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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Com fúria e raiva

William-Adolphe Bouguereau
Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Livro preferido

Adolphe William Bouguereau
“Não há talvez dias da nossa infância
que tenhamos tão intensamente vivido
como aqueles que julgamos passar
sem tê-los vivido, aqueles que
passamos com um livro preferido”.

Marcel Proust (1871-1922)

terça-feira, 17 de abril de 2012

O poema é...

William-Adolphe Bouguereau - A Soul Brought to Heaven
Ainda que seja um grão no deserto
o poema é meu lugar
onde tudo arrisco.
Irriga minhas veias
como a chuva à terra
em suas mil línguas.
Antigo, bem antigo,
me anuncia no vale,
me consuma real,
viajante cativo
da solidão solidária.
Sem esse jeito
de ser flor e vento,
sonho e música,
uma coisa só amor,
não há o espanto,
a lágrima, o beijo,
o riso, o epitáfio,
não há o sentido.

Cyro de Mattos

sábado, 14 de abril de 2012

Musa Infeliz

William-Adolphe Bouguereau
Todo o cuidado nestas rimas ponho;
Musa, peço-te, pois, que me remetas
Versos que tenham rútilas facetas,
E não revelem trovador bisonho.

Meia noite bateu. Sai risonho...
Brilhava — oh, musa, não me comprometas! —
O mais belo de todos os planetas
N'um céu que parecia um céu de sonho.

O mais belo de todos os prazeres
Gozei, à doce luz dos olhos pretos
Da mais bela de todas as mulheres!

Pobres quartetos! míseros tercetos!...
Musa, musa infeliz, dar-me não queres.
O mais belo de todos os sonetos!...

Artur Azevedo (1855-1908)

domingo, 25 de setembro de 2011

Tic tac

William-Adolphe Bouguereau

As asas não se concretizam.
Terríveis e pequenas circunstâncias
Transformam claridades, asas, grito,
Em labirinto de exígua ressonância.

Os solilóquios do amor não se eternizam.

E no entanto, refaço minhas asas
Cada dia. E no entanto, invento amor
Como as crianças inventam alegria.

Hilda Hilst (1930-2004)

sábado, 16 de julho de 2011

Rosto do amor

William-Adolphe Bouguereau - L'Amour Vainqueur
O terno e perigoso
rosto do amor
me apareceu numa noite
depois de um dia muito comprido
Talvez fosse um arqueiro
com seu arco
ou ainda um músico
com sua harpa
Não me lembro mais
Nada mais sei
Tudo o que sei
é que ele me feriu
talvez com uma flecha
talvez com uma canção
Tudo o que eu sei
é que feriu
feriu aqui no coração
e para sempre
Ardente muito ardente
ferida do amor.

Jacques Prévert (1900-1977)

terça-feira, 5 de julho de 2011

Mulheres de Atenas: uma reflexão lírica sobre a condição feminina

A música "Mulheres de Atenas" é de 1976, resultado de uma parceria entre Augusto Boal e Chico Buarque de Holanda, foi parte da trilha sonora da peça de teatro "Lisa, a mulher libertadora", uma adaptação da comédia grega Lisístrata, escrita por Aristófanes em 411 a.C.
Nesta peça, as mulheres obrigam seus maridos a buscarem um tratado de paz sobre as guerras que envolviam as cidades-Estado gregas, impondo uma condição: enquanto a paz não fosse alcançada, elas se recusariam a fazer sexo com eles.
William-Adolphe Bouguereau - Nymphes et Satyre

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Vivem pros seus maridos
Orgulho e raça de Atenas

Quando amadas, se perfumam
Se banham com leite, se arrumam
Suas melenas* *(mechas do cabelo)

Quando fustigadas não choram
Se ajoelham, pedem imploram
Mais duras penas; cadenas* *(correntes)
Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Sofrem pros seus maridos
Poder e força de Atenas
Quando eles embarcam soldados

Elas tecem longos bordados
Mil quarentenas
E quando eles voltam, sedentos
Querem arrancar, violentos
Carícias plenas, obscenas

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Despem-se pros maridos
Bravos guerreiros de Atenas
Quando eles se entopem de vinho
Costumam buscar um carinho
De outras falenas* *(espécie de mariposa, metáfora para prostituta)

Mas no fim da noite, aos pedaços
Quase sempre voltam pros braços
De suas pequenas, Helenas

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas:
Geram pros seus maridos,
Os novos filhos de Atenas.

Elas não têm gosto ou vontade,
Nem defeito, nem qualidade;
Têm medo apenas.
Não tem sonhos, só tem presságios.
O seu homem, mares, naufrágios...
Lindas sirenas*, morenas. *(sereias)
Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Temem por seus maridos
Heróis e amantes de Atenas

As jovens viúvas marcadas
E as gestantes abandonadas
Não fazem cenas
Vestem-se de negro, se encolhem
Se conformam e se recolhem
Às suas novenas
Serenas

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Secam por seus maridos
Orgulho e raça de Atenas.

Chico Buarque
“Falenas”, significam borboletas, uma referencia a homossexuais. Os gregos preferiam relações entre homens, e as relações com mulheres eram apenas para reprodução. As mulheres de Atenas sofriam terrivelmente. Daí o conteúdo irônico da musica.
Chico é um poeta especialista na alma feminino Chico relata de maneira irônica o comportamento de mulheres submissas e que na sua submissão superam a realidade de sofrimento. Como viver reclusas e excluídas de uma sociedade tão machista? Elas “assumem” enquanto eles “somem” de suas responsabilidades e ainda gozam os louros de suas falsas conquistas. Isso! O poema é claro: “mirem-se no exemplo”. O poema alerta o estilo de vida gregário de mulheres que ainda hoje vivem assim. Por um acaso costumamos ver com frequência uma amiga casada? O será q ela está fazendo agora? Escrevendo um livro? Bebendo c as amigas? Viajando? Não! Sinto muito, mas acredito que a mulher tem muito a conquistar: ter filhos deve ser um desejo e não uma obrigação social, casar deve ser por amor e não por medo de solidão, fazer sexo deve ser por desejo e não autoafirmação, ser linda deve ser para você mulher e não para um homem. A violência domestica contra a mulher existe, conte cinco minutos e uma mulher é espancada por um homem. Ainda acreditamos em príncipes encantados. Contem 5 minutos e continuem acreditando… ”Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas” e façam o contrario: lutem para ser o que são! Somos mulheres livres!

segunda-feira, 4 de abril de 2011

O homem é a mais elevada das criaturas

William-Adolphe Bouguereau - Idílio
O homem é a mais elevada das criaturas; a mulher é o mais sublime dos ideais.
Deus fez para o homem um trono; para a mulher um altar.
O trono exalta; o altar santifica.
O homem é o cérebro; a mulher é o coração.
O cérebro fabrica a luz; o coração produz Amor.
A luz fecunda; o amor ressuscita.
O homem é forte pela razão; a mulher é invencível pelas lágrimas.
A razão convence; as lágrimas comovem.
O homem é capaz de todos os heroísmos; a mulher, de todos os martírios.
O heroísmo enobrece; o martírio sublima.
O homem tem a supremacia; a mulher, a preferência.
A supremacia significa a força; a preferência representa o direito.
O gênio é imensurável; o anjo, indefinível.
A aspiração do homem é a suprema glória.
A aspiração da mulher é a virtude extrema.
A glória faz tudo grande.
A virtude faz tudo divino.
O homem é um código; a mulher, um evangelho.
O Código corrige; o evangelho aperfeiçoa.
O homem pensa; a mulher sonha.
Pensar é ter no crânio uma larva.
Sonhar é ter na fronte uma auréola.
O homem é um oceano; a mulher, um lago.
O oceano tem a pérola que adorna.
O lago, a poesia que deslumbra.
O homem é a águia que voa.
A mulher é o rouxinol que canta.
Voar é dominar o espaço.
Cantar é conquistar a alma.
O homem é um templo. A mulher é o sacrário.
Ante o templo nos descobrimos. Ante o sacrário nos ajoelhamos.
Enfim, o homem está colocado aonde termina a terra
e a mulher onde começa o céu.

