sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Fragmentos de um discurso amoroso


Abraço
O gesto do abraço amoroso
parece realizar por um momento,
para o sujeito, o sonho de união total com o ser amado.
Adorável
Não conseguindo nomear a especialidade
do seu desejo pelo ser amado,
o sujeito apaixonado chega a essa palavra
um pouco tola: adorável.
Afirmação
Ao contrário de tudo e contra tudo,
o sujeito afirma o amor como valor.
Angústia
O sujeito apaixonado,
do sabor de uma ou outra contingência,
se deixar levar pelo medo de um perigo,
de uma mágoa, de um abandono,
de uma reviravolta - sentimento que ele
exprime sob o nome de angústia.
Ausência
Todo episódio de linguagem que põe em cena
a ausência do objeto amado - quaisquer
que sejam a causa e a duração
- e tende a transformar essa ausência em prova de abandono.
Chorar
Propensão particular do sujeito apaixonado
a chorar: modos de aparição
e função das lágrimas do sujeito.
Compreender
Ao perceber repentinamente
o episódio amoroso como um nó
de razões inexplicáveis e de soluções bloqueadas,
o sujeito exclama:
"Quero compreender (o que me acontece)!"
Coração
Essa palavra vale por todas as espécies
de movimentos e desejos, mas o que é constante,
é que o coração se constitui um objeto de dom –
seja ignorado, seja rejeitado.
Corpo
Todo pensamento, toda emoção,
todo interesse suscitado no sujeito
apaixonado pelo corpo amado.
Dedicatória
Episódio de linguagem que acompanha
todo presente amoroso, real ou projetado, e, ainda,
mais geralmente, todo gesto, afetivo ou interior,
pelo qual o sujeito dedica alguma coisa ao ser amado.
Despelado
Sensibilidade especial do sujeito apaixonado,
que o torna vulnerável, à mercê das mais leves feridas.
Desrealidade
Sentimento de ausência,
fuga da realidade experimentada
pelo sujeito apaixonado, diante do mundo.
Errância
Apesar de que todo amor é vivido como único
e que o sujeito rejeite a ideia de repeti-lo
mais tarde em outro lugar, às vezes ele surpreende
em si mesmo uma espécie
de difusão do desejo amoroso;
ele compreende então que está destinado a errar
até a morte, de amor em amor.
Esconder
Figura deliberativa:
o sujeito apaixonado se pergunta,
não se deve declarar ao ser amado que o ama
(não é uma figura de confissão), mas
até que ponto deve esconder dele
suas "perturbações" (as turbulências)
da sua paixão: seus desejos,
suas aflições, enfim, seus excessos
(na linguagem raciniana: seu furor).
Escrever
Enganos profundos, debates e
impasses que provocam o desejo de "exprimir"
o sentimento amoroso numa criação
(notadamente de escritura).
Espera
Tumulto de angústia suscitado
pela espera do ser amado, no decorrer de mínimos
atrasos (encontros, telefonemas, cartas, voltas).
Eu-te-amo
A figura não se refere
à declaração de amor, à confissão, mas
ao repetido proferimento do grito do amor).
Festa
O sujeito apaixonado vive cada encontro
com o ser amado como
uma festa.
Louco
O sujeito apaixonado é atravessado
pela ideia de que ele está ou está ficando louco.
Magia
Consultas mágicas, pequenos
ritos secretos e ações de graça
não estão ausentes da vida
do sujeito apaixonado,
qualquer que seja sua cultura.
Ternura
Gozo, mas também avaliação inquietante
dos gestos ternos do objeto amado,
na medida em que o sujeito compreende
que esse privilégio não é para ele.
União
Sonho de total união com o ser amado.

Autor:
Roland Barthes (1915-1980)
Fragmentos de Um Discurso Amoroso
lustrações: Alone Gut

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