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quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Ditadura Militar

“A preservação da memória do país é fundamental,
[pois] a democracia começa a ser construída
a partir da escola pública”.

Henrique Paim
Ministro da Educação
No dia 5 de dezembro de 2014, o governo federal lançou uma plataforma eletrônica sobre o período da repressão civil-militar mais dura já imposta ao país.
É um dever de todos se empenharem no "resgate" para que a verdade histórica seja conhecida, por mais dolorosa que possa ser, por mais arrependimentos que traga e principalmente para que a maioria que hoje tem muito acesso à informação (não necessariamente ao conhecimento) possa balizar e compreender a raiz de tanta violência. A mesma violência que mata nas áreas periféricas, que ensina a dominar, humilhar e exterminar como solução. Meditar a respeito das razões desse traço tão hipócrita, cínico e mentiroso em tantas vertentes da vida nacional, no serviço público de modo geral e a influência dessa praga na sociedade que espelha de forma fiel o que reproduz como parte da elite e maioria dos corruptos que só almejam o lucro fácil, é uma tarefa quase inglória. Os que tentarem, vão provar se sim, ou se não.
Estamos nisso até o pescoço e apesar de toda a dor, todo o sofrimento, toda a perseguição e principalmente todas as violações de direitos, pensamos que sim: vale a pena. "Tudo vale a pena se a alma não é pequena" (disse o poeta Fernando Pessoa) e não somos mesquinhos, nem medíocres, tampouco ladrões...
Os que roubaram, há 50 anos, sonhos, vidas, corpos... Esqueceram que a verdade rompe toda e qualquer barreira. Hoje, bem mais depauperados, mostram que são apenas os covardes de sempre, se escondendo atrás da idade, da avançada canalhice que o tempo não pode esconder... E tem medo! Não querem responder pelos crimes.
São os valentões de ontem, que prendiam, arrebentavam e matavam, os mesmos que hoje abusam do poder que o estado lhes dá, para provocar, mentir, reunir quadrilhas de canalhas que assediam com ofensas, agressões covardes porque engendradas entre seus asseclas, processos entre comparsas que também se reúnem como todos os marginais, acusações orquestradas e arranjadas entre outros delinquentes que o estado paga para perseguirem pessoas dignas que eles invejam e nunca vão alcançar, julgamentos nulos e tão planejados quanto os encontros e orgias que acontecem nas sombras da região dos "jardins" quanto nas casas de massagem da augusta... Pior: esses caras posam por aí com honrarias de bijou que trocam entre si reciprocamente e depois do rega-bofe todos sabem que testosterona é a única droga não existente na forma sintética, por isso... Todos se encontram onde o swing é moeda de troca e processos de jurisdicionados acabam virando almofada de pele flácida.
Tem senhoras idosas que saem de SP para protestos que pedem a volta da ditadura em Brasília e tem outras que saem de Brasília á procura de alguma dita... Mas só encontram a maria-mole.
Por fim, tem os canalhas que pensam ser os exemplares únicos de inteligência na pista de rolamento e mesmo assim ainda não conseguiram ver o óbvio: das 2 coisas que ninguém come sozinho, uma é a melancia grande... A cobertura que usam, todos sabem qual é.
No contraponto da verdade histórica que começa a despontar com o relatório que já pôs a nocaute muito valentão que bateu em gente algemada, que matou e sumiu com corpos, que pensou que "juizite" salvaria sua pele em ocultações criminosas, que torturou e perseguiu e pensou que nunca nada disso lhe seria cobrado, temos uma história muito linda, de amor ao próximo, de respeito, de solidariedade, algo que brasileiros ainda não sabem direito o que é!
É a mulher solitária, valente e muito corajosa, que venceu o medo. Felizes saudações aos bons e último aviso aos canalhas: está quase no ponto-zygote!
Sandra Paulino

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Osvaldão

O menino de Passa Quatro que virou mito no Araguaia
Filme narra a historia do comandan2te da Guerrilha do Araguaia que virou mito
O documentário brasileiro “Osvaldão” é um dos destaques da 38° Mostra de Cinema Internacional, que acontece entre os dias 16 e 29 de outubro em São Paulo.
O filme narra a surpreendente trajetória do mineiro de Passa Quatro (curiosamente, a mesma cidade de Zé Dirceu), que foi lutador de boxe na juventude, mas depois se transformou num dos homens mais odiados pela ditadura militar.
Com narrações do cantor Criolo, do ator Antônio Pitanga e da artista Leci Brandão, “Osvaldão” revela o mito do homem que era “invisível”, temido pela ditadura militar e adorado pela população local.
Osvaldão se transformou em comandante da Guerrilha do Araguaia – movimento armado organizado pelo PCdoB (Partido Comunista do Brasil), no sul do Pará. A guerrilha foi exterminada pelo Exército em meados dos anos 70. Muitos guerrilheiros foram torturados e mortos pelas tropas oficiais. Seus corpos jamais foram entregues pelo Exército.
O longa-metragem foi produzido por Renata Petta e dirigido por Vandré Fernandes, Ana Petta, Fabio Bardella e André Michiles. “Osvaldão” foi gravado em Passa Quatro, Araguaia e Rio de Janeiro, além de conter imagens exclusivas de um documentário do Praga Filme Pujikovna, que retrata o cotidiano de alunos de várias partes do mundo em Praga, em 1961. Osvaldão foi protagonista do documentário.
Osvaldo Orlando da Costa foi o primeiro combatente a chegar no sul do Pará, na região do Araguaia, em 1967, com a missão de implantar uma guerrilha junto com outros companheiros. Tido como o maior conhecedor da área, ele morreu em 1974, com 35 anos, desarmado e faminto.
O corpo do guerrilheiro foi pendurado em um helicóptero que sobrevoou a região, para provar ao povo que Osvaldão estava mesmo morto. Até hoje os restos mortais não foram encontrados.
O filme também contribui com o restabelecimento da memória do país e com a luta pelos direitos humanos. A Guerrilha do Araguaia ocorreu no início da década de 70. Foi uma batalha desigual entre combatentes revolucionários e as forças de repressão do regime reacionário imposto ao país com o golpe de 1964.
Entre 1972 e 1975, a Guerrilha do Araguaia foi alvo da maior ação do exército desde a Guerra de Canudos.
Durante as ações militares, os agentes de repressão da ditadura cometeram graves violações aos direitos humanos.
Estima-se que pelo menos 70, dos desaparecidos políticos no Brasil, tenham sido mortos por militares durante as ações de repressão no Araguaia.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Ditadura Militar