Victor Hugo (1802-1885)

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Entrevista

William-Adolphe Bouguereau
Um homem do mundo me perguntou:
o que você pensa de sexo?
Uma das maravilhas da criação, eu respondi.
Ele ficou atrapalhado, porque confunde as coisas
e esperava que eu dissesse maldição,
só porque antes lhe confiara: o destino do homem é a santidade.

A mulher que me perguntou cheia de ódio:
você raspa lá? perguntou sorrindo,
achando que assim melhor me assassinava.
Magníficos são o cálice e a vara que ele contém,
peludo ou não.
Santo, santo, santo é o amor, porque vem de Deus,
não porque uso luva ou navalha.
Que pode contra ele o excremento?
Mesmo a rosa, que pode a seu favor?
Se "cobre a multidão dos pecados e é benigno,
como a morte duro, como o inferno tenaz",
descansa em teu amor, que bem estás.

Adélia Prado

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Sabedoria

William-Adolphe Bouguereau - Au bord d'une rivière
“Há três métodos para ganhar sabedoria:
1. primeiro, por reflexão, que é o mais nobre;
2. segundo, por imitação, que é o mais fácil;
3. e terceiro, por experiência, que é o mais amargo”.

Confúcio (551-479 a.C.)

domingo, 12 de setembro de 2010

Amo-te muito e muito

William-Adolphe Bouguereau - Flora and Zephyr

Calcula, minha amiga, que tortura!
Amo-te muito e muito, e, todavia,
Preferira morrer a ver-te um dia
Merecer o labéu de esposa impura!
Que te não enterneça esta loucura,
Que te não mova nunca esta agonia,
Que eu muito sofra porque és casta e pura,
Que, se o não foras, quanto eu sofreria!
Ah! Quanto eu sofreria se alegrasses
Com teus beijos de amor, meus lábios tristes,
Com teus beijos de amor, as minhas faces!
Persiste na moral em que persistes.
Ah! Quanto eu sofreria se pecasses,
Mas quanto sofro mais porque resistes!

Aluísio Azevedo (1857-1913)

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Cada irmão é diferente

William-Adolphe Bouguereau
Cada irmão é diferente.
Sozinho acoplado a outros sozinhos.
A linguagem sobe escadas, do mais moço,
ao mais velho e seu castelo de importância.
A linguagem desce escadas, do mais velho
ao mísero caçula.

São seis ou são seiscentas
distâncias que se cruzam,
se dilatam no gesto, no calar, no pensamento?
Que léguas de um a outro irmão.
Entretanto, o campo aberto,
os mesmos copos,
o mesmo vinhático das camas iguais.
A casa é a mesma. Igual,
vista por olhos diferentes?

São estranhos próximos, atentos
à área de domínio, indevassáveis.
Guardar o seu segredo, sua alma,
seus objetos de toalete. Ninguém ouse
indevida cópia de outra vida.

Ser irmão é ser o quê? Uma presença
a decifrar mais tarde, com saudade?
Com saudade de quê? De uma pueril
vontade de ser irmão futuro, antigo e sempre?

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

sábado, 13 de março de 2010

Espíritos que vagam

William-Adolphe Bouguereau
Espíritos que vagam
na penumbra noturna a procura de alguém.
Corpos ardendo em uma febril fome e sede de amor,
de paixão, de volúpia e luxúria...

Espíritos que vagam
por infinitos lugares em busca do ardoroso desejo aplacar.
Corpos suados em agonizantes sonhos,
clamando pela presença física do outro ser encontrar.

Espíritos que vagam
sofredores pela ausência,
pela solidão e pela cruel distância.

Espíritos que vagam
até que o objetivo da total entrega seja alcançado.

MJSpeglich