Mostrando postagens com marcador Paulo Mendes Campos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Paulo Mendes Campos. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Crônica

Bill Saunders
“...
Deitei-me na cama de novo enquanto os cavalos
dos poemas antigos traziam o Sol em atropelada
brilhante. Vi-os fortes e louros irromper pelo
céu onde tinha morrido de morte linda a aurora.
Abençoado seja o Sol.
Abençoado seja o dia.
Abençoado seja o descanso.
Abençoados sejam os pássaros diurnos e noturnos.
Abençoadas sejam as criaturas de todo o mundo.
Abençoado o fogo; a terra; o ar; a água.
Abençoada seja a aurora.
Que me perdoa de meus pecados.
...”

Paulo Mendes Campos (1922-1991)

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Cisne de Feltro

“O pecado é anterior à memória”.
Nelson Rodrigues
Kuzma Sergeevich Petrov-Vodkin
“No princípio do amor existe o fim do amor, como no princípio do mundo existe o fim do mundo. (...) No princípio do amor já é amor. Melancolia e perfeita é a praça com o seu quartel amarelo e o clarim sanguíneo do meio-dia. No princípio do amor a criatura já se esconde bloqueada na terra das canções. Navios pegam fogo no mar alto, defronte da cidade obtusa, precedida de um tempo que não é o nosso tempo. No princípio do amor, sem nome ainda, o amor busca os lábios da magnólia, a virgindade infatigável da rosa, onde repousa a criatura em torno da qual é, foi, será princípio do amor, prenúncio, premissa, promessura pressupora de amor. No princípio do amor a mulher abre a janela do parque enevoado, com seus globos de luz irreais, umidade, doçura, enquanto o homem - criatura ossuda, estranha - ri como um afogado no fundo de torrentes profundas, e deixa de rir subitamente, fitando nada”.
Paulo Mendes Campos (1922-1991)

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Canção romântica

Foto de Ingo Dumreicher
Sol voltou todo molhado,
Foi secar-se no jardim.
Um anjo pobre e honrado
É quem me guarda de mim.
Encalha o barco na tarde,
Meu coração não é porto.
Dentro da noite é que arde
Um coração absorto.
E vai chover muitas horas
Sobre dínamos cansados,
Geradores de auroras,
Geradores de auroras,
Dos poetas estragados.

Paulo Mendes Campos (1922-1991)

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Os domingos

Sir John Everett Millais
Todas as funções da alma estão perfeitas neste domingo.
O tempo inunda a sala, os quadros, a fruteira.
Não há um crédito desmedido de esperança.
Nem a verdade dos supremos desconsolos -
Simplesmente a tarde transparente,
Os vidros fáceis das horas preguiçosas,
Adolescência das cores, preciosas andorinhas.

Na tarde – lembro – uma árvore parada,
A alma caminhava para os montes,
Onde o verde das distâncias invencidas
Inventava o mistério de morrer pela beleza.
Domingo – lembro – era o instante das pausas,
O pouso dos tristes, o porto do insofrido.
Na tarde, uma valsa; na ponte, um trem de carga;
No mar, a desilusão dos que longe se buscaram;
No declive da encosta, onde a vista não vai,
Os laranjais de infindáveis doçuras geométricas;
Na alma, os azuis dos que se afastam,
O cristal intocado, a rosa que destoa.
Dos meus domingos sempre fiz um claustro.
As pétalas caíam no dorso das campinas,
A noite aclarava os sofrimentos,
As crianças nasciam, os mortos se esqueciam mortos,
Os ásperos se calavam, os suicidas se matavam.
Eu, prisioneiro, lia poemas nos parques,
Procurando palavras que espelhassem os domingos.
E uma esperança que não tenho.

Paulo Mendes Campos (1922-1991)

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Há um tempo...

Há um tempo para o peixe
e um tempo para o pássaro.
E dentro e fora do homem,
um tempo eterno de solidão.

Paulo Mendes Campos (1922-1991)