domingo, 31 de março de 2013

Helena de Constantinopla

Ícone de bronze representando
Helena e Constantino.
Flávia Júlia Helena, também conhecida como Santa Helena ou Helena de Constantinopla (250-330), foi a mãe do imperador romano Constantino o Grande. De acordo com a tradição cristã, teria sido ela quem descobriu o local de crucificação de Jesus Cristo, tendo sido lá erguida a Basílica do Santo Sepulcro.
Quando Constantino se tornou imperador em 306, Helena adquiriu poder, tendo financiado a construção da nova capital do império, Constantinopla. Em 324 recebeu o título de Augusta, junto com a sua nora, Flavia Maxima Fausta.
Helena converteu-se ao cristianismo e algumas tradições fazem dela responsável pela conversão do filho, que em 313 tinha mandado publicar o Édito de Milão através do qual se passava a tolerar o cristianismo. Helena já perto de oitenta anos, fez uma peregrinação à Palestina. Lá dedicou-se a identificar os alegados locais onde se teria passado episódios da vida de Jesus Cristo. Ordenou a construção de igrejas, como a da Natividade em Belém e o Santo Sepulcro em Jerusalém. Helena faleceu em 327 ou 328, pouco tempo depois de ter regressado da peregrinação. Os seus restos mortais foram transportados para Roma, onde se vê ainda agora no Vaticano o sarcófago de pórfiro que os inclui.
Em 337 foi anunciado que a cruz onde Cristo foi crucificado teria sido descoberta no Gólgota, tendo Helena sido identificada pela tradição com esta descoberta em finais do século IV.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Espera

Charles West Cope
Tumulto de angústia suscitado pela espera do ser amado, no decorrer de mínimos atrasos (encontros, telefonemas, cartas, voltas).
Espero uma chegada, uma volta, um sinal prometido. Pode ser fútil ou imensamente patético: em Erwartung (Espera), uma mulher espera seu amante, de noite, na floresta; quanto a mim, só espero um telefonema, mas é a mesma angústia. Tudo é solene: não tenho noção das proporções.
Roland Barthes (1915-1980
Fragmentos de Um Discurso Amoroso.
Tradução: Hortênsia dos Santos
Francisco Alves Editora.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Kama Sutra

As características do homem perfeito segundo o Kama Sutra

Que características você, homem, deve ter para interessar aquela criatura suave e cruel, delicada e tirânica, sublime e miserável, generosa e avarenta, capaz de nos levar ao céu e logo depois à sarjeta, mas, em duas palavras, irresistível e incomparável, portanto insubstituível — a fêmea?
Um sábio indiano, Vatsayana, que viveu entre os séculos IV e VI AC, se deteve na pergunta fundamental, a mãe de todas, da vida de um homem. Ele é o autor, ou pelo menos se imagina que seja, do Kama Sutra, que está longe de ser o manual erótico que muitos pensam que é sem ter lido, depois de ver apenas algumas ilustrações e ouvir de orelha dizerem que é.
Um trecho da "Wikipédia" sobre o Kama Sutra e Vatsayana:
“Ao contrário do que muitos pensam, o Kama Sutra não é um manual de sexo, nem um trabalho sagrado ou religioso. Ele também não é, certamente, um texto tântrico. Na abertura de um debate sobre os três objetivos da antiga vida hindu – Darma, Artha e Kamadeva – a finalidade do Vatsyayana é estabelecer kama, ou gozo dos sentidos, no contexto. Assim, Darma (ou vida virtuosa) é o maior objetivo, Artha, o acúmulo de riqueza é a próxima, e Kama é o menor dos três.”
Vatsayana, de cujo Kama Sutra elaborou uma lista de atributos do homem a quem elas entregam o coração, a alma. São 14.
Os homens ideais, segundo ele, são:
  1. os versados na ciência do amor;
  2. os que têm habilidade para contar histórias;
  3. os que conhecem as mulheres desde a infância;
  4. os que conquistaram a confiança delas, mulheres;
  5. os que lhes enviam presentes;
  6. os que falam bem;
  7. os que fazem coisas de que elas gostam;
  8. os que nunca amaram outras mulheres;
  9. os que conhecem seus pontos fracos;
  10. os que gostam de festas;
  11. os liberais;
  12. os que são famosos por sua força;
  13. os empreendedores e corajosos;
  14. os que superam os demais homens em cultura, aparência, boas qualidades e generosidade.
Bem interessante!

quarta-feira, 27 de março de 2013

Encruzilhamento de Linhas

Núcleo de convergência no bojo da noite oval.
Lanterna Verde
(amêndoa fosforescente
dentro da casca carbonizada)

Longitudinal, centrífugo,
o trem racha em duas metades
a espessura do escuro
e, cuspindo pela boca da chaminé
as estrelas inúteis à propulsão,
atira-se desenfreado
nos trilhos livres.

