quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Pablo Neruda
Sim, senhor, tudo o que queira, mas são as palavras as que cantam, as que sobem e baixam. Prosterno-me diante delas. Amo-as, uno-me a elas, persigo-as, mordo-as, derreto-as. Amo tanto as palavras. As inesperadas. As que avidamente a gente espera, espreita até que de repente caem. Vocábulos amados. Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, espuma, fio, metal, orvalho. Persigo algumas palavras. São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema. Agarro-as no voo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas. E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as. Deixo-as em meu poema como pedacinhos de pedra polida, como carvão, como restos de um naufrágio, presentes da onda. Tudo está na palavra. Uma ideia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que a obedeceu. Tem sombra, transparência, peso, plumas, pelos, têm tudo o que se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes. São antiquíssimas e recentíssimas. Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada. Que bom idioma o meu, que boa língua herdamos dos conquistadores torvos. Estes andavam a passos largos pelas tremendas cordilheiras, pelas Américas encrespadas, buscando batatas, butifarras, feijõezinhos, tabaco negro, ouro, milho, ovos, frutos, com aquele apetite voraz que nunca mais se viu no mundo. Tragavam tudo: religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais às que eles traziam em suas grandes bolsas. Por onde passavam a terra ficava arrasada. Mas caíam das botas dos bárbaros, das barbas, dos elmos, das ferraduras, como pedrinhas, as palavras luminosas que permaneceram aqui resplandecentes. O idioma. Saímos perdendo. Saímos ganhando. Levaram o ouro e nos deixaram o ouro. Levaram tudo. E nos deixaram tudo. Deixaram-nos as palavras.
Pablo Neruda (1904-1973)
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