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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Saudade

Josephine Wall
Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos,
já não se adoçará junto a ti a minha dor.

Mas para onde vá levarei o teu olhar
e para onde caminhes levarás a minha dor.

Fui teu, foste minha. O que mais? Juntos fizemos
uma curva na rota por onde o amor passou.

Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te ame,
daquele que corte na tua chácara o que semeei eu.

Vou-me embora. Estou triste: mas sempre estou triste.
Venho dos teus braços. Não sei para onde vou.

... Do teu coração me diz adeus uma criança.

E eu lhe digo adeus.

Pablo Neruda (1904-1973)

domingo, 24 de março de 2013

Amarílis

“Te trarei das montanhas flores alegres,
amarílis, avelãs escuras, e
cestas silvestres de beijos.
Quero fazer contigo,
o que faz a primavera às cerejeiras."

Pablo Neruda (1904-1973)

Amarílis é o nome de uma pastora que aparece na obra de Virgílio, e a palavra, de origem grega, significa “deslumbrante”. A espécie é chamada belladonna, “bela senhora”, em italiano. Na linguagem das flores, considera-se a amarílis altiva e também orgulhosa, talvez porque seja uma flor difícil de cultivar, mas que depois de vicejar ofusca todas as outras a seu redor.
Fonte: A linguagem das flores – Ed. Melhoramentos

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

No fundo do mar profundo

Sea Nymphs - Henri Pierre Picou
No fundo do mar profundo,
na noite de longas riscas,
como um cavalo cruza correndo
o teu calado calado nome.

Aloja-me em tuas costas, ai, refugia-me,
aparece-me no teu espelho, de repente,
sobre a folha solitária, noturna,
brotando do escuro, atrás de ti.

Flor de doce luz completa,
socorre-me a tua boca de beijos,
violenta de separações,
determinada e fina boca.

Afinal, no longe do longe,
de olvido a olvido residem comigo
os trilhos, o grito da chuva:
o que a escura noite preserva.

Acolhe-me na tarde de linho,
quando ao anoitecer trabalha
o seu vestuário e palpita no céu
uma estrela cheia de vento.

Chega-me a tua ausência até o fundo,
pesadamente, tapando-te os olhos,
cruza-me a tua existência, supondo
que o meu coração está destruído.

Pablo Neruda (1904-1973)
Tradução: Paulo Mendes Campos

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Década de 70 - Ditadura

Ex-companheiras de cela da presidente Dilma
Elas sorriem quando querem gritar.
Elas cantam quando querem chorar.
Elas choram quando estão felizes.
E riem quando estão nervosas.

Elas brigam por aquilo que acreditam.
Elas levantam-se para injustiça.
Elas não levam "não" como resposta quando
acreditam que existe melhor solução.

Elas andam sem novos sapatos para
suas crianças poder tê-los.
Elas vão ao medico com uma amiga assustada.
Elas amam incondicionalmente.

Elas choram quando suas crianças adoecem
e se alegram quando suas crianças ganham prêmios.
Elas ficam contentes quando ouvem sobre
um aniversario ou um novo casamento.

Pablo Neruda (1904-1973)

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O Poço

Paul Gauguin
Cais, às vezes, afundas
em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues
voltar, trazendo restos
do que achaste
pelas profunduras da tua existência.
Meu amor, o que encontras
em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,
rancorosa e ferida?
Não acharás, amor,
no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:
um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.
Não me temas, não caias
de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.
Radiosa me sorri
se minha boca fere.
Não sou um pastor doce
como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.
Dá-me amor, me sorri
e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres.

Pablo Neruda (1904-1973)

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Texto

Pablo Neruda
Sim, senhor, tudo o que queira, mas são as palavras as que cantam, as que sobem e baixam. Prosterno-me diante delas. Amo-as, uno-me a elas, persigo-as, mordo-as, derreto-as. Amo tanto as palavras. As inesperadas. As que avidamente a gente espera, espreita até que de repente caem. Vocábulos amados. Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, espuma, fio, metal, orvalho. Persigo algumas palavras. São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema. Agarro-as no voo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas. E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as. Deixo-as em meu poema como pedacinhos de pedra polida, como carvão, como restos de um naufrágio, presentes da onda. Tudo está na palavra. Uma ideia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que a obedeceu. Tem sombra, transparência, peso, plumas, pelos, têm tudo o que se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes. São antiquíssimas e recentíssimas. Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada. Que bom idioma o meu, que boa língua herdamos dos conquistadores torvos. Estes andavam a passos largos pelas tremendas cordilheiras, pelas Américas encrespadas, buscando batatas, butifarras, feijõezinhos, tabaco negro, ouro, milho, ovos, frutos, com aquele apetite voraz que nunca mais se viu no mundo. Tragavam tudo: religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais às que eles traziam em suas grandes bolsas. Por onde passavam a terra ficava arrasada. Mas caíam das botas dos bárbaros, das barbas, dos elmos, das ferraduras, como pedrinhas, as palavras luminosas que permaneceram aqui resplandecentes. O idioma. Saímos perdendo. Saímos ganhando. Levaram o ouro e nos deixaram o ouro. Levaram tudo. E nos deixaram tudo. Deixaram-nos as palavras.
Pablo Neruda (1904-1973)
♠ ♠ ♠

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Dentro da minha vida vou guardando o meu sonho

Dentro da minha vida vou guardando o meu sonho
em chuviscos sutis de amor e de veneno.

O abismo me fecunda e se desfaz o encanto,
com a Dor permaneço dolorido pensando.

(Era um canto dormido
em seda triste e branda,
adormeceu no estéril desencontro dos ventos
e a vida, estilhaçada como árvore deserta,
ficou.)

Oh! como doem, doem essas dores humildes.

Pablo Neruda