Mas se o maquinista fosse daltônico
a locomotiva teria parado.

Felippe D´Oliveira (1891-1933)

terça-feira, 26 de março de 2013

O Coração

Amanda Cass
Coração: Esta palavra vale para todo tipo de movimentos e desejos, mas o que é constante é que o coração se constitui em objeto de dom - quer ignorado, quer rejeitado.

1. O coração é o órgão do objeto (o coração, infla, fraqueja, etc., como o sexo), tal como é retido, encantado, no campo do Imaginário. O que o mundo, o que o outro vai fazer de meu desejo? Essa a inquietude em que se concentram todos os movimentos do coração, todos os "problemas" do coração.

2. Werther se queixa do príncipe de X: "Ele aprecia meu espírito e meus talentos mais do que este coração, que contudo é meu único orgulho [...] Ah, o que sei, qualquer outro pode saber - meu coração é meu e de ninguém mais." Você me espera onde não quero ir: ama-me onde não estou. Ou ainda: o mundo e eu não nos interessamos pela mesma coisa; e, desgraçadamente para mim, esta coisa dividida sou eu; não me interesso (diz Werther) pelo meu espírito; você não se interessa por meu coração.

3. O coração é o que acredito dar. Cada vez que este dom me é devolvido, é então pouco dizer, como Werther, que o coração é o que resta de mim, uma vez extraído todo o espírito que me atribuem e que não quero: o coração é o que me resta, e este coração que me resta no coração é o coração pesado: pesado do refluxo que o encheu dele mesmo (apenas o amante e a criança têm o coração pesado).

( X ... deve ausentar-se por semanas, talvez mais; quer, no último momento, comprar um relógio para a viagem; a vendedora graceja: "O senhor quer o meu? O senhor devia ser bem jovem, quando eles custavam esse preço, etc."; ela não sabe que eu estou com o coração pesado.)
Roland Barthes (1915-1980
Fragmentos de Um Discurso Amoroso.
Ed. Martins Fontes

segunda-feira, 25 de março de 2013

O Sorveteiro

Ilustração de Maurício de Souza
A luz atrai mariposas,
o melado, formiguinhas;
e, como a flor as abelhas,
sorvete atrai criancinhas.

Mal se escuta, ao longe, o grito:
– É o sorvete! Vai querer?
Aparecem sem demora,
as crianças a correr.

Quero um de creme — diz Paulo;
pede Lúcia: — Um de abacate.
– Eu, de manga! — Um de morango!
– Eu quero um de chocolate!

Saem todos bem contentes,
com seu sorvete na mão;
menos Rosinha. Que pena!
O dela caiu no chão…

Maria de Lourdes Figueiredo

domingo, 24 de março de 2013

“Te trarei das montanhas flores alegres,
amarílis, avelãs escuras, e
cestas silvestres de beijos.
Quero fazer contigo,
o que faz a primavera às cerejeiras."

Pablo Neruda (1904-1973)

Amarílis é o nome de uma pastora que aparece na obra de Virgílio, e a palavra, de origem grega, significa “deslumbrante”. A espécie é chamada belladonna, “bela senhora”, em italiano. Na linguagem das flores, considera-se a amarílis altiva e também orgulhosa, talvez porque seja uma flor difícil de cultivar, mas que depois de vicejar ofusca todas as outras a seu redor.
Fonte: A linguagem das flores – Ed. Melhoramentos

