sábado, 11 de agosto de 2012

Mas por que o amor é cego?

Pompeo Girolamo Batoni - Diana and Cupid
No amor tudo é mistério: suas flechas e sua aljava, sua chama e sua infância eterna. Mas por que o amor é cego?
Aconteceu que num certo dia o Amor e a Loucura brincavam juntos. Aquele dia ainda não era cego. Surgiu entre eles um desentendimento qualquer. Pretendeu então o Amor que se reunisse para tratar do assunto o conselho dos deuses. Mas a loucura, impaciente, deu-lhe uma pancada tão violenta que lhe privou a visão.
Vênus, mãe e mulher, pôs-se a clamar por vingança, aos gritos. E diante de Júpiter, Nêmesis – a deusa da vingança – e de todos os juízes do Inferno, Vênus exigiu que aquele crime fosse reparado. Seu filho não podia ficar cego.
Depois de estudar detalhadamente o caso, a sentença do supremo tribunal celeste consistiu em condenar a Loucura a servir de guia do Amor.
Jean de La Fontaine (1621-1652)

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Ditirambo

Mário Zanini
Meu amor me ensinou a ser simples
Como um largo de igreja
Onde nem há nem um sino
Nem um lápis
Nem uma sensualidade.

Oswald de Andrade (1890-1954)

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Jogos Olímpicos:

Vendo o quadro de medalhas por países fiquei pensando que o desenvolvimento, ou seja, o PIB, a qualidade de vida do povo, nem sempre equivale às conquistas de medalhas. Talvez a disciplina, o fator psicológico seja mais importante porque vejamos:
O Canadá tem um dos mais altos padrões de qualidade de vida do mundo, no entanto, está atrás do Brasil no quadro de Medalhas, Já a Coreia do Norte que tem, segundo a ONU, uma geração de crianças subnutridas e que muitas delas, podem morrer antes de atingir a idade adulta, esta bem na frente do Brasil, da Dinamarca, da Suécia, da Suíça.

Soneto

Sir John Everett Millais
Oh! A resignação das coisas paradas,
grávidas de silencio, reverentes,
em sua geometria sem jactância!

A placidez das ruas acolchoadas
contra a dura cintilação do dia;
o recato das arvores, a prece
das esquadrias de alumínio ionizado
na fachada do edifício em frente!

Todas as coisas – em clausura – cumprem votos,
enquanto a vã filosofia do século
pensa que move o mundo.

Hélio Pellegrino (1924-1988)

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Reflexão

Sir Lawrence Alma-Tadema
“Qualquer árvore que queira tocar os céus,
precisa ter raízes tão profundas
a ponto de tocar os infernos”.

Carl Gustav Jung (1875-1961)

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Tranquilo o mar

Tranquilo, o mar não canta nem ondeia.
O nauta, imerso noutro mar de mágoas,
Os olhos tristes e úmidos passeia
Pela tranquila quietação das águas.

A onda, que dorme quieta, não espuma;
O astro, que sonha plácido, não canta;
E em todo o vasto mar, em parte alguma
A mais pequena vaga se levanta.

Johann von Goethe (1749-1832)

Esse sentir-se

Francine Van Hove
Esse súbito não ter
Esse estúpido querer
Que me leva a duvidar
Quando eu devia crer
Esse sentir-se cair
Quando não existe lugar
Aonde se possa ir
Esse pegar ou largar
Essa poesia vulgar
Que não me deixa mentir.

Paulo Leminski (1944-1989)

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Oscar Niemeyer

Museu em Curitiba
“Não é o ângulo reto que me atrai,
nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem.
O que me atrai é a curva livre e sensual,
a curva que encontro nas montanhas do meu país,
no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar,
no corpo da mulher preferida.
De curvas é feito todo o universo,
o universo curvo de Einstein”.

Oscar Niemeyer

O país de uma nota só

Não pretendo nada,
nem flores, louvores, triunfos.
nada de nada.
Somente um protesto,
uma brecha no muro,
e fazer ecoar,
com voz surda que seja,
e sem outro valor,
o que se esconde no peito,
no fundo da alma
de milhões de sufocados.
Algo por onde possa filtrar o pensamento,
a ideia que puseram no cárcere.

A passagem subiu,
o leite acabou,
a criança morreu,
a carne sumiu,
o IPM prendeu,
o DOPS torturou,
o deputado cedeu,
a linha dura vetou,
a censura proibiu,
o governo entregou,
o desemprego cresceu,
a carestia aumentou,
o Nordeste encolheu,
o país resvalou.

Tudo dó,
tudo dó,
tudo dó…
E em todo o país
repercute o tom
de uma nota só…
de uma nota só…

Carlos Marighella (1911-1969)

domingo, 5 de agosto de 2012

A Física do Susto

Elizabeth Taylor (1932-1011)
O espelho caiu a parede.
Caiu com ele o meu rosto.
Com o meu rosto a minha sede.
Com a minha sede eu desgosto.
O meu desgosto de olhar,
no espelho caído, o meu rosto.

Cassiano Ricardo (1885-1974)

sábado, 4 de agosto de 2012

O quanto perco em luz conquisto em sombra

Richard Franklin

O quanto perco em luz conquisto em sombra.
E é de recusa ao sol que me sustento.
Às estrelas, prefiro graves dos conventos.

Humildemente envolvo-me na sombra
que veste, à noite, os cegos, monumentos
isolados nas praças esquecidas
e vazios de luz e movimento.

Não sei se entendes: em teus olhos nasce
a noite côncava e profunda, enquanto
clara manhã revive em tua face.

Daí amar teus olhos mais que o corpo
com esse escuro e amargo desespero
com que haverei de amar depois de morto.

Carlos Pena Filho (1929-1960)

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Cartas de Amor de Napoleão

Pierre-Joseph Proudhon - Josephine
“Não passo um dia sem te desejar, nem uma noite sem te apertar, nos meus braços; não tomo uma chávena de chá sem amaldiçoar a glória e a ambição que me mantêm afastado da vida da minha vida.
No meio das mais sérias tarefas, enquanto percorro o campo à frente das tropas, só a minha adorada Josefina me ocupa o espírito e coração, absorvendo-o por completo o pensamento. Se me afasto de ti com a rapidez da torrente de Ródano, é para tornar a ver-te o mais cedo possível. Se me levanto a meio da noite para trabalhar, é no intuito de abreviar a tua vinda, minha amada.
E no entanto, na tua carta de 23, tratas-me na terceira pessoa, por Senhor! Que mazinha!
Como pudeste escrever-me uma carta tão fria? E depois, entre 23 e 26 medeiam quase quatro dias: que andaste tu a fazer, porque não escreveste a teu marido?...
Ah, minha amiga, aquele tratamento do “senhor” e os quatro dias de silêncio levam-me a recordar com saudade a minha antiga indiferença. (…) Isto é pior que todos os suplícios do Inferno. Se logo deixaste de me tratar por tu, que será então dentro de quinze dias?! Sinto uma profunda tristeza, e assusta-me verificar a que ponto está rendido o meu coração. Já me queres menos, um dia deixarás de me querer completamente; mas avisa-me, então. Saberei merecer a felicidade… Adeus, mulher, tormento, felicidade, esperança da minha vida, que eu amo, que eu temo, que me inspira os sentimentos mais ternos e naturais, tanto como me provoca os ímpetos mais vulcânicos do que o trovão. Não te peço amor eterno nem fidelidade, apenas a verdade e uma franqueza sem limites.
No dia em que disseres: “Quero-te menos”, será o último dia do amor. Se o meu coração atingisse a baixeza de poder continuar a amar sem ser amado, trincá-lo-ia com os dentes. Josefina: lembra-te do que te disse algumas vezes: a natureza faz-me a alma forte e decidida. A ti, fez-te de rendas e de tule? Deixaste ou não de me querer? Perdão, amor da minha vida.
A minha alma está neste momento dividida em várias direções e combinações, e o coração, só em ti ocupado, enche-se de receios…
Enfada-me não te chamar pelo teu nome, mas espero que sejas tu a escrevê-lo. Adeus. Ah, se me amas menos, é porque nunca me amaste.

Tornar-me-ias então digno de lástima”.
Napoleão
P.S.
– A guerra este ano está irreconhecível. Mandei distribuir carne, pão, e forragens à minha cavalaria prestes a pôr-se em marcha. Os soldados patenteiam-me tal confiança que não tenho palavras para descrever-te. Só tu me causas desgostos.

- Só tu, alegria e tormento da minha vida. Um beijo aos teus filhos, de quem não me dás notícias. Ai, não! – levar-te-ia a escrever o dobro, e as visitas das dez da manhã não teriam o prazer de ter ver. Mulher!!!
Cartas de Amor de Napoleão Bonaparte a Josefina Bonaparte,
in revista Tabu do Semanário Sol

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Os domingos

Sir John Everett Millais
Todas as funções da alma estão perfeitas neste domingo.
O tempo inunda a sala, os quadros, a fruteira.
Não há um crédito desmedido de esperança.
Nem a verdade dos supremos desconsolos -
Simplesmente a tarde transparente,
Os vidros fáceis das horas preguiçosas,
Adolescência das cores, preciosas andorinhas.

