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quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Os domingos

Sir John Everett Millais
Todas as funções da alma estão perfeitas neste domingo.
O tempo inunda a sala, os quadros, a fruteira.
Não há um crédito desmedido de esperança.
Nem a verdade dos supremos desconsolos -
Simplesmente a tarde transparente,
Os vidros fáceis das horas preguiçosas,
Adolescência das cores, preciosas andorinhas.

Na tarde – lembro – uma árvore parada,
A alma caminhava para os montes,
Onde o verde das distâncias invencidas
Inventava o mistério de morrer pela beleza.
Domingo – lembro – era o instante das pausas,
O pouso dos tristes, o porto do insofrido.
Na tarde, uma valsa; na ponte, um trem de carga;
No mar, a desilusão dos que longe se buscaram;
No declive da encosta, onde a vista não vai,
Os laranjais de infindáveis doçuras geométricas;
Na alma, os azuis dos que se afastam,
O cristal intocado, a rosa que destoa.
Dos meus domingos sempre fiz um claustro.
As pétalas caíam no dorso das campinas,
A noite aclarava os sofrimentos,
As crianças nasciam, os mortos se esqueciam mortos,
Os ásperos se calavam, os suicidas se matavam.
Eu, prisioneiro, lia poemas nos parques,
Procurando palavras que espelhassem os domingos.
E uma esperança que não tenho.

Paulo Mendes Campos (1922-1991)

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Busco breves claridades

Sir John Everett Millais - The Huguenot
Busco breves claridades
o eterno apelo da luz
em sombras inexoráveis
de silenciosa ausência
sedenta de tuas fontes
na noite de horas fundas
que sangram predestinadas
aos sonhos agonizantes.

Tateando meus desejos
meus dedos contornam sóis
em tua presença-lembrança
extingue-se a madrugada
em jorro translúcido-orgástico
principia a claridade:
aljofarado de tuas mornas águas
perolizado à luz de gotas do teu sumo
o dia se faz sobre o meu corpo...

Maria Lucia N.Capozzi