quinta-feira, 31 de maio de 2012

Religião

31 de Maio - Dia do Espírito Santo.
Nancy Cupp - Spirit Fire
Para a maioria dos cristãos, o Espírito Santo é a terceira pessoa da Santíssima Trindade - juntamente com Deus Pai e Deus Filho - e é o Deus onipotente.
A pessoa e a obra do Espírito Santo são ilustradas nas Escrituras por várias figuras simbólicas. Essas figuras simbólicas podem ser objetos, pessoas ou evento, mas a mais conhecida e ilustrada é a pomba.
A pomba é solta da arca por Noé e trouxe de volta uma folha de oliveira como um sinal de esperança para aqueles que estavam na arca.
O culto ao Divino Espírito Santo, em suas diversas manifestações, é uma das mais antigas e difundidas práticas do catolicismo popular brasileiro. Sua origem remonta às celebrações realizadas em Portugal a partir do século XIV, nas quais a terceira pessoa da Santíssima Trindade era festejada com banquetes e distribuição de esmolas aos pobres.
Essas celebrações aconteciam cinquenta dias após a Páscoa.
É provável que o costume de festejar o Espírito Santo tenha chegado ao Brasil já nas primeiras décadas de colonização. Hoje, a festa do Divino pode ser encontrada em praticamente todas as regiões do país, do Rio Grande do Sul ao Amapá, apresentando características distintas em cada local, mas mantendo em comum elementos como a pomba branca e a santa coroa, a coroação de imperadores e a distribuição de esmolas.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Evelyn Pickering De Morgan
“(…)
Mas leio, leio.
Em filosofias tropeço e caio,
Cavalgo de novo meu verde livro,
em cavalarias me perco medievo;
Em contos, poemas, me vejo viver.
Como te devoro, verde pastagem.
Ou antes carruagem de fugir de mim
E me trazer de volta à casa,
A qualquer hora num fechar de páginas?”.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
Orlando Norie
De chumbo eram somente dez soldados,
plantados entre a Pérsia e o sono fundo,
e com certeza o espaço dessa mesa
era maior que o diâmetro do mundo.

Aconchego de montanhas matutinas
com degraus desenhados pelo vento;
mas na lisa planície da alegria
corre o rio feroz do esquecimento.

Meninos e manhãs, densas lembranças
que o tempo contamina até o osso,
fazendo da memória um balde cego

vazando no negrume de um poço.
Pouco a pouco vão sendo derrubados
as manhãs, os meninos e os soldados.

Antonio Carlos Secchin

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Língua mar

Edwin Longesden Long
A língua em que navego, marinheiro,
na proa das vogais e consoantes,
é a que me chega em ondas incessantes
à praia deste poema aventureiro.
É a língua portuguesa, a que primeiro
transpôs o abismo e as dores velejantes,
no mistério das águas mais distantes,
e que agora me banha por inteiro.
Língua de sol, espuma e maresia,
que a nau dos sonhadores-navegantes
atravessa a caminho dos instantes,
cruzando o Bojador de cada dia.
Ó língua mar, viajando em todos nós.
No teu sal, singra errante a minha voz.

Adriano Espínola

Soneto

Karl Albert Buehr
Canta teu riso esplêndido sonata
E há no teu riso de anjos encantados
Como quem um doce tilintar de prata
E a vibração de mil cristais quebrados.

Bendito o riso assim que se desata
Citara suave dos apaixonados
Sonorizando os sonhos já passados
Cantando sempre em trinula volata!

Aurora ideal dos dias meus
Risonhos, quando úmidos de beijos,
Em ressaibos
Teu riso espanta, despertando sonhos.

Ah! num delíquio de ventura louca,
Vai-se minh'alma
Todas nos teus beijos,
Ri-se o meu coração na tua boca.

Augusto dos Anjos (1884-1914)

domingo, 27 de maio de 2012

Já não procuro a palavra exata,
que me pudesse explicar.
Ando pelos contornos onde todos os significados são sutis,
são mortais.

Não busco prender o momento belo:
Quero vive-lo sempre mais,
com a intensidade que exige a vida,
com o desgarramento do salto e da fulguração.

E me corto ao meio...
E me solto de mim...
Duplo coração...

A que vive,
a que narra,
a que se debate,
e a que voa...
na loucura que redime da lucidez...

