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quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Lembro-me de ti

Andrei Belichenko and Maria Boohtiyarova
Lembro-me de ti
Nesse instante absoluto,
A vida conduzida por um fio de música.
Intenso e delicado, ele vai-nos fechando num casulo
Onde tudo será permitido.

Se é só isso que podemos ter,
Que seja forte. Que seja único.
Tão íntimo quanto ouvirmos a mesma melodia,
Tendo o mesmo - esplêndido - pensamento.
Lya Luft

sábado, 28 de julho de 2012

A esperança me chama

Dorothy Lathrop
A esperança me chama e eu salto a bordo
como se fosse a primeira viagem.
Se não conheço os mapas, escolho o imprevisto;
qualquer sinal é um bom presságio.
Seja como for, eu vou, pois quase sempre acredito.
Ando de olhos fechados
feito criança brincando de cega.
Mais de uma vez saio ferida ou quase afogada,
mas não desisto.
A dor eventual é o preço da vida:
passagem, seguro e pedágio.

Lya Luft

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Renuncio às palavras e às explicações

Alphonse Mucha - Memory of Ivancice

Renuncio às palavras e às explicações.
Ando pelos contornos,
onde todos os significados são sutis, são mortais.
Não quero perder o momento belo.
Quero vivê-lo mais, com a intensidade que exige a vida:
desgarramento e fulguração.
Então me corto ao meio e me solto de mim:
a que se prende e a que voa,
a que vive e a que se inventa.
Duplo coração:
a que se contempla e a que nunca se entende,
a que viaja sem saber se chega
- mas não desiste jamais.

Lya Luft

domingo, 3 de junho de 2012

Canção na janela

Karen McIntyr
Há pouco emergi
da mornidão do sono.
Pensei flutuar:
onde termina minha vida
e começa o mar?
Tudo ao meu redor são dois
cristais reverberando.

Meu destino me contempla
indagador:
nesta imensidão
sou um capim perfumado
que balança, a um tempo
susto e chamamento
-pronta para me desfazer
em outra alma.

Lya Luft

domingo, 27 de maio de 2012

Não procuro a palavra exata

Já não procuro a palavra exata,
que me pudesse explicar.
Ando pelos contornos onde todos os significados são sutis,
são mortais.

Não busco prender o momento belo:
Quero vive-lo sempre mais,
com a intensidade que exige a vida,
com o desgarramento do salto e da fulguração.

E me corto ao meio...
E me solto de mim...
Duplo coração...

A que vive,
a que narra,
a que se debate,
e a que voa...
na loucura que redime da lucidez...

Lya Luft

terça-feira, 22 de maio de 2012

Aquela criança

Vladimir Volegov
Aquela criança, aquela
ainda não compreendeu o mundo
ainda se busca no espelho
ainda inventa viagens
ainda ri sem motivo
- quando os fantasmas deixam.

Aquela criança, aquela
teve as asas cortadas
e a máscara afivelada
na morte dos seus amores.

Aprendeu que o tempo
- como tudo mais -
é só miragem.

Lya Luft