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quarta-feira, 15 de maio de 2013

Amo o Brasil

Tarsila do Amaral
Amo este céu constelado
Céu do Brasil — manto azul –
Sobre ele, em ouro bordado,
Vê-se o Cruzeiro do Sul.

Amo estas matas virentes
Verdes, de eterno verdor
Onde há frutos recendentes,
De delicioso sabor.

Amo esta água cristalina
Dos rios, viva, a correr,
Fazendo mato e campina
Serra e vale florescer.

As belas árvores amo,
Povoadas de passarinhos,
Onde a vida em cada ramo
Palpita em flores e ninhos.

Água e mata, céu e terra
Flores do campo gentis,
Amo tudo quanto encerra
Meu grande e belo País.

Amo as amáveis cantigas
Que ouvi, criancinha, a cantar,
Em doces vozes amigas,
No berço me acalentar.

Amo a nossa gente boa
Feita só de coração,
Que, por vingança, perdoa
E esquece por compaixão.
Amo os nomes bem-fadados,
Dos que lutaram por nós;
Dos nossos antepassados,
Avós dos nossos avós.

Poetas, sábios e guerreiros
Que a história em seus livros traz,
Nobres heróis brasileiros
Grandes na guerra e na paz.

Em tudo que amo e bendigo
A minha pátria se vê.
Amo, porque amo! Não digo
Nem que me perguntem por quê.

Amo os meus pais. Necessito
Dizer por que amo os meus pais?
Assim proclamo, assim grito:
Amo o Brasil! Nada mais.

Sinto-o em mim, no mais profundo
Da minh’alma juvenil.
Adoro a Deus; e no mundo
Amo, adoro o meu Brasil.

Bastos Tigre (1882-1957)

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Quem sou eu?

Quem sou eu? de onde venho e onde, acaso me leva
O Destino fatal que os meus passos conduz?
Ora sigo, a tatear, mergulhado na treva,
Ou tateio, indeciso, ofuscado de luz.

Grão, no campo da Vida, onde a morte se ceva?
Semente que apodrece e não se reproduz?
De onde vim? Da monera? ou vim do beijo de Eva?
E aonde vou, gemendo, a sangrar os pés nus?

Nessa esfinge da Vida a verdade se esconde;
O espírito concentro e consulto a razão,
E uma voz interior, sincera, me responde:

— Quem és tu? Operário honesto da nação.
De onde é que vens? De casa. Onde é que estás? No bonde.
Para onde vais? Não vês? Para a repartição.

Bastos Tigre (1882-1957)

↷ Boa noite, velhice

Angela Armano - Old Garden Hat
Boa noite, velhice, vens tão cedo!
Não esperava, agora, a tua vinda.
Eu tão despreocupado estava, ainda,
Levando a vida como num brinquedo…
Tens tão meigo sorriso e um ar tão ledo;
Nos teus cabelos como a prata é linda!
Ao meu teto, velhice, sê bem-vinda!
Fica à vontade. Não me fazes medo.
E ela assim me falou, em tom amigo:
- Estranha me supões, mas, em verdade,
Há muito tempo que, ao teu lado, eu sigo.
Mas, da vida na estúrdia alacridade,
Não me viste viver, seguir contigo…
Eu sou, amigo, a tua mocidade.

Bastos Tigre (1882-1957)