Lya Luft

O silêncio

Quintana, Drummond, Hilst e João Cabral, entre outros, compõem Comissão Poética de Inquérito para decifrar o silêncio de Carlos Cachoeira e companhia na CPI.
Há um silêncio de antes de abrir-se um telegrama urgente. Há um silêncio de um primeiro olhar de desejo. Há um silêncio trêmulo de teias ao apanhar uma mosca. E há um silêncio de confissão diante de uma Comissão Parlamentar de Inquérito, completo Mário Quintana.
Não se resolve nada numa CPI. Ali, ao contrário daquelas festas em que ninguém é de ninguém, todo mundo tem dono. É como diz aquele verso bonito: "você é nosso e nós somos teu". Daí a questão filosófica: é melhor não atender ao convite para depor ou comparecer calado?
Dada a complexidade do tema, o cronista achou por bem instaurar uma Comissão Poética de Inquérito, para deliberar sobre os constrangedores silêncios da CPI do Cachoeira. Com a palavra, o relator Carlos Drummond de Andrade: "Mesmo no silêncio e com o silêncio dialogamos".
Cecília Meireles concorda ("Há uma doce luz no silêncio"), mas, para contraditar, Leminski cita Pessoa: "É fácil trocar as palavras, difícil é interpretar os silêncios!". "Difícil é fotografar o silêncio", acrescenta Manoel de Barros, aproveitando oportunamente uma questão de desordem.
Augusto dos Anjos cede à provocação e se exalta: "Ele quis falar e estava mudo!", referindo-se à promessa de Cachoeira de colaborar no futuro. "É o silêncio que diz tudo o que a intuição não adivinha", intervém Bandeira, na tentativa de trazer o debate para o eixo, mas é tarde demais. "Não há silêncio bastante para o meu silêncio", dispara Hilda Hilst.
E quando a reunião se encaminhava para um sarau entre tchutchucas e tigrões, João Cabral decifra a esfinge: "Foi o amor que comeu esse silêncio", levando todos a olhar para o fundo da sala, onde Andressa Mendonça, a musa da CPI, ouve, ao pé do ouvido, uma cantada de Vinícius de Moraes: "Ouve o silêncio que nos fala tristemente desse amor que não podemos ter". Falar o quê?
Rodolfo Borges

sábado, 26 de maio de 2012

“A lei da existência humana
só depende de uma coisa:
que o homem seja capaz
de se inclinar diante do imensurável”.

Fiódor Dostoiévski (1821-1881)

O pavão vermelho

Ora, a alegria, este pavão vermelho,
está morando em meu quintal agora.
Vem pousar como um sol em meu joelho
quando é estridente em meu quintal a aurora.

Clarim de lacre, este pavão vermelho
sobrepuja os pavões que estão lá fora.
É uma festa de púrpura. E o assemelho
a uma chama do lábaro da aurora.

É o próprio doge a se mirar no espelho.
E a cor vermelha chega a ser sonora
neste pavão pomposo e de chavelho.

Pavões lilases possuí outrora.
Depois que amei este pavão vermelho,
os meus outros pavões foram-se embora.

Sosígenes Costa (1901-1968)

sexta-feira, 25 de maio de 2012

A Chama crepita

Georges de La Tour
A chama crepita
ardência ou olho assolador
fiapo que escapou
das mãos de Deus
antes de ter sido modelado
antes de ter recebido
pendor à introspecção
e à síntese.

Vera Lúcia de Oliveira
O Surgimento da Indústria no Brasil
Cartão Postal da Fábrica de Ladrlhos Lunardi
Foi na República Velha que se afirmou nossa primeira revolução industrial. O surgimento de fábricas brasileiras foi quase espontâneo, já que não havia muita ajuda do governo. Os políticos estavam ligados a latifundiários e dominados pela crença tradicionalista de que “o Brasil deve ser um país agrário. A indústria nada tem a ver com nossas tradições”.
Foi apenas no século 20 que se veria as chaminés substituindo os arados e, algumas indústrias se instalaram no Rio Grande do Sul e em Minas Gerais, mas as principais estavam localizadas no Rio de Janeiro e em São Paulo.
O fato do Rio de Janeiro ser capital do país, na época, dotou o Rio de Janeiro de banqueiros e grandes comerciantes que deixaram de investir no café do Vale do Paraíba e começaram a botar dinheiro nas fábricas, um bom negócio alternativo. Cidade grande, cheia de gente pobre disposta a trabalhar, porto ativo, bem servida por ferrovias, mercado consumidor, tudo isso favorecia.
Os fatores externos como o estopim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), quando a dificuldade de importação aumentou a demanda por artigos nacionais, ou durante a Segunda Guerra (1939-1945), quando a industrialização seria a única alternativa e passou a se tornar uma prioridade. Além disso, um grande numero de imigrantes chegavam ao país substituindo a mão de obra escrava pela assalariada.
Assim, foi nesse buraco aberto pela diminuição da concorrência estrangeira que surgiu o espaço para novas indústrias. Deixávamos de importar, para produzir aqui. Foi o que se chamou de substituição de importações.
A indústria brasileira era basicamente a de bens de consumo (tecidos, chapéus, alimentos, bebidas, vidros, móveis, sapatos, cigarros, couros, etc.), porque exigia menor investimento de capital, o lucro era mais rápido, havia tecnologia disponível e o consumo era garantido. Isso representava uma fraqueza: ficávamos dependentes da importação de máquinas. Uma das raras exceções foi a instalação da siderúrgica Belgo-Mineira, em 1921 (estrangeira).