Na tarde – lembro – uma árvore parada,
A alma caminhava para os montes,
Onde o verde das distâncias invencidas
Inventava o mistério de morrer pela beleza.
Domingo – lembro – era o instante das pausas,
O pouso dos tristes, o porto do insofrido.
Na tarde, uma valsa; na ponte, um trem de carga;
No mar, a desilusão dos que longe se buscaram;
No declive da encosta, onde a vista não vai,
Os laranjais de infindáveis doçuras geométricas;
Na alma, os azuis dos que se afastam,
O cristal intocado, a rosa que destoa.
Dos meus domingos sempre fiz um claustro.
As pétalas caíam no dorso das campinas,
A noite aclarava os sofrimentos,
As crianças nasciam, os mortos se esqueciam mortos,
Os ásperos se calavam, os suicidas se matavam.
Eu, prisioneiro, lia poemas nos parques,
Procurando palavras que espelhassem os domingos.
E uma esperança que não tenho.

Paulo Mendes Campos (1922-1991)

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Órfã da Guerrilha do Araguaia

Mulher conta sua experiência como órfã da Guerrilha do Araguaia. Ela descobre que é filha de um guerrilheiro desaparecido há 36 anos na selva do Pará. A suspeita é que existam muitos outros como ela.
1974 Um dia qualquer. Dois homens batem à porta do semi-internato Lar de Maria, em Belém. Trazem nos braços uma menina com poucos meses de vida, a pele muito branca coberta por círculos vermelhos - picadas de insetos. Ordenam ao casal que administra o estabelecimento: "A criança vai ficar aqui". Um dos homens identifica-se como delegado de polícia. O outro veste farda militar, é soldado. Dizem não saber a origem daquele bebê.
O casal já tinha quatro filhos: três rapazes e a caçula Rosália, de 16 anos. Foi ela quem mais se afeiçoou à misteriosa criança. Insistiu com os pais, que acabaram por assumir a menina como filha. Deram-lhe um nome e o sobrenome da família: Lia Cecília da Silva Martins. E inventaram para ela uma data de nascimento: 1º de julho de 1974. O tempo passou, e o estranho "nascimento" de Lia se desvaneceu na memória daquelas pessoas. Até que, por um grande acaso, no ano passado descobriu-se que ela é filha de Antônio Teodoro de Castro, o Raul, que na primeira metade dos anos 1970 participou na selva amazônica do histórico episódio conhecido como a Guerrilha do Araguaia.
Ex-estudante do curso de farmácia na Universidade Federal do Ceará e militante do então clandestino PCdoB (Partido Comunista do Brasil), Raul morava no Rio de Janeiro quando se engajou no movimento guerrilheiro. O Relatório Arroyo, escrito pelo dirigente comunista e sobrevivente do Araguaia Ângelo Arroyo, diz que Raul estava vivo em 25 de dezembro de 1973, quando ocorreu o episódio conhecido como "chafurdo de Natal" - na ocasião, militares cercaram um grupo de 15 guerrilheiros numa colina e abriram fogo. Alguns morreram na hora. Raul, aparentemente, escapou. Mas desapareceu no ano seguinte, sem deixar rastro. Consta que foi fuzilado pelo major Curió (o major reformado Sebastião Rodrigues de Moura, o mais atuante militar a combater a guerrilha). Raul tinha 29 anos.
Onde está Raul?
A procura pelo corpo do guerrilheiro mobiliza a família Castro desde o fim da década de 1970. Ele tinha cinco irmãs e três irmãos. A mais nova é a advogada Mercês Castro, 50 anos. Em 1980, com menos de 20, ela percorreu pela primeira vez a região do Araguaia, formada por áreas no sudeste do Pará, sul do Maranhão e norte de Tocantins (Goiás, na época). Conheceu pessoas que se lembravam daquele moço, lavradores que fizeram amizade com os guerrilheiros e que, provavelmente por isso, foram também perseguidos pelos militares.
Mercês ouviu falar que Raul tivera uma filha com uma camponesa chamada Regina. A criança, nascida pouco antes do desaparecimento do pai, foi levada pelos militares, disseram. Regina também nunca mais foi vista. Encontrar a sobrinha e os restos mortais do irmão tornou-se a razão de viver da advogada. Ela perdeu a conta das vezes em que esteve no Araguaia - recentemente, encontrou numa cova clandestina ossos humanos que aguardam os exames de DNA. Seriam os de Raul?
Em 2009, o jornal Diário do Pará publicou uma entrevista em que Mercês contava a história da menininha levada pelos soldados do Exército. A partir daí, o emblemático passado de Lia começava a acordar do sono de mais de três décadas. A reportagem foi lida por um amigo de Lia que conhecia a história de sua aparição no Lar de Maria: "Será que não é você?"
Teste de DNA
Lia ficou assustada, dividida, mas decidiu investigar. No fundo, sempre quis saber mais sobre sua origem. Por e-mail, conseguiu contatar Mercês. Falou sobre a suspeita de que talvez fosse a filha de Raul. Acertou sua ida a Fortaleza, onde moram cinco dos irmãos e irmãs do guerrilheiro. E foi. Ao chegar, espanto geral: Lia era parecidíssima com as mulheres da família, especialmente com Sandra, uma das irmãs do guerrilheiro desaparecido. Mesmo assim, fizeram o exame de DNA. Seis "tios" de Lia cederam material genético para comparação.
Em 11 de maio de 2011, o laudo do laboratório ficou pronto. O DNA confirmou o parentesco. "É tão estranho você conhecer uma história e de repente passar a fazer parte dela... Mexe com o emocional da gente", disse Lia, hoje com 36 anos. Desde a comprovação genética, ela passou a conviver intensamente com as tias. Esteve com Mercês em Curitiba, com Sandra em Cumbuco (Ceará) e em Brasília, com Eliana e Socorro. Agora, recém-casada, voltou ao Pará. Grávida, planeja retomar os estudos na faculdade de gestão de recursos humanos, cuja matrícula trancou há um ano para se dedicar à busca de suas raízes. Disse que, apesar de se sentir muito ligada à família que a criou, pretende acrescentar o Castro a seu sobrenome. "Conversando com minha ‘irmãe’ (junção de "irmã" e "mãe") Rosália, falei sobre mudar meu nome. Ela me disse que não tinha problema, que o documento com o novo nome será só um pedaço de papel - e o que sentimos uma pela outra não cabe em um pedaço de papel. Estou muito feliz. Agora tenho duas famílias."
Fonte: Aventuras na História
[Referência]


