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domingo, 9 de agosto de 2015

Um Sonho

Van Gohg - The siesta
Na messe, que enlourece, estremece a quermesse...
O sol, o celestial girassol, esmorece...
E as cantilenas de serenos sons amenos
Fogem fluidas, fluindo à fina flor dos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crótalos,
Cítolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Flor! enquanto na messe estremece a quermesse
E o sol, o celestial girassol, esmorece,
Deixemos estes sons tão serenos e amenos,
Fujamos, Flor! à flor destes floridos fenos...

Soam vesperais as Vêsperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...
Como aqui se está bem! Além freme a quermesse...
– Não sentes um gemer dolente que esmorece?
São os amantes delirantes que em amenos
Beijos se beijam, Flor! à flor dos frescos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Cítolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Esmaece na messe o rumor da quermesse...
– Não ouves este ai que esmaece e esmorece?
É um noivo a quem fugiu a Flor de olhos amenos,
E chora a sua morta, absorto, a flor dos fenos...

Soam vesperais as Vêsperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...

Penumbra de veludo. Esmorece a quermesse...
Sob o meu braço lasso o meu Lírio esmorece...
Beijo-lhe os boreais belos lábios amenos,
Beijo que freme e foge à flor dos flóreos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros... Cornamusas e crótalos,
Cítolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Teus lábios de cinábrio, entreabre-os! Da quermesse
O rumor amolece, esmaece, esmorece...
Dá-me que eu beije os teus morenos e amenos
Peitos! Rolemos, Flor! à flor dos flóreos fenos...

Soam vesperais as Vêsperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...

Ah! não resistas mais a meus ais! Da quermesse
O atroador clangor, o rumor esmorece...
Rolemos, ó morena! em contatos amenos!
– Vibram três tiros à florida flor dos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crótalos,
Citolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Três da manhã. Desperto incerto... E essa quermesse?
E a Flor que sonho? e o sonho? Ah! tudo isso esmorece!
No meu quarto uma luz luz com lumes amenos,
Chora o vento lá fora, à flor dos flóreos fenos...

Eugénio de Castro (1869-1944)

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Giro e Sigo

Van Gogh
Quando os caminhos
Bifurcam-se
Na plenitude do tempo
Vou e venho
Giro e sigo

Porque......

Dar sentido a vida
Pode levar-nos a loucura
Mas..........
A vida sem sentido
É uma tortura.

Orides Siqueira

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Os Comedores de Batatas

Vincent Van Gohg - Comedores de batatas
A obra Os Comedores de Batatas, de Vincent Van Gogh, pertence à primeira fase da pintura do artista, desenvolvida na Holanda, sob influência do realismo do pintor Jean-François Millet. O quadro é de 1885 e encontra-se no Museu Van Gogh em Amesterdã. Nesta fase, Van Gogh desenhou e pintou muitas paisagens holandesas, cenas de aldeia. Em Nuenen, pequena cidade holandesa onde morava a sua família, realizou cerca de 250 desenhos, principalmente sobre a vida de camponeses e tecelões. Os Comedores de Batatas resumem esse período. Assim como os pintores realistas, ele falou sobre a miséria e retratou o desespero das pessoas humildes. Ele dizia que os camponeses deviam ser pintados com as suas características rudes, sem embelezamento, ponto em que criticou e superou a sua referência primeira, Millet.
Van Gogh salientou os traços grosseiros das mãos e das faces dos trabalhadores da terra. Em busca de intensidade dramática, explorou a potencialidade expressiva dos tons escuros. O quadro mostra cinco pessoas sentadas à volta de uma mesa tosca de madeira. A mulher mais nova tem uma travessa de batatas quentes a fumegar e, com uma expressão interrogativa, está a servir as doses. A mulher mais velha, à sua frente, deita nas canecas café de cevada e malte. O velho camponês bebe. Uma família camponesa está reunida para esta frugal refeição. Um candeeiro a petróleo irradia uma luz fraca, mostrando a grande pobreza; ao irradiar a sua luz trémula sobre todos de forma igual, estabelece a unidade na aparência destas figuras preocupadas.
Na carta ao seu irmão Théo, quando se refere a este trabalho, diz: "Apliquei-me conscientemente em dar a ideia de que estas pessoas que, sob o candeeiro, comem as suas batatas com as mãos, que levam ao prato, também lavraram a terra, e o meu quadro exalta portanto o trabalho manual e o alimento que eles próprios ganharam tão honestamente”. Está aqui demonstrada a consciência do conteúdo social tratado e a preocupação do artista em ser fiel à simplicidade das pessoas retratadas, não mostrando apenas a pouca comida, mas também a escassez de recursos, tanto na casa como nas roupas simples.
Vincent Van Gogh - Cabana com campesino
Nesta cabana residiam duas famílias, uma das quais os De Groots, representados na obra "Os Comedores de Batatas".