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Evelyn Pickering De Morgan
Mar e claridade.
Gaivotas traçam as rotas
do sol na cidade.
A manhã salta no cais.
Barcos partem ancestrais.

Adriano Espínola
Toda palavra voa nebulosa
até chegar latente ao nosso chão.
Pousa sem pressa ou prece em mansa prosa
caída chuva breve de verão.

Toda palavra se abre generosa
para abrigar segredos num porão
lá onde sobram sombras sinuosas
levantando a poeira no perdão.

Toda palavra veste-se vistosa
para fazer afagos na paixão
uma pantera em paz, porém tinhosa.

Toda palavra enfim é explosão
que o mundo só é mundo por osmose
pois há um outro ser no coração.

Aníbal Beça (1946-2009)

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Donald Zolan
Durante muitos anos
esperamos encontrar alguém
que nos compreenda,
alguém que nos aceite como somos,
capaz de nos oferecer felicidade
apesar das duras provas
Apenas ontem descobri
que esse mágico alguém
é o rosto que vemos no espelho.

Richard Bach

terça-feira, 22 de maio de 2012

Vladimir Volegov
Aquela criança, aquela
ainda não compreendeu o mundo
ainda se busca no espelho
ainda inventa viagens
ainda ri sem motivo
- quando os fantasmas deixam.

Aquela criança, aquela
teve as asas cortadas
e a máscara afivelada
na morte dos seus amores.

Aprendeu que o tempo
- como tudo mais -
é só miragem.

Lya Luft

Quem foi Soled ?

Soledad Barret Viedma
Soledad, a mulher do Cabo Anselmo: Quem foi, quem é Soledad Barrett Viedma? Qual a sua força e drama, que a maioria dos brasileiros desconhece? De modo claro e curto, ela foi a mulher do Cabo Anselmo, que ele entregou ao Delegado Torturador Fleury em 1973. Sem remorso e sem dor, o Cabo Anselmo a entregou grávida para a execução, com mais cinco militantes.
“O massacre da granja São Bento”., como ficou conhecida a Chacina é o caso mais eloquente da guerra suja da ditadura no Brasil.
Militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Nasceu em 6 de janeiro de 1945, no Paraguai. Casada com José Maria Ferreira de Araújo (desaparecido), tiveram uma filha, Nasaindy Barret de Araújo que hoje em Campinas (SP).
Foi assassinada sob torturas no Massacre da Chácara São Bento, ocorrido no dia 8 de janeiro de 1973, pela equipe do delegado Sérgio Fleury.
Juntamente com Soledad, que estava com 4 meses de gravidez, foram assassinados Pauline Reichstul, Eudaldo Gomes da Silva, Jarbas Pereira Marques, José Manoel da Silva e Evaldo Luiz Ferreira.
As circunstâncias do massacre que vitimou Soledad e seus companheiros estão na nota referente a Eudaldo Gomes da Silva.
Em 1970, de volta ao Brasil, Anselmo foi preso pela ditadura militar. Em troca da liberdade, delatou perseguidos políticos ao delegado Sérgio Paranhos Fleury, do Dops. A lista de denunciados incluía sua namorada, Soledad Viedma.
O poeta uruguaio Mario Benedetti a homenageou com um poema:
Morte de Soledad Barret Viedma
Viveste aqui por meses ou por anos
traçaste aqui uma reta de melancolia
que atravessou as vidas e a cidade
Faz dez anos tua adolescência foi notícia
te marcaram as coxas porque não quiseste
gritar viva Hitler nem abaixo Fidel
eram outros tempos e outros esquadrões
porém aquelas tatuagens encheram de assombro
a certo Uruguai que vivia na lua
e claro então não podias saber
que de algum modo eras
a pré-história do ibero
agora metralharam no recife
teus vinte e sete anos
de amor de têmpera e pena clandestina
talvez nunca se saiba como nem por quê
os telegramas dizem que resististe
e não haverá mais jeito que acreditar
porque o certo é que resistias
somente em te colocares à frente
só em mirá-los
só em sorrir
só em cantar cielitos com o rosto para o céu
com tua imagem segura
com teu ar de menina
podias ser modelo
atriz
miss Paraguai
capa de revista
calendário
quem sabe quantas coisas
porém o avô Rafael o velho anarco
te puxava fortemente o sangue
e tu sentias calada esses puxões
Soledad solidão não viveste sozinha
por isso tua vida não se apaga
simplesmente se enche de sinais
Soledad solidão não morreste sozinha
por isso tua morte não se chora
simplesmente a levantamos no ar
desde agora a nostalgia será
um vento fiel que flamejará tua morte
para que assim apareçam exemplares e nítido
as franjas de tua vida
ignoro se estarias
de minissaia ou talvez de jeans
quando a rajada de Pernambuco
acabou completo os teus sonhos
pelo menos não terá sido fácil
cerrar teus grandes olhos claros
teus olhos onde a melhor violência
se permitia razoáveis tréguas
para tornar-se incrível bondade
e ainda que por fim os tenham encerrado
é provável que ainda sigas olhando
Soledad compatriota de três ou quatro povos
o limpo futuro pelo qual vivias
e pelo qual nunca te negaste a morrer.

