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sexta-feira, 17 de maio de 2013

Tarde de Maio

Camille Pissarro
Como esses primitivos que carregam por toda parte o
maxilar inferior de seus mortos,
assim te levo comigo, tarde de maio,
quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra,
outra chama, não perceptível, tão mais devastadora,
surdamente lavrava sob meus traços cômicos,
e uma a uma, dejeta membra, deixava ainda palpitantes
e condenadas, no solo ardente, porções de Minh’ alma
nunca antes nem nunca mais aferidas em sua nobreza
sem fruto.

Mas os primitivos imploram à relíquia saúde e chuva,
colheita, fim do inimigo, não sei que portentos.
Eu nada te peço a ti, tarde de maio,
senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível,
sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de
converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém
que, precisamente, volve o rosto e passa...
Outono é a estação em que ocorrem tais crises,
e em maio, tantas vezes, morremos.
Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera,
já então espectrais sob o aveludado da casca,
trazendo na sombra a aderência das resinas fúnebres
com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro
fúnebre, tarde de maio, em que desaparecemos,
sem que ninguém, o amor inclusive, pusesse reparo.
E os que o vissem não saberiam dizer: se era um préstito
lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco.
Nem houve testemunha.

Nunca há testemunhas. Há desatentos. Curiosos, muitos.
Quem reconhece o drama, quando se precipita, sem máscara?
Se morro de amor, todos o ignoram
e negam. O próprio amor se desconhece e maltrata.
O próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados;
não está certo de ser amor, há tanto lavou a memória
das impurezas de barro e folha em que repousava. E resta,
perdida no ar, por que melhor se conserve,
uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Apontamentos

Jane Small
O deslizante cisne destas águas
nem simbolista nem parnasiano;
a tartaruga em si mesma trancada;
as rêmiges de fogo no viveiro;
o cris da areia em solas transeuntes;
o guarda que de inerte se assemelha
às árvores, e árvore é com sua farda;
o macaco brincando de ser gente;
a foto de jornal sobre o canteiro;
essa flor que nasceu sem dar aviso
nos ferros rendilhados do gradil;
a caixa envidraçada de empadinhas
e cocadas baianas logo à entrada;
o ver, em si, como ato de viver;
o perder-se e encontrar-se nas aléias,
no entrelaçar de curvas sombreadas,
de onde espero surgir alguma ninfa
sem que surja nenhuma (e continuo
procurando a metáfora do sonho);
o barquinho alugado por sessenta
minutos, e o perfume, que é gratuito,
de resinosos troncos tutelares
desta gentil paisagem recolhida;
uma cantiga - ó minha Carabu...
entoada à distância e logo extinta;
o torpor que a meu ser eis se afeiçoa
na vontade de relva, de reflexo,
de sopro, de sussurro me tornar;
a ausência de relógio e de colégio,
de obrigação, de ação, de tudo vão.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Um boi vê os homens

Anita Malfatti
Tão delicados (mais que um arbusto) e correm
e correm de um para o outro lado,
sempre esquecidos de alguma coisa.

Certamente falta-lhes não sei que atributo essencial,
posto se apresentem nobres e graves, por vezes.
Ah, espantosamente graves, até sinistros.

Coitados, dir-se-ia que não escutam
nem o canto do ar nem os segredos do feno,
como também parecem não enxergar
o que é visível e comum a cada um de nós, no espaço.

E ficam tristes e no rasto da tristeza chegam à crueldade.
Toda a expressão deles mora nos olhos –
e perde-se a um simples baixar de cílios, a uma sombra.

Nada nos pelos, nos extremos de inconcebível fragilidade,
e como neles há pouca montanha, e que secura
e que reentrâncias e que impossibilidade
de se organizarem em formas calmas, permanentes e necessárias.

Têm, talvez, certa graça melancólica (um minuto)
e com isto se fazem perdoar a agitação incômoda
e o translúcido vazio interior que os torna tão pobres
e carecidos de emitir sons absurdos e agônicos:
desejo, amor, ciúme(que sabemos nós),
sons que se despedaçam e tombam no campo
como pedras aflitas e queimam a erva e a água,
e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O que fizeram do Natal

Natal
O sino toca fino.
Não tem neves, não tem gelos.
Natal.
Já nasceu o deus menino.
As beatas foram ver,
Encontraram o coitadinho
(Natal)
mais o boi mais o burrinho
e lá em cima
a estrelinha alumiando.
Natal.

As beatas ajoelharam
e adoraram o deus nuzinho
mas as filhas das beatas
e os namorados das filhas
foram dançar black-bottom
nos clubes sem presépio.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

sábado, 19 de novembro de 2011

Conclusão

Salvador Dali
Os impactos de amor não são poesia
(tentaram ser: aspiração noturna).
A memória infantil e o outono pobre
vazam no verso de nossa urna diurna.

