domingo, 10 de junho de 2012

Como Brilhar

Stephanie Pui-Mun Law
Perguntei ao sol
Qual o segredo
Para sempre iluminar
Ele respondeu:
Perca o medo
Deixe seu coração falar

Perguntei a flor
Qual a magia
Para tudo perfumar
Ela respondeu:
Sorria!
Só amor irá exalar

Perguntei a lua
Qual o mistério
Para o poeta inspirar
Ela disse baixinho:
Aceite o brilho dos outros
Você também pode brilhar!

Sirlei L. Passolongo

Abril

Ana Maria Dias
Espero calmamente
- nas horas bonitas de abril -
o refrigério outonal
o vento na face
corada a boca
a alma luz.
Toda vez que ele chega na janela
meu corpo sabe…
é hora de cantar
dançar
inteira-vermelha
no eterno-presente do seu riso.

Anne Guimarães

sábado, 9 de junho de 2012

Só um agrado

Edward Killingsworth Johnson
- Minha mulher expirou!
E a doce tranquilidade
sobre a minha alma baixou!
- Pois não lhe tinha amizade?
- Só uma vez me agradou.
- Quando foi? - Quando passou
desta vida à eternidade.
- E por quê? - Porque foi só
no que me fez vontade.

Curvo Semedo (1766-1838)

Aos que vierem depois de nós

Anita Malfatti-O Caminho da vida.
I
Realmente, vivemos muito sombrios!
Uma linguagem sem malícia é sinal de
estupidez,
uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
Aquele que ainda ri é porque ainda não
recebeu a terrível notícia.

(...)
Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria:
Manter-se afastado dos problemas do mundo
e sem medo passar o tempo que se tem para
viver na terra;
Seguir seu caminho sem violência,
pagar o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, mas esquecê-los.
Sabedoria é isso!
Mas eu não consigo agir assim.
É verdade, eu vivo em tempos sombrios!
III
Nós sabemos:
o ódio contra a baixeza
também endurece os rostos!
A cólera contra a injustiça
faz a voz ficar rouca!
Infelizmente, nós,
que queríamos preparar o caminho para a
amizade,
não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.
Mas vocês, quando chegar o tempo
em que o homem seja amigo do homem,
pensem em nós
com um pouco de compreensão.
Bertolt Brecht (1898-1956)
Tradução: Manuel Bandeira

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Magnólias

Esqueceram-se das folhas
tão grande era a pressa
de florirem.

Jorge de Sousa Braga

Homenagem a Horácio

Cingido de mirto
e folhas de louro
reteve o fluxo,
na cela que fora
seu naco de calma,
onde pode ler
e escrever nas tábuas
os versos eternos.
Nas ancas do fogo
queima tantas achas
quantas necessárias
para aquentar-se,
uma solidão
que ora afirma
imanência, ora
é puro capricho.

Márcio de Lima Dantas

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Os Mil Domingos

Duy Huynh
Te sonho em adagietto
que és um homem tristonho
a cismar
no coreto de um romance antigo
comigo
comigo
comigo...

Chandal Meirelles Nasser

Desejos soltos nas mãos

Loretta Lux - Three wishes
Desejos soltos nas mãos,
entre os dedos, guardados,
como pequenos duendes cheios de cores, felizes
saltam nos meus cabelos
e adormecem atrás das minhas orelhas,
segredando-me em sonhos os dias do meu futuro.

Desejos pequenos e belos, inúmeros,
como estrelas doces que saboreio no céu da minha boca.

Ana Isabel

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Após a tempestade

Edmund Blair Leighton - Sorrow and Song
“E quando a tempestade tiver passado,
mal te lembrarás de ter conseguido atravessá-la,
de ter conseguido sobreviver.
Nem sequer terás a certeza de a tormenta
ter realmente chegado ao fim.
Mas uma coisa é certa:
Quando saíres da tempestade
já não serás a mesma pessoa.
Só assim as tempestades fazem sentido.”

Haruki Murakami

terça-feira, 5 de junho de 2012

Tenho uma coisa para te entregar

Ilustração: Greg Becker
Tenho uma coisa para te entregar,
uma pedra a pôr no chão da rua,
uma lunar presença sob o sol.

Tenho uma coisa para te devolver,
para ficar minha sendo tua,
aquecida no tempo e nestes olhos.

Tenho uma coisa que eu te posso dar
que é o vento a vir atrás do verde
e a dizer azul no teu cabelo.

Pedro Tamen

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Vértice

Adriano Galasso
“Homem em pé sobre a canoa
pesca a manhã de cada dia,
noventa graus de poesia”.

Edival Perrini

Haikai

Na ponta do galho.
só uma folha balança.
um periquito.

Alice Ruiz

O valor do vento

Jill Merriam
Por mais que tente, o vento
não consegue adormecer
se não tiver nada para ler.
Seja uma folha de tília,
de bambu ou buganvília.

É por isso que o vento
arrasta as folhas consigo,
até encontrar um abrigo,
onde possa adormecer.
- arrastou até a folha,
onde eu estava a escrever!

Jorge Sousa Braga

domingo, 3 de junho de 2012

Amemos

Pascal Chove
Amemos a mulher que não ilude,
e que, ao saber que a temos enganado,
perdoa por amor e por virtude,
pelo respeito ao menos do passado.

Muitas vezes, na minha juventude,
evocando o romance de um noivado,
sinto que amei outrora quando pude,
porém mais deveria ter amado.

Choro. O remorso os nervos me sacode.
E, ao relembrar o mal que então fazia,
meu desespero inconsolado explode.

E a causa desta horrível agonia,
é ter amado, quanto amar se pode,
sem ter amado quanto amar devia.

Martins Fontes (1884-1937)

Canção na janela

Karen McIntyr
Há pouco emergi
da mornidão do sono.
Pensei flutuar:
onde termina minha vida
e começa o mar?
Tudo ao meu redor são dois
cristais reverberando.

Meu destino me contempla
indagador:
nesta imensidão
sou um capim perfumado
que balança, a um tempo
susto e chamamento
-pronta para me desfazer
em outra alma.

Lya Luft