sábado, 12 de março de 2011

Fui eu esse menino que me espia

Harold Harvey (1874-1941)
Fui eu esse menino que me espia
- melancólico olhar, sereno rosto,
postura fixa e o todo bem composto -
no retrato que o tempo desafia.

Fui eu na minha infância fugidia
de prazeres ingênuos, e o desgosto
de sentir tão efêmera a alegria
bem depressa trocada em seu oposto.

Fui eu, sim; mas o tempo que perpassa
e tudo altera nem sequer deixou
um grão de infância feito esmola escassa.

Fui eu: e na figura só ficou
o olhar desenganado, na fumaça
em que a criança inteira se mudou.

Fernando Py

sexta-feira, 11 de março de 2011

Quando me esperas

Vladimir Volegov

Quando me esperas, palpitando amores,
e os lábios grossos e úmidos me estendes,
e do teu corpo cálido desprendes
desconhecido olor de estranhas flores;

quando, toda suspiros e fervores,
nesta prisão de músculos te prendes,
e aos meus beijos de sátiro te rendes,
furtando às rosas as purpúreas cores;

os olhos teus, inexpressivamente,
entrefechados, lânguidos, tranquilos,
olham, meu doce amor, de tal maneira,

que, se olhassem assim, publicamente,
deveria, perdoa-me, cobri-los
uma discreta folha de parreira.

Artur Azevedo (1855-1908)

quarta-feira, 9 de março de 2011

Campinas: Ontem e Hoje

Um flagrante do cotidiano em 1900 na esquina das ruas Marechal Deodoro e Sacramento, onde hoje é a PUC Central.
Note algo interessante; as palmeiras ao fundo da foto, o quanto cresceram durante todas as décadas que separam as fotos. E também o lampião que iluminava a frente da casa do Dr. Ricardo (Ricardo Glumbeton Daunt).
E o mesmo local hoje.

Fonte: ( Memória de Campinas )

terça-feira, 8 de março de 2011

Filósofos da Antiguidade só pensavam naquilo

Envocation a Priapus
Pode parecer que não, mas não se espante com o fato de, entre as preocupações com o Universo, desvendar sentido da vida e as sutilezas da ética, os filósofos da Antiguidade gastavam neurônios pensando em sexo. E esse é o mote do livro “Sex and Sensuality in the Ancient World” (Sexo e Sensualidade no Mundo Antigo), de Giulia Sissa, no qual ela faz um relato de como, por exemplo, Platão encarava a ereção. Ele afirmava que o “pênis é uma besta rebelde, ansiosa e tirânica”. Que coisa mais estranha, não?. Porém, para Aristóteles, uma ereção era algo tão normal quanto andar pra frente ou respirar; é uma coisa natural. Santo Agostinho, que não era da época em questão, não fez por menos. Carimbou a ereção, digamos incontinente, como um dos males que levam ao pecado original. Imagine se todos pensassem assim. Não sobraria um ser humano para contar a história.
Quando falavam da mulher, eles não negligenciavam a sexualidade da ala feminina da nossa espécie, apenas diziam que o órgão sexual feminino era uma versão corrompida do órgão sexual masculino (que horrrorrrr!). As mulheres são mais suaves e ficam úmidas. Segundo eles, havia uma espécie de pênis que ficava em seu colo e também ejaculavam, só que de forma diferente. Bem, a maioria dos escritores e filósofos da Antiguidade era misógina. Logo, parece que não havia conhecimento de causa para falar da mais bela criação da Natureza, a mulher.
Ainda segundo Platão, quando falou do desejo, havia três sexos: Homem, Mulher e Andróginos. Esses andaram pisando na bola e foram extintos. Tentaram atacar os deuses e Zeus os varreu da face da Terra. Mas, ainda segundo essa ideia, em cada ser humano pulsa aquela vontade de novamente enfrentar os deuses. Entenderam? Pois é… estranho pra caramba.
A autora também faz uma relação entre penetração e poder, mesmo afirmando que até o século XIX, não havia armários. O que nos leva a lembrar da frase de Oscar Wilde, o tal do “amor que não ousa dizer o nome”, que foi escamoteado no amor platônico. Voltando ao ato da penetração, ao homem foi dado o papel, digamos, de penetrar tudo que bem entendesse como, por exemplo, mulheres, crianças, cabras e árvores (Esta não é uma nota do tradutor. É a opinião da autora do livro). Ao mesmo tempo, o papel de submissão e passividade na relação não era o desempenhado pelo homem, que não se constituía num objeto de desejo caracterizado pela passividade. A penetração não envolvia romantismo. Era, na verdade um ato cercado de ações em detrimento do sentimento. Portanto, segundo a autora, não havia uma identidade definida separando heterossexualidade da homossexualidade. Diziam que o “verdadeiro homem” podia dormir com mulheres e rapazes, desde que não fosse penetrado.
Esses gregos eram muito estranhos mesmo, como diria Obelix.
A autora também cita a obra de Michel Foucault, a História da Sexualidade, que tenta entender as mudanças ocorridas na forma como é encarada a sexualidade, mesmo que possamos crer que na Antiguidade, o sexo era muito mais uma relação de poder, ao contrário da atual que coloca o amor em primeiro lugar.
Apesar do tom humorado que dei a este artigo, que é uma livre tradução da resenha que Mary Beard, do The Times, fez para esse livro, cabe lembrar que a autora faz uma análise da sexualidade e da sensualidade entre os gregos, romanos e os primórdios da era cristã. O seu grande trabalho é tentar entender, e separar, o prazer do desejo na Antiguidade e como cada homem e mulher lidava com o erotismo.