Dia do Golpe Militar
50 anos do Golpe Militar de 1964.
Este ano, o Brasil vive a mais dolorosa efeméride de sua história: 50 anos do Golpe de Estado.
A coincidência com ano eleitoral, Copa do Mundo, e prováveis protestos de rua, nos dá a chance de forçarmos o Brasil a fazer o que até hoje nunca fez: politizar o debate sobre o golpe de 64. Por que ele aconteceu? Quem se beneficiou? Quem são os herdeiros do golpe?
Seria um belíssimo presente à democracia brasileira, por exemplo, se a Lei da Anistia fosse revista. Não para prender velhinhos, mas para darmos uma satisfação política a nós mesmos, sobretudo, é preciso lembrar à sociedade que o que vivemos não foi nenhuma “ditabranda”. Vivemos um período de ruptura democrática, truculento e sinistro, que abortou o sonho de milhões de brasileiros. O golpe serviu para ampliar a desigualdade de renda, achatar o salário dos trabalhadores, e esmagar as esperanças de setores organizados de construir um país mais justo.
Não há nada de brando no esmagamento do sonho de centenas de milhões de cidadãos e na violação da normalidade democrática, com a instalação de um regime militar de exceção que, paulatinamente, aniquilou todas as liberdades no país.
Não há nada de brando na ruptura brutal de toda uma série de estudos e pesquisas acadêmicas e científicas em curso no país, nas universidades, quase todas abandonadas por causa de uma repressão estúpida e paranoica.
O Brasil, especialmente a nossa juventude, precisa ser melhor informado sobre o que aconteceu. A ditadura trouxe corrupção, miséria e degradação institucional. A origem do sucateamento dos serviços públicos está na ditadura. O problema da corrupção política também tem raízes no período de exceção, porque era um tempo sem liberdade de imprensa, sem instituições de controle e com chefes políticos exercendo cargos administrativos importantes de maneira quase totalitária. Quem ousaria acusar o diretor de uma estatal de corrupção, sendo o mesmo um coronel ou general com poder de mandar prender o acusador por “subversão”?
Precisamos conhecer melhor a história da construção do golpe. Como ele foi gestado, como foi a campanha midiática que o preparou? As passeatas que antecederam o golpe também merecem ser objeto de mais estudo, até porque a mídia, a mesma mídia que apoiou o golpe, prossegue até hoje tentando organizar protestos “espontâneos” para derrubar forças populares.
Às vésperas dos 50 anos do golpe militar torna-se necessário um resgate da História para entendermos o presente. Em 1964 o Brasil era um país politicamente repartido. Dividido e paralisado. Crise econômica, greves, ameaça de golpe militar, marasmo administrativo. O clima de radicalização era agravado por velhos adversários da democracia. A direita brasileira tinha uma relação de incompatibilidade com as urnas. Não conseguia conviver com uma democracia de massas num momento de profundas transformações. Temerosa do novo, buscava um antigo recurso: arrastar as Forças Armadas para o centro da luta política, dentro da velha tradição inaugurada pela República, que já havia nascido com um golpe de Estado.
Nos últimos anos se consolidou a versão de que os militantes da luta armada combateram a ditadura em defesa da liberdade. E que os militares teriam voltado para os quartéis graças às suas heroicas ações. Num país sem memória, é muito fácil reescrever a História.
A luta armada não passou de ações isoladas de assaltos a bancos, sequestros, ataques a instalações militares e só. Apoio popular? Nenhum. Argumenta-se que não havia outro meio de resistir à ditadura a não ser pela força. Mais um grave equívoco: muitos desses grupos existiam antes de 1964 e outros foram criados pouco depois, quando ainda havia espaço democrático. Ou seja, a opção pela luta armada, o desprezo pela luta política e pela participação no sistema político, e a simpatia pelo foquismo guevarista antecederam o AI-5, quando, de fato, houve o fechamento do regime. O terrorismo desses pequenos grupos deu munição (sem trocadilho) para o terrorismo de Estado e acabou sendo usado pela extrema direita como pretexto para justificar o injustificável: a barbárie repressiva.
A luta pela democracia foi travada politicamente pelos movimentos populares, pela defesa da anistia, no movimento estudantil e nos sindicatos. Teve em setores da Igreja Católica importantes aliados, assim como entre os intelectuais, que protestavam contra a censura. E o MDB, este nada fez? E os seus militantes e parlamentares que foram perseguidos? E os cassados?
Os militantes da luta armada construíram um discurso eficaz. Quem os questiona é tachado de adepto da ditadura. Assim, ficam protegidos de qualquer crítica e evitam o que tanto temem: o debate, a divergência, a pluralidade, enfim, a democracia. Mais: transformam a discussão política em questão pessoal, como se a discordância fosse uma espécie de desqualificação dos sofrimentos da prisão. Não há relação entre uma coisa e outra: criticar a luta armada não legitima o terrorismo de Estado. Temos de refutar as versões falaciosas. Romper o círculo de ferro construído, ainda em 1964, pelos adversários da democracia, tanto à esquerda como à direita. Não podemos ser reféns, historicamente falando, daqueles que transformaram o antagonista em inimigo; o espaço da política, em espaço de guerra.
Marco Antonio Villa
Historiador, autor do livro 'Ditadura à Brasileira' (Ed. Leya).
Pesquise mais neste site: ( Aqui )

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Heróis da Vida

Sylvia Grabois
Nascida em família de militantes e sobrinha de Maurício Grabois, um dos chefes da Guerrilha do Araguaia, a poeta Sylvia Grabois o homenageia em seu livro, A Carta do Elefante, todos os seus grandes heróis. Sylvia conviveu com as imagens de heróis e vilões desde muito cedo: casou-se aos 18 anos, entrou para a juventude comunista, formou-se na Faculdade Nacional de Direito e foi impedida de exercer sua profissão pelos agentes da ditadura militar do Brasil.
Aos 77 anos, Sylvia selecionou poemas sobre o gueto de Varsóvia, a morte do jornalista Vladimir Herzog, a Guerrilha do Araguaia, o Muro de Berlim, vítimas de Auschwitz, Maria da Penha entre outros temas para imortalizar as ações de corajosos heróis admirados por ela desde os 17 anos. “A história se faz presente na poesia através dos mártires e heróis do país. Heróis ficam vivos, não são enterrados” cita a poeta. Com mais de 150 poemas na manga, Sylvia escolheu aqueles que, segundo ela, deveriam representar lutas sociais. “Essa história não se aprende na escola. Vou mostrar como foi. Se a gente não guarda na memória, a história se repete.” O título do livro que reúne a poesia da autora é nomeado segundo um dos poemas, que trata de um rei espanhol machucado durante uma caça a elefantes. O acidente do rei alertou ao povo, que passava fome, o que seu soberano fazia com a riqueza que poderia lhes alimentar.
Seu primeiro livro, Direto e Avesso, foi publicado em 2009. Desde então, Sylvia escreve sem parar, sobre os mais variados assuntos. A poeta encontra inspiração nas conversas cotidianas e em sua história. “Gosto muito de conversar com motorista de taxi, com os empregados, a gente aprende muito” diz. Ao mesmo tempo, Sylvia procura resgatar suas lembranças da infância, principalmente as histórias de seu pai, “grande leitor e preocupado em passar seu conhecimento aos filhos”, no fazer literário.

História
Assim como os heróis de seu passado, Sylvia Grabois lutou por algo em que acreditava e cruzou com inimigos no caminho. Ao sair da faculdade de Direito, a jovem, que já esperava seu terceiro filho, se inscreveu em inúmeros concursos públicos, sem resultado. O Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) era o vilão da vez. “Havia mais de 27 certidões. Todos abonavam minha conduta, menos o DOPS. Fui conversar com o inspetor e ele me disse: ‘você não sabe que guerra é guerra? Como vamos contratar alguém que não está do nosso lado?’.”
Sem desistir de suas intenções no Direito, Sylvia chegou a trabalhar como advogada, largando a profissão para trabalhar com artesanato e defender as causas sociais dos artesãos. Como mãe, a poeta afirma ter ensinado aos filhos que não se deve agir por temor a Deus, mas pela justiça, como ela fez durante toda a vida. Presa por mais de 10 vezes, a militante foi detida pelo DOPS pela primeira vez aos 17 anos.

Poeta
“Quando eu tenho uma emoção muito grande, falo e escrevo” explica Sylvia Grabois. A expressão por meio da poesia começou aos 70 anos, por meio das oficinas literárias, uma paixão de Sylvia que se mantém até hoje. “Minha nora veio de uma oficina [literária] e me explicou como isso funcionava. Fiquei maravilhada quando soube que isto existia!” relembra. Desde então, a poeta participou de diversas agendas e coleções de livros. “Ainda fiz dois cordéis, para minha mãe e para meu marido”.
Casada pela segunda vez com o físico Roberto Nicowski, a poeta se sente incentivada e apoiada pelo marido. “Sou muito romântica. Sempre escrevi cartas e poemas para ele, então isso começou a se tornar um hábito” explica Sylvia. Influenciada por autores como Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Paulo Leminski, Martha Medeiros e Castro Alves, “um herói da época”, vovó Sylvinha, como assina seus contos infantis, também é muito próxima da família, principalmente dos 12 netos e 5 bisnetos (por enquanto), que a motivaram na adaptação de histórias infantis sobre amizade, amor ao próximo, bondade e arte. Os livros, criados em parceria com a fotógrafa Nana Moraes, ainda esperam patrocínio.
Para vovó Sylvinha, o tempo é generoso, e a idade, um presente: “Agora eu olho para as coisas com outro olhar. Olho também o outro, e vejo algo diferente nele, algo bom. Quando se é mais jovem, não é assim. Jovem quer fazer revolução, consertar, protestar. O mais velho tem isso na cabeça, mas consegue tentar entender o próximo.”
A visão humanista de Sylvia lhe motivou a recuperar a história e continuar na luta pela verdade sobre as torturas e desaparecimentos da época da ditadura. A Carta do Elefante se fecha com um apelo da poeta à Comissão Nacional da Verdade: “Por favor, me contem a verdade, não me ocultem nada, para que tudo não se repita. Não deixem a história manchada.”
A venda da obra de Sylvia Grabois está disponível nos lançamentos e festas organizados pela autora por todo o Brasil.

