ser fiel à memória do marido e escapar a novas núpcias, suicidou-se numa pira funerária.
No entanto, segundo a tradição romana, Eneias visitara a rainha em Cartago, no decurso da sua viagem para Itália. Os amores de Dido e Eneias vinham possivelmente já do Bellun Punicun de Névio e a lenda deve ter obtido maior voga durante as guerras Púnicas, surgindo como explicação remota das hostilidades entre Roma e Cartago. A reputação de Dido como heroína amorosa vem da Eneida, de Virgílio, onde a rainha é a mais coerente e humana figura de quantas aparecem na epopeia. O drama de Dido deve-se ao facto de Eneias ser forçado, depois de uma noite de amor, a abandoná-la, para cumprimento do destino heroico que o manda fundar Roma, acabando a rainha por suicidar-se.
Eneias parte de Tróia com o compromisso de formar uma nova cidade. O amor que Eneias desperta em Dido constitui a grande passagem lírica do imortal poema - A Eneida. Eneias conta à rainha a tomada de Tróia, o ardil concebido por Ulisses e relata as viagens que empreendera até chegar a Cartago. Dido, depois de uma noite de amor e acometida de grande paixão, roga a Eneias para não a deixar. O príncipe surdo às súplicas resolve continuar viagem. Dido, não resistindo ao abandono, busca no suicídio alívio para a sua desventura.
William Turner - Dido construindo Cartago
Eneias segue para a Sicília e, em memória a seu pai, visita os campos Elísios, lugar no qual os romanos julgavam estar as almas dos mortos. Lá tem um colóquio com o pai, que lhe mostra a raça de varões ilustres, os quais descenderão de Eneias e farão a grandeza do povo latino.
Eneias atinge o Lácio é bem acolhido pelo rei latino, que lhe promete a sua filha única, Lavínia, herdeira do trono. Com isso não concorda Turno, rei dos Rútulos, povo também de origem latina. Eclode a inevitável guerra. Ferem-se vários combates e quando tudo indica a derrota dos troianos, Eneias volta ao campo munido de um escudo que lhe fizera Vulcano e muda a sorte da luta. Eneias é ferido pelos guerreiros adversários, mas Vênus, envolvida numa nuvem escura, cura-lhe a ferida. O herói recupera, e volta ao duelo com Turno, a espada de Turno parte-se, e este foge. Eneias persegue-o, alcança-o e mata-o.

sábado, 7 de março de 2015

Dia da Mulher

Michelangelo – O Pecado Original e a Expulsão do Paraíso
Através dos mitos, da Literatura, da cultura, e do mundo sobrenatural, as mulheres são afirmadas como Outro, por exemplo, na Eva do Cristianismo, na Pandora da Mitologia Grega, nas Bruxas na Wicca e assim por diante. Por isso é que chegamos no século XXI e as mulheres são estupradas, abusadas, e assassinadas por homens que as julgam serem sua propriedade.
Num mundo Patriarcal para se conseguir algo é preciso muita luta. Luta para poder votar, para ser respeitada, Lei Maria da Prenha, Lei de Pensão Alimentícia e assim mesmo, todos os dias homens matam mulheres que diziam ama-las pelo simples fato de quererem terminar um relacionamento do qual não se sentem bem.
Essa ideia de que a mulher seduz, que mulher é falsa, é reforçada pela religião e pelos mitos e contribuem muito para esse genocídio feminino diário que vemos nas manchetes de jornais.
O 8 de março deve ser visto como momento de mobilização para discutir as discriminações e violências morais, físicas e sexuais ainda sofridas pelas mulheres, impedindo que retrocessos ameacem o que já foi alcançado em diversos países.

