quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Órfã da Guerrilha do Araguaia
Mulher conta sua experiência como órfã da Guerrilha do Araguaia. Ela descobre que é filha de um guerrilheiro desaparecido há 36 anos na selva do Pará. A suspeita é que existam muitos outros como ela.
1974 Um dia qualquer. Dois homens batem à porta do semi-internato Lar de Maria, em Belém. Trazem nos braços uma menina com poucos meses de vida, a pele muito branca coberta por círculos vermelhos - picadas de insetos. Ordenam ao casal que administra o estabelecimento: "A criança vai ficar aqui". Um dos homens identifica-se como delegado de polícia. O outro veste farda militar, é soldado. Dizem não saber a origem daquele bebê.
O casal já tinha quatro filhos: três rapazes e a caçula Rosália, de 16 anos. Foi ela quem mais se afeiçoou à misteriosa criança. Insistiu com os pais, que acabaram por assumir a menina como filha. Deram-lhe um nome e o sobrenome da família: Lia Cecília da Silva Martins. E inventaram para ela uma data de nascimento: 1º de julho de 1974. O tempo passou, e o estranho "nascimento" de Lia se desvaneceu na memória daquelas pessoas. Até que, por um grande acaso, no ano passado descobriu-se que ela é filha de Antônio Teodoro de Castro, o Raul, que na primeira metade dos anos 1970 participou na selva amazônica do histórico episódio conhecido como a Guerrilha do Araguaia.
Ex-estudante do curso de farmácia na Universidade Federal do Ceará e militante do então clandestino PCdoB (Partido Comunista do Brasil), Raul morava no Rio de Janeiro quando se engajou no movimento guerrilheiro. O Relatório Arroyo, escrito pelo dirigente comunista e sobrevivente do Araguaia Ângelo Arroyo, diz que Raul estava vivo em 25 de dezembro de 1973, quando ocorreu o episódio conhecido como "chafurdo de Natal" - na ocasião, militares cercaram um grupo de 15 guerrilheiros numa colina e abriram fogo. Alguns morreram na hora. Raul, aparentemente, escapou. Mas desapareceu no ano seguinte, sem deixar rastro. Consta que foi fuzilado pelo major Curió (o major reformado Sebastião Rodrigues de Moura, o mais atuante militar a combater a guerrilha). Raul tinha 29 anos.
Onde está Raul?
A procura pelo corpo do guerrilheiro mobiliza a família Castro desde o fim da década de 1970. Ele tinha cinco irmãs e três irmãos. A mais nova é a advogada Mercês Castro, 50 anos. Em 1980, com menos de 20, ela percorreu pela primeira vez a região do Araguaia, formada por áreas no sudeste do Pará, sul do Maranhão e norte de Tocantins (Goiás, na época). Conheceu pessoas que se lembravam daquele moço, lavradores que fizeram amizade com os guerrilheiros e que, provavelmente por isso, foram também perseguidos pelos militares.
Mercês ouviu falar que Raul tivera uma filha com uma camponesa chamada Regina. A criança, nascida pouco antes do desaparecimento do pai, foi levada pelos militares, disseram. Regina também nunca mais foi vista. Encontrar a sobrinha e os restos mortais do irmão tornou-se a razão de viver da advogada. Ela perdeu a conta das vezes em que esteve no Araguaia - recentemente, encontrou numa cova clandestina ossos humanos que aguardam os exames de DNA. Seriam os de Raul?
Em 2009, o jornal Diário do Pará publicou uma entrevista em que Mercês contava a história da menininha levada pelos soldados do Exército. A partir daí, o emblemático passado de Lia começava a acordar do sono de mais de três décadas. A reportagem foi lida por um amigo de Lia que conhecia a história de sua aparição no Lar de Maria: "Será que não é você?"
Teste de DNA
Lia ficou assustada, dividida, mas decidiu investigar. No fundo, sempre quis saber mais sobre sua origem. Por e-mail, conseguiu contatar Mercês. Falou sobre a suspeita de que talvez fosse a filha de Raul. Acertou sua ida a Fortaleza, onde moram cinco dos irmãos e irmãs do guerrilheiro. E foi. Ao chegar, espanto geral: Lia era parecidíssima com as mulheres da família, especialmente com Sandra, uma das irmãs do guerrilheiro desaparecido. Mesmo assim, fizeram o exame de DNA. Seis "tios" de Lia cederam material genético para comparação.
Em 11 de maio de 2011, o laudo do laboratório ficou pronto. O DNA confirmou o parentesco. "É tão estranho você conhecer uma história e de repente passar a fazer parte dela... Mexe com o emocional da gente", disse Lia, hoje com 36 anos. Desde a comprovação genética, ela passou a conviver intensamente com as tias. Esteve com Mercês em Curitiba, com Sandra em Cumbuco (Ceará) e em Brasília, com Eliana e Socorro. Agora, recém-casada, voltou ao Pará. Grávida, planeja retomar os estudos na faculdade de gestão de recursos humanos, cuja matrícula trancou há um ano para se dedicar à busca de suas raízes. Disse que, apesar de se sentir muito ligada à família que a criou, pretende acrescentar o Castro a seu sobrenome. "Conversando com minha ‘irmãe’ (junção de "irmã" e "mãe") Rosália, falei sobre mudar meu nome. Ela me disse que não tinha problema, que o documento com o novo nome será só um pedaço de papel - e o que sentimos uma pela outra não cabe em um pedaço de papel. Estou muito feliz. Agora tenho duas famílias."
Fonte: Aventuras na História

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