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quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Lamentação

Karl Ernest Rudolf Heinrich Salem

Nenhum homem tem mais saída:
Antes de nós o dilúvio.
Durante o tédio no caos,
Depois o épico escuro.
A esperança desespera.
Os olhos não são para ver
Nem os ouvidos para ouvir.

O diálogo virou monólogo,
Meio-dia é meia-noite.
Todos curvados constroem
Suas próprias algemas.
O longo ai das criaturas
Sobe para o céu
Forrado de espadas.

Murilo Mendes (1901-1975)

domingo, 20 de janeiro de 2013

Poema chicote

Jindra Noewi

Eis o tabuleiro do abismo
Com esfinge, quimeras e grifo.

O céu debruado em ódio
Mostra o peito de arlequim.

Eternidade madrasta,
Meu pensamento me queima
Terrível. Já estou com medo
De avançar para mim mesmo.

Nada existe sem amor.

Esposa que te negaste,
É tarde! em torno de mim
O mito rói a realidade
Cortinas negras abafam
Meu invicto coração.
Ó Deus como tardas a vir
Nas asas do teu enigma!

Nasci para não nascer.

Murilo Mendes (1901-1975)

sábado, 24 de novembro de 2012

Poema Nu

Edward Hopper

Amor, sinônimo de pobreza,
Amor, sinônimo de poesia.

A grande Ode antiga
Clama no deserto:

O poeta meu servo
É pobre como um sino,
Pobre como um gramofone de 1900.

A poesia é pobreza,
E o amor sobe para o espaço
Sem ajuda.

Murilo Mendes (1901-1975)

domingo, 26 de agosto de 2012

Mulher

Augustus Jules Bouvier

Mulher, o mais terrível e vivo dos espectros,
Por que te alimentas de mim desde o princípio?
Em ti encontro as imagens da criação:
És pássaro, és flor, pedra e onda variável...
Mais que tudo, a nuvem que volta e se consome.
Dormir, sonhar - que adianta, se tu existes?
Se fostes forma somente! És ideia também.
Ah, quando descerá sobre mim a paz antiga.

Murilo Mendes (1901-1975)

quinta-feira, 15 de março de 2012

Pequeno parágrafo sobre a procura

Sir Lawrence Alma-Tadema

Há sempre um amor procurando seu nome
Na solidão do livro dos tempos.

Há sempre uma veste nupcial
Pendendo da guilhotina da noite.

Há sempre restos do Minotauro
A escurecer os campos tranquilos.

Há sempre um olhar espiando o horizonte,
Um olhar que não foi visto.

Murilo Mendes (1901-1975)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

↷ A fatalidade

Roman Lipinski

Um moço azul atirou-se de um jasmineiro
Os sinos perderam a fala
A fértil sementeira de espadas
Atrai o olhar das crianças

Não existem mais dimensões
Nem cálculos possíveis
O vento caminha
A léguas da história
As rosas quebram a vidraça.

Demoliram uma mulher
A sons de clarinete.

Escrevo para me tornar invisível,
Para perder a chave do abismo.

Murilo Mendes (1901-1975)

domingo, 11 de setembro de 2011

A Tentação

Edvard Munch
Diante do crucifixo
Eu paro pálido tremendo
“Já que és o verdadeiro filho de Deus
Desprega a humanidade desta cruz”.

Murilo Mendes (1901-1975)

terça-feira, 19 de julho de 2011

↷ Joan Miró

À Joan Miró
Joan Miró
Soltas a sigla, o pássaro, o losango.
Também sabes deixar em liberdade
O roxo, qualquer azul e o vermelho.
Todas as cores podem aproximar-se
Quando um menino as conduz no sol
E cria a fosforescência:
A ordem que se desintegra
Forma outra ordem ajuntada
Ao real — este obscuro mito.

Murilo Mendes (1901-1975)

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Poema Dialético (4)

Alberto Vargas
É necessário conhecer seu próprio abismo
E polir sempre o candelabro que o esclarece.

Tudo no universo marcha, e marcha para esperar:
Nossa existência é uma vasta expectação
Onde se tocam o princípio e o fim.
A terra terá que ser retalhada entre todos
E restituída em tempo à sua antiga harmonia.
Tudo marcha para a arquitetura perfeita:
A aurora é coletiva.

Murilo Mendes (1901-1975)

quarta-feira, 27 de abril de 2011

↷ És meu amor triste e lúcido

Sir Edward Burne-Jones - Cupid and Psyche
Espero-te desde o começo,
Desde o tempo das pianolas,
Desde a luz de querosene.

És meu amor triste e lúcido,
Por ti me vinguei da vida,
Matei a figura estéril
E fiz a pedra florir.

Céu e terra se tocaram
Com grande aplauso do fogo,
Ondas bravas se abraçavam
No início do nosso idílio.

Áspera e doce criatura,
És o arquétipo encarnado
Das mulheres oceânicas
E ao mesmo tempo tranquilas.

Nosso amor será uma luta:
Ao som de clarins vermelhos
Subiremos pelo arco-íris
Semimortos de paixão,
Até encontrarmos o Hóspede.

Murilo Mendes (1901-1975)

domingo, 3 de outubro de 2010

O menino

Bartolome Esteban Murillo

Sentado à soleira da porta
Menino triste
Que nunca leu Júlio Verne
Menino que não joga bilboquê
Menino das brotoejas e da tosse eterna
Contempla o menino rico na varanda
Rodando na bicicleta
O mar autônomo sem fim
É triste a luta das classes.
Murilo Mendes (1901-1975)

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A palavra

Kim Anderson

A palavra nasce-me
fere-me
mata-me
coisa-me
ressuscita-me.

Murilo Mendes (1901-1975)