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sábado, 30 de agosto de 2014

Felicidade

Lasar Segall - "Mário de Andrade na rede"
“És precária e veloz.
Felicidade.
Custas a vir e quando vens,
não te demoras.
Foste tu
que ensinaste aos homens
que havia tempo
e, para te medir,
se inventaram as horas”?

Cecília Meireles (1901-1964)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Canção da flor da pimenta

Johan Swanepoel
A flor da pimenta é uma pequena estrela,
fina e branca,
a flor da pimenta.

Frutinhas de fogo vêm depois da festa das estrelas.
Frutinhas de fogo.

Uns coraçõezinhos roxos, áureos, rubros, muito ardentes.
Uns coraçõezinhos.

E as pequenas flores tão sem firmamento jazem longe.
As pequenas flores...

Mudaram-se em farpas, sementes de fogo tão pungentes!
Mudaram-se em farpas.

Novas se abrirão, leves, brancas, puras, deste fogo,
muitas estrelinhas...

Cecília Meireles (1901-1964)

terça-feira, 24 de julho de 2012

O menino quer um burrinho

O menino quer um burrinho
para passear.
Um burrinho manso,
que não corra nem pule,
mas que saiba conversar.

O menino quer um burrinho
que saiba dizer
o nome dos rios,
das montanhas, das flores,
— de tudo o que aparecer.

O menino quer um burrinho
que saiba inventar histórias bonitas
com pessoas e bichos
e com barquinhos no mar.

E os dois sairão pelo mundo
que é como um jardim
apenas mais largo
e talvez mais comprido
e que não tenha fim.

(Quem souber de um burrinho desses,
pode escrever
para a Ruas das Casas,
Número das Portas,
ao Menino Azul que não sabe ler.)

Cecília Meireles (1901-1964)

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Do livro: Olhinhos de gato

Foto de Marc Ferrez
“O mascate batia com dois paus na mão. Dizia brandamente: "E-renda de linho!" e logo se via tremer no ar colorido o fio trêmulo das rendas esforçando-se em arabescos. Mas o dizer ainda não era nada. Trazia às costas, uns sobre os outros, vários baús azuis, com flores cor-de-rosa.
E punha-se a abri-los, pelas portas. Havia "sapanetes" em caixas excessivamente cheirosas, fitas brilhantes, de todas as cores, alfinetes com cabeça de vidro azul, em forma de passarinho; gaitas, assovios, falutas de lata lustrosa, tão lustrosa como o próprio som que desprendiam, e que fazia aparecer todos os garotos da rua”.
Cecília Meireles (1901-1964)
Do livro: Olhinhos de gato - Editora Moderna

quinta-feira, 29 de março de 2012

Vento

Beatrix Potter - Peter Rabbit

“O vento é sempre o mesmo,
mas sua resposta é diferente em cada folha.
Somente a árvore seca
fica imóvel entre borboletas e pássaros”.

Cecília Meireles (1901-1964)

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Espelho

Stephen Gjertson

Venho do Sono,
desse fluido país
do pensamento visível,
dos endereços divinos,
dos nomes de amor,
das gloriosas ressurreições.
Venho do Sono.
Aí! distâncias profundas…
E olho-me ao espelho.

Cecília Meireles (1901-1964)

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Sabiá III

E é de novo madrugada,
Sabiá.
Semana sobre semana,
tu, que cantas, serás sempre
o mesmo que ouço, encantada?
Sabiá,
recolho todos os ais
da tua voz sobre-humana,
- mas não sei por onde vais!

E não sei, pois não te avisto,
Sabiá,
Mas, embora te avistasse,
não te reconheceria.
E eu, quem sou? por onde existo?
Sabiá,
não se encontrarão jamais
tua voz, e minha face,
quase sobrenaturais...

Por quantos remotos dias,
Sabiá,
nossos vagos descendentes
repetirão este jogo,
com suas alegorias?
Sabiá,
de que servem tais sinais?
Que anúncios clarividentes
podem ter vozes mortais?

Cecília Meireles (1901-1964)

domingo, 24 de abril de 2011

‘Figurinhas’

Janice Friend
Onde está meu quintal
amarelo e encarnado,
com meninos brincando
de chicote-queimado,
com cigarras nos troncos
e formigas no chão,
e muitas conchas brancas
dentro da minha mão?

E Júlia e Maria
e Amélia onde estão?

Onde está meu anel
e o banquinho quadrado
e o sabiá na mangueira
e o gato no telhado?

- a moringa de barro,
e o cheiro do alvo pão?
E a tua voz, Pedrina,
sobre meu coração?
Em que altos balanços
se balançarão?...

Cecília Meireles (1901-1964)

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

As Valsas

Jack Vettriano
Como se desfazem as valsas
por longos pianos aéreos
que a noite envolve em suas chuvas!
Que ternura nas nossas pálpebras,
pelo exílio suave dos gestos
e dos perfis de antigas músicas!

Os marfins opacos recordam,
com uma graça desiludida,
a aura da morta formosura.
Gente de sonho, sem memória,
entrelaçada, conduzida
por salões de esperança e dúvida.

E eram tão leves, nessas valsas!
E levavam lágrimas entre
seus colares e suas luvas!
E falavam de suas mágoas,
valsando, e delicadamente,
com a voz presa e as pestanas úmidas!

