sexta-feira, 13 de julho de 2012

Trecho - A vida em conformidade

Peter Szumowski

“...Talvez os fatos mais estarrecedores e verdadeiros nunca
sejam comunicados de homem a homem.
A verdadeira colheita do meu dia-a-dia é algo de tão intangível
e indescritível como os matizes da aurora e do crepúsculo.
O que tenho nas mãos é um pouco de poeira de estrelas
e um fragmento de arco-íris.”

Henry Thoreau (1817-1862)

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Marc Ferrez

Marc Ferrez fotografado por seu filho Júlio, em 1915
Marc Ferrez (Rio de Janeiro, 7 de dezembro de 1843 - Rio de Janeiro, 12 de janeiro de 1923) foi um fotógrafo franco-brasileiro. Retratou cenas dos períodos do Império e início da República, entre 1865 e 1918, sendo que seu trabalho é um dos mais importantes legados visuais daquelas épocas.
Boa parte das imagens do Brasil do século XIX que conhecemos foi captada pelas lentes do fotógrafo Marc Ferrez. De 1863 a 1915, Ferrez registrou paisagens urbanas e rurais do Pará ao Rio Grande do Sul. Nesse período, cobriu boa parte do território nacional a serviço da Marinha e da Comissão Geológica do Império. Metade de seu trabalho mostra o Rio de Janeiro. São dele muitos dos primeiros cartões-postais da capital imperial e um dos retratos mais conhecidos do escritor Machado de Assis. Sua obra constitui o mais importante acervo de imagens brasileiro nos primeiros anos da fotografia. Graças ao arquivamento cuidadoso de negativos e reproduções, das 5.500 imagens que ele deixou, 80% estão em perfeitas condições.
Em 1865, aos 21 anos, abriu a própria firma, a Marc Ferrez & Cia, um estúdio fotográfico bem-sucedido, com sede na Rua São José, e que o colocaria entre os principais profissionais da sua cidade e do próprio Império. Em 1868, já um fotógrafo famoso, recebeu menção honrosa do Almanaque Laemment.
Em 1875, Marc Ferrez foi convidado para integrar como fotógrafo à Comissão Geográfica e Geológica do Império do Brasil, comandada pelo geógrafo canadense Charles Frederick Hartt. A expedição percorreria os estados da Bahia, Pernambuco e Alagoas, e partes da Amazônia. Marc Ferrez fotografaria, quinze anos após Auguste Stahl o ter feito, a Cachoeira de Paulo Afonso. No sul da Bahia, registraria com maestria os índios Botocudos.
Fotografou várias paisagens do Brasil imperial, do Rio de Janeiro como capital da corte. Documentou em imagens, várias obras essenciais para o desenvolvimento daquela cidade.
Marc Ferrez tornou-se impar em sua obra. Conquistou o Império e sobreviveu com prestígio, ao seu fim. Em 1880 recebeu o título de “Photografo da Marinha Imperial” e da Comissão Geográfica e Geológica do Império.
Já na época da República, em 1890, o fotógrafo associou-se a Henri Gustave Lombaets, importante encadernador da Academia Imperial de Belas Artes. Juntos, fundaram a Lombaets, Marc Ferrez & Cia. Da sociedade resultou a publicação de postais e o jornal “A Estação”. Mas a associação durou pouco, sendo desfeita em 1892.
Em 1899, a Casa Ferrez continuou a apostar na publicação de postais. Já o século XIX findava e Marc Ferrez trouxe, nessa época, um Brasil das ruas, uma paisagem humana que retratava a formação de um povo. Os ofícios urbanos estampavam na sensibilidade das suas objetivas. Por ela desfilaram o verdureiro, o cesteiro, o quitandeiro, o garrafeiro, o vassoureiro, o jornaleiro, o amolador de facas, o funileiro... Profissões, muitas das quais, já extintas, e que não se teria noção do que significaram, caso não tivesse tais registros.
O Brasil mudara, a escravidão tinha sido abolida, a República proclamada. Se na época do Império vender nas ruas significava uma tarefa não dignificante, exercida pelos escravos de ganho, que vendiam doces, miudezas, e depois dividiam os lucros com o seu dono; no Brasil que despontava com o alvorecer do século XX transbordava as ruas de imigrantes, vendendo ou oferecendo serviços. Na fotografia que Marc Ferrez registrou a “Vendedora de Miudezas”, podemos constatar as mudanças.
“O Mascate” mostra o homem claramente imigrante, uma nova realidade que mudaria o Brasil não só física, mas culturalmente.
Fotografou o Brasil por quase cinco décadas consecutivas, mantendo sempre um trabalho magnífico, quer com a Monarquia ou com a República. No fim da vida viveu algum tempo na França, de lá retornando já muito doente, em 1920. Marc Ferrez morreria em 12 de janeiro de 1923, na cidade do Rio de Janeiro, cenário que ele tão bem retratou, imortalizando o glamour que ela tinha quando foi capital do Império e da República do Brasil.
Algumas fotos:
Avenida Central (atual Rio Branco), no Rio. Em 1910.
Cinema Pathé, 1918, Rio de Janeiro.
Morro do Corcovado antes da construção do Cristo Redentor.
Foto de Luciano Ferrez (filho de Marc Ferrez) mostra São Conrado, em 1933: praia deserta e a favela da Rocinha nascendo ao fundo.

Alma Humana

Pierre Auguste Renoir
“Conheça todas as teorias,
domine todas as técnicas, mas
ao tocar uma alma humana,
seja apenas outra alma humana”.

Carl Gustav Jung (1875-1961)

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Hero e Leandro

Mitologia Grega
William Etty - Hero and Leander
Leandro era um jovem de Abidos, cidade situada na margem asiática do estreito que separa a Ásia da Europa. Na margem oposta do estreito, na cidade de Sestos, vivia a donzela Hero, sacerdotisa de Vênus. Leandro a amava e costumava atravessar o estreito a nado, todas as noites, para gozar a companhia da amante, guiado por uma tocha, que ela acendia na torre, para esse fim. Mas, numa noite de tempestade, em que o mar estava muito agitado, o jovem perdeu as forças, e afogou-se. As ondas levaram o corpo à margem europeia, onde Hero tomou conhecimento de sua morte e, desesperada, atirou-se da torre ao mar e pereceu.
A história de Leandro atravessando o Helesponto a nado era tida como lendária e considerada impossível, até Lord Byron provar a sua possibilidade, realizando a façanha ele próprio. Na "Noiva de Abidos", diz ele:

Estes membros que as ondas carregaram a distância na parte mais estreita do Helesponto é de quase uma milha e há uma corrente constante, no sentido do Mar de Mármara para o Arquipélago. Depois de Byron, a Sopram fortes os ventos no Helesponto,
Como naquela noite tempestuosa
Em que o próprio Amor que o enviara
De salvar descuidou-se o bravo jovem,
O belo jovem, única esperança
De Hero, filha de Sesto. Solitária,
Na alta torre a fogueira crepitava,
Desafiando o furacão e as ondas.
As marítimas aves, crocitando,
Pareciam gritar-lhe que não fosse
E a cor escura das pesadas nuvens
Era outro núncio do perigo extremo.
Nada, porém, ele escutava ou via
Senão a luz do amor, a luz da estrela
Que, nas trevas, brilhava, solitária,
travessia tem sido realizada por outros. De qualquer maneira, porém, trata-se de uma proeza notável, capaz de assegurar fama àquele que a consiga realizar. No começo do segundo canto do mesmo poema, Byron assim alude à lenda:

E a voz de Hero, a voz do amor, nas trevas,
Abafando o fragor da tempestade.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Coragem

Henri-Pierre Picou
“A ignorância nunca resolve uma questão.
Você vai descobrir à medida que envelhece
que a coragem é a mais rara de todas as qualidades.
Sucesso é o filho da audácia.
O tempo é precioso.
Mas a verdade é mais preciosa do que o tempo!”

Benjamin Disraeli (1804-1881)

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Trova

Henri Paul Perrault
Tudo muda... O tempo avança...
Vai-se a vida...O globo roda,
mas com lastros na esperança,
sonhar nunca sai de moda.

Embelezo o meu viver
com sorriso, amor e empenho,
pra jamais vir a perder
os amigos que mantenho!

Posso dizer que a esperança
Que a vida faz renascer,
É um mito que não se alcança,
Mas como ajuda a viver...

Como cultivo amizades
e sou bom agricultor,
irão escrever: "SAUDADES",
na campa aonde eu me for.

Miguel Russowsky (1923-1009)

domingo, 8 de julho de 2012

Vida Vivida

Temos
de ter tempo
pra acompanhar
o lançamento
dum livro
visitar
uma exposição
fotográfica
ou de pintura
visitar um museu
ou revisitar a fortaleza
ou mesmo receber
a brisa do mar na praia
ou se calhar passear
lentamente num jardim
isso faz bem a vida
e ao coração
garanto-te, meu bem
e não há desculpas
pra não poder efetivar...

Domi Chirongo

sábado, 7 de julho de 2012

Soneto

Alex Tavshunsky
Era a memória ardente a inclinar-se
à giesta do tempo por frescura
mas o que em seu espelho se figura
vê que está só e a mesma dor foi dar-se

noite e dia e silente de amargura
uma saudade em febre o viu queimar-se
até vir por um "sim" a consolar-se
e do perdão mudo hino lhe assegura

levando imagens e sinais de vez
O olhar liberto penetrou no assento
do alto luto onde da palidez

dos invernos se erguia outro rebento
de cálices que embalam as sementes
dando ao nome louvado descendentes.