Mario Benedetti (1920-2009)

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Pasárgada

Vou-me Embora pra Pasárgada
A evasão para uma outra realidade da diferente do poeta é uma das temáticas de “Vou-me embora pra Pasárgada”, poema de Manuel Bandeira em que o poeta busca uma espécie de paraíso para vivenciar os atos comuns da vida , os quais não puderem ser vivenciados devido à doença. Este poema tem um caráter biográfico a partir do momento que é influenciado pelas aspirações do poeta em buscar a felicidade, que foi impedida devido às dores pessoais.
Pasárgada é uma alegoria do paraíso, representante do mito da felicidade no qual Manuel Bandeira tem liberdade de escolher a mulher que quer, na cama que desejar.
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que eu nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Manuel Bandeira (1886-1968)
“Vou-me embora pra Pasárgada” foi o poema de mais longa gestação em toda minha obra. Vi pela primeira vez esse nome de Pasárgada quando tinha os meus dezesseis anos e foi num autor grego. [...] Esse nome de Pasárgada, que significa “campo dos persas”, suscitou na minha imaginação uma paisagem fabulosa, um país de delícias [...]. Mais de vinte anos depois, quando eu morava só na minha casa da Rua do Curvelo, num momento de fundo desânimo, da mais aguda doença, saltou-me de súbito do subconsciente esse grito estapafúrdio: “Vou-me embora pra Pasárgada!”.
Manuel Bandeira

domingo, 20 de maio de 2012

“Não sei teus gestos
nem a cor do teu sorriso
mas pressinto os passos”.

Eolo Yberê Libera
Olhe para este dia:
Pois é a vida, a própria vida da vida.
No seu breve curso
Deite-se todas as verdades e realidades de sua existência.
A bem-aventurança do crescimento,
A glória da ação,
O esplendor da realização
Mas são experiências de tempo.

Para ontem é apenas um sonho
E amanhã é apenas uma visão;
E hoje bem vivido, faz
Ontem, um sonho de felicidade
E todo amanhã uma visão de esperança.
Vejam bem, portanto, a este dia;
Essa é a saudação ao amanhecer sempre novo!

Kalidasa (125-180)
Poeta hindu no idioma sânscrito.

sábado, 19 de maio de 2012

Frederick Stuart Church
O Rio e suas ondas são um mesmo fluxo:
qual a diferença entre o rio e suas ondas?
Quando se crispa a onda,
é novamente e ainda água.
Diz-me, senhor, a diferença:
Por ter sido denominada onda,
não mais devemos considerá-la Água?

No Seio do supremo Brahman
os mundos alinham-se como contas:
Contempla esse rosário
com os olhos da sabedoria.