Fonte:
Revista Cult: ( A Carta do Elefante )

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Chacina de Quintino, uma história reescrita 41 anos depois

Era 29 de março de 1972 quando quatro militantes da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), a mesma organização a que pertenceu a presidente Dilma Rousseff, estavam reunidos na casa de número 72 da Avenida Suburbana 8.985, em Quintino, na Zona Norte do Rio. Segundo a versão oficial que consta no registro da Delegacia de Ordem Política e Social (Dops), agentes da área de Segurança Nacional foram recebidos à bala ao penetrar no aparelho subversivo e, em legítima defesa, revidaram. De acordo com o documento, jaziam nos fundos da casa os corpos de duas mulheres e um homem. Quarenta e um anos depois, a versão dos militares para a Chacina de Quintino, como ficou conhecido o episódio, cai por terra.
Com base em documentos de várias fontes e depoimentos de vizinhos e do perito que examinou os corpos no Instituto Médico Legal (IML), a Comissão Estadual da Verdade do Rio (CEV-Rio) elucidou as circunstâncias em que ocorreram as mortes de Antônio Marcos Pinto de Oliveira, Maria Regina Lobo Leite de Figueiredo e Lígia Maria Salgado Nóbrega.
Novos testemunhos obtidos pela comissão, somados ao laudo cadavérico que não aponta resquícios de pólvora na mão dos militantes, levam à conclusão de que as vítimas não receberam os policiais à bala, ao contrário do que sustentaram o Dops e o DOI-Codi.
Em depoimento à comissão, vizinhos que moravam à época na vila onde fica a casa, e que ainda vivem no local, afirmam que não escutaram tiros partindo de dentro da casa. Eles revelaram que a polícia já estava por ali desde o final da tarde daquele trágico dia.
— Foi tudo bem caladinho. Mas eles (os agentes) chegaram aqui na janela mandando a gente se proteger e ficar debaixo da cama. (...). De dez para onze horas da noite. Na hora em que eles foram fazer a execução, foi que eles pediram que nós ficássemos em casa, porque eles (as vítimas) podiam ter munição também e atirar, mas era muita gente, eles não podiam — contou à comissão Orlando de Brito, de 78 anos.
James Allen, companheiro de Lígia e líder da VAR-Palmares naquele momento, conseguiu fugir pulando o muro dos fundos da casa, rumo à linha de trem. Em algumas fontes, Wilton Ferreira aparece como uma quarta vítima da chacina, o que a comissão conseguiu provar se tratar de uma confusão.

Lígia foi “morta” outras duas vezes
Outra vizinha, Heloísa Helena de Almeida, de 69 anos, afirmou que os tiros não partiam de dentro da casa:
— O tiroteio comeu, o tiroteio comeu. A polícia que atirava. Quando eles (as vítimas) viram que o negócio estava assim, tentaram entrar na casa 70 lá por trás, que tinha muito caminho, e eles queriam fugir por trás, por essa rua. E a polícia metralhou.
Em seu relato, Heloísa se refere a Lígia como a moça bonita que se fantasiava de feia. Diz que ela se rendeu, mas foi morta. Lígia estava grávida de dois meses, um filho de James. Os depoimentos dão conta de que a militante morreu na lateral do imóvel, ao ser atingida pelos primeiros tiros. Ela recebeu os policiais com as mãos para o alto e foi baleada na cabeça.
A militante, aliás, morreu outras duas vezes para os militares — e em dias consecutivos. Segundo registros do Dops sobre dois assaltos diferentes, ocorridos nos dias 8 e 9 de junho de 1972, Lígia foi assassinada nas duas ocasiões pelos mesmos motivos: ao reagir à voz de prisão das autoridades da repressão.
E os elementos que levam a conclusões não param por aí. Também em depoimento à CEV-Rio, o médico-legista Valdecir Tagliari, responsável por assinar o óbito das vítimas, relatou como encontrou os corpos.
— Era como se tivessem sofrido golpes de coronha de fuzil. Era armamento pesado, porque houve esmagamento total das mãos e de parte dos braços — lembra, afirmando que o laudo que enviou à direção, como de costume, foi totalmente modificado, segundo ele viu num microfilme anos mais tarde.
No processo que o Grupo Tortura Nunca Mais moveu, no Conselho Regional de Medicina do Rio (Cremerj), contra o perito por conta da chacina, e no qual ele foi absolvido, constam afirmações de Tagliari sobre os laudos.
“(O perito) Refere ter lembrança nítida das lesões cervicais e peitorais, que correspondem a sinais típicos de ‘estrangulamento’ ou ‘tentativa’, além de corte profundo em punho esquerdo”, diz o trecho do processo sobre declarações de Tagliari em relação ao laudo de Antônio Marcos.
Ele nega ser de sua autoria o documento e diz que “não consta a sua assinatura no final do laudo”. Membro da CEV-Rio responsável pelo caso, João Ricardo Dornelles ressalta que ninguém dá coronhada em uma pessoa que já está morta. Além disso, o laudo cadavérico de Maria Regina mostra que o corpo apresentava livores violáceos, ou seja, hematomas, um indicativo de que houve tortura.
— Os depoimentos dos vizinhos e do perito são importantes porque, além disso, o laudo cadavérico mostra que havia hematomas no corpo. São provas reais de que houve espancamento — afirmou Dornelles.

Divergência nos horários

Num primeiro momento, pensou-se que o corpo de Antônio Marcos seria o de James Allen, que era quem os militares queriam capturar por comandar ações no grupo guerrilheiro. Outros documentos da época mostram que o corpo de Antônio Marcos foi reconhecido como sendo Nelson Rodrigues Filho (filho do dramaturgo homônimo), o Prancha, do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), pelo próprio irmão de Nelson, Jofre Rodrigues, que chegou a chorar copiosamente ao lado do cadáver. Depois verificou-se tratar de um engano. Segundo a comissão, a partir da Chacina de Quintino, o Serviço Nacional de Informações (SNI) mudou o método para reconhecimento de corpos, passando a exigir exames das impressões digitais e arcada dentária.
Existia ainda uma divergência sobre o possível horário dos disparos e dia das mortes. Isso porque, em identificação no IML, a data de falecimento aparecia como sendo o dia 30 de março. No documento oficial, consta que o DOI-Codi fez a comunicação do episódio ao Dops à 0h20m. Mas a certidão de óbito mostra que as mortes ocorreram no dia 29. Sobre o horário do tiroteio, os vizinhos contam que o episódio aconteceu por volta das 21h do dia 29.
A pesquisa se debruçou ainda sobre a afirmação de que Wilton Ferreira seria mais uma vítima da Chacina de Quintino, conforme fontes atuais de pesquisa, como a publicação “Direito à Memória e à Verdade”, da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos.
No livro de diligências do Dops, em que os agentes passavam informações do que tinha ocorrido para os que iam trabalhar no turno posterior, há um comunicado posterior ao de Quintino, exatamente às 4h. Esse documento informa que o estouro de um aparelho na Rua Silva Vale, número 55, no bairro de Cavalcante, foi feito pela mesma equipe de Quintino, que fica a cerca de dez minutos de distância. Lá estava Wilton, que foi morto e transferido para o IML junto com as vítimas da chacina, o que gerou a confusão de que ele seria um quarto militante abatido pelas forças de repressão na casa de Quintino.
— Eles forjavam mortes em confronto, mas, na verdade, tratava-se de execuções sumárias, como hoje existem os autos de resistência. Naquela época, era morte em confronto. A Chacina de Quintino também serve para mostrar isso, como a mentira não era só um instrumento ideológico. A mentira, no estado ditatorial, serve pra acobertar crimes e era o que a ditadura fazia — declarou o presidente da CEV-Rio, Wadih Damous.

Conclusões apresentadas na comissão:

Pesquisas documentais e depoimentos concluídos, a comissão localizou uma testemunha-chave para elucidar a morte de Wilton. Hélio da Silva, também militante da VAR-Palmares, esclareceu que Wilton não era militante. Ele foi cooptado por James Allen da Luz para tomar conta da garagem em Cavalcante onde eram guardados os carros roubados da organização.
— (Ele) Não tinha profissão, fazia bico. Ele não era do movimento, não era de facção nenhuma, era só um cara em que o Ciro (codinome de James) confiou e levou para o aparelho de Cavalcante. Na garagem que o Ciro mandou fazer para botar os carros roubados. A função dele era só ser confidente e beber, não tinha compromisso político nem nada — disse Hélio à CEV-Rio.
Hélio, sob a fachada de motorista de táxi, fazia a ligação entre a organização e outros grupos, como o MR-8, a Aliança Libertadora Nacional (ALN) e o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). O carro em que ele estava para ir ao encontro de James Allen da Luz foi interceptado pelos agentes da repressão na Avenida Brasil. Ele foi preso naquela manhã do dia da chacina e foi levado para o Batalhão da Polícia Militar no Méier, na Zona Norte, e posteriormente para o DOI-Codi, onde foi torturado e "desaparecido" (morto) em 1973.
James Allen da Luz, percebendo que o colega não aparecia no local marcado no horário estipulado, e nem no ponto de segurança (segundo local marcado para o caso de não se aparecer no primeiro por conta de algum atraso), fez uma reunião na casa em que morava com Lígia, em Quintino. Antônio Marcos e Maria Regina foram para lá. Indagado pela comissão sobre se foi o responsável pela queda do aparelho de Quintino, Hélio negou e explicou que, para se ver livre da tortura e proteger o aparelho de Quintino, preferiu entregar a garagem de Cavalcante, imaginando que ela poderia estar vazia.
Segundo a comissão, a documentação recolhida e os depoimentos dados permitem supor que os tiros da Chacina de Quintino foram dados com os militantes em estado de agonia ou depois da morte na tortura. Único a conseguir escapar, James morreu em um acidente de carro no Rio Grande do Sul em circunstâncias e data não esclarecidas. No laudo, a causa da morte é infarto.

Fonte:
Jornal O Globo: ( Chacina de Quintino )

domingo, 26 de maio de 2013

Canto de Xambioá

Foto da época da Guerrilha

Xambioá
Mata virgem e escura, foi lá
Que no meio da mata
Um amigo de infância
Tentou começar

Ah foi por lá
Onde o povo sofreu pra contar
Como um jovem sozinho
Valia por trinta
Em qualquer lugar

Ei Araguaia
Rio manso pra se navegar
Quando o braço da gente
Abraça a nascente
O novo raiar

Eh Marabá,
Altamira, Estreito, olhe lá
Ainda brilha até hoje
A vida do povo
Que morreu por lá

Ei meu irmão
Você fez renascer o sertão
E o maior contingente
Não viu o tamanho do seu coração

Pedra não para o caminho
Fogo não queima o luar
Eu já não canto sozinho
Canto em Xambioá.


Abílio Pacheco

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Caso RioCentro

Dossiê revela farsa de militares
Bomba no Riocentro
No dia 30 de abril de 1981 uma bomba explodiu dentro de um carro no estacionamento do Riocentro.
PORTO ALEGRE - Missão Nº 115. Esse era o nome oficial da vigilância desencadeada pelos serviços de espionagem do Exército no centro de convenções Riocentro, no Rio, em 30 de abril de 1981, quando 20 mil pessoas ali se reuniam para um show musical em protesto contra o regime militar. Duas bombas explodiram lá, e os agentes “supervisores” da ação foram as únicas vítimas do episódio, que lançou suspeitas sobre atividades terroristas praticadas por militares e mergulhou em agonia uma ditadura que vinha desde 1964 e acabaria sepultada em 1985. Tudo isso a população brasileira já intuía, por meio de depoimentos. O que até agora permanecia oculto — e está sendo revelado pelo jornal “Zero Hora” — são registros de militares envolvidos no episódio e manobras de abafamento do incidente, arquitetadas por servidores da repressão.
O segredo está em arquivos que eram guardados em casa pelo coronel reformado do Exército Julio Miguel Molinas Dias — assassinado aos 78 anos, em 1º de novembro, em Porto Alegre, vítima de um crime ainda nebuloso. Molinas Dias era, na época do atentado, comandante do Destacamento de Operações e Informações — Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) do Rio de Janeiro, o Aparelhão. O arquivo do coronel continha 200 páginas, várias delas encabeçadas pelo carimbo “confidencial” ou “reservado”. O calhamaço evidencia que o aparelho repressivo militar tentou maquiar o cenário do Riocentro para fazer com que as explosões parecessem obra de guerrilheiros esquerdistas.
Os registros estavam guardados pelo minucioso oficial. A unidade comandada por Molinas era responsável por espionar e reprimir opositores ao regime militar. O DOI-Codi era localizado dentro do 1º Batalhão de Polícia do Exército, na Rua Barão de Mesquita, no bairro da Tijuca. Ao se aposentar, o coronel levou para casa documentos preciosos, contando pormenores da sigilosa rotina da caserna. O dossiê deixa transparecer que a bomba no Riocentro também fez estragos dentro da sede do DOI-Codi, distante 30 quilômetros do centro de eventos.
Oficiais forjaram o cenário
Em meio aos papéis, surgem evidências de que oficiais forjaram fatos. Há inclusive uma orientação para simular o furto do veículo pertencente ao sargento que morreu na explosão, no sentido de desaparecer com pistas que seriam comprometedoras.
O acervo de Molinas foi arrecadado pela Polícia Civil gaúcha após o assassinato dele e revela detalhes inéditos do lado de dentro dos portões de uma das mais temidas unidades das Forças Armadas durante os anos de chumbo.
“Zero Hora” teve acesso a memorandos datilografados e também manuscritos, no qual o coronel registra a mobilização que se instalou naquele quartel-sede da espionagem política do Brasil, imediatamente após a explosão. São ordens, contraordens e telefonemas com a finalidade de evitar que fatos e versões indigestas ao Exército viessem à tona.
Os papéis contêm medidas de prevenção para segurança de militares, recomendações para não serem fotografados e relação de bombas e artefatos explosivos no paiol do quartel para destruição coletiva e individual. Mas o mais espesso lote de documentos do coronel é do tempo em que ele dava as ordens no comando do DOI.
De próprio punho, o coronel Molinas teria redigido parte desses memorandos, divididos em dias, horas e minutos. Trabalho facilitado porque era detalhista. Em meio à papelada sobressaem-se relatórios sobre o desastroso atentado no centro de convenções Riocentro. Uma das duas bombas que explodiram durante um show musical acabou matando o sargento Guilherme Pereira do Rosário e ferindo com gravidade o capitão Wilson Luiz Chaves Machado, chefe da seção de Operações do DOI-Codi.
Os papéis do coronel Molinas mostram que Rosário tinha o codinome de Agente Wagner e Wilson era chamado Dr. Marcos (militares de baixa patente eram chamados de agentes e oficiais eram doutores, na gíria da espionagem).

Fonte:
Jornal O Globo: ( Dossiê Riocentro )

