quinta-feira, 22 de agosto de 2013

A difícil tarefa de se tornar Ateu
Michelangelo Buonarroti - A Criação de Adão
De acordo com o censo de 2010, 7,5% da população brasileira se diz “sem religião”. O número espanta, uma vez que na década de oitenta, quando essa pergunta foi feita, apenas 1,5% das pessoas diziam não seguir nenhum tipo de fé (Dados do IBGE). Se excluirmos desses 7,5% aqueles que acreditam em algo, mas não seguem nenhum tipo de religião, os ateus ficam reduzidos a uma parcela mínima da população. Pequena e oprimida, por sinal. Segundo entrevista feita pela Fundação Perseu Abramo, a maior rejeição entre as pessoas está naqueles que não acreditam em Deus, superando até a dos usuários de drogas. Talvez isso se dê por uma máxima falsa que circula por aí a qual insiste em dizer que qualquer problema, crime ou algo ruim que acontece é simplesmente “falta de Deus no coração”. É preciso que se diga que uma pessoa torna-se ateísta não por rebeldia ou vontade de contestar, mas simplesmente porque, como diz um professor meu, não nasceu com o “bilhete premiado da fé”. Lourenço Mutarelli, escritor, dramaturgo e quadrinhista, afirma que se tornou ateu no dia em que descobriu que Deus poderia não existir. O jornalista Juca Kfouri é da mesma opinião: não acredita e não consegue acreditar, embora respeite e veja algumas certas qualidades, mesmo que alienantes, na fé. Esse texto serve, então, para mostrar como geralmente ocorre a trajetória de um sujeito – da religião ao ateísmo – destacando os inúmeros percalços e dificuldades encontrados no caminho.
Cito cinco etapas:
1- Dizer que não acredita em Deus, mas em uma força maior.
Essa primeira fase é a da negação. Ao mesmo tempo em que a ideia de divindade parece não fazer sentido, a pessoa ainda tem algum contato metafísico, uma espécie de sentimento de medo e culpa que fica passando por sua cabeça. “Uma força maior”, termo vazio de significado, isenta o sujeito de ter de embates e maiores reflexões.
2- Dizer que não segue nenhuma religião
Agora que a pessoa já consegue se afastar da noção de Deus, ela precisa rechaçar as religiões. Primeiro ela aponta fatos óbvios: a roubalheira, o dízimo, os desvios de verba, a pedofilia, a proibição insensata de métodos contraceptivos. Depois, já mais tranquila, ela consegue dizer que não acredita nas igrejas porque elas são feitas por homens e homens são imperfeitos.
3- Passar por uma fase espiritualista
Um breve contato com pensamentos espiritualistas, esoterismo, espiritismo, cultura oriental, budismo e todo um pensamento que tenta dar um toque racionalista à religião passa a ser um pouco a investigação de outras lógicas metafísicas, uma outra forma de encarar o mundo já sem o Deus tradicional e sem as religiões que impõem regras e dogmas fechados.
4- Assumir-se agnóstico
O termo “Agnóstico” é sedutor. É tal qual Hamlet quando ele diz que “há mais coisas entre o céu e a terra do que julga a filosofia.”. Entre não ter indícios para acredita e se dizer descrente totalmente há ainda um pequeno espaço. Embora os agnósticos não creiam em Deus, eles deixam ainda um espaço para a possibilidade de que ele exista, mesmo que não interfira em nada nas vidas das pessoas. Os ateus costumam considerar os agnósticos como ateus em cima do muro, os quais podem a qualquer momento pender para um lado ou para o outro. Eles se dizem “humildes” porque acham certa presunção afirmar qualquer coisa sobre esse campo obscuro da razão humana.
5- Tornar-se ateu
Depois desse longo processo, que pode durar dias, meses e até anos, o sujeito se sente pronto e confortável suficientemente para assumir ser completamente descrente até da possibilidade da existência de Deus. Em um primeiro momento, após um longo tempo de repressão, eles ficam um bocado chatos tentando encaixar o ateísmo deles em qualquer assunto, mas logo depois isso se assenta e eles conseguem olhar o mundo de outra forma, agora bem mais rica, na qual o pensamento de um outro mundo só faz mal à sociedade e só leva (e levou no decorrer da história) a mortes, sofrimentos, guerras, medo e culpa. Finalmente ateus, agora eles podem olhar para o mundo e dar valor ao que veem: o próprio mundo. E percebem que a vida continua bela e linda, mesmo sendo breve e única.
Luiz Antonio Ribeiro em
( Causas Perdidas )

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