Walter Benjamin (1892-1940)
Tradução: Vasco Graça Moura

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Jorge Rafael Videla

Ex-ditador argentino é condenado a 50 anos por roubo de bebês.
Governou a Argentina de 1976-1981.
Depois de mais de 30 anos de luta das Avós da Praça de Maio, a Justiça argentina condenou, nesta quinta-feira, o ditador Jorge Rafael Videla, de 86 anos, a 50 anos de prisão por ter comandado um plano sistemático de roubo de bebês durante a ditadura argentina.
Antonio Vañek foi condenado a 40 anos de prisão; Jorge “El Tigre” Acosta a 30 anos; e outro ditador, Reynaldo Bignone, teve sentença de 15 anos. Além deles, sete pessoas (entre militares, médicos e civis) foram condenados a penas que vão de 5 a 50 anos de detenção.
Todos estavam sendo julgados desde fevereiro de 2011. O allmirante Rubén Omar Franco e o ex-agente de inteligência Eduardo Ruffo foram absolvidos.
A sentença foi anunciada nos tribunais de Comodoro Py, na capital argentina. Do lado de fora, centenas de manifestantes acompanharam o último dia de um julgamento que começou em 28 de fevereiro do ano passado.
A decisão impedirá o ex-ditador de continuar solicitando o benefício da liberdade condicional, permitido na Argentina a partir dos 20 anos de reclusão (desde 84, Videla já passou quase 20 anos detido, incluído um longo período de prisão domiciliar).

Parece fantasia, mas é realidade. É incrível ver até que ponto o ser humano vai na sua estupidez e maldade.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Frases


“Ergo-me da cadeira com um esforço monstruoso,
mas tenho a impressão de que levo a cadeira comigo,
e que é mais pesada,

porque é a cadeira do subjetivismo”.
Fernando Pessoa (1888-1935)
“Quem sou eu para mim?
Só uma sensação minha.
O meu coração esvazia-se sem querer,
como um balde roto. Pensar? Sentir?
Como tudo cansa se é uma coisa definida”.

Fernando Pessoa (1888-1935)


Viver por inteiro

Tomasz Alen Kopera
Ou se vive por inteiro
ou pela metade a gente
escreve a vida
que não viveu.

E o papel em branco então serve
como serve ao prisioneiro
a parede branca do cárcere.

O que não foi é o ser que é
no poema, esse ato mágico
de uma chama que não se vê
tanto mais quanto ela queima
no ar de uma cela vazia
o homem que é posto em pé
sobre os mortos do seu dia.

Moacyr Félix (1926-2005)

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Soneto

Stiles - Dusk Fire
Tira-me ao tempo a que escapaste brusco
Dá-me de dentro o que teu perto estende
como a rosa vermelha ao lusco-fusco
da frouxa ordem das coisas se desprende
Vera afeição e amarga voz ausência
que sinto calmo e do rubro da boca
crestada pela negra incandescência
com que o cabelo em sombra púrpura toca
a fronte aflita E a imagem far-me-á falta
de cólera e louvor que me oferecias
no pisar nobre em que levavas a alta
bandeira cujo signo me anuncias
só porque em mim pões teu nome bendito
sem imagens qual Amen aflito.

Walter Benjamin (1892-1940)
Tradução: Vasco Graça Moura

Eu tenho uma canção infinita

Edgar Degas
Eu tenho uma canção infinita,
guardada dentro do peito...
tenho uma dor que grita
e extravasa de qualquer jeito.

Eu tenho uma verdade escondida,
vestida de sonho e magia...
tenho uma paixão perdida
que explode à revelia...

Eu tenho fases de lua
fases de ser minha,
mas sempre que me encontro nua
é no teu corpo que o meu corpo se aninha...

Angela Lara

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Errando no Museu Picasso

Picasso
erra
quando pinta
e erra
quando ama.

Mas quando erra
erra
violenta e
generosamente,
erra
com exuberante
arrogância,
erra
como o touro erra
seu papel de vítima,
sangrando
quem, por muito amar, fere
e sai ovacionado
com bandeirinhas na carne.

Pintor do excesso
e exuberância,
Picasso
é extravagância.
Ele erra,
mas nele,
o erro
mais que erro
- é errância.

Affonso Romano de Sant'Anna

domingo, 1 de julho de 2012

Inatingível

Maxfield Parrish
O que sou eu, gritei um dia para o infinito
E o meu grito subiu, subiu sempre
Até se diluir na distância.
Um pássaro no alto planou voo
E mergulhou no espaço.
Eu segui porque tinha que seguir
Com as mãos na boca, em concha
Gritando para o infinito a minha dúvida.

Mas a noite espiava a minha dúvida
E eu me deitei à beira do caminho
Vendo o vulto dos outros que passavam
Na esperança da aurora.
Eu continuo à beira do caminho
Vendo a luz do infinito
Que responde ao peregrino a imensa dúvida.

Eu estou moribundo à beira do caminho.
O dia já passou milhões de vezes
E se aproxima a noite do desfecho.
Morrerei gritando a minha ânsia
Clamando a crueldade do infinito
E os pássaros cantarão quando o dia chegar
E eu já hei de estar morto à beira do caminho.

Vinícius de Moraes (1913-1980)