sexta-feira, 6 de março de 2015

A Caixa de Pandora

Gustave-Adolphe Mossa - Pandora
A história de Pandora e sua caixa está presente nas narrativas mitológicas dos antigos gregos.
Conta a história que o titã Prometeu (aquele que vê antes) e seu irmão Epimeteu (aquele que vê depois) criaram os animais e os homens. Deram a cada animal um poder, como voar, caçar, coragem, garras, dentes afiados. O homem, criado por Prometeu a partir da argila, ficou sem nada por ser o último a ser feito. Prometeu deu um pouco de cada animal para o homem, mas faltava alguma coisa especial.
Prometeu ensinou diversas coisas ao homem. Ensinou a domesticar animais, fazer remédios, construir barcos, escrever, cantar, interpretar sonhos e buscar riquezas minerais. Porém, enfureceu Zeus ao roubar o fogo dos deuses e dá-lo aos homens. Zeus decidiu, então, vingar-se de Prometeu e dos homens.
Prometeu foi acorrentado a uma montanha. Sua condenação foi passar a eternidade preso a uma rocha, aonde uma ave viria comer seu fígado. Toda noite seu fígado se regeneraria e a ave voltaria no dia seguinte pra lhe comer o fígado novamente. Para castigar os homens, Zeus ordenou que o Deus das Artes, Hefesto, fizesse uma mulher parecida com as deusas.
Hefesto lhe apresentou uma estátua linda. A deusa Atena lhe deu o sopro de vida, a deusa Afrodite lhe deu beleza, o deus Apolo lhe deu uma voz suave e Hermes lhe deu persuasão. Assim, a mulher recebeu o nome de Pandora (aquela que tem todos os dons). Pandora foi enviada para Epimeteu, que já tinha sido alertado por seu irmão a não aceitar nada dos deuses. Ele, por “ver sempre depois”, agiu de forma precipitada e ficou encantado com a bela Pandora. Ela chegou trazendo uma caixa (não era necessariamente uma caixa, mas um jarro) fechada, um presente de casamento para Epimeteu.
Epimeteu pediu para Pandora não abrir caixa, mas, tomada pela curiosidade, não resistiu. Ao abrir a caixa na frente de seu marido, Pandora liberou todos os males que até hoje afligem a humanidade, como os desentendimentos, as guerras e as doenças. Ela ainda tentou fechar a caixa, mas só conseguiu prender a Esperança.

Desde então a história de Pandora está associada com fazer o mal que não pode ser desfeito. Nesse mito também está o nascimento do pensamento sobre o bem e o mal que a mulher pode causar.
É interessante perceber o motivo de a esperança estar presente entre os males trazidos por Pandora à Terra. Para algumas interpretações, a esperança está guardada e isso é bom. Entretanto, compreendendo a lógica do mito, pode-se ler a história de outra forma, pois a esperança está guardada dentro da caixa e a humanidade está sem esperança. Essas duas leituras admitem que a esperança seja algo bom.
Diferente da leitura anterior, Friedrich Nietzsche (1844-1900) escreveu, em "Humano, Demasiado Humano", que “Zeus quis que os homens, por mais torturados que fossem pelos outros males, não rejeitassem a vida, mas continuassem a se deixar torturar. Para isso lhes deu a esperança: ela é na verdade o pior dos males, pois prolonga o suplício dos homens”. Outra leitura é traduzir a palavra grega Elpis como expectativa ao invés de esperança. Assim, o homem é poupado de ter a expectativa do mal a todo instante, tornando a vida algo suportável apesar dos males.

quarta-feira, 4 de março de 2015

A Representação dos Pobres na Arte

Eero Järnefelt - Queimando o Silvado
William-Adolphe Bouguereau - Pequenas pedintes
Almeida Júnior - A mendiga
Cristobal Rojas - A Miséria
Frans van Leemputten - A distribuição de pão na vila
Diego Rivera - Los Pobres
Ivan Yermenyov - Os mendigos cantores
Nikolay Bogdanov-Belsky - Na porta da escola

"89"

Paul Cézanne
Sou tão velha que meus amantes já são nomes de ruas
Sou tão velha que minhas vontades já estão nuas
Sou tão velha que minhas verdades já são as suas.

Eu sou do tempo em que se fumava no cinema.

Sou tão velha que minha voz agora é boa para ler um poema.

Sou livre:
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Mora numa foto antiga.