sábado, 23 de março de 2013

Thoureau e a Preguiça Contemporânea

Pierre Auguste Renoir - A Walk in the Woods
Henry David Thoreau (1817-1862) foi um pensador que se embrenhou no meio do mato após ser encarcerado por que rejeitou pagar impostos que iriam financiar uma guerra. “Se uma lei é injusta, o homem não somente tem o direito de desobedecê-la, ele tem a obrigação de fazê-lo”. [Thomas Jefferson].
O livro "Walden" registra suas experiências e ideias sobre as liberdades individuais, e juntamente com “Desobediência Civil” se tornou uma espécie de standard de sua filosofia de vida. Mas o assunto agora será sobre andar, que é item, outra forma de liberdade, a de transitar.
No ensaio
“Walking” de 1862, Thoreau aborda questões como a preservação da natureza (numa antecipação dos movimentos ambientalistas), a descoberta das Américas, e já deflagra uma questão de sua época que ainda hoje permeia a vida do homem contemporâneo:
A Preguiça.
Observando minha realidade, me deparo com a maldita diariamente: escadas rolantes, carros ocupados só pelo condutor e processos de automação de todos os serviços possíveis.
Não me tenha como antiprogressista, ao contrário, comodidade é boa e eu gosto.
Há também de se considerar que o
transcendentalista americano relata sua própria experiência de descoberta a pé do espaço em que habita, alegando que sua vizinhança o proporciona passeios magníficos e que igualmente caminha milhas nas matas, as vezes por dias seguidos.
Saindo do livreto e olhando pela janela, não reconheço cidade de vocação metropolitana que consiga aliar, conforme o escritor me deixa de imagem, vastos espaços verdes cercados de longos trechos de asfalto sem a tirania da violência urbana e o risco ao pedestre oferecido pelo fluxo intenso de veículos motorizados.
Aí entra o dilema da inação e da automatização generalizada: Evitamos o esforço físico do trote pois a mesma preguiça que a causa, gerou a automatização da violência, o excesso de velocidade do transporte e o descaso para com os ambientes naturais voltados a contemplação e ao convívio social.
Tal discussão envolve grande alçada em campos diversos do conhecimento e não é meu intento debulhar ela por completo.
Isto é apenas uma constatação de que Thoreau nos dias atuais pensaria duas vezes antes de se estarrecer ante pessoas que passam uma manhã inteira de pernas cruzadas, como se pernas tivessem sido feitas para permanecerem sentadas e não eretas.
Flanar livremente para ele era um dever, que atualmente, seria um direito exercido sob duras penas.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Luz

Catrin Welz Stein
“A luz viaja mais rápido que o som.
É por isso que algumas pessoas
parecem brilhantes
até você ouvi-los falar”.

Bárbara Coré

quinta-feira, 21 de março de 2013

Do Jardim de Rosas Secreto

Wilhelm Menzler Casel
Penetra no coração de uma gota d’água
serás invadido pelas marés de cem oceanos puros
Se examinares com cuidado uma mancha de pó,
verás um milhão de seres inomináveis
Os membros de uma mosca são como um elefante
Cem colheitas residem no germe da semente de cevada.
Uma semente de painço suporta um mundo inteiro
A asa de um inseto desdobra um oceano
Raios cósmicos ficam ocultos na pupila do meu olho,
e, de alguma maneira, o centro do meu coração
abriga o Pulso do Universo.

Mahmud Shabistari (1288–1340)

quarta-feira, 20 de março de 2013

“A sombra das roças é macia e doce, é como uma carícia. Os cacaueiros se fecham em folhas grandes que o sol amarelece. Os galhos se procuram e se abraçam no ar, parecem uma árvore subindo e descendo o morro, a sombra de topázio se sucedendo por centenas e centenas de metros. Tudo nas roças de cacau é em tonalidades amarelas, onde, por vezes, o verde rebenta violento. De um amarelo aloirado são as minúsculas formigas pixixicas que cobrem as folhas dos cacaueiros e destroem a praga que ameaça o fruto. De um amarelo desmaiado se vestem as flores e as folhas novas que o sol pontilha de amarelo queimado. Amarelos são os frutos precoces que pecaram ao calor demasiado. Os frutos maduros lembram lâmpadas de oiro das catedrais antigas, fulgem com um brilho resplandecente aos raios do sol, que penetram a sombra das roças. Uma cobra amarela - uma papa-pinto - acalenta o sol na picada aberta pelos pés dos lavradores. E até a terra, barro que o verão transformou em poeira, tem um vago tom amarelo, que se prende e colore as pernas nuas dos negros e dos mulatos que trabalham na poda dos cacaueiros”.
Jorge Amado (1912-1001)
Terras do sem fim

