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sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Todos talentos de Deus estão dentro de você

Georg Friedrich Kersting

Como poderia ser diferente,
uma vez que sua alma
derivou dos genes Dele!

Eu amo esta expressão:
“Todos os talentos de Deus estão dentro de você.”

Às vezes Hafiz não consegue fazer nada senão aplaudir
Certas palavras que surgem de minhas profundezas
como a fragrância do corpo de uma amante.

Segure este livro perto do seu coração
pois ele contém segredos maravilhosos.

Hafez de Xiraz (1315-1390)
Tradução: Nicolas Voss

domingo, 13 de setembro de 2015

O Adjetivo

Sally Rosenbaum

O adjetivo? Que horror
quando não é incisivo
quando atira para o vago
o pobre substantivo
ou o circunda de um halo
de um falso resplendor,
em que o ouro utilizado
não é ouro é só dourado!

O sol assim captado
é sol, mas sol de teatro,
ouro em falsete, luz barata,
e no prego não dá nada,

que o prego não acredita
(senão já estava falido)
nesse ouro sem quilate
que usam a valdevina

e o poeta que se orna
(que orneia, melhor diria)
de luzidias mentiras,
de poética poesia.

Disse pouco do que queria
na parte que antecede.
Se é discursiva, a poesia
também não serve...

Voltando ao adjetivo
(nada tenho contra ele):
é melhor ficar despido,
cosido com a própria pele,

do que pedir emprestada
a piedosos enchumaços
aquela largura de ombros
que nos faz ginasticados,

quando, em verdade, não temos
mais ginástica do que essa
em que somos atletas
e que se resume apenas

no aguentar alegre
do peso quotidiano
(pode ser que para o ano
a terra nos seja leve).

Tal como do mal o menos
- e nesta regra redijo-
antes quero sóbrios termos
do que fingir que sou rico...

Alexandre O'Neill (1924-1986)

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Dos Olhos do Não

Daniel F. Gerhartz

Se lhes derem Kennedy ou Kruschev ou De Gaulle
não acreditem nesta única realidade
neste implacável colar de conchas de ar

se lhes derem os códigos os gestos as modas
não acreditem nesta enlatada realidade
nesta implacável aranha de invisíveis fios

se lhes derem a esperança o progresso a palavra
não acreditem na imposta realidade
na implacável engrenagem das hélices de vácuo

aprendam a olhar atrás do espelho
onde a história jamais penetra
a profunda história do não registrado
aprendam a procurar debaixo da pedra
a história do sangue evaporado
a história do anônimo desastre
aprendam a perguntar
por quem construiu a cidade
por quem cunhou o dinheiro
por quem mastigou a pólvora do canhão
para que as sílabas das leis fossem cuspidas
sobre as cabeças desses condenados ao silêncio.

Afonso Henriques Neto

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

A Poesia

John Atkinson Grimshaw
A poesia se escreve no silêncio de um quarto vazio
- um parque vazio de estrelas espelhos e sombras,
gruta de beijos-cascatas e sabiás brejeiros que por
ali não passam, mas despejam seu aroma, seu sabor
em algum canto do Universo – e um bilhete na mão.

A poesia se inscreve num olhar de mulher nesse quarto,
a mesma noite de frio – ou no calor de um verão invencível
em que o poeta não se derreta jamais em si mesmo…

A poesia eu não escrevo, eu muito,
o manto desta verdade arde em meus olhos vivos,
tuas lágrimas sem conta, o luar mais triste sobre a canção
feita pra ti, por mim, por todos nós que somos um – e teu,
pra sempre teu.

Pedro Lage

domingo, 9 de agosto de 2015

Um Sonho

Van Gohg - The siesta
Na messe, que enlourece, estremece a quermesse...
O sol, o celestial girassol, esmorece...
E as cantilenas de serenos sons amenos
Fogem fluidas, fluindo à fina flor dos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crótalos,
Cítolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Flor! enquanto na messe estremece a quermesse
E o sol, o celestial girassol, esmorece,
Deixemos estes sons tão serenos e amenos,
Fujamos, Flor! à flor destes floridos fenos...

Soam vesperais as Vêsperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...
Como aqui se está bem! Além freme a quermesse...
– Não sentes um gemer dolente que esmorece?
São os amantes delirantes que em amenos
Beijos se beijam, Flor! à flor dos frescos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Cítolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Esmaece na messe o rumor da quermesse...
– Não ouves este ai que esmaece e esmorece?
É um noivo a quem fugiu a Flor de olhos amenos,
E chora a sua morta, absorto, a flor dos fenos...

