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quarta-feira, 21 de março de 2012

Outono

Renoir - Duck pond
A manhã de Outono amarelou a janela
como se em vez de minha, fosse dela.
Um céu azul insistente
veio compor a pintura
por entre galhos de ipê.
Agora, só faltava você
pra completar a cena na moldura.

Flora Figueiredo

sábado, 17 de setembro de 2011

Poeira de Estrelas

Jean-Marc Janiaczyk
Se perto demais, imagens ficam alteradas.
Se longe demais, pouco definidas.
Tenho que encontrar o equilíbrio das retas:
vidros respirados, embaçam;
gaivotas ao longe são borboletas.

Flora Figueiredo

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Chão de Vento

A Lembrança é um barbante.
Uma ponta amarrada no começo da história,
outra em nosso tornozelo.
Se o fio estica muito, mal dá para continuar.
É a linha da Memória que vai ficando puída,
a da Lembrança, não.
Feita de fibra grossa,
não afrouxa até que um anjo venha desatá-la
e a transforme numa corredeira de estrelas.
E quanto mais a corredeira for comprida,
tanto mais rica há de ser a vida.

Flora Figueiredo

sábado, 4 de setembro de 2010

Flutuações

O sonho aprendeu a pairar bem alto,
lá onde o sobressalto nem sequer nasceu.
Namorou a trôpega ilusão,
até que trêfego e desajeitado,
desprendeu-se de seu reino idealizado,
veio pousar tamborilante em minha mão.
Assim, aquecido e aconchegado,
parece que se esqueceu de ir embora.
Na hora em que ressona distraído,
eu lhe pingo malemolências ao ouvido,
à sua inquietação eu me sujeito.
Eis que o sonho dorme agora aqui comigo,
seu corpo repousa no meu peito.

Flora Figueiredo

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Lunar

Dorina Costras
A lua aconteceu hoje rasgada,
pois brigou com um trovão
da madrugada.
Não gostou do seu clarão.
Sentiu-se ultrajada.
Recolheu seu pedaço ferido
e o manteve escondido
daqueles que se amavam sob seu encanto.
Assim incompleta,
a lua amoitou-se numa nuvem preta
e choveu em pranto.

Flora Figueiredo