terça-feira, 19 de março de 2013

19 de Março - Dia de São José

Georges De La Tour - St. Joseph the Carpenter
O culto a São José começou provavelmente no Egito, passando mais tarde para o Ocidente, onde hoje alcança grande popularidade. Em 1870, o papa Pio IX o proclamou "O Patrono da Igreja Universal" e, a partir de então, passou a ser cultuado no dia 19 de março. Em 1955 Pio XII fixou o dia 1º de maio para "São José Operário, o trabalhador". Apesar de ter grande importância dentro da Igreja Católica, o nome de São José não é muito citado dentro das fontes bibliográficas da Igreja, sendo apenas mencionado nos Evangelhos de S. Lucas e S. Mateus.
Descendente de Davi, São José era carpinteiro na Galileia e comprometido com Maria. Segundo a tradição popular, a mão de Maria era aspirada por muitos pretendentes, porém, foi a José que ela foi concedida.
Quando Maria recebeu a anunciação do anjo Gabriel de que daria à luz ao Menino Jesus, José ficou bastante confuso porque apesar de não ter tomado parte na gravidez, confiava na fidelidade dela. Resolveu, então, terminar o noivado e deixá-la secretamente, sem comentar nada com ninguém. Porém, em um sonho, um anjo lhe apareceu e contou que o Menino era Filho de Deus e que ele deveria manter o casamento.
José esteve ao lado de Maria em todos os momentos, principalmente na hora do parto, que aconteceu em um estábulo, em Belém. Quando Jesus tinha dois anos, José foi novamente avisado por um anjo que deveria fugir de Belém para o Egito, porque todas as crianças do sexo masculino estavam sendo exterminadas, por ordem de Herodes.
José, Maria e Jesus fugiram para o Egito e permaneceram lá até que um anjo avisasse da morte de Herodes.
Temendo um sucessor do tirano, José levou a família para Nazaré, uma cidade da Galileia.
Outro momento da vida de Cristo em que José aparece na condição de Seu guardião foi na celebração da Páscoa Judaica, em Jerusalém, quando Jesus tina 12 anos. Em companhia de muitos de seus vizinhos, José e Maria voltavam para a Galileia com a certeza de que Jesus estava no meio do grupo.
Ao chegar a noite e não terem notícias de seu filho, regressaram para Jerusalém em uma busca que durou 3 dias.
Para a surpresa do casal, Jesus foi encontrado no templo em meio aos doutores da lei mais eruditos, explicando coisas que o deixavam admirados. Apesar da grande importância de José na vida de Jesus Cristo não há referências da data de sua morte.
Acredita-se que José tenha morrido antes da crucificação de Cristo, quando este tinha 30 anos.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Os seres humanos são fracos

CHarlotte Sullivan
“Os seres humanos são fracos, é verdade, mas se eles são tão fracos é porque acabaram por considerar esta fraqueza como natural, como uma evidência, como ponto assente. Este é mesmo o tema predileto da moral e da religião: a natureza humana é fraca, pecadora. Na realidade, os humanos não são assim tão fracos, mas são preguiçosos, isso sim! Eles não querem assumir o controlo de si mesmos e deixam-se ir atrás de todos os seus impulsos egoístas, agressivos, e depois, evidentemente, só podem acontecer-lhes insucessos. Vós não sois fracos e constatareis isso mesmo se adquirirdes o hábito de não fugir das dificuldades; se fugirdes, elas tornar-se-ão inultrapassáveis e então tereis razões para vos lamentardes das vossas fraquezas. Mas decidi-vos a enfrentar as dificuldades e os esforços parecer-vos-ão cada vez mais fáceis. O que é um verdadeiro espiritualista? Um ser que "amansa" os obstáculos para poder, graças a eles, lançar-se para mais longe e mais alto”.
Omraam Mikhaël Aïvanhov (1900-1986)

sábado, 16 de março de 2013

Kristin Vestgard
“Tudo pode abandonar-nos, podemos perder tudo, exceto nós mesmos. Então, por que não havemos de procurar em nós, pois é a única posse, a única certeza que temos verdadeiramente? Quer nos encontremos na terra ou no outro mundo, nunca nos separaremos de nós. Para permanecermos senhores da situação em todas as circunstâncias, todos dispomos de algo que nada nem ninguém pode tirar-nos. E o que nada nem ninguém pode tirar-nos somos nós. Na vida, na morte, estaremos eternamente conosco. Sim, é o que há de mais seguro, tudo o resto não é seguro e pode escapar-nos. E este "nós" que nada pode tirar-nos é a consciência da centelha divina que nós somos, portanto, a capacidade que recebemos do Criador e ocasiões que nos são dadas todos os dias para pormos essas capacidades em ação”.
Omraam Mikhaël Aïvanhov (1900-1986)