Soam vesperais as Vêsperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...

Penumbra de veludo. Esmorece a quermesse...
Sob o meu braço lasso o meu Lírio esmorece...
Beijo-lhe os boreais belos lábios amenos,
Beijo que freme e foge à flor dos flóreos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros... Cornamusas e crótalos,
Cítolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Teus lábios de cinábrio, entreabre-os! Da quermesse
O rumor amolece, esmaece, esmorece...
Dá-me que eu beije os teus morenos e amenos
Peitos! Rolemos, Flor! à flor dos flóreos fenos...

Soam vesperais as Vêsperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...

Ah! não resistas mais a meus ais! Da quermesse
O atroador clangor, o rumor esmorece...
Rolemos, ó morena! em contatos amenos!
– Vibram três tiros à florida flor dos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crótalos,
Citolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Três da manhã. Desperto incerto... E essa quermesse?
E a Flor que sonho? e o sonho? Ah! tudo isso esmorece!
No meu quarto uma luz luz com lumes amenos,
Chora o vento lá fora, à flor dos flóreos fenos...

Eugénio de Castro (1869-1944)

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Sete anos de Pastor

Louis Gauffier - Jacó com as filhas de Labão
Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assim negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida;

começa de servir outros sete anos,
dizendo: — Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida.

Luís Vaz de Camões (1524-1589)

terça-feira, 21 de julho de 2015

O Amor e o Amante

Representação em miniatura de Mevlevi Rumi
O sol só pode ser visto pela própria luz do sol.
Quanto mais uma pessoa sabe, maior a perplexidade,
quanto mais perto o sol, maior o deslumbramento.
Até que um ponto é atingido onde a pessoa já não é.

Um místico sabe sem conhecimento, sem intuição
ou informação, sem contemplação, descrição ou revelação.
Os Místicos não são eles mesmos.
Eles não existem em si mesmos.
Eles se movem conforme são movidos,
falam conforme as palavras surgem,
veem com as cenas que entram em seus olhos.

Certa vez conheci uma mulher e perguntei-lhe
onde o amor a tinha levado. Ela respondeu:

“Tolo, não há destino para se chegar.
O amado, o amante e amor são infinitos.”

Farid ud-Din Attar (1145-1220)
Poeta sufi persa

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Ingratos

Jean-Baptiste Greuze
Não maldigo o rigor da iníqua sorte,
Por mais atroz que fosse e sem piedade,
Arrancando-me o trono e a majestade,
Quando a dois passos só estou da morte.

Do jogo das paixões minha alma forte
Conhece bem a estulta variedade,
Que hoje nos dá contínua felicidade
E amanhã nem — um bem que nos conforte.

Mas a dor que excrucia
¹ e que maltrata,
A dor cruel que o ânimo deplora,
Que fere o coração e pronto mata,

É ver na mão cuspir a extrema hora
A mesma boca aduladora e ingrata,
Que tantos beijos nela pôs — outrora.

Dom Pedro II (1825-1891)
¹= Provocar uma aflição imensa.

terça-feira, 28 de abril de 2015

A Arrumação

Alphonse Mucha
Construir uma casa é como pôr ordem no mundo
arrumo tijolo ele fica onde eu ponho
sou eu que escolho o tijolo eu que assento a massa
se pudesse também que tudo eu pudesse arrumar
não ficava com essa apertação na alma não moço
eu arrumava o mundo que Deus me perdoe
até melhor que ele.

Vera Lúcia de Oliveira

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Anima

Sonya Grassmann

Os homens não me entenderam
me quiseram freira ou prostituta
me esteriotiparam
nunca me aceitaram
no que sou de santa e puta.

Só fizeram mesmo foi trair
os homens que não entenderam o amor
que abre o coração
junto com as pernas.

Escrevo com o meu corpo
sobre este veneno de cobra
que os homens me impuseram.
Pois os amei, os homens
que me sujaram
e me aborreceram
com suas gravatas,
e suas bravatas.
Igual a meu pai, que me batia
com o cinturão de soldado,
e me fez civil
pra sempre.

Yêda Schmaltz (1941-2003)

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Prelúdios

William Henry Margetson

Por que em tua face angélica,
Meiga donzela formosa,
A cor purpúrea da rosa
Foi gratamente pairar
Quando outro dia eu em dúvida
Junto de ti quase a medo
Fui de minh’alma um segredo
Em segredo te falar?