domingo, 18 de novembro de 2012

Aberrações da Ditadura

Aos 2 anos, filho de militantes foi preso e classificado como 'subversivo' pela ditadura:
Nasci em fevereiro de 1968, no bairro da Liberdade, em São Paulo. Minha mãe, Jovelina Tonello, trabalhava na prefeitura de Osasco e foi demitida durante a licença maternidade por causa da militância do meu pai.
Ele, Manoel Dias do Nascimento, era líder sindical. Em 1968, teve a prisão decretada e entrou na clandestinidade.
Meu pai já era do Partido Comunista Brasileiro, e virou um dos fundadores da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), liderada pelo Carlos Lamarca.
Quando meu pai decide ir para a luta armada, minha avó resolve ir também. Ela fica com o Lamarca no vale do Ribeira, no sul do Estado, com três filhos adotivos para simular uma família normal na casa, que chamavam de “aparelho”. Ela também ajudava o movimento costurando roupas para os militantes.
Meu pai fica organizando a guerrilha na capital. No dia 19 de maio de 1970, ele foi preso, quando estava no “ponto” para passar informações aos companheiros. Eu fui preso com minha mãe mais tarde, no mesmo dia, em nossa casa na Vila Formosa. A gente vai para a Operação Bandeirantes, depois para o Dops (Departamento de Ordem Política e Social) e para a ala feminina do presídio Tiradentes. Eu só tinha dois anos de idade, mas já tinha carteirinha de subversivo.
Eu vi meus pais serem torturados e sei que também apanhei. Fui usado para ameaçarem meu pai. Isso está registrado em depoimentos.
Não tenho lembranças, só traumas. Meus pais não conversam sobre isso. Só soube dos detalhes quando voltei ao Brasil, em 1986.
Minha mãe foi várias vezes na Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo buscar documentos.
Nesse vai e volta, apareceu minha ficha num álbum do Dops de “terroristas e subversivos”. Tem uma foto minha, aos dois anos, e está escrito que sou “subversivo”. Minha avó também tinha sido presa. Meus irmãos de criação, que estavam com ela, foram para o juizado de menores. Não sei por que eu não fiquei com eles. É isso que eu quero saber, o que se passou nesses 28 dias de escuridão na minha vida.
Ernesto Carlos Dias, que viveu 16 anos no exílio, em Cuba
RESGATE
Saí da prisão com a minha avó. Ela estava na lista dos 40 presos políticos libertados em troca do embaixador alemão Ehrenfried von Holleben, que tinha sido sequestrado.
Nós saímos no mesmo resgate em que foram libertados o Fernando Gabeira, o Carlos Minc e outros companheiros, em 16 de junho de 1970.
Tiramos uma fotografia antes de embarcar para o exílio na Argélia. Eu e meus irmãos somos essas crianças que estão na foto. Não tenho nenhuma lembrança desse dia. Ficamos um mês na Argélia e no dia 27 de julho de 1970 chegamos em Cuba. O objetivo era chegar no dia anterior, em comemoração ao aniversário da revolução cubana, mas por causa do mal tempo, partimos no dia seguinte.
Meus pais ainda ficaram presos aqui. Eles só foram resgatados no sequestro do embaixador suíço Giovanni Bücher, e foram para o exílio no Chile, junto com o frei Betto e o frei Tito.
Minha primeira lembrança é aos quatro anos de idade, quando eu morava em Cuba. Eu tinha muito medo de policiais, e minha tia Damaris, que morou com a gente no exílio, deu um brinquedo para um policial me entregar. Ele me deu um carrinho de corrida, brincou comigo, me botou em cima de uma motocicleta, e eu adorei. Quando ele foi embora, eu vi que era um policial. Essa é a minha primeira memória.
Só voltei para o Brasil definitivamente em janeiro de 1986. “Yo soy cubano, yo no soy brasileño” [eu sou cubano, eu não sou brasileiro]. A mim foi negada toda minha cultura, meus direitos civis.
Hoje os meus quatro filhos estudam essa história e veem a minha foto nos livros. Só que não fui só eu. Foram centenas de crianças que passaram coisas parecidas, dentro e fora dos cárceres.
Eu quero que levantem todas essas questões. Nós temos muitas crianças –que nem são mais crianças, alguns já estão na idade de se aposentar– que viveram essa escuridão.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

O país de uma nota só

Não pretendo nada,
nem flores, louvores, triunfos.
nada de nada.
Somente um protesto,
uma brecha no muro,
e fazer ecoar,
com voz surda que seja,
e sem outro valor,
o que se esconde no peito,
no fundo da alma
de milhões de sufocados.
Algo por onde possa filtrar o pensamento,
a ideia que puseram no cárcere.

A passagem subiu,
o leite acabou,
a criança morreu,
a carne sumiu,
o IPM prendeu,
o DOPS torturou,
o deputado cedeu,
a linha dura vetou,
a censura proibiu,
o governo entregou,
o desemprego cresceu,
a carestia aumentou,
o Nordeste encolheu,
o país resvalou.

Tudo dó,
tudo dó,
tudo dó…
E em todo o país
repercute o tom
de uma nota só…
de uma nota só…

Carlos Marighella (1911-1969)

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Órfã da Guerrilha do Araguaia

Mulher conta sua experiência como órfã da Guerrilha do Araguaia. Ela descobre que é filha de um guerrilheiro desaparecido há 36 anos na selva do Pará. A suspeita é que existam muitos outros como ela.
1974 Um dia qualquer. Dois homens batem à porta do semi-internato Lar de Maria, em Belém. Trazem nos braços uma menina com poucos meses de vida, a pele muito branca coberta por círculos vermelhos - picadas de insetos. Ordenam ao casal que administra o estabelecimento: "A criança vai ficar aqui". Um dos homens identifica-se como delegado de polícia. O outro veste farda militar, é soldado. Dizem não saber a origem daquele bebê.
O casal já tinha quatro filhos: três rapazes e a caçula Rosália, de 16 anos. Foi ela quem mais se afeiçoou à misteriosa criança. Insistiu com os pais, que acabaram por assumir a menina como filha. Deram-lhe um nome e o sobrenome da família: Lia Cecília da Silva Martins. E inventaram para ela uma data de nascimento: 1º de julho de 1974. O tempo passou, e o estranho "nascimento" de Lia se desvaneceu na memória daquelas pessoas. Até que, por um grande acaso, no ano passado descobriu-se que ela é filha de Antônio Teodoro de Castro, o Raul, que na primeira metade dos anos 1970 participou na selva amazônica do histórico episódio conhecido como a Guerrilha do Araguaia.
Ex-estudante do curso de farmácia na Universidade Federal do Ceará e militante do então clandestino PCdoB (Partido Comunista do Brasil), Raul morava no Rio de Janeiro quando se engajou no movimento guerrilheiro. O Relatório Arroyo, escrito pelo dirigente comunista e sobrevivente do Araguaia Ângelo Arroyo, diz que Raul estava vivo em 25 de dezembro de 1973, quando ocorreu o episódio conhecido como "chafurdo de Natal" - na ocasião, militares cercaram um grupo de 15 guerrilheiros numa colina e abriram fogo. Alguns morreram na hora. Raul, aparentemente, escapou. Mas desapareceu no ano seguinte, sem deixar rastro. Consta que foi fuzilado pelo major Curió (o major reformado Sebastião Rodrigues de Moura, o mais atuante militar a combater a guerrilha). Raul tinha 29 anos.
Onde está Raul?
A procura pelo corpo do guerrilheiro mobiliza a família Castro desde o fim da década de 1970. Ele tinha cinco irmãs e três irmãos. A mais nova é a advogada Mercês Castro, 50 anos. Em 1980, com menos de 20, ela percorreu pela primeira vez a região do Araguaia, formada por áreas no sudeste do Pará, sul do Maranhão e norte de Tocantins (Goiás, na época). Conheceu pessoas que se lembravam daquele moço, lavradores que fizeram amizade com os guerrilheiros e que, provavelmente por isso, foram também perseguidos pelos militares.
Mercês ouviu falar que Raul tivera uma filha com uma camponesa chamada Regina. A criança, nascida pouco antes do desaparecimento do pai, foi levada pelos militares, disseram. Regina também nunca mais foi vista. Encontrar a sobrinha e os restos mortais do irmão tornou-se a razão de viver da advogada. Ela perdeu a conta das vezes em que esteve no Araguaia - recentemente, encontrou numa cova clandestina ossos humanos que aguardam os exames de DNA. Seriam os de Raul?
Em 2009, o jornal Diário do Pará publicou uma entrevista em que Mercês contava a história da menininha levada pelos soldados do Exército. A partir daí, o emblemático passado de Lia começava a acordar do sono de mais de três décadas. A reportagem foi lida por um amigo de Lia que conhecia a história de sua aparição no Lar de Maria: "Será que não é você?"
Teste de DNA
Lia ficou assustada, dividida, mas decidiu investigar. No fundo, sempre quis saber mais sobre sua origem. Por e-mail, conseguiu contatar Mercês. Falou sobre a suspeita de que talvez fosse a filha de Raul. Acertou sua ida a Fortaleza, onde moram cinco dos irmãos e irmãs do guerrilheiro. E foi. Ao chegar, espanto geral: Lia era parecidíssima com as mulheres da família, especialmente com Sandra, uma das irmãs do guerrilheiro desaparecido. Mesmo assim, fizeram o exame de DNA. Seis "tios" de Lia cederam material genético para comparação.
Em 11 de maio de 2011, o laudo do laboratório ficou pronto. O DNA confirmou o parentesco. "É tão estranho você conhecer uma história e de repente passar a fazer parte dela... Mexe com o emocional da gente", disse Lia, hoje com 36 anos. Desde a comprovação genética, ela passou a conviver intensamente com as tias. Esteve com Mercês em Curitiba, com Sandra em Cumbuco (Ceará) e em Brasília, com Eliana e Socorro. Agora, recém-casada, voltou ao Pará. Grávida, planeja retomar os estudos na faculdade de gestão de recursos humanos, cuja matrícula trancou há um ano para se dedicar à busca de suas raízes. Disse que, apesar de se sentir muito ligada à família que a criou, pretende acrescentar o Castro a seu sobrenome. "Conversando com minha ‘irmãe’ (junção de "irmã" e "mãe") Rosália, falei sobre mudar meu nome. Ela me disse que não tinha problema, que o documento com o novo nome será só um pedaço de papel - e o que sentimos uma pela outra não cabe em um pedaço de papel. Estou muito feliz. Agora tenho duas famílias."
Fonte: Aventuras na História
[Referência]


