quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

“(…)
O álcool preencheu a função que Deus não teve, teve também a de me matar, de matar. Este rosto do álcool veio-me antes do álcool. O álcool veio confirmá-lo. Tinha em mim o lugar para aquilo, soube-o como os outros mas, curiosamente, antes da hora. Tal como tinha em mim o lugar do desejo. Tinha aos quinze anos o rosto do prazer e não conhecia o prazer. Este rosto via-se muito. Mesmo a minha mãe devia vê-lo. Os meus irmãos viam-no. Tudo começou para mim desta maneira, por este rosto clarividente, extenuado, estes olhos pisados, adiantados ao tempo, aos fatos.”
Marguerite Duras (1914-1996), O Amante
Trad. Luísa Costa Dias e Maria da Piedade Ferreira

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