sábado, 10 de agosto de 2013

Cem Anos de Solidão, o livro que criou uma geração de leitores

A América Latina é uma região diferenciada do mundo — quanto à história da construção de sua identidade. As instabilidades políticas, aliadas à insuficiência de recursos, muito contribuiu para a eclosão de movimentos típicos da alma latino-americana: ditaduras, guerras, guerrilhas, repressões, exílios e exportação de refugiados são fatos próprios de nossa história. Uma história de solidão, como bem definiu um de seus maiores intérpretes. Na visão desse intérprete, isso se deve a um nó que evidencia “a insuficiência dos recursos convencionais para tornar nossa vida acreditável”.
Esse mesmo intérprete delineou, com a inteligência que lhe é peculiar, o perfil inerente ao continente latino-americano. Continente que revela o muito que tem de demente, mesmo após a libertação do império espanhol, que por anos dominou a maioria dos países latino-americanos. Abaixo parte de um discurso desse intelectual, quando do recebimento da maior honraria que um homem de letras pode receber neste mundo: o Prêmio Nobel de Literatura.
“O general Antonio López de Santana, que foi três vezes ditador do México, mandou enterrar com funerais magníficos a perna direita que perdeu na chamada Guerra dos Bolos. O general García Moreno governou o Equador durante dezesseis anos como monarca absoluto, e seu cadáver foi velado com seu uniforme de gala e sua couraça de condecorações, sentado na poltrona presidencial. O general Maximiliano Hernández Martínez, o déspota teósofo de El Salvador que fez exterminar numa matança bárbara 30 mil camponeses, tinha inventado um pêndulo para averiguar se os alimentos estavam envenenados, e mandou cobrir de papel vermelho a iluminação pública para combater uma epidemia de escarlatina.”
Se quisermos trazer esse espírito da América Latina para bem junto de nós, basta observar o que foram o culto à personalidade do chavismo, as ditaduras militares da Argentina e do Chile — e, lógico, o Brasil pós-1964.
Nosso reconhecido intérprete aponta números, no seu discurso de premiação, que espantam quando o assunto é a repressão no Continente. Os dados são estarrecedores. Cinco guerras e dezessete golpes de Estado, 120 mil desaparecidos, morte de 20 milhões de crianças antes de completar dois anos, “mais que todas as crianças que nasceram na Europa ocidental desde 1970”.
O quadro não se altera se o assunto for o número de exilados e refugiados que a região exporta mundo afora. Um milhão de pessoas do Chile, um em cada cinco uruguaios sofrem a dor do exílio. E mais: a cada 20 minutos, El Salvador produz um refugiado. Enfim, todas essas adversidades representam mais que a população da Noruega. Sim, de fato nosso principal intérprete mostrou que conhece profundamente a alma da América Latina. Demonstrou isso não só naquele memorável discurso de sua premiação, mas, sobretudo, pelas obras-primas que produziu para a humanidade ao longo de sua produtiva vida dedicada à literatura.
A solidão latino-americana se torna mais visível ainda se o assunto for a economia da região. Somos condenados àquilo que a Comissão Para o Desenvolvimento da América Latina (Cepal) dicotomiza entre centro e periferia, que nos condena a eternas trocas desiguais. Numa primeira fase de nossa história, a exportação de matérias-primas e importação de produtos industrializados; numa segunda fase, em tempos de globalização, nossa recente industrialização nos tornou dependentes numa nova e prisioneira subordinação corporificada pela dependência tecnológica. Ou seja, a inovação tecnológica produzida nos centros mais dinâmicos tornou nossas indústrias suas prisioneiras.
Construir a história latino-americana tão repleta de guerras e solidão a partir da árvore genealógica de uma família, que na realidade é a sua. Fazer isso articulando gerações e gerações sem perder o fio da meada não é tarefa para qualquer um. Transportar o leitor para o mundo de solidão dos personagens tão apegados a guerras inúteis, à solidão e magia inerente a sociedades lentas e subdesenvolvidas, léguas distante da modernidade, sem citar explicitamente aonde quer chegar, mas levando leitores mais experientes a intuírem a mensagem do escritor não é tarefa para um autor comum. Enfim, elaborar tudo isso num ambiente narrativo repleto de imaginação, recorrendo à fantasia para revelar a realidade, é o que fez desse escritor um mestre num estilo que conhecemos como realismo mágico. É o que conhecemos como arte. Arte por meio da escrita é o que construiu o colombiano Gabriel García Márquez na obra definitiva, que certamente muito contribuiu para que a ele fosse merecidamente concedido o Prêmio Nobel de Literatura, de 1982.
A obra de que falo é considerada a mais importante escrita em língua hispânica depois de “Dom Quixote”, do espanhol Miguel de Cervantes. Falo de “Cem Anos de Solidão”, um sucesso absoluto com mais de 50 milhões de exemplares vendidos. Um clássico da literatura mundial. É dela que falaremos a seguir, depois de apresentar o autor — se é que ele ainda precise de apresentação.
Escritor, jornalista, editor e ativista político, Gabriel García Márquez nasceu no dia 6 de março de 1927, em Aracataca, Colômbia. Com a mudança dos pais para Barranquilla, conviveu intensamente com os avós maternos, que o criaram em sua primeira infância, e de quem recebeu intensa influência. Do avô, um veterano da Guerra dos Mil Dias, escutou histórias que muito influenciaram suas obras literárias. Estudou Direito e Ciências Políticas na Universidade Nacional da Colômbia, mas não chegou a se graduar.
García Márquez leu e viajou por muitas partes do mundo. Os autores que mais o influenciaram foram o tcheco Franz Kafka, o mexicano Juan Rulfo e o norte-americano William Faulkner. Foi-lhe concedido o Prêmio Nobel de Literatura pelo conjunto de sua obra. “Cem Anos de Solidão” é considerado o romance introdutor de um estilo literário: o realismo mágico. Como ativista político, García Márquez se tornou um respeitado interlocutor de governos latino-americanos. Dentre seus amigos, destacam-se Fidel Castro, de Cuba, e o ex-presidente francês François Mitterrand.

Fonte:
Revista Bula: ( Cem Anos de Solidão )

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