Outros Órfãos

Osvaldão
Pesquisadora do conflito desde 2001 e membro do Grupo de Trabalho Tocantins (GTT), a jornalista Myrian Alves diz que há relatos de que duas combatentes foram capturadas grávidas pelos militares e que um dos líderes da guerrilha, Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão, teve pelo menos dois filhos com mulheres da região. O envolvimento amoroso de combatentes com mulheres locais era natural, inevitável. Eles viviam semi-isolados na floresta, e os namoros entre os guerrilheiros eram reprovados pelos comandantes da ação. Involuntariamente, essa norma incentivava a busca por parceiros "de fora" - o que também era condenado pelos chefes revolucionários, porém sua prática era mais difícil de fiscalizar e reprimir. "O próprio Curió admitiu, em depoimento à Justiça Federal em 2010, que Osvaldão teve filhos no Araguaia. Um era filho dele com dona Maria, cozinheira que já morreu. Zezinho Barqueiro, que também era filho dela, conviveu muito com o menino, que se chamava Geovane. Falam ainda em outro filho dele, mas as informações são poucas a respeito", afirma Myrian.
Também conheceu o menino Geovane o lavrador José Rodrigues da Silva, o Baiano. Baiano e Osvaldão trabalharam nos anos 1960 como garimpeiros e como mariscadores (caçadores de animais para a retirada e venda das peles). Separaram-se por alguns anos. Ao reencontrá-lo, Osvaldão estava com um garoto pequeno, que apresentou ao amigo como filho. Osvaldão é outro desaparecido do Araguaia. Foi morto em 1974, segundo relatos de testemunhas e de militares. Seu corpo nunca apareceu. Há indícios de que outro menino foi levado por militares ao término do confronto para Tabatinga (Amazonas), na fronteira com a Colômbia. "Tabatinga é uma região de fronteira, onde o Exército atua há décadas. Considero uma indecência terem levado essas crianças para tão longe só porque eram filhos de comunistas", diz a pesquisadora.
Fonte: Aventuras na História
[Referência]


segunda-feira, 30 de julho de 2012

Carlos Eugênio Paz

“Para virar a página, antes é preciso lê-la”.
Baltasar Garzón
Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz nasceu em Maceió - Alagoas em 23 de julho de 1950. Chegou no Rio de Janeiro em 1958. Estudou no Franco-Brasileiro, no Colégio Andrews e no Pedro II. Flamenguista desde Maceió e Marighellista desde 1966. Foi escoteiro no Grupo João Ribeiro dos Santos, viu o Aterro do Flamengo ser construído, viveu feliz nas ruas do Rio de Janeiro. Militante da Ação Libertadora Nacional - ALN, combateu de armas na mão a ditadura civil-militar de direita. Um dos poucos que conseguiu sobreviver, foi para o exílio em 1973, passando oito anos em Paris. Lá estudou música, ciências sociais e fez amigos. Voltou ao Brasil em 1981 para assistir a morte de seu pai. Retomou a vida legal somente depois de ser anistiado pelo STF em maio de 1982. Suas grandes paixões são a música, a literatura e a política.
Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz, deixou o Colégio Pedro II no Rio de Janeiro com 17 anos e ingressou na ALN - Ação Libertadora Nacional, para simplesmente ao lado de Carlos Marighella, derrubar a ditadura através da luta armada. E o hoje músico, escritor e militante no PSB-RJ, prossegue na sua luta, agora pelas reformas estruturais impedidas pelo golpe civil-militar de 1964, reformas estas que até hoje ainda não foram realizadas. Morreu em 29 de junho de 2019.
Tudo o que ele viveu na luta armada e de resistência ao golpe civil-militar está descrito nos dois livros de sua autoria que são:

....................→ "Viagem à Luta Armada"
.....................→ "Nas Trilhas da ALN".
Ambos leitura obrigatória para quem quiser conhecer a verdadeira história do período.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Ditadura Militar

Uma fotografia inédita da ex-militante de esquerda Vera Sílvia Magalhães (1948-2007), tirada em 1970, revela os efeitos da tortura a que foi submetida em um prédio do Exército no Rio de Janeiro.
Vera Sílvia começou sua militância política aos 15 anos de idade no Movimento Secundarista, aos 20 anos ingressou no MR-8 e foi a única mulher a participar do sequestro do embaixador norte-americano no Brasil, Charles Burke Elbrick, em 1969. Presa em março de 1970, Vera Sílvia foi barbaramente torturada até junho, nas dependências do DOI-CODI do Rio de Janeiro, que funcionava num quartel da Polícia do Exército na Rua Barão de Mesquita, quando foi libertada com outros 39 presos no sequestro do embaixador alemão, Von Holleben.
Vera, aparece na imagem sem conseguir ficar em pé, tendo que ser amparada pelo também prisioneiro Cid Benjamin. A foto, obtida pela Folha, está sob a guarda do Arquivo Nacional em Brasília.
Militantes da organização política de resistência à ditadura militar MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro), Cid e Vera participaram do sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick em 1969, uma das mais importantes ações urbanas da esquerda armada.
"Não tinha visto essa foto. Eu tinha que segurá-la porque, naqueles dias, ela não conseguia se sustentar em pé, devido às torturas", contou Cid.
Debilitada pela tortura, com 25 quilos a menos, Vera Sílvia aparece na foto dos presos que foram para a Argélia sentada numa cadeira.
As fotografias foram tiradas momentos antes de o grupo ter sido trocado pelo embaixador alemão Ehrenfried Von Holleben, também sequestrado por forças de resistência à ditadura.
Do Rio de Janeiro, o grupo seguiu para a Argélia. Parte regressou clandestina ao Brasil, e alguns acabaram mortos pela ditadura militar. No exílio, Vera estudou sociologia na França. Retornou ao Brasil em 1979, após a aprovação da Lei da Anistia.

Em depoimento prestado à Câmara dos Deputados em 2003, Vera confirmou que as torturas a impediram de ficar em pé pouco antes de ser levada para Argélia.
Ainda no depoimento à Câmara, Vera classificou a tortura que sofreu como "inteiramente desmesurada". "Fui a única torturada na Sexta-Feira Santa na Polícia do Exército. E eles me disseram: 'Você vai ser torturada como homem, como Jesus Cristo'", contou Vera.
Ela nunca mais se recuperou fisicamente. "Para uma mulher, acho que exageraram mesmo. Fiquei cheia de sequelas, cheia de problemas." Vera morreu em 2007, vítima de câncer.
Fonte: Folha de S. Paulo Reportagem de Matheus Leitão e Rubens Valente na Folha de S.Paulo publica foto inédita da ex-miliatante de esquerda Vera Silvia Magalhães (1948-2007), tirada em 1970, que mostra os efeitos da tortura a que foi submetida em um prédio do Exército no Rio de Janeiro.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Quem foi Soled ?

