quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Elena Bond
Canta a canção: chove
sobre o nosso amor.
É verdade: chove,
e por isso lembro
a canção, e canto,
com ela, que chove,
chove, chove, chove
sobre o nosso amor.


Mas terá chovido,
nalgum dia ido,
sobre o nosso amor?
Diria que sim,
mas não sei bem quando,
nem onde, nem se,
fiquei comovido
com a chuva caindo,
nem se ela trouxe
raios e trovões,
ou se os acendiam
e os ribombavam
nossos corações.


Bem, o fato é que em
incerto onde e quando
houve mesmo amor.
Sobretudo um.
Nele, porém, não
chovia jamais.
Ele é que chovia
sobre a minha vida,
que num vasto charco
foi-se transformando
e gerando flores,
sobretudo uma:
essa Sempre-E-Nunca
que, ao ser consultada
como um malmequer,
respondia sempre,
descorada e adunca,
que o amor da amada
não viria nunca...


Foi há muito tempo
que pela primeira
vez ouvi a dor
da chuva que chove
sobre o nosso amor.
Era um tempo jovem,
mas já turvamente
pluvioso assim.


E chovia, chovia,
como ainda hoje
chovia sobre mim.
Sobre o meu amor
de sempre, da flor
descorada e adunca
do charco : o amor
que não chega nunca...

Ruy Espinheira Filho

Nenhum comentário: