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sábado, 27 de junho de 2015

Que Humanidade é Esta?

René Magritte
“Se o homem não for capaz de organizar a economia mundial de forma a satisfazer as necessidades de uma humanidade que está a morrer de fome e de tudo, que humanidade é esta? Nós, que enchemos a boca com a palavra humanidade, acho que ainda não chegámos a isso, não somos seres humanos. Talvez cheguemos um dia a sê-lo, mas não somos, falta-nos mesmo muito. Temos aí o espetáculo do mundo e é uma coisa arrepiante. Vivemos ao lado de tudo o que é negativo como se não tivesse qualquer importância, a banalização do horror, a banalização da violência, da morte, sobretudo se for a morte dos outros, claro. Tanto nos faz que esteja a morrer gente em Sarajevo, e também não devemos falar desta cidade, porque o mundo é um imenso Sarajevo. E enquanto a consciência das pessoas não despertar isto continuará igual. Porque muito do que se faz, faz-se para nos manter a todos na abulia, na carência de vontade, para diminuir a nossa capacidade de intervenção cívica”.
José Saramago (1922-2010)

terça-feira, 31 de março de 2015

O Fator Deus

“Por causa e em nome de Deus é que se tem permitido
e justificado tudo, principalmente o mais horrendo e cruel.”

José Saramago
Auguste Rodin - O Pensador
[...] As fotografias da Índia, de Angola e de Israel atiram-nos com o horror à cara, as vítimas são-nos mostradas no próprio instante da tortura, da agônica expectativa, da morte ignóbil. Em Nova York tudo pareceu irreal ao princípio, episódio repetido e sem novidade de mais uma catástrofe cinematográfica, realmente empolgante pelo grau de ilusão conseguido pelo engenheiro de efeitos especiais, mas limpo de estertores, de jorros de sangue, de carnes esmagadas, de ossos triturados, de merda. O horror, agachado como um animal imundo, esperou que saíssemos da estupefação para nos saltar à garganta. O horror disse pela primeira vez “aqui estou” quando aquelas pessoas saltaram para o vazio como se tivessem acabado de escolher uma morte que fosse sua. Agora o horror aparecerá a cada instante ao remover-se uma pedra, um pedaço de parede, uma chapa de alumínio retorcida, e será uma cabeça irreconhecível, um braço, uma perna, um abdômen desfeito, um tórax espalmado. Mas até mesmo isto é repetitivo e monótono, de certo modo já conhecido pelas imagens que nos chegaram daquele Ruanda-de-um-milhão-de-mortos, daquele Vietnã cozido a napalm, daquelas execuções em estádios cheios de gente, daqueles linchamentos e espancamentos daqueles soldados iraquianos sepultados vivos debaixo de toneladas de areia, daquelas bombas atômicas que arrasaram e calcinaram Hiroshima e Nagasaki, daqueles crematórios nazistas a vomitar cinzas, daqueles caminhões a despejar cadáveres como se de lixo se tratasse. De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta aos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em nome de Deus. Já foi dito que as religiões, todas elas, sem exceção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, que, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana. Ao menos em sinal de respeito pela vida, deveríamos ter a coragem de proclamar em todas as circunstâncias esta verdade evidente e demonstrável, mas a maioria dos crentes de qualquer religião não só fingem ignorá-lo, como se levantam iracundos e intolerantes contra aqueles para quem Deus não é mais que um nome, nada mais que um nome, o nome que, por medo de morrer, lhe pusemos um dia e que viria a travar-nos o passo para uma humanização real. Em troca prometeram-nos paraísos e ameaçaram-nos com infernos, tão falsos uns como outros, insultos descarados a uma inteligência e a um sentido comum que tanto trabalho nos deram a criar. Disse Nietzsche que tudo seria permitido se Deus não existisse, e eu respondo que precisamente por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o pior, principalmente o mais horrendo e cruel. Durante séculos a Inquisição foi, ela também, como hoje os talebãs, uma organização terrorista que se dedicou a interpretar perversamente textos sagrados que deveriam merecer o respeito de quem neles dizia crer, um monstruoso conúbio pactuado entre a religião e o Estado contra a liberdade de consciência e contra o mais humano dos direitos: o direito a dizer não, o direito à heresia, o direito a escolher outra coisa, que isso só a palavra heresia significa.
E, contudo, Deus está inocente. Inocente como algo que não existe, que não existiu nem existirá nunca, inocente de haver criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer os maiores crimes para logo virem justificar-se dizendo que são celebrações do seu poder e da sua glória, enquanto os mortos se vão acumulando, estes das torres gêmeas de Nova York, e todos os outros que, em nome de um Deus tornado assassino pela vontade e pela ação dos homens, cobriram e teimam em cobrir de terror e sangue as páginas da história. Os deuses, acho eu, só existem no cérebro humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que os inventou, mas o “fator Deus”, esse, está presente na vida como se efetivamente fosse o dono e o senhor dela. Não é um deus, mas o “fator Deus” o que se exibe nas notas de dólar e se mostra nos cartazes que pedem para a América (a dos Estados Unidos, não a outra…) a bênção divina. E foi o “fator Deus” em que o deus islâmico se transformou, que atirou contra as torres do World Trade Center os aviões da revolta contra os desprezos e da vingança contra as humilhações. Dir-se-á que um deus andou a semear ventos e que outro deus responde agora com tempestades. É possível, é mesmo certo. Mas não foram eles, pobres deuses sem culpa, foi o “fator Deus”, esse que é terrivelmente igual em todos os seres humanos onde quer que estejam e seja qual for a religião que professem, esse que tem intoxicado o pensamento e aberto as portas às intolerâncias mais sórdidas, esse que não respeita senão aquilo em que manda crer, esse que depois de presumir ter feito da besta um homem acabou por fazer do homem uma besta.
Ao leitor crente (de qualquer crença…) que tenha conseguido suportar a repugnância que estas palavras provavelmente lhe inspiraram, não peço que se passe ao ateísmo de quem as escreveu. Simplesmente lhe rogo que compreenda, pelo sentimento de não poder ser pela razão, que, se há Deus, há só um Deus, e que, na sua relação com ele, o que menos importa é o nome que lhe ensinaram a dar. E que desconfie do “fator Deus”. Não faltam ao espírito humano inimigos, mas esse é um dos mais pertinazes e corrosivos. Como ficou demonstrado e desgraçadamente continuará a demonstrar-se.
José Saramago (1922-2010)
[Artigo publicado na Folha de S. Paulo em 19/09/2001]