Que é poesia, o belo? Não é poesia,
e o que não e poesia não tem fala.
Nem o mistério em si nem velhos nomes
poesia são: coxa, fúria, cabala.

Então, desanimamos. Adeus, tudo!
A mala pronta, o corpo desprendido
resta a alegria de estar só, e mudo.

De que se formam nossos poemas? Onde?
Que sonho envenenado lhes responde,
se o poeta é um ressentido, e o mais são nuvens?

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

terça-feira, 11 de outubro de 2011

↷ Cantiguinha

Josephine Wall
Era um brinquedo maria
era uma estória maria
era uma nuvem maria
era uma graça maria
era um bocado maria
era um mar de amor maria
era uma vez era um dia
maria.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

↷ A Rosa

Marie-François Firmin-Girard
A rosa é um jardim
concentrado
um clarim
de cor, anunciando
a alvorada fogosa
e o tempo iluminado.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

No pequeno museu sentimental

Heide Presse
No pequeno museu sentimental
os fios de cabelo religados
por laços mínimos de fita
são tudo que dos montes hoje resta,
visitados por mim, montes de Vênus.

Apalpo, acaricio a flora negra,
e negra continua, nesse branco
total do tempo extinto
em que eu, pastor felante, apascentava
caracóis perfumados, anéis negros,
cobrinhas passionais, junto do espelho
que com elas rimava, num clarão.

Os movimentos vivos no pretérito
enroscam-se nos fios que me falam
de perdidos arquejos renascentes
em beijos que da boca deslizavam
para o abismo de flores e resinas.

Vou beijando a memória desses beijos.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A pobreza do eu

A pobreza do eu
a opulência do mundo

A opulência do eu
a pobreza do mundo

A pobreza de tudo
a opulência de tudo

A incerteza de tudo
na certeza de nada.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
∧ ∴ ∧

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

↷ A Hora do Cansaço

As coisas que amamos,
as pessoas que amamos,
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.
Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra maneira se tornam absolutas,
numa outra (maior) realidade.
Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nos cansamos, por um outro itinerário
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis...
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.
Do sonho eterno fica esse gozo acre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Rosa

Rosa
e todas as rimas
Rosa
e os perfumes todos
Rosa
no florindo espelho
Rosa
na brancura branca
Rosa
no carmim da hora
Rosa
no brinco e pulseira
Rosa
no deslumbramento
Rosa
no distanciamento
Rosa
no que não foi escrito
Rosa
no que deixou de ser dito
Rosa
pétala a pétala
despetalirosada.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

↷ Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida

Kim Anderson
Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida.
Difícil é entender que pouquíssimas delas
vão te aceitar com és e, te fazer feliz por inteiro.
Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefônica.
Difícil é ocupar o coração de alguém.
saber que se é realmente amado.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

domingo, 1 de agosto de 2010

↷ O maior trem do mundo

O maior trem do mundo
Leva minha terra
Para a Alemanha
Leva minha terra
Para o Canadá
Leva minha terra
Para o Japão

O maior trem do mundo
Puxado por cinco locomotivas a óleo diesel
Engatadas geminadas desembestadas
Leva meu tempo, minha infância, minha vida
Triturada em 163 vagões de minério e destruição
O maior trem do mundo
Transporta a coisa mínima do mundo
Meu coração itabirano

Lá vai o trem maior do mundo
Vai serpenteando, vai sumindo
E um dia, eu sei não voltará
Pois nem terra nem coração existem mais.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
(Publicado em 1984 – Jornal “O Cometa Itabirano”)

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Furtei uma flor daquele jardim

Furtei uma flor daquele jardim.
O porteiro do edifício cochilava,
e eu furtei a flor.
Trouxe-a para casa e coloquei-a no copo com água.
Logo senti que ela não estava feliz.
O copo destina-se a beber, e a flor não é para ser bebida.
Passei-a para o vaso, e notei que ela me agradecia,
revelando melhor sua delicada composição.
Quantas novidades há numa flor, se a contemplarmos bem.
Sendo autor do furto, eu assumira a obrigação de conservá-la.
Renovei a água do vaso, mas a flor empalidecia.
Temi por sua vida.
Não adiantava restituí-la ao jardim.
Nem apelar para o médico de flores.
Eu a furtara, eu a via morrer.
Já murcha, e com a cor particular da morte, peguei-a docemente e fui
depositá-la no jardim onde desabrochara.
O porteiro estava atento e repreendeu-me:
– Que ideia a sua, vir jogar lixo de sua casa neste jardim!

