Mostrando postagens com marcador Daniel F. Gerhartz. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Daniel F. Gerhartz. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Dos Olhos do Não

Daniel F. Gerhartz

Se lhes derem Kennedy ou Kruschev ou De Gaulle
não acreditem nesta única realidade
neste implacável colar de conchas de ar

se lhes derem os códigos os gestos as modas
não acreditem nesta enlatada realidade
nesta implacável aranha de invisíveis fios

se lhes derem a esperança o progresso a palavra
não acreditem na imposta realidade
na implacável engrenagem das hélices de vácuo

aprendam a olhar atrás do espelho
onde a história jamais penetra
a profunda história do não registrado
aprendam a procurar debaixo da pedra
a história do sangue evaporado
a história do anônimo desastre
aprendam a perguntar
por quem construiu a cidade
por quem cunhou o dinheiro
por quem mastigou a pólvora do canhão
para que as sílabas das leis fossem cuspidas
sobre as cabeças desses condenados ao silêncio.

Afonso Henriques Neto

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Ano Novo

Daniel F. Gerhartz
As últimas horas que restam são de incrível exorcismo.
Os meninos curtem, sonolentos, brinquedos de Papai Noel,
mas as luas que me restam são roteiros irrecuperáveis.
Nem todos os sinos repicam ao mesmo tempo
e nem todos os seios amamentam com o mesmo leite.
Os pândegos comemoram à sua maneira,
e há sintomas de medo e espanto.
Jogo na cesta papéis sem memória
que os rios levam nas suas mesmas águas.
Meia-noite… Subo ao céu para beijar a estrela
porque já sou Ano-novo.
E ela nunca mais será a mesma rosa.

Wilson Frade (1920-2000)

sábado, 28 de agosto de 2010

Rosa Vermelha

Daniel F Gerhartz
A esposa do guerreiro está sentada à janela.
De coração aflito, borda uma rosa branca numa almofada de seda.
Picou-se no dedo! Seu sangue corre na rosa branca, que se torna vermelha.
Seu pensamento vai ter com seu amado, que está na guerra
e cujo sangue tinge, talvez, a neve de vermelho.
Ouve o galope de um cavalo... Chega, enfim, seu amado?
É apenas o coração que lhe salta com força no peito...
Curva-se mais sobre a almofada e borda com prata
as lágrimas que cercam a rosa vermelha.

Li Bai (701-762)
Tradução: Cecília Meireles