Ah, tão longe, tão longe, as salas...
Levados os lustres e as vidas,
o amor triste, a humilde loucura...
Ficaram apenas as valsas,
girando cegas e sozinhas,
sem os habitantes da música!

Cecília Meireles (1901-1964)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Coração de Pedra

Angelica Linnhoff

Oh, quanto me pesa
este coração, que é de pedra!
Este coração que era de asas
de música e tempo de lágrimas.

Mas agora é sílex e quebra
qualquer dura ponta de seta.

Oh, como não me alegra
ter este coração de pedra!

Dizei por que assim me fizestes,
vós todos a quem amaria,
mas não amarei, pois sois estes
que assim me deixastes, amarga,
sem asas, sem música e lágrimas,
assombrada, triste e severa
e com meu coração de pedra!

Oh, quanto me pesa
ver meu próprio amor que se quebra!
O amor que era mais forte e voava
mais que qualquer seta!

Cecília Meireles (1901-1964)

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Pus o meu sonho num navio

Carl Gustav Rodde
Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Cecília Meireles (1901-1964)

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Ribeira da minha vida

Joel Santos - Pescador de Sonhos
Ribeira da minha vida
por onde agora andarão
meus barcos de ausência e bruma,
com sua tripulação!

Pergunto se estão de volta,
pergunto se ainda se vão.
Ribeira dos meus cuidados,
minha voz é solidão.

Ribeira da minha vida,
por que sinto o coração
morrer-me nestas areias
de antiga recordação?

Hei de ser o mar e o vento,
e a noite, e a constelação,
- ribeira dos meus cuidados! -
e a própria navegação.

Ribeira da minha vida,
hei de mudar de aflição:
não mais despedida ou espera,
mas naufrágio ou salvação.

Cecília Meireles (1901-1964)

domingo, 26 de setembro de 2010

De que são feitos os dias?

- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.
Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos,
vagas felicidades,
inatuais esperanças.
De loucuras,de crimes,
de pecados, de glórias,
- Do mundo que encadeia
todas essas mudanças.
Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
- Em duros desenlaces
e em sinistras alianças.

Cecília Meireles (1901-1964)

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Noite

Roberto Weigand

Úmido gosto de terra,
cheiro de pedra lavada
— tempo inseguro do tempo! —
sombra do flanco da serra,
nua e fria, sem mais nada.
Brilho de areias pisadas,
sabor de folhas mordidas,

— lábio da voz sem ventura! —
suspiro das madrugadas
sem coisas acontecidas.
A noite abria a frescura
dos campos todos molhados,

— sozinha, com o seu perfume! —
preparando a flor mais pura
com ares de todos os lados.
Bem que a vida estava quieta.
Mas passava o pensamento...
— de onde vinha aquela música?
E era uma nuvem repleta,
entre as estrelas e o vento.

Cecília Meireles (1901-1964)

sábado, 19 de junho de 2010

Luar póstumo

Numa noite de lua escreverei palavras,
simples palavras tão certas
que hão de voar para longe, com asas súbitas,
e pousar nessas torres das mudas vidas inquietas.

O luar que esteve nos meus olhos, uma noite,
nascerá de novo no mundo.
Outra vez brilhará, livre de nuvens e telhados,
livre de pálpebras, e num país sem muros.

Por esse luar formado em minhas mãos, e eterno,
é doce caminhar, viver o que se vive.
Porque a noite é tão grande... Ah, quem faz tanta noite?
E estar próximo é tão impossível!

Cecília Meireles (1901-1964)

terça-feira, 16 de março de 2010

Tudo está no seu lugar

Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

Cecília Meireles (1901-1964)

sexta-feira, 5 de março de 2010

Palavras

Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência a vossa!
Ai, palavras, ai, palavras,
sois de vento, ides no vento,
no vento que não retorna,
e, em tão rápida existência,
tudo se forma e transforma!

C ecília Meireles (1901-1964)

terça-feira, 2 de março de 2010

Ah! Ah! – pois o A

Ah! Ah! – pois o A, com a cartolina bicuda,
Parece o chefe do batalhão.
Para na frente de todas as letras
E grita:
A... A... A... A... Atenção ! Atenção ! – que digo: Acorda, menino,
Vamos ser
Alegre, vamos ser Ativo,
Eu te dou o
Ar pra respiração,
Eu te dou a
Água, eu te dou as Árvores
E todas as belas
Frutas
Amarelas,
Trago-te

A
petite e
A
limentação !
Venho dançando na frente do

A
lmoço,
Carregando
Alface tão fina e tão fresca
Que todos me pedem: “Quero uma porção!”
Ai,
A
i, como não ?
E os raminhos de

A
ipo que estão deste lado!
E estas folhinhas verdes de

A
grião ?
Quem é que ainda não sabia quem eu fosse?
-Sou o
A do Arroz-doce!
Quem provou, gostou, nunca mais me deixa:
-Sou o
A da Ameixa !
Não me puxe assim! Veja lá, não me mate!
-Sou o
A de Abacate !
Eu já volto já,
Trazendo
Araçá !
Eu já volto aqui:
Vou buscar
Abacaxi!
Cecília Meireles (1901-1964)