Outros Órfãos

Osvaldão
Pesquisadora do conflito desde 2001 e membro do Grupo de Trabalho Tocantins (GTT), a jornalista Myrian Alves diz que há relatos de que duas combatentes foram capturadas grávidas pelos militares e que um dos líderes da guerrilha, Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão, teve pelo menos dois filhos com mulheres da região. O envolvimento amoroso de combatentes com mulheres locais era natural, inevitável. Eles viviam semi-isolados na floresta, e os namoros entre os guerrilheiros eram reprovados pelos comandantes da ação. Involuntariamente, essa norma incentivava a busca por parceiros "de fora" - o que também era condenado pelos chefes revolucionários, porém sua prática era mais difícil de fiscalizar e reprimir. "O próprio Curió admitiu, em depoimento à Justiça Federal em 2010, que Osvaldão teve filhos no Araguaia. Um era filho dele com dona Maria, cozinheira que já morreu. Zezinho Barqueiro, que também era filho dela, conviveu muito com o menino, que se chamava Geovane. Falam ainda em outro filho dele, mas as informações são poucas a respeito", afirma Myrian.
Também conheceu o menino Geovane o lavrador José Rodrigues da Silva, o Baiano. Baiano e Osvaldão trabalharam nos anos 1960 como garimpeiros e como mariscadores (caçadores de animais para a retirada e venda das peles). Separaram-se por alguns anos. Ao reencontrá-lo, Osvaldão estava com um garoto pequeno, que apresentou ao amigo como filho. Osvaldão é outro desaparecido do Araguaia. Foi morto em 1974, segundo relatos de testemunhas e de militares. Seu corpo nunca apareceu. Há indícios de que outro menino foi levado por militares ao término do confronto para Tabatinga (Amazonas), na fronteira com a Colômbia. "Tabatinga é uma região de fronteira, onde o Exército atua há décadas. Considero uma indecência terem levado essas crianças para tão longe só porque eram filhos de comunistas", diz a pesquisadora.
Fonte: Aventuras na História
[Referência]