Greta Benitez

domingo, 1 de março de 2015

Fontes Históricas

Fonte histórica, documento, registro, vestígio...
"[...] Fazer história é um fazer artesanal. É uma prática que implica rastrear documentos nos arquivos, interrogar os mortos, decriptar silêncios, interpretar registros orais, escritos ou iconográficos, perceber as funções que tais documentos tinham em dado momento histórico."
(Mary Del Priore e Renato Pinto Venâncio. O livro de ouro da História do Brasil. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 9.)
Nos jornais toda a história de uma época
1. Fonte histórica, documento, registro, vestígio são todos termos correlatos para definir tudo aquilo produzido pela humanidade no tempo e no espaço: a herança material e imaterial deixada pelos antepassados que serve de base para a construção do conhecimento histórico. O termo mais clássico para conceituar a fonte histórica é documento. Palavra, no entanto, que, devido às concepções da escola metódica, ou positivista, está atrelada a uma gama de ideias preconcebidas, significando não apenas o registro escrito, mas principalmente, o registro oficial. Vestígio é a palavra atualmente preferida pelos historiadores que defendem que a fonte histórica é mais do que o documento oficial: que os mitos, a fala, o cinema, a literatura, tudo isso, como produtos humanos, torna-se fonte para o conhecimento da história.
(Kalina Vanderlei Silva e Maciel Henrique Silva. Dicionário de conceitos históricos. São Paulo: Contexto, 2009. p. 158.)
2. De que se utiliza o historiador para exercer o seu ofício? [...] Para reconstituir o quadro geral da sociedade, o historiador dependerá sempre de informações sobre fatos a que não assistiu. Desse modo, ao contrário do romancista, que pode criar seus personagens e inventar os acontecimentos, o historiador deve reconstituir os fatos exatamente como ocorreram. Assim, para atingir seus objetivos, é obrigado a recorrer aos documentos, através dos quais poderá tomar conhecimento dos fatos.
Bilhete italiano de terceira classe, 1925
Torna-se, então, evidente que a História se faz com documentos - sem eles não há realmente História.
[...] A tarefa do historiador consistiria apenas na simples coleta de informações contidas nos documentos?
[...] Na concepção atual da História os documentos constituem a matéria-prima do historiador, o meio através do qual a História atingirá o seu objeto: a interpretação dos documentos permitirá a compreensão dos fatos históricos.
[...] como [diz] Lucien Febvre, que "toda História é filha de seu tempo" [...] ou, como [diz] Collingwood: "Cada nova geração deve reescrever a História à sua própria maneira".
Geralmente, reserva-se a designação de documento para "os atos escritos emanados dos poderes públicos ou de particulares, em suma, aos papéis conservados pelos arquivos administrativos ou privados"
Esse conceito, no entanto, dá uma ideia restrita da infinita diversidade dos meios de que dispõe o historiador para compreender a realidade, a vida humana. Justamente por isso, é preferível adotar-se o conceito amplo de Henri Marrou de que "documento é tudo aquilo capaz de nos revelar qualquer coisa sobre o passado do Homem". Ou, então, o de Besselaar, para quem o termo designa "todo e qualquer vestígio do passado, capaz de nos dar informações acerca de um fato ou acontecimento histórico".
É nesta acepção que muitos historiadores empregam, com o mesmo sentido de documento, os termos fonte histórica, testemunho histórico, vestígio histórico, restos históricos, para designar os materiais que permitem a reconstituição do passado. [...] Hoje, a concepção da História, tornando-se cada vez mais complexa e ampliando continuamente seu campo de estudo, interessa-se em compreender e construir integralmente o passado humano: esse novo sentido globalizante da História leva o historiador a estudar as instituições, o Direito, a Economia, as estruturas sociais, os costumes, a Religião, as Ciências, as Letras, as Artes - enfim, todos os aspectos da vida humana.
"A diversidade dos testemunhos históricos é quase infinita. Tudo o que o homem diz ou escreve, tudo o que fabrica, tudo o que toca pode e deve informar sobre ele."

(Marc Bloch. Apologia da história ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. p. 79.)
Classificação das Fontes Históricas:
Fontes Arqueológicas - vestígios da presença humana em material variado (restos de animais, utensílios, fósseis etc.), geralmente não intencionais;
Fontes Escritas - traços escritos em material variado (pedra, papiro, papel etc.), geralmente intencionais. De acordo com a intencionalidade, o traço descrito pode ser:
Fontes de Arquivo - se a intenção foi comprovar alguma coisa: todo documento recebido ou redigido por uma pessoa pública ou investida, pela lei ou pelo costume, de uma autoridade especial;
Fontes Literárias - possuem a intenção de informar aos contemporâneos e à posteridade alguma coisa, mas não de comprovar;
Fontes Orais - são traços que têm a intenção de informar, mas não possuem um material de transmissão.

(Rubim Santos Aquino. História das Sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2008. p. 70-75.)