Soledad, a mulher do Cabo Anselmo: Quem foi, quem é Soledad Barrett Viedma? Qual a sua força e drama, que a maioria dos brasileiros desconhece? De modo claro e curto, ela foi a mulher do Cabo Anselmo, que ele entregou ao Delegado Torturador Fleury em 1973. Sem remorso e sem dor, o Cabo Anselmo a entregou grávida para a execução, com mais cinco militantes.
“O massacre da granja São Bento”., como ficou conhecida a Chacina é o caso mais eloquente da guerra suja da ditadura no Brasil.
Militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Nasceu em 6 de janeiro de 1945, no Paraguai. Casada com José Maria Ferreira de Araújo (desaparecido), tiveram uma filha, Nasaindy Barret de Araújo que hoje em Campinas (SP).
Foi assassinada sob torturas no Massacre da Chácara São Bento, ocorrido no dia 8 de janeiro de 1973, pela equipe do delegado Sérgio Fleury.
Juntamente com Soledad, que estava com 4 meses de gravidez, foram assassinados Pauline Reichstul, Eudaldo Gomes da Silva, Jarbas Pereira Marques, José Manoel da Silva e Evaldo Luiz Ferreira.
As circunstâncias do massacre que vitimou Soledad e seus companheiros estão na nota referente a Eudaldo Gomes da Silva.
Em 1970, de volta ao Brasil, Anselmo foi preso pela ditadura militar. Em troca da liberdade, delatou perseguidos políticos ao delegado Sérgio Paranhos Fleury, do Dops. A lista de denunciados incluía sua namorada, Soledad Viedma.
O poeta uruguaio Mario Benedetti a homenageou com um poema:
Morte de Soledad Barret Viedma
Viveste aqui por meses ou por anos
traçaste aqui uma reta de melancolia
que atravessou as vidas e a cidade
Faz dez anos tua adolescência foi notícia
te marcaram as coxas porque não quiseste
gritar viva Hitler nem abaixo Fidel
eram outros tempos e outros esquadrões
porém aquelas tatuagens encheram de assombro
a certo Uruguai que vivia na lua
e claro então não podias saber
que de algum modo eras
a pré-história do ibero
agora metralharam no recife
teus vinte e sete anos
de amor de têmpera e pena clandestina
talvez nunca se saiba como nem por quê
os telegramas dizem que resististe
e não haverá mais jeito que acreditar
porque o certo é que resistias
somente em te colocares à frente
só em mirá-los
só em sorrir
só em cantar cielitos com o rosto para o céu
com tua imagem segura
com teu ar de menina
podias ser modelo
atriz
miss Paraguai
capa de revista
calendário
quem sabe quantas coisas
porém o avô Rafael o velho anarco
te puxava fortemente o sangue
e tu sentias calada esses puxões
Soledad solidão não viveste sozinha
por isso tua vida não se apaga
simplesmente se enche de sinais
Soledad solidão não morreste sozinha
por isso tua morte não se chora
simplesmente a levantamos no ar
desde agora a nostalgia será
um vento fiel que flamejará tua morte
para que assim apareçam exemplares e nítido
as franjas de tua vida
ignoro se estarias
de minissaia ou talvez de jeans
quando a rajada de Pernambuco
acabou completo os teus sonhos
pelo menos não terá sido fácil
cerrar teus grandes olhos claros
teus olhos onde a melhor violência
se permitia razoáveis tréguas
para tornar-se incrível bondade
e ainda que por fim os tenham encerrado
é provável que ainda sigas olhando
Soledad compatriota de três ou quatro povos
o limpo futuro pelo qual vivias
e pelo qual nunca te negaste a morrer.

Mario Benedetti (1920-2009)

sábado, 31 de março de 2012

Ditadura Militar

Os difíceis anos da História do Brasil.
Hoje faz 48 anos que os Militares deram um Golpe de Estado iniciando um período de Ditadura Militar. Esta época vai de 1964 a 1985.
Caracterizou-se pela:
  • Falta de democracia,
  • Supressão de direitos constitucionais,
  • Censura,
  • Perseguição política e
  • Repressão aos que eram contra o regime militar.
Foi um dos períodos mais conturbados da História do Brasil e um dos mais tristes episódios de nossa História.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Aldo de Sá Brito Souza Neto

Aldo de Sá Brito Souza Neto
Nasceu em 20 de janeiro de 1951, no Rio de Janeiro, filho de Aldo Leão de Souza e Therezinha Barros Câmara de Souza.
Concluiu o ginásio no Colégio Santo Inácio e fez o curso científico no Colégio Mallet Soares, no Rio de Janeiro.
Como militante da ALN (Ação Libertadora Nacional),foi do Comando Regional da organização. Preso no dia 2 de janeiro de 1971 pelos agentes do DOI-CODI de Belo Horizonte, sendo imediatamente torturado, juntamente com outros companheiros.
Jornais do dia seguinte publicaram a notícia de sua prisão como decorrência de uma frustrada ação armada. Entretanto, Aldo, que acabara de chegar do Rio de Janeiro, foi preso como suspeito na participação do sequestro do embaixador da Suíça no Brasil (até aquele momento ainda em curso), Giovanne Enrico Bucher.
Dois dias após a sua prisão, os jornais publicaram um desmentido.
Aldo, já muito torturado, passou a ser castigado com a chamada "Coroa de Cristo", fita de aço que vai sendo gradativamente apertada, esmagando aos poucos o crânio da vítima.
No dia 6 de janeiro, não resistindo a tão bárbaros sofrimentos, morreu com o crânio apresentando um afundamento de cerca de 2 cm.
Apesar do testemunho dos companheiros de prisão, os órgãos de repressão divulgaram nota oficial noticiando que sua morte fora em decorrência da tentativa de fuga, ao saltar do terceiro andar de um prédio.
A certidão de óbito atesta sua morte em 7 de janeiro de 1971, sendo firmada por outro médico, que não participou da necrópsia, o Dr. Djezzar Gonçalves Leite. Informa que Aldo morreu no Hospital Militar (BH/MG), sendo enterrado pela família em Cemitério do Rio de Janeiro.
Hoje ele estaria fazendo 61 anos.
Palavrador
lavra,
palavra
palavra
palenta,
palenta
paluta
de labuta
sol a sol:
só palavra.
látego de consciência,
premência que escalavra
sílaba à sílaba
a fibra da alma bruta
que brota
lenta,
lenta,
de uma palavra
muda.

farfalhantes palavras
de florescente consciência
que lavra,
que lavra
palavra,
fruto da língua
gélida e morta.
muda lambida
de flor e desejo
desabrochando ensejo
de vida.

muda a lenta
muda a luta
da palavra muda.

silêncio de semente
florescendo aos ventos,
farfalhando aos tempos.

sim à palavra
que muda,
à sílaba escrita,
à sílabainscrita
na consciência
que brota
da semente
da flor muda
e transcende
o suor da labuta
e o sangue da vida
que luta
que luta
em lenta
e muda
palavra
semeando
em branca folha
farfalhante consciência
do ser lenta,
do ser lenta,
do ser a labuta
do porque luta.

Raul Longo

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Revelações do infame Anselmo

A verdade do traidor (11/12/2011)
Folha de S.Paulo - Ilustrissima
Arquivo Núcleo de Preservação da Memória Política
À esq., José Raimundo da Costa, o Moisés, morto pela ditadura após informações de Anselmo (ao microfone)
Resumo: Documentos reunidos por entidade que tenta resgatar a memória dos anos de chumbo mostram com riqueza de detalhes informações que cabo Anselmo, o mais notório militante da esquerda a mudar de lado, reuniu sobre a luta armada e entregou à ditadura. Relatórios a que a Folha teve acesso incluem textos do próprio "cachorro", escritos com estilo quase jornalístico.
A Folha teve acesso a quase uma centena de documentos daquele período sobre o ex-marinheiro José Anselmo dos Santos, o cabo Anselmo - vários escritos por ele mesmo -, que entrou para a história como o mais famoso dos "cachorros", como eram chamados os militantes de esquerda que passavam a atuar como espiões para os órgãos de segurança.
Os relatórios foram coligidos pela Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, entidade que tenta resgatar a memória do período de 1964 a 85, quando sucessivos governos militares assenhoraram-se do poder no Brasil. Saídos dos arquivos da repressão, de órgãos como o Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo (Dops) e os centros de informações do Exército (CIE) e da Marinha (Cenimar), são instantâneos dramáticos da história enquanto ela era escrita.
O CARA Bom de discurso, carismático, Anselmo foi "o cara" nos tempos irados que marcaram o fim do governo João Goulart (1961-64). Era então presidente da Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil. Depois, ainda envolto na aura mística de líder sindical de massas, virou guerrilheiro quando parte da esquerda nativa embarcou no sonho heavy metal de derrubar a ditadura pela via das armas. Preso, em 1971, Anselmo -que nunca chegou a cabo, mas recebeu a alcunha por um mal-entendido com suas insígnias militares- tornou-se um traidor.
Chegou a se vangloriar de ter fornecido à repressão informações que levaram à morte 200 militantes. Seguro é que as delações de Anselmo permitiram à polícia liquidar pelo menos 11 "inimigos do regime", entre os quais sua própria mulher, a "sensível", "loira", "esguia", "de olhos azuis", "simpática" e poeta (assim designada por ele mesmo, qual namorado apaixonado) Soledad Barrett Viedma, então com 28 anos, grávida de um filho seu, gestação de quatro meses.

Veja matéria completa aqui

domingo, 11 de dezembro de 2011

A Vida quer é Coragem

Autor: Ricardo Batista Amaral
Editora: Primeira Pessoa
Categoria: Biografias e Memórias
A trajetória pessoal da presidenta Dilma Rousseff e a história do Brasil moderno se entrelaçam numa grande reportagem. Do suicídio de Getúlio Vargas, quando era criança, ao golpe de 1964, quando se aproxima das organizações de esquerda. Da clandestinidade, prisão e tortura na ditadura militar, à luta pela anistia e pela redemocratização. O encontro de Dilma com Leonel Brizola, na fundação do PDT, e sua aproximação com Lula, durante o apagão e na campanha eleitoral de 2002. A chefia da Casa Civil, que assume em plena crise do mensalão, os bastidores da reeleição, a luta contra o câncer e a vitória nas eleições de 2010: uma história de resistência, esperança e coragem.
A foto acima foi tirada em novembro de 1970, quando a hoje presidente da República tinha 22 anos. Ela respondia a um interrogatório na sede da Auditoria Militar do Rio de Janeiro.

Onde estão os oficiais que interrogaram Dilma na Justiça Militar?
Esses ai que cobriram o rosto?

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Carlos Marighella

«Cem Anos» de – Carlos Marighella
Marighella com a sobrinha Isa no ombro,
ao lado da companheira Clara Charf e
do resto da família em 1962.
Meio século da história do país pode ser contado a partir dos acontecimentos em sua vida: a gênese do comunismo baiano, mulato, do qual Jorge Amado era partidário; o conflito entre integralistas e comunistas; a legalização do Partidão; a clandestinidade; a frustração com Stálin; o golpe militar e, por fim, a luta armada.
Carlos Marighella nasceu em Salvador, Bahia, em 5 de dezembro de 1911. Era filho de imigrante italiano com uma negra descendente dos haussás, conhecidos pela combatividade nas sublevações contra a escravidão.
• De origem humilde, ainda adolescente despertou para as lutas sociais. Aos 18 anos iniciou curso de Engenharia na Escola Politécnica da Bahia e tornou-se militante do Partido Comunista, dedicando sua vida à causa dos trabalhadores, da independência nacional e do socialismo.
• Conheceu a prisão pela primeira vez em 1932, após escrever um poema contendo críticas ao interventor Juracy Magalhães. Libertado, prosseguiria na militância política, interrompendo os estudos universitários no 3o ano, em 1932, quando deslocou-se para o Rio de Janeiro.
• Em 1º de maio de 1936 Marighella foi novamente preso e enfrentou, durante 23 dias, as terríveis torturas da polícia de Filinto Müller. Permaneceu encarcerado por um ano e, quando solto pela “macedada” – nome da medida que libertou os presos políticos sem condenação -- deixou o exemplo de uma tenacidade impressionante.
• Transferindo-se para São Paulo, Marighella passou a agir em torno de dois eixos: a reorganização dos revolucionários comunistas, duramente atingidos pela repressão, e o combate ao terror imposto pela ditadura de Getúlio Vargas.
• Voltaria aos cárceres em 1939, sendo mais uma vez torturado de forma brutal na Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS) de São Paulo, mas se negando a fornecer qualquer informação à polícia. Na CPI que investigaria os crimes do Estado Novo o médico Dr. Nilo Rodrigues deporia que, com referência a Marighella, nunca vira tamanha resistência a maus tratos nem tanta bravura.
• Recolhido aos presídios de Fernando de Noronha e Ilha Grande pelo seis anos seguintes, ele dirigiria sua energia revolucionária ao trabalho de educação cultural e política dos companheiros de cadeia.
• Anistiado em abril de 1945, participou do processo de redemocratização do país e da reorganização do Partido Comunista na legalidade. Deposto o ditador Vargas e convocadas eleições gerais, foi eleito deputado federal constituinte pelo estado da Bahia. Seria apontado como um dos mais aguerridos parlamentares de todas as bancadas, proferindo, em menos de dois anos, cerca de duzentos discursos em que tomou, invariavelmente, a defesa das aspirações operárias, denunciando as péssimas condições de vida do povo brasileiro e a crescente penetração imperialista no país.
• Com o mandato cassado pela repressão que o governo Dutra desencadeou contra o comunistas, Marighella foi obrigado a retornar à clandestinidade em 1948, condição em que permaneceria por mais de duas décadas, até seu assassinato.
• Nos anos 50, exercendo novamente a militância em São Paulo, tomaria parte ativa nas lutas populares do período, em defesa do monopólio estatal do petróleo e contra o envio de soldados brasileiros à Coréia e a desnacionalização da economia. Cada vez mais, Carlos Marighella voltaria suas reflexões em direção do problema agrário, redigindo, em 1958, o ensaio “Alguns aspectos da renda da terra no Brasil”, o primeiro de uma série de análises teórico-políticas que elaborou até 1969. Nesta fase visitaria a China Popular e a União Soviética, e anos depois, conheceria Cuba. Em suas viagens pôde examinar de perto as experiências revolucionárias vitoriosas daqueles países.
• Após o golpe militar de 1964, Marighella foi localizado por agentes do DOPS carioca em 9 de maio num cinema do bairro da Tijuca. Enfrentou os policiais que o cercavam com socos e gritos de “Abaixo a ditadura militar fascista” e “Viva a democracia”, recebendo um tiro a queima-roupa no peito. Descrevendo o episódio no livro “Por que resisti à prisão”, ele afirmaria: “Minha força vinha mesmo era da convicção política, da certeza (...) de que a liberdade não se defende senão resistindo”.
• Repetindo a postura de altivez das prisões anteriores, Marighella fez de sua defesa um ataque aos crimes e ao obscurantismo que imperava desde 1º de abril. Conseguiu, com isso, catalisar um movimento de solidariedade que forçou os militares a aceitar um habeas-corpus e sua libertação imediata. Desse momento em diante, intensificou o combate à ditadura utilizando todos os meios de luta na tentativa de impedir a consolidação de um regime ilegal e ilegítimo. Mas, mantendo o país sob terror policial, o governo sufocou os sindicatos e suspendeu as garantias constitucionais dos cidadãos, enquanto estrangulava o parlamento. Na ocasião, Carlos Marighella aprofundou as divergências com o Partido Comunista, criticando seu imobilismo.
• Em dezembro de 1966, em carta à Comissão Executiva do PCB, requereu seu desligamento da mesma, explicitando a disposição de lutar revolucionariamente junto às massas, em vez de ficar à espera das regras do jogo político e burocrático convencional que, segundo entendia, imperava na liderança. E quando já não havia outra solução, conforme suas próprias palavras, fundou a ALN – Ação Libertadora Nacional para, de armas em punho, enfrentar a ditadura.
• O endurecimento do regime militar, a partir do final de 1968, culminou numa repressão sem precedentes. Marighella passou a ser apontado como Inimigo Público Número Um, transformando-se em alvo de uma caçada que envolveu, a nível nacional, toda a estrutura da polícia política.
• 1969 - No início do ano, a descoberta de planos da Vanguarda Popular Revolucionária - VPR pela polícia antecipa a saída do capitão Carlos Lamarca de um quartel do exército em Osasco, levando um caminhão carregado com armamento para a guerrilha. Em setembro o embaixador norte-americano é feito prisioneiro por um destacamento unificado com integrantes da ALN e do MR-8 e trocado por quinze presos políticos. No dia 4 de novembro, às oito horas da noite, Carlos Marighella caiu numa emboscada baleado e morto dentro de um Fusca pelos inimigos do povo brasileiro em frente ao número 800 da Alameda Casa Branca, em São Paulo. Sua organização, a ALN sobreviveu até 1974.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

‘David Capistrano da Costa’

(1913-1974)
Nasceu no Ceará. Dirigente do Partido Comunista Brasileiro - PCB. Participou do Levante de 1935, como sargento da Aeronáutica, sendo expulso das Forças Armadas e condenado, à revelia, pelo Estado Novo, a 19 anos de prisão. Participou da Guerra Civil Espanhola como combatente das Brigadas Internacionais e da Resistência Francesa, durante a ocupação nazista. Preso em um campo de concentração alemão, foi libertado e regressou ao Brasil em 1941. Em 1945 foi anistiado e, em 1947, eleito Deputado Estadual em Pernambuco. Entre 1958 e 1964 atuou na política pernambucana e dirigiu os jornais "A Hora" e "Folha do Povo". Com o golpe militar, entrou na clandestinidade e asilou-se na Checoslováquia, em 1971. Retornou ao Brasil em 1974, atravessando a fronteira em Uruguaiana, Rio Grande do Sul, em um taxi. David Capistrano foi sequestrado no dia 16 de março de 1974, no percurso entre Uruguaiana e São Paulo.
A atriz paulista Mika Lins publicou texto pelo jornal “Folha de S.Paulo”, no caderno “Ilustríssima”, dia 23 /10/2011, intitulado “A outra vida do tio Enéas”, onde ela conta sobre David Capistrano da Costa, relatando um dos crimes mais bárbaros e mais chocante, ocorridos no Brasil durante o período da Ditadura Militar que se instalou no País a partir de 1° de abril de 1964.