sexta-feira, 15 de março de 2013

William Sidney Mount
“De manhã, quando abris a vossa janela ou a vossa porta, pensai em saudar todas as criaturas dos mundos visíveis e invisíveis. Criais assim uma ligação com elas e, graças a esse simples gesto de saudação, sentir-vos-eis durante todo o dia na poesia, na luz. Vós enviais o vosso amor e, de todas as regiões do espaço, o amor volta a vós. Há tantas coisas a fazer para tornar a vida bela e poética! Mas é necessário que não vos deixeis apanhar pelas preocupações, pelas questões materiais, e que guardeis um pouco de tempo e de energias para todas as atividades que dão um sentido à existência. Os humanos ainda não compreenderam grande coisa: falam de amor, querem ser amados, mas continuam fechados, apagados, prosaicos. Eles que aprendam a viver essa vida poética! Se o fizerem, serão amados”.
Omraam Mikhaël Aïvanhov (1900-1986)

quinta-feira, 14 de março de 2013

Nossa indigência cultural chegou ao Camaro Amarelo
É notável como nos últimos 40 anos todos os valores morais e estéticos se empalideceram perante a arrogância do consumo. Empalideceram e ofereceram rendição. Agora, tudo na vida se resume a relação de consumo. Basta comparar os laços familiares de 30, 40 anos atrás com uma família de hoje em dia. Os vínculos familiares eram fortes, para o amor e para o ódio. A começar pelo modo de acomodação dentro de casa, demonstrando sinais de intensidade nas relações.
A prole era de modo geral numerosa. De costume, os filhos homens dormiam todos num mesmo quarto e as mulheres num outro. Isso nas classes de média acima. Nas classes menos privilegiadas, os filhos homens e mulheres dormiam no mesmo quarto, separados quando muito pelo improviso de um biombo de lençol ou coberta pendurada numa corda abaixo do teto. Não havia espaço para segredos entre os familiares. Todos sabiam de tudo o que se passava com os demais e se achavam no direito de opinar e tomar partido sobre qualquer questão.
Hoje, cada filho detém um apartamento (ou departamento) no interior da casa dos pais. E assim como não sabemos o que se passa com o nosso vizinho do apartamento em frente ao nosso, ou mal sabemos o seu nome, os irmãos que moram na mesma casa também mal se conhecem. As pessoas estão encavernadas, envolvidas com suas TVs, com seus leptops, com seus iphones, conectadas umbilicalmente em sua solidão hitech. As famílias não têm mais apego, nem raiz sentimental. São como cultivo hidropônico, em que os agricultores (os pais) fazem chegar os nutrientes (grana) através de uma água rala sem terra e sem suporte (sentimentos frouxos). Vivemos a era das famílias hidropônicas. A família como mera organização para o consumo.
Autor: Edival Lourenço
Veja matéria completa ( Aqui )

quarta-feira, 13 de março de 2013

O grito

Pablo Picasso
Há sempre um fiorde e uma ponte
em toda a vertigem humana,
e sempre essas nuvens em chama
no som da palavra horizonte.

Há sempre um fiorde, uma ponte,
dois homens de negro e o louco,
e curvas no espaço amplo e pouco,
e ser nesse andrógino instante.

Há sempre dois barcos que somem
além do fiorde e da ponte
que brumas tão rubras consomem.

E nesse grito a que ninguém responde,
há sempre esse eco bifronte,
esse espaço sem quando, esse tempo sem onde.

Cláudio Neves

terça-feira, 12 de março de 2013

Gota de Água

Eu, quando choro,
não choro eu.
Chora aquilo que nos homens
em todo o tempo sofreu.
As lágrimas são minhas
Mas o choro não é meu.

António Gedeão (1906 - 1997)

domingo, 10 de março de 2013

O Rei Reina e Não Governa

Laurent Botella
Não sei porque a língua humana
Os brutos não falam mais,
Quando hoje têm melhor vida.
E há muita besta instruída
Nas ciências sociais...

Ultimamente entenderam
Que tinham também razão
De proclamar seus direitos,
Pondo em uso os bons efeitos
Que trouxe a Revolução...