Com sorriso terno e cândido,
No seio a fronte pendida,
Dizes não saber, querida,
Porque mudas-te de cor;
Pois eu sei: — mimosa, ingênua,
Tu coraste, feiticeira,
Por essa a vez primeira
Que ouvias falar d’ amor.

Dize agora: se os meus lábios
Abrasados de desejos
Aos teus furtarem mil beijos
Hás de corar como então?…
Ai, não respondes; mas, lânguidos,
Dizem teus olhos brejeiros
Que hás de corar…aos primeiros:
Mas aos segundos — já não…

J. Dantas de Sousa

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Desafio Orquestral...

Philip Hermogenes Calderon
Versos que eu faço
São sem espinhos:
Para crianças
E passarinhos.
Destes persigo
A competência,
Quero daquelas
Graça e indulgência.

Que perto deles
Logo te ancores:
Não são proibidos
Para maiores...

Que neles haja
Sabor de cantos
E em todos cause
Prazer e encantos.
Que eu faço versos
Mas sem espinhos,
Com partituras
Pros passarinhos...
Antônio Lázaro de Almeida Prado

sexta-feira, 25 de maio de 2012

A Chama crepita

Georges de La Tour

A chama crepita
ardência ou olho assolador
fiapo que escapou
das mãos de Deus
antes de ter sido modelado
antes de ter recebido
pendor à introspecção
e à síntese.

Vera Lúcia de Oliveira

domingo, 27 de novembro de 2011

Poesia

“… nos olhos me levais alma e sentidos…”
Luís de Camões
Richard Franklin - Adonis' Dream
“Dois livros, três pinturas, quatro flores”,
pedia Lopes para ser feliz:
Não falou de riquezas nem de amores.
Esse pouco de pobre - não mais - quis.

Castos delírios de espanhol asceta...
Passaram quatro séculos, e um dia
Gabriel Celaya, também grande poeta,
jurou por Deus que nada mais queria.

Temos, porém, pai, mestre e capitão,
no soldado fortíssimo, que disse
a uns olhos entregar alma e sentidos.

De coisa alguma havemos precisão.
Livros, quadros e flores, que doidice!
Basta-nos ser de um só Amor providos.

Odylo Costa Filho (1914-1979)

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Perplexidade

Toulouse-Lautrec - La Toilette
“Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais me espantar
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos”.

Luís Vaz de Camões (1524-1589)

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O dia múltiplo

Bruno Morandi - Pêcheur sur le lac Inle
Dia galopante e parado,
dia passado três dias antes,
brilhante, ofuscado oásis,
deserto desejado, completo
dia-quase. Tumulto e feriado.
Hoje foi escancarado:
todo o dia estive oculto.
É dia de gandaia e pausa
e aplauso, mas o dia me vaia.
O dia é um presídio libertário;
de aniversário e suicídio
é feito o dia.

Jorge Emil

Elogio do esforço

Vale a pena tornar tudo tortuoso, adornar
com folhas de chumbo a cabeça confusa
e fazer a volta que serpenteia e se afasta
do atalho que chama, cheio de grama.

Se podemos nos bifurcar em dúvidas, errar
o alvo próximo e acertar o inocente difuso na lonjura;
se a discussão, além de inútil, pode ser interminável
quando as partes simplesmente não se escutam.

Tudo é tão fácil! O difícil sou eu que faço —
o máximo cansaço já no início do caminho.

Jorge Emil

domingo, 30 de outubro de 2011

Passado, Presente e Futuro


As Horas cismam no ar parado:
— Passado.

As Horas bailam no ar fremente:
— Presente.

As Horas sonham no ar obscuro:
— Futuro.

Da Costa e Silva (1885-1950)

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Poesia

“A poesia nos dá aquilo que a natureza nos nega:
→ uma idade de ouro que não envelhece,
→ uma primavera que não murcha,
→ uma ventura sem nuvens, e
→ uma juventude eterna”.
Ludwig Boerne

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Camões

Photography by Kirsty Mitchell
“Tenho-me persuadido
Por razão conveniente
que não posso ser contente
pois que pude ser nascido.
Anda sempre tão unido
o meu tormento comigo
que eu mesmo sou meu perigo.”

Luís Vaz de Camões (1524-1589)