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Análise da obra:"Noite Estrelada"

Noite Estrelada é uma das obras mais conhecidas de Vincent Van Gogh. O quadro foi pintado quando ele tinha 37 anos e estava internado num asilo em Saint-Rémy-de-Provence (1889-1890). A obra encontra-se atualmente na coleção permanente do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA).
Ao contrário de muitas das suas obras, Noite Estrelada foi pintada de memória, e não a partir da vista correspondente de uma paisagem. Durante ao tempo em que esteve no asilo, Van Gogh dedicou-se a pintar as paisagens da região da Provence.
A paisagem retratada mistura o real com imagens da sua memória, como uma igreja tipicamente holandesa. É notável o contraste entre a calma da pequena vila representada e o caos celestial. Os ciprestes são o elo de ligação entre a terra e o céu. A obra é dividida no plano horizontal pela linha do horizonte e no plano vertical pelo cipreste. O povoado longínquo, de pequenas casas, contrasta fortemente com o cipreste em primeiro plano que se destaca e ajuda ao equilíbrio da composição As pinceladas são curvilíneas, e integram-se de maneira rítmica sobre a superfície da pintura. Estrelas brilhantes pulsam como mini sóis. Ondas luminosas cortam o centro da tela, parecem ter vida própria. No canto superior direito, chama a atenção a lua que ganhou feições de um sol que transforma em quase dia. Enquanto isso, o vilarejo, com a sua igreja de torre alta, parece adormecer alheio ao céu estrelado cheio de explosões emotivas de Van Gogh.
Van Gohg - The Starry Night - "Noite Estrelada"

A pintura foi a inspiração para a canção de Don McLean, "Vincent", que é também conhecida como "Starry Night".

Estrelada, estrelada noite
Pinte sua paleta azul e verde
Olhe ao redor em um dia de sol
Com olhos que conhecem a escuridão na minha alma
Sombras nas colinas
Desenhe árvores e narcisos
Pegue a brisa e a friagem do inverno
Em cores da terra enevoada

Agora eu entendo
O que você tentou me dizer
E o quanto você sofreu por causa da sua sanidade
E como você tentou libertá-los
Eles não ouviriam
Não saberiam como
Talvez escutarão agora

Estrelada, estrelada noite
Flores flamejantes que resplandece brilhantemente
Nuvens rodopiando e nevoeiro violento
Refletem nos olhos de Vincent, olhos azuis de porcelana
Cores mudam a coloração
Campos matinais de grãos ambarino
Suportando rostos alinhados em dor
São acalmadas pelas mãos amorosas dos artistas.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Tabacaria

Van Gogh
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.

Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.

Álvaro de Campos
Fernando Pessoa (1888-1935)

sexta-feira, 1 de março de 2013

Estética do labirinto

Vincent van Gogh
A natureza, em seu amor ardente,
no círculo da própria negação,
em ouro, pedra e sal ambivalente,
trabalha na perene transição.
Dissolve e coagula eternamente
a vida, que renasce, em floração,
da morte, como a lua refulgente,
surgindo na profunda escuridão.
Na síntese do velho Magofonte,
a vívida matéria se desfaz
em águas claras, na secreta fonte:
até que inesperada se refaz,
envolta, como a Uroburos insonte,
num círculo sutil que não se esfaz.

Marco Lucchesi

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

A solidão de Van Gogh

Auto Retrato
Todo olhar sobre Van Gogh é uma aventura. Como a biografia que chega ao Brasil, tradução de Denise Bottmann. Nasceu depois de demorados caminhos e foi além de pequenas descobertas. Como a de que a sua morte não foi suicídio, mas bala perdida, no estômago, de uma arma disparada por um garoto que brincava de caubói. Ainda viveu dois dias de delírio até fechar os olhos nos braços de Théo, seu único irmão. Sua morte foi talvez mais um quadro nas asas negras dos seus corvos sobre os trigais.
O livro – 1.144 páginas – lançado no Brasil pela Companhia das Letras é o resultado de uma pesquisa de dois jornalistas, Gregory White Smith e Steven Naifeh. E, talvez por isso, tenha sido um raio de luz sobre velhas e sombrias dúvidas que pairavam sobre a vida do grande pintor holandês que fez de Paris e da França a pátria da sua solidão e do seu desespero que marcaram sua vida. Vivo, não vendeu um quadro. Morto, é um dos maiores pintores do mundo batendo recordes nos leilões de arte.
Duas vezes Rejane cruzou os caminhos do mundo de avião, trem e metrô, e foi bater no Museu de Amsterdã em busca de ver de perto os três quadros d’Os Comedores de Batata. E ali, diante da cena sombria dos carvoeiros miseráveis de Van Gogh, acompanhei seu choro emocionado e feliz. As lágrimas grossas e lentas descendo dos olhos. Estava diante, finalmente, de uma das obras de arte que desejou a vida inteira olhar de perto. E ficou ali, uma hora, como se a vida tivesse parado para sempre. Alguns anos depois, a convite de Ana Cláudia, sua sobrinha, filha de Otomar e Déa, que mora em Avignon, às margens do Ródano, fomos conhecer St. Remy de Provence. Deixamos o carro no estacionamento e fomos a pé pelo caminho que leva ao hospital onde Van Gogh viveu internado quinze meses. Seus quadros estavam ali, em reproduções diante de cada paisagem real que pintou. As oliveiras de galhos retorcidos e plátanos velhos como os séculos, urdindo o tempo, segundo a segundo. Mas antes que chegássemos ao antigo hospital, onde viveu na solidão de um quarto com seu único janelão aberto para um campo de parreiras, lá estava ele. De bronze. Em tamanho real. Levando uma braçada de girassóis, como se caminhasse de volta a Paris. Subimos, visitamos seu quarto – uma banheira de madeira tosca e um lavatório. Nada sugeria uma presença viva. Só a desesperada solidão em tudo que estava ali. No silêncio morto de todas as coisas. Nenhum quadro, um só traço, uma cor.
Nem aqueles quadros todos que vimos outra vez ao longo da caminhada de volta, tinham vida. Repetiam as mesmas cenas reais que estavam diante deles e que um dia inspiraram Van Gogh e a sua alma triste. Árvores caladas. Cobertas de um silêncio morto, mesmo diante de um sol macio que se derramava, alegre e luminoso. Aqui e ali restava pobre e tímido, o lilás das alfazemas. Quem sabe era ele mesmo que estava ali. Com seu olhar de bronze a olhar a primavera que renascia entre os trigais.
Vicente Serejo

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Um dia para pescar

Alfred Glendening
Frederick Hendrik Kaemmerer
George Paterson
John Constable - Stratford Mill
Vincent Van Gogh - A Fisherman in His Boat
Gustave Caillebotte - Fishing

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Haikai

Van Gogh – Mulberry Tree
Árvore que canta.
Vento e uivo no deserto.
O sonho passeia.

Lívio Oliveira

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

E o caminho?

Vincent Van Gogh - The Church in Auvers-sur-Oise
Atrás de nós ficava longe o amanhecer
e adiante a tarde já se havia ido,
a noite era uma montanha com estrelas.

Assim que havíamos alcançado o outro lado
quando às nossas costas
o vento gritou de medo
e o caminho desapareceu.

Humberto Ak'abal
(poeta da Guatemala)

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Quem escolhe o caminho das pedras

Vincent van Gogh - The Church in Auvers-Sur-Oise
“Quem escolhe o caminho das pedras
foge à fascinação do fácil.

Quem escolhe o caminho das pedras
sabe de cor a cor do sangue

Quem escolhe o caminho das pedras
nada quer para tudo ser.

Quem escolhe o caminho das pedras
ama o amor na raiz do lume.

Quem escolhe o caminho das pedras
equilibra-se nos fios da morte.

Luís Veiga Leitão (1912-1987)

domingo, 16 de outubro de 2011

É o êxtase amoroso

Van Gogh - The Grove
É o êxtase amoroso,
é o cansaço langoroso,
são os suspiros que exalam
as matas, ao vir da aragem .
São, pela espessa folhagem,
tímidas vozes que falam.

Oh! fresco e flébil ruído!
É como um leve gemido,
é como o lânguido arfar
que agita a relva, de manso.
Dir-se-ia um surdo balanço
de calhaus n'água, a rolar.

Esta alma que se lamenta,
nesta queixa sonolenta,
não será, talvez, nossa alma?
Quem sabe a minha alma e a tua,
cuja canção se insinua,
baixinho, na tarde calma?

Paul Verlaine (1844-1896)

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Na vida publica

Van Gogh
“Na vida pública somos super descolados,
topamos tudo, somos animadíssimos,
não temos vergonha de nada.
Falamos palavrão, gritamos, ficamos pelados,
enfim, vale tudo. Mas, na vida privada,
continuamos homofóbicos, racistas e machistas”.

Mary Del Priore

quarta-feira, 16 de março de 2011

Ciprestes de Van Gogh

Ciprestes de Van Gogh
Imóveis labaredas
verdes incêndios sobre a tela
verdes mulheres nuas
em seus cabelos.
Ciprestes de Van Gogh
bizantinas colunas
da paisagem
vórtice
remoinho erguido
como o grito
o fallus
o arremesso de gozo
do pintor.

Marina Colasanti