"Seja o leão, diz o asno,
Um rei constitucional;
Com assembleias mudáveis,
Com ministros responsáveis,
Não nos pode fazer mal.

Fiquem-lhe as garras ocultas,
Não ruja, não erga a voz,
Conforme a tese moderna
Que ele reina e não governa,
Quem governa somos nós...

Todas as bestas da terra,
Todas as bestas do mar,
Tenham os seus delegados,
Sendo os ministros tirados
Do seio parlamentar...

(...)
Só vejo, que bem nos quadre
No trono, algum animal,
Que coma e viva deitado:
O porco!... Exemplo acabado
De rei constitucional..."
Tobias Barreto (1839 - 1889)

sexta-feira, 8 de março de 2013

Vítimas da Guerra de Tróia encontradas ?!?
Giovanni Domenico Tiepolo
Arqueólogos turcos encontraram restos mortais de duas pessoas: um homem e uma mulher que acreditam poder terem morrido por volta de 1200 a.C., na época da lendária guerra de Tróia, disse nesta terça-feira, 22, o professor alemão Ernst Pernicka, da Universidade de Tübinga, que comanda escavações no sítio arqueológico do noroeste da Turquia. Pernicka afirmou que os corpos foram achados próximos de uma linha de defesa dentro da cidade, construída no final da era do Bronze.
Isso pode ajudar a comprovar que a parte baixa de Troia no final da era do Bronze era maior do que se imaginava, alterando as percepções dos acadêmicos a respeito da cidade descrita na Ilíada, de Homero. ”Em poucas semanas saberemos a época exata de sua morte e suas idades aproximadas. Se os restos forem confirmados como sendo de 1200 a.C., isso iria coincidir com o período da guerra de Troia. Essa gente foi sepultada perto de um fosso. Estamos conduzindo um teste de radiocarbono, mas a descoberta é eletrizante“, disse Pernicka. “ Se nossas estimativas estão corretas, poderemos afirmar que encontramos as primeiras vítimas da guerra de Tróia“, acrescentou Aslan. A guerra de Tróia é um dos eixos centrais da Ilíada e da Odisséia, do poeta grego Homero.
A antiga Tróia, na entrada do estreito de Dardanelos, relativamente próximo da zona sul de Istambul, foi encontrada na década de 1870, pelo empreendedor e arqueólogo alemão Heinrich Schliemann. Pernicka disse que cerâmicas encontradas perto dos corpos, que estavam sem as partes inferiores, eram confirmadamente de 1200 a.C., mas que o casal pode ter sido enterrado 400 anos depois em um cemitério na camada que os arqueólogos chamam de Tróia 6 ou Tróia 7, das diferentes camadas das ruínas de Tróia.
Dezenas de milhares de turistas visitam anualmente as ruínas de Tróia, onde uma enorme réplica de madeira do famoso cavalo de Tróia está exposta ao lado de várias ruínas escavadas.
Fonte: ( Peregrina Cultural )

quinta-feira, 7 de março de 2013

Passarinhos

Jane Kim
A um passarinho que andava
Cantando pelo jardim,
Foi perguntar Elisinha
– Quem é que te cuida assim?

Onde achas doce alimento,
Coisas nutritivas, sãs?
– Tenho bichinhos gostosos
Figos, laranjas, romãs.

– E quando estás fatigado,
Onde é que vais descansar?
– Qual de nós não tem seu ninho?
Nosso ninho é o nosso lar.

– E sede não sentes nunca?
– Tenho rio e ribeirão,
E gotinhas de sereno,
Que as folhas verdes me dão.

– E no inverno não te falta
Agasalho contra o frio?
– Tenho penas que me cobrem,
Tenho agasalho macio.

– E quando não há bichinhos,
Grãos e frutinhas não há?
– Há uma boa criancinha
Que pão e alpiste me dá.

