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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Soneto do impossível

Heilige Schutzengel
Não ouvirás nem luz, nem sombra inquieta
das sílabas que beijam tuas asas,
nem a curva em que morre a ardente seta,
nem tanta eternidade em horas rasas.

Não medirás a bêbeda corola
que abriste no final do meu sorriso,
nem tocarás o mel que canta e rola
na insônia sem estradas onde piso.

Não saberás o céu construído a fogo,
que tua jovem chave cerra e empana,
nem os braços de espuma em que me afogo.

Não verão os teu olhos quotidiana
a minha morte de homem embebida
no flanco de ouro e luar da tua vida.

Abgar Renault (1901-1995)

domingo, 22 de julho de 2012

Branca noite de luar

Mal o dia se esgueira
e foge entre as árvores do crepúsculo,
insinuam-se os seus finais
entre as dúvidas do nascer da noite.

Para o rio e sua viagem.
Cessam as águas a sua voz.
Cantos de pássaros interrompem-se
e tombam nos ouvidos da solidão.

Póstumos bois adormecem no relvado as suas sombras,
e um gesto final do ocaso conduz a ovelha derradeira.

Entre os rebanhos recolhidos recolheu-se a tarde
e, enquanto as distâncias se estiram brancamente,
lúcido vinho vai a terra embebedando:
o chão é claro sonho e firmamento.

Verte o céu a sua azul antiguidade
sobre as formas, as ausências e os corações dos homens,
e a lua vai abrindo em leve solo nas alturas
imaginativas ruas de silêncio, de outrora,
de alva tristeza e amoroso pensamento.

Abgar Renault (1901-1995)

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Frio dia de chuva

E sou o mesmo que saí.
Volto e me vejo como me vi.
Nada de novo me aconteceu.
Eu sou irremediavelmente um só: eu,
eu da cabeça aos pés.

Mas não trouxe o que fora comigo:
alguma coisa me ficou perdida
nas ruas, nos passeios, nos cafés,
e estou ausente, molhado, amigo e inimigo,
entre mulheres, vagabundos, crianças,
o frio, a chuva desta vida.

Abgar Renault (1901-1995)

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

7 (sete)

Guilherme de Faria
Este poema exigiu 7 folhas de papel.
Para escrevê-lo já fumei raivosamente 7 cigarros
e rasguei-o 7 vezes.
7 é um mau número: é o número 13 da minha vida.
Segundo várias aritméticas, não é divisível por 2,
e eu tenho horror a todos os números (e a todas as coisas)
não divisíveis por 2.
Sexta-feira, 7...
Isto hoje não acaba bem...
Vai a chuva ficar chovendo para sempre.
O meu relógio vai continuar disparado,
marcando horas inexistentes.
Ah se os ponteiros andassem para trás!
Ah se ao menos a chuva chovesse para cima
e eu fizesse destes nulos versos
uma folha noturna e molhada!

Abgar Renault (1901-1995)