quinta-feira, 18 de março de 2010

Dois homens brincavam como se fossem crianças. O primeiro fazia castelos na areia, o segundo fazia castelos no ar. O primeiro dizia: a areia é o material do meu jogo, e sujava-se plantando os dedos como retroescavadoras, enquanto fazia "vruum-vrrum". O segundo olhava o ar e dizia: o silêncio é o material do meu jogo, enquanto inspirava carregando-se da mesma brisa com que enchia as altas torres. Cada um era uma criança à sua maneira. Ambos foram construindo incríveis castelos com princesas e dragões lá dentro. O primeiro homem quis entrar no castelo de areia, mas não podia, por ser muito grande e pesado, e se o fizesse, ao primeiro passo que desse, acabaria por o esmagar, já que era, na verdade, um enorme gigante. O segundo homem queria entrar no castelo imaginado suspenso no ar, bem por cima das nuvens, mas como era muito pequenino - como o polegarzinho - não conseguia chegar sequer à fechadura do portão de entrada. Os dois adultos decidiram, então, brincar ainda mais, e, por isso, resolveram construir juntos um castelo, só que agora feito com uma metade de ar e outra de areia. No fim, o castelo era do tamanho preciso e correto e, desta forma, puderam realmente brincar, ao entrarem para salvar a princesa, com espadas de fogo e unicórnios voadores, mas isso já é outra história.
Carlos Vaz - "O estrangulador de bonecos de neve"

Um comentário:

Anônimo disse...

Sou um fã dos textos do escritor Carlos Vaz. Este conto pertence a um livro fabuloso que recomendo vivamente. Adoro "o assassino de escritores", vale bem a pena!