Zalina Rolim (1869-1961)

quarta-feira, 6 de março de 2013

Neandertais eram vaidosos

Uma equipe de pesquisadores disse que encontrou as primeiras evidências convincentes de que o homem de Neandertal pintava o corpo e usava bijuteria há 50 mil anos. Conchas contendo resíduos de pigmentos usados para este fim foram encontradas em dois sítios arqueológicos em Múrcia, no sul da Espanha.
O arqueólogo português, João Zilhão, que lidera a equipe a partir da Universidade de Bristol, na Inglaterra, disse que foram examinadas conchas que eram usadas como utensílios para misturar e armazenar pigmentos. Bastões pretos com um pigmento à base de manganês podem ter sido usados como tinta para o corpo.
Artefatos semelhantes foram encontrados na África no passado. “(Mas) esta é a primeira evidência segura do uso de cosméticos”, disse o arqueólogo à BBC. “A utilização destas receitas complexas é novidade. É mais do que tinta para o corpo.”
Os cientistas encontraram fragmentos de um pigmento amarelo que, segundo eles, pode ter sido usado como base para maquiagem. Descobriram também um pó vermelho junto com manchas de um mineral negro brilhante. Algumas das conchas, entalhadas e pintadas com cores fortes, podem, também, terem sido usadas como bijuteria.
Até agora, muitos especialistas acreditavam que só os seres humanos modernos usavam maquiagem como adorno ou para rituais. Durante um período na pré-história Neandertais e humanos podem ter compartilhado a Terra, mas João Zilhão disse que a descoberta de sua equipe data de 10 mil anos antes do contato entre ambos e, portanto, ela não indicaria uma influência humana. Zilhão vê na prática do uso de pintura corporal e bijuteria um certo grau de sofisticação.
“As pessoas têm que acabar com essa ideia de que os Neandertais eram débeis mentais”, afirmou. O estudo foi divulgado em Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).
Fonte: ( Portal Terra )

domingo, 3 de março de 2013

História Ilustrada da Humanidade

Breve História Ilustrada da Humanidade
Por maior que seja o esforço em contar a história da humanidade, esta é tão extensa, complexa e recheada de detalhes que torna esta tarefa quase impossível. A proposta que aqui fica é a de contar essa história com imagens.
Veja galeria completa: Obvious (um olhar mais demorado).