Fonte:
( Recanto das Palavras )

segunda-feira, 7 de março de 2011

Campinas: Ontem e Hoje

Campinas: Ontem e Hoje
Catedral 1930
Catedral Hoje

sábado, 5 de março de 2011

Palavras

“...as palavras não são mais concebidas ilusoriamente como simples instrumentos, são lançadas como projeções, explosões, vibrações, maquinarias, sabores: a escritura faz do saber uma festa. (...) a escritura se encontra em toda parte onde as palavras têm sabor (saber e sabor têm, em latim, a mesma etimologia).
(...) É esse gosto das palavras que faz o saber profundo, fecundo”.
Roland Barthes (1916-1980)
Lá vem carnaval

quinta-feira, 3 de março de 2011

Diz Toda a Verdade

Eugênio de Proença Sigaud
Diz toda a Verdade mas di-la tendenciosamente -
O êxito está no Circuito
É demasiado brilhante para o nosso enfermo Prazer
A esplêndida surpresa da Verdade.

Como o Relâmpago se torna mais fácil para as Crianças
Com uma amável explicação
A Verdade deve ofuscar gradualmente
Ou cada homem ficará cego -

Emily Dickinson (1830- 1886)
Tradução: Nuno Júdice

terça-feira, 1 de março de 2011

Haikai

À margem do rio
o salgueiro, pensativo,
observa a paisagem.

Delores Pires

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Canção antiga

Anjo... mundo... solidão,
bosque... rua... coração...

Eram vozes de crianças,
vozes de muitas crianças,
cantando antiga canção:

"Nesta rua, nesta rua tem um bosque,
que se chama, que se chama Solidão.
Dentro dele, dentro dele mora um anjo,
que roubou, que roubou meu coração.

Se eu roubei, se eu roubei teu coração,
tu roubaste, tu roubaste o meu também.
Se eu roubei, se eu roubei teu coração,
foi porque, foi porque te quero bem."

Thiago de Mello

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Goethe

Shiori Matsumoto Hyouryu
“Quem, de três milênios,
não é capaz de se dar conta,
vive na escuridão, na sombra,
à mercê dos dias, do tempo?”

Goethe (1749-1832)

Nosso inimigo só entra na luta porque sabe que pode nos atingir

Nosso inimigo só entra na luta porque sabe que pode nos atingir. Exatamente naquele ponto onde nosso orgulho nos fez crer que éramos invencíveis. Durante a luta estamos sempre procurando defender nosso lado fraco, enquanto o Inimigo golpeia o lado desguarnecido – aquele em que nós temos mais confiança. E terminamos derrotados porque acontece aquilo que não podia nunca acontecer: deixar que o Inimigo escolha a maneira de lutar.
O Inimigo está ali para testar nossa mão, nossa vontade, o manejo da espada. Foi colocado em nossas vidas – e nós na vida dele – com um propósito. Este propósito tem que ser satisfeito. Por isso, fugir da luta é o pior que pode nos acontecer. É pior do que perder a luta, porque na derrota sempre podemos aprender alguma coisa, mas na fuga, tudo que conseguimos é declarar a vitória de nosso Inimigo.
Paulo Coelho

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Pergunta

SOL
LUA
POR QUE SÓ UM
DE CADA
NO CÉU
FLUTUA?

Paulo Leminski (1944-1989)

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Tenho horror das grandes ocasiões

“Que bobagem falar que é nas grandes ocasiões que se conhece os amigos! Nas grandes ocasiões é que não faltam amigos. Principalmente neste Brasil de coração mole e escorrendo. E a compaixão, a piedade, a pena se confundem com amizade. Por isso tenho horror das grandes ocasiões. Prefiro as quartas-feiras.”
Mário de Andrade (1893-1945)

Tortura motivada por racismo

O indiciamento por tortura
motivada por racismo.
Jean-Baptiste Debret
Em uma decisão inédita, no início deste mês, a Polícia de São Paulo indiciou seis seguranças da rede de supermercados Carrefour pelo crime de tortura motivada por preconceito racial. Eles agrediram o vigilante Januário Alves de Santana, em agosto de 2009, apontado como suspeito de roubar o próprio carro no estacionamento de uma das lojas em Osasco, na Grande São Paulo, na verdade, foi confundido com um ladrão quando entrava em seu próprio carro, no estacionamento.
Também em Osasco, a dona de casa Clécia Maria da Silva, de 56 anos, foi parar no hospital depois de ter sido acusada de furto por seguranças da rede Walmart. Ela havia pagado pelas mercadorias, assim como um garoto de 10 anos, que foi ameaçado com um estilete por um segurança do supermercado Extra – que pertence ao grupo Pão de Açúcar. As ameaças ocorreram em uma salinha nos fundos da loja. Em ambos os casos, as vítimas eram negras.
Carrefour, Walmart e Pão de Açúcar são as três maiores redes de supermercados que atuam no Brasil. Juntas, elas lucraram R$ 71,5 bilhões em 2009. Em entrevista à Radioagência NP, o advogado Dojival Vieira, que acompanha os casos citados, revela os métodos utilizados pelos agentes de segurança dessas empresas para proteger seu patrimônio. Entre outras revelações, ele relata as agressões e humilhações que ocorrem nas chamadas “salinhas de tortura”, para onde são levados os acusados de furto.
Fonte: Revista Brasil de fato
Autor: Sergio José Dias