sábado, 26 de julho de 2014

Reflexões

Valéria Katsareva
“Afinal, há é que ter paciência, dar tempo ao tempo, já devíamos ter aprendido, e de uma vez para sempre, que o destino tem de fazer muitos rodeios para chegar a qualquer parte”.
José Saramago
Kondratenko Gavriil Pavlovich
“Com a razão firme, indubitável, o conhecedor do eterno, estabelecido no eterno, nem se regozija em obter o prazeroso, nem se aflige por obter o desagradável”.
Bhagavad Gita

domingo, 6 de abril de 2014

Reflexão:

Albrecht Dürer
Perguntaram a Saramago:
→ Como pode o homem ser bom sem Deus?
E Saramago devolveu outra pergunta:
→ Como pode o homem com Deus ser mal?

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O Tempo Vivido

Jean Discart
Para mim, filosoficamente (se posso ter a pretensão de usar tal palavra), o presente não existe.
Só o tempo passado é que é tempo «reconhecível» — o tempo que «vem», porque «vai», não se detém, não fica presente.
Portanto, para o escritor que eu sou, não se trata de «recuperar» o passado, e muito menos de querer fazer dele lição do presente. O tempo vivido (e apenas ele, do ponto de vista humano, é tempo «de fato») apresenta-se unificado ao nosso entendimento, simultaneamente completo e em crescimento contínuo.
Desse tempo que assim se vai acumulando é que somos o produto infalível, não de um inapreensível presente.
José Saramago (1922-2010)

quinta-feira, 4 de abril de 2013

"Ensaio Sobre a Cegueira"

Gaston Bussiere
Se antes de cada ato nosso, pudéssemos
prever todas as consequências dele,
e pensar nelas a sério.
Primeiro as imediatas, depois as prováveis,
depois as possíveis, depois as imagináveis...
Não chegaríamos sequer a mover-nos porque
o nosso primeiro pensamento nos teria feito parar!

José Saramago (1922-2010)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Poesia

Pierre Bonnard - Autumn the Vintage
Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?

Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?

José Saramago (1922-2010)

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

O Beijo

Sir Frank Dicksee
Hoje, não sei porquê, o vento teve um grande gesto
de renúncia , e as árvores aceitaram a imobilidade.
No entanto ( e é bem que assim seja) uma viola
organiza obstinadamente o espaço da solidão.
Ficamos sabendo que as flores se alimentam
na fértil humidade.
É essa a verdade da saliva.

José Saramago (1922-2010)

segunda-feira, 4 de julho de 2011

É tão fundo o silêncio entre as estrelas

É tão fundo o silêncio entre as estrelas.
Nem o som da palavra se propaga,
nem o canto das aves milagrosas.
Mas, lá, entre as estrelas, onde somos
um astro recriado, é que se ouve
o íntimo rubor que abre as rosas.

José Saramago (1922-2010)

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Prêmio Nobel

No dia 8 de outubro de 1998 José Saramago é o 1º da língua portuguesa a receber o prêmio Nobel de Literatura. Comunista, atraiu a crítica da Igreja em “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, que retrata Jesus como simples mortal.

Hoje o escritor peruano Mario Vargas Llosa de 74 anos conhecido por suas posições políticas consideradas de direita, recebeu o Nobel de Literatura.
Llosa é o quinto escritor latino-americano a receber um Nobel. Antes dele, foram premiados:
  • a escritora chilena Gabriela Mistral (1945),
  • o guatemalteco Miguel Ángel Asturias (1967),
  • o também chileno Pablo Neruda (1971)
  • e o colombiano Gabriel García Márquez (1982).

sábado, 19 de junho de 2010

Ensaio sobre a Cegueira

“Se podes olhar vê,
se podes ver, repara.
… se antes de cada ato nosso,
nos puséssemos prever todas as consequências dele,
a pensar nelas a sério,
primeiro as imediatas, depois as prováveis,
depois as possíveis, depois as imagináveis,
não chegaríamos sequer a mover-nos de onde
o primeiro pensamento nos tivesse feito parar”.

José Saramago
Ensaio sobre a cegueira