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domingo, 13 de janeiro de 2013

A cantiga que cantavas

Franz von Defregger

A cantiga que cantavas
não tinha acompanhamento
nem de nenhum instrumento
nem de outra voz, nem de vento,
nem de água em murmúrio vão.

Subia pura na noite.
Subia serenamente
fresca, simples, inocente,
para os astros, para a lua,
no seio da solidão.

Afora o canto que entoavas,
tudo era recolhimento
no vasto e perdido mundo.
Tudo era êxtase profundo.
Ao teu canto claro e lento,
tudo era deslumbramento.
Não havia voz de vento,
nem água em murmúrio vão.

Teu canto, no vasto mundo,
não tinha acompanhamento.


Tasso da Silveira (1895-1968)
Em: Antologia de poemas para a infância.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Um passarinho canta

Harrison Rucker - Morning Song
Um passarinho canta
para o canto perder-se.

Para o canto fundir-se
no éter puro e sereno,
no silêncio das coisas,
no mistério dos seres.

Um passarinho canta
apenas porque é vida:
a vida é apenas canto,
canto efêmero.

Tasso da Silveira (1895-1968)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Lua

Lua! Canção de mágoa, triste endeixa
de saudade, no azul do céu perdida...
Companheira dos que vão sós na vida,
dos que não têm quem lhes escute a queixa...
O teu frio palor na alma nos deixa
a tristeza profunda e comovida
de quando a alguém a eterna despedida
vamos levar, e um túmulo se fecha...
Errante e só pela infinita altura,
há milênios que vens, ó Lua triste,
iluminando a humana desventura..
E parece que em ti se congelaram
todos os ais de súplica que ouviste
e a ânsia dos olhos todos que te olharam...

Tasso da Silveira (1895-1968)

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A Canoa

Ervin Molnar

Rompida de brechas, carcomida
por anos sem conta de luta no mar,
a velha canoa dos pescadores
foi arrastada para a planície,
foi exilada em terra firme,
longe do mar.

Mas veio o crepúsculo, e pôs distâncias no horizonte.

E a planície fremiu ansiadamente ...

... como se tivesse vontade de ser água
para a canoa navegar ...

Tasso da Silveira (1895-1968)