Kabir Das (1440-1518)
Poeta hindu

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Não me inquieta se o caminho
que me coube - por secreto
desígnio - jamais floresce.
Dentro de mim, sei que existe,
oculta, uma rosa branca.
Incólume rosa. E branca.

Não pude colhê-la: mal
nascera e logo perdi-me
nos labirintos do tempo,
onde desde então pervago
apenas entressonhando
aquilo que sou - e vive
no recôncavo da rosa.

Sem conhecer-me, padeço
o mistério de existir
em amargo desencontro
comigo mesmo. No entanto,
pesar tão largo se apaga
quando pressinto: na rosa,
mistério não há. Nenhum.
Sem medo de trair-me a face,
posso morrer amanhã.
Extinto o jugo do tempo,
olhos nem boca haverá
- para a queixa e para a lágrima -
se em vez de rosa, de pétala
cinza de pétala, apenas
existir a escuridão.
O vazio. Nada mais.

Thiago de Mello

quinta-feira, 17 de maio de 2012

A criadora de urubus

Foto de Thomas Schoeller
A mulher de Seu Costa
(com medo se sabia?)
criava urubus no galinheiro
junto com a criação comezinha.

Decepção ao saber
a correta razão:
não era pelo gosto doentio
de criar tais bichos do Cão,

nem pelo do exercício
do estranho e seus desvãos:
mas sim porque o urubu protege,
é padre, abençoa a criação.

João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

Árvore da Vida

Matisse e sua árvore da vida…
Henri Matisse considerou como sua obra prima a realização arquitetônica e artística da capela de Nossa Senhora do Rosário, em Vence, sul da França. Passou quatro anos trabalhando nessa obra que teria como ápice a simplicidade unida a um belíssimo jogo de luzes formado pela própria entrada do sol pelos vitrais cuidadosamente planejados para isso.
Para o pintor, as três cores – Verde, Azul e Amarelo – utilizadas nos vitrais significavam respectivamente a vegetação, o mar e o céu que convidam à criação, e o Sol. Curioso é saber que somente o amarelo é opaco, as outras cores têm suas transparências. E isso não foi por acaso: Matisse via o Sol como a própria luz. Para simbolizar o sol como luz na casa de Deus, seria necessário fazer essa luz opaca, pois Deus é a própria luz, e nossos olhos humanos não são capazes de vê-la por nós mesmos.
Além disso, a combinação das cores também dá a ideia de dimensão, apesar do espaço da capela ser muito pequeno – 5m X 15m. Para o pintor, “o papel da pintura é o de alargar as superfícies, de fazer com que deixem de se sentir as dimensões do muro.” Esse foi um trabalho que exigiu muito do artista que já estava num estágio avançado de sua doença, e já havia deixado de trabalhar com as tintas e aderido aos recortes desde 1930 – talvez por isso suas formas no vitral se assemelhem com o momento vivido por ele nos recortes…
Ah! Por que árvore da vida? Bem, dizem alguns que ao se entrar na capela, imediatamente somos levados ao vitral. E que embora muitas vezes possamos estar sofrendo e levando nossos sofrimentos até a capela, há a vida que impera com suas raízes profundas para nos sustentar como humanos que somos e nos dar esperanças de continuar mais um pouco a caminhada… enfim! A beleza da arte além de nos encher a vista é também nos encher a alma com mil interpretações sobre aquilo que vemos!

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Filippino Lippi
Ah, minha cidade suja
de muita dor em voz baixa
de vergonhas que a família abafa
em suas gavetas mais fundas
de vestidos desbotados de camisas mal cerzidas
de tanta gente humilhada comendo pouco
mas ainda assim bordando flores
suas toalhas de mesa
suas toalhas de centro
de mesa com jarros
- na tarde
durante a tarde
durante a vida -
cheio de flores
de papel crepom
já empoeiradas
minha cidade doída.

Ferreira Gullar, em Poema Sujo
"Fragmento"

terça-feira, 15 de maio de 2012

Caricaturista

Seth (1891-1949)
Álvaro Marins - Seth, nasceu em Macaé no dia 18 de janeiro de 1891 e faleceu no Rio de Janeiro em 28 de janeiro de 1949.
Seth começou sua carreira aos 15 anos, no Rio de Janeiro, e colaborou com várias revistas ilustradas. Pode ser considerado entre os maiores na história da caricatura brasileira em todos os tempos.
Algumas de suas caricaturas: