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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Brasil de luto...

Jean Baptiste Jules Trayer
E quando um acidentado acorda,
perplexo, no outro mundo,
e indaga dos anjos que horas são,
muito mais perplexos ficam os anjos…

Mario Quintana (1906-1994)

terça-feira, 1 de novembro de 2011

A nossa canção

Henri Rousseau (La Douanier)
A nossa canção de roda
tinha nada e tinha tudo
como a voz dos passarinhos-
mas que será que dizia?
A nossa canção de roda
era boba como a lua.
Mas a roda dispersou-se
cada qual perdeu seu par...
Agora, nossos fantasmas meninos
talvez a cantem na lua...
talvez que junto a algum leito
a morte a esteja a cantar
como quem nana um filhinho...
A nossa canção de roda
tinha nada e tinha tudo: era
uma girândola de vozes
chispando
mais lindas do que as estrelas
era uma fogueira acesa
para enganar o medo, o grande medo
que a Noite sentia da sua própria escuridão.

Mario Quintana (1906-1994)

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Pequena tragédia brasileira

Mike Worrall
A Bem-Amada queria devorar o coração do Poeta.
- Não, - disse ele - só terás um pedacinho.
Porque noventa por cento pertence aos Editores.

Mario Quintana (1906-1994)

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Tão bom viver dia a dia...

“Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas”...

Mario Quintana (1906-1994)

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Tudo é volúpia

Anna Ancher
“No fundo, não há bons nem maus.
Há apenas os que sentem prazer em fazer o bem
e os que sentem prazer em fazer o mal.
Tudo é volúpia…”

Mário Quintana (1906 - 1994)

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Quintana

Ah! Essas esculturas de gaze do vento,
Sempre errantes entre o céu e a terra,
Como nos sonhos dos homens.

Mario Quintana (1906-1994)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Que dança que não se dança?

Que dança que não se dança?
Que trança não se destrança?
O grito que voou mais alto
Foi um grito de criança.

Que canto que não se canta?
Que reza que não se diz?
Quem ganhou maior esmola
Foi o mendigo aprendiz.

O céu estava na rua?
A rua estava no céu?
Mas o olhar mais azul
Foi só ela quem me deu!

Mario Quintana (1906-1994)

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Inscrição para um portão de cemitério

William-Adolphe Bouguereau
Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce - uma estrela,
Quando se morre - uma cruz.

Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
“Ponham-me a cruz no princípio...
E a luz da estrela no fim!”

Mario Quintana (1906-1994)

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Quem sabe...

Quem sabe um dia …
⇒ Quem sabe um seremos
⇒ Quem sabe um viveremos
⇒ Quem sabe um morreremos!
Quem é que
♠ Quem é macho?
♠ Quem é fêmea?
♠ Quem é humano, apenas!
Sabe amar
. Sabe de mim e de si
. Sabe de nós
. Sabe ser um! !
♥ Um dia
♥ Um mês
♥ Um ano
♥ Uma vida!
→ Sentir primeiro, pensar depois
→ Perdoar primeiro, julgar depois
→ Amar primeiro, educar depois
→ Esquecer primeiro, aprender depois
→ Libertar primeiro, ensinar depois
→ Alimentar primeiro, cantar depois
→ Possuir primeiro, contemplar depois
→ Agir primeiro, julgar depois
→ Navegar primeiro, aportar depois
→ Viver primeiro, morrer depois!

Mario Quintana (1906-1994)

sábado, 4 de setembro de 2010

Eu estava dormindo e acordaram-me

Eu
estava dormindo e acordaram-me
... e me encontrei num mundo incerto e louco!
mas quando eu começava a compreendê-lo
um pouco
já eram horas de dormir de novo...

Mario Quintana (1906-1994)

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Cantiguinha de verão

Anda a roda
Desanda a roda

E olha a lua a lua a lua!

Cada rua tem a sua roda
E cada roda tem a sua lua

No meio da rua
Desanda a roda: Oh,

Ficou a lua
Olhando em roda...

Triste de ser uma lua só!

Mario Quintana

terça-feira, 22 de junho de 2010

Os antigos retratos de parede

Alberto Godoy
Os antigos retratos de parede
Não conseguem ficar longo tempo abstratos.
Às vezes os seus olhos te fixam, obstinados
Porque eles nunca se desumanizam de todo
Jamais te voltes pra trás de repente.
Não, não olhes agora!
O remédio é cantares cantigas loucas e sem fim…
Sem fim e sem sentido…
Dessas que a gente inventava
enganar a solidão dos caminhos sem lua.

Mario Quintana (1906-1994)

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Estou sentado sobre a minha mala

Estou sentado sobre a minha mala
No velho bergantim desmantelado...
Quanto tempo, meu Deus, malbaratado
Em tanta inútil, misteriosa escala!

Joguei a minha bússola quebrada
Às águas fundas... E afinal sem norte,
Como o velho Sindbad de alma cansada
Eu nada mais desejo, nem a morte...

Delícia de ficar deitado ao fundo
Do barco, a vos olhar, velas paradas!
Se em toda parte é sempre o Fim do Mundo

Pra que partir? Sempre se chega, enfim...
Pra que seguir empós das alvoradas
Se, por si mesmas, elas vêm a mim?

Mario Quintana (1906-1994)