sábado, 2 de março de 2013

Erasmo de Roterdã vs. Martinho Lutero

Erasmo de Roterdã vs. Martinho Lutero
Quando a poderosa Igreja Católica começou a ter sua autoridade moral questionada na Europa, por volta do final do século XV, em razão da corrupção e da lassidão de seus líderes, vários foram os pensadores, dentro e fora da própria Igreja, que defenderam reformas na instituição – quando não, a superação da mesma. Dois desses reformadores foram Erasmo de Roterdã e Martinho Lutero.
O espírito reformador
Erasmo, apesar de profundamente cristão, se opôs ao domínio da Igreja Católica na ciência, na cultura e na Educação. Seguia a linha de tradição de Tertuliano e Pelágio, que consideravam normal que leigos cultos pudessem perfeitamente conduzir a Igreja, recusando a exclusividade dessa função ao clero. Ele era, em grande medida, um produto da nova civilização urbana renascentista, e ficou contente em notar, por exemplo, que um número cada vez maior de escolas estavam sendo fundadas por pessoas laicas, quando a Igreja ainda reivindicava o direito de monopolizar o ensino. Essa defesa da diminuição do papel clerical na vida das pessoas era fruto de sua crença de que não podiam haver intermediários entre os cristãos e as Escrituras, e isso era um ponto que ele tinha em comum com todos os reformadores, numa época em que as tentativas de se estudar a Bíblia por si só constituíam prova circunstancial de heresia – e a pessoa poderia ir para a fogueira por isso. A imprensa popularizou o acesso às Escrituras de tal modo que os censores da Igreja já não podiam dar conta do volume de cópias publicadas, e Erasmo saudou esse acontecimento de sua Época: Será que Cristo ficaria ofendido que o leiam aqueles que Ele escolheu para seus ouvintes? Em minha opinião, o agricultor deveria lê-lo, junto com o ferreiro e o pedreiro, e mesmo prostitutas, alcoviteiras e turcos. Se Cristo não lhes recusou sua voz, tampouco serei eu a recusar-lhes seus livros” A Bíblia era, para Erasmo, bem como para os reformadores, o centro da vida cristã. Rejeitavam o cristianismo mecânico da Igreja Católica e suas indulgências, peregrinações, privilégios especiais, todo o negócio de conquistar a salvação com dinheiro.
Pontos de divergência com protestantes
Onde estaria, então, a salvação para os cristãos? Aqui é o ponto onde começam as divergências entre a reforma erasmiana e a luterana (e mais tarde, a calvinista). Erasmo defendia que a salvação era conquistada com a devoção privada, de maneira direta, sem intermediários. A Igreja, na sua visão, precisava reduzir a teologia ao mínimo, de modo a simplificar a fé e a salvação. Os crentes poderiam ou não aceitar as definições oficiais dos teólogos, usando o próprio discernimento para solucionar as dúvidas. Sua proposta era abominável para os olhos da Igreja, ávida, pelo contrário, por mais controle e autoridade sobre os fiéis, mas também era incompatível com a ideia dos reformadores protestantes. Erasmo defendia uma reforma moral, pura e simples; para Martinho Lutero, uma reforma moral da Igreja era importante, mas não podia parar por aí. Ela só faria sentido se ocorresse dentro de um contexto de mudança institucional e correções drásticas na doutrina. Não era questão de apenas simplificar a doutrina mas de corrigi-la – o que significava mais doutrinas, não menos.
Os ataques e acusações entre católicos e protestantes
Erasmo se mantinha neutro com relação aos ataques violentos de Lutero contra o clero, e as respostas dos correligionários destes na mesma moeda. Lutero convocava a cristandade a “lavar suas mãos no sangue desses cardeais, papas e o restante da ralé da Sodoma romana”, enquanto os teólogos papistas bradavam pela execução “daquele pestilento flato de Satanás, cujo mau cheiro chega aos céus”. Lutero não abria mão de fazer valer suas doutrinas nas áreas de sua influência, e Erasmo deplorava o fato do líder protestante haver recorrido aos príncipes germânicos para apoiarem sua Reforma. O governante de cada Estado definir do alto a religião do seu povo era um acinte. Sendo pacifista e tolerante, não aceitava o princípio da “guerra justa”, contra as religiões minoritárias, como Lutero. Conforme escreveu ao duque da Saxônia: “tolerar seitas pode parecer-lhe um grande mal, mas ainda é muito melhor do que a guerra religiosa”.
Erasmo contesta Lutero publicamente
Martinho Lutero publicamente mantinha uma postura de respeito frente a Erasmo, mas na verdade, via-o como um “cético orgulhoso”, um homem de pouca fé. Por sua vez, Erasmo considerava Lutero como um “godo”, um homem do passado, por conta de seu radicalismo fanático. A ampla disseminação das visões deterministas da salvação defendidas por Martinho Lutero obrigou Erasmo a sair da neutralidade. Em sua Discussão do Livre-Arbítrio (1524) rejeitou a ideia de predestinação, enfatizando a capacidade humana de obter a salvação pelos seus próprios meios, obtendo de Lutero uma resposta, como sempre rude. À medida que Lutero ia se impondo, Erasmo ia se afastando dos reformadores. Passou seus últimos dias em cidades tolerantes onde desejava escapar da guerra religiosa que estava por vir. Acreditava que o mundo estava enlouquecendo, e em uma de suas últimas obras, Sobre a Doce Concórdia da Igreja, fez seu último apelo por tolerância mútua, humildade, boa vontade e moderação. Foi atacado violentamente pelos dois lados, o católico e o luterano.
A terceira via que não vingou
Alguns dos intelectuais mais proeminentes defendiam as propostas de Erasmo. O reformador moderado Ecolampédio escreveu-lhe, em 1522: “Não desejamos nem a igreja luterana, nem a católica. Queremos uma terceira”. Como todos sabem, infelizmente essa terceira igreja, como o próprio Erasmo se referia, não prevaleceu, e até hoje assistimos a essa disputa teológica entre católicos e protestantes, mas que pelo menos já sem as cenas de matança, guerras, expulsões, e conflitos violentos de tempos atrás. O mundo perdeu a chance de ter uma instituição religiosa mais tolerante e defensora da paz, como era o sonho de Erasmo, e em vez disso, viu aumentar cada vez mais as disputas e guerras em torno da fé com a Reforma e a Contra-Reforma.
Almir Ferreira ( Rama na Vimana )

sexta-feira, 1 de março de 2013

Vincent van Gogh
A natureza, em seu amor ardente,
no círculo da própria negação,
em ouro, pedra e sal ambivalente,
trabalha na perene transição.
Dissolve e coagula eternamente
a vida, que renasce, em floração,
da morte, como a lua refulgente,
surgindo na profunda escuridão.
Na síntese do velho Magofonte,
a vívida matéria se desfaz
em águas claras, na secreta fonte:
até que inesperada se refaz,
envolta, como a Uroburos insonte,
num círculo sutil que não se esfaz.

Marco Lucchesi