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

segunda-feira, 3 de maio de 2010

↷ Os Ombros Suportam o Mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
[...]
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

↷ Amor incestuoso

Carlos Drummond de Andrade, a esposa Dolores e a filha Maria Julieta


Drummond nutria um amor incestuoso
pela filha Maria Julieta
Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira, 31 de outubro de 1902. Formou-se em farmácia, mas nunca exerceu a profissão, pois se dedicou ao jornalismo e ingressou no funcionalismo público, que lhe garantiu a sobrevivência.
⇒ Em 1920 conheceu Dolores Dutra de Moraes num cinema em Belo Horizonte. Casaram-se em 1925.
⇒ Neste mesmo ano com Emílio Moura e outros companheiros, fundou "A Revista", para divulgar o modernismo no Brasil.
⇒ Em 1928 nasce Maria Julieta Drummond de Andrade.
⇒ Em 1934, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde foi chefe de gabinete de Gustavo Capanema, ministro da Educação, até 1945. Passou depois a trabalhar no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
Ali em 1951, conheceu Lygia Fernandes que era bibliotecária e tinha 22 anos ele 49. Ela tomava o café e passava a limpo na máquina os textos manuscritos dele. Começa então um relacionamento que durou até a sua morte em 1987 apesar dele ser casado.
Dolores propôs que se separassem, mas ele disse que se mataria, caso isso acontecesse. Drummond prezava demais a dimensão institucional de cartório.
O poeta se equilibrou assim nessa vida dupla, bígama, porque era a favor do casamento, o dele e todos os demais. Recriminava os amigos que viviam trocando de mulher.
Sua única filha Maria Julieta casou-se com Manuel Graña Etcheverry em 18 outubro 1949. Tiveram três filhos:
  1. Carlos Manuel Etcheverry nascido em 11 novembro 1950
  2. Luiz Maurício Etcheverry nascido em 16 agosto 1953
  3. Pedro Augusto Etcheverry nascido em 30 janeiro 1960
Maria Julieta separou-se em 1971 de Manoel Grana Etcheverry (tradutor de Drummond para o espanhol), Maria Julieta voltou a se casar no Brasil, em 1983 com o mineiro Octávio Junqueira Mello Alvarenga, 60 anos, presidente da Sociedade Nacional de Agricultura. "Ela foi o meu amor da madureza", diz Alvarenga, "um amor lírico, lúcido e triste, pois sabíamos que a sua doença era irreversível." A princípio, Drummond não foi a favor da ligação de Alvarenga com a filha. Por fim, Drummond acabou aceitando o novo genro, enquanto Maria Julieta passava a assinar sem o sobrenome Drummond de Andrade.
Drummond no enterro da filha Maria Julieta, que faleceu doze dias antes de seu pai.

Em 5 de agosto de 1987 Maria Julieta morreu. Apenas doze dias depois, em 17 de agosto de 1987, Drummond morre numa clínica em Botafogo, no Rio de Janeiro, de mãos dadas com Lygia Fernandes, sua namorada com quem manteve um romance paralelo ao casamento e que durou 35 anos.
Em 2003, Octavio Mello Alvarenga, genro de Drummond causou polêmica ao lançar o livro de memórias "Rosário de Minas". Nele, culpa Drummond, ciumento ao extremo, pela morte de Maria Julieta Drummond e sugere que quem escreveu o famoso verso "Tinha uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma pedra", não foi Drummond, mas sua mulher, Dolores.
Mas, a maior polêmica foi revelar que seu famoso sogro nutria um amor incestuoso pela filha Maria Julieta, que morreu de câncer. E que Drummond se suicidou 12 dias depois da morte dela, deixando de tomar seu remédio para o coração.

⇒ O Livro: "Rosário de Minas – Memórias e Sugestões" foi recusado por cinco editoras.
⇒ Ele acabou investindo 22 mil reais para publicar o livro.
⇒ Tem 422 páginas e pela Editora: Lidador.
⇒ Octávio Junqueira Mello Alvarenga morreu em julho de 2010.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Cada irmão é diferente

William-Adolphe Bouguereau
Cada irmão é diferente.
Sozinho acoplado a outros sozinhos.
A linguagem sobe escadas, do mais moço,
ao mais velho e seu castelo de importância.
A linguagem desce escadas, do mais velho
ao mísero caçula.

São seis ou são seiscentas
distâncias que se cruzam,
se dilatam no gesto, no calar, no pensamento?
Que léguas de um a outro irmão.
Entretanto, o campo aberto,
os mesmos copos,
o mesmo vinhático das camas iguais.
A casa é a mesma. Igual,
vista por olhos diferentes?

São estranhos próximos, atentos
à área de domínio, indevassáveis.
Guardar o seu segredo, sua alma,
seus objetos de toalete. Ninguém ouse
indevida cópia de outra vida.

Ser irmão é ser o quê? Uma presença
a decifrar mais tarde, com saudade?
Com saudade de quê? De uma pueril
vontade de ser irmão futuro, antigo e sempre?

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

sábado, 6 de março de 2010

↷ O tempo passa? não passa

O tempo passa? não passa
no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
Do amor florida a canção.

O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima
de mãos e olhos, na luz.

Não há tempo consumido
Nem tempo a economizar
O tempo é toda vestida,
de amor é tempo de amar.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)