sexta-feira, 25 de setembro de 2015

↷ Fim

Jules Alexandre Grun
As 15 maiores epidemias e pandemias da História Da Antiguidade até os tempos de hoje, as epidemias e pandemias foram tão comuns na história da humanidade quanto as guerras e os conflitos políticos. Os registros mais antigos conhecidos são do século V a.C., de Atenas, por ocasião da Guerra do Peloponeso. Há numerosos casos de epidemias pouco conhecidos, com registros esparsos e superficiais, especialmente sobre as populações colonizadas pelos europeus, como é o caso da América e da África.
  1. A praga de Atenas, 429-326 a.C.
  2. Peste de Antonino, 165-180
  3. Peste de Justiniano, 541-544
  4. Peste Negra, 1346-1353
  5. Epidemia de Cocoliztli, México, 1545-1548 e 1576-1580
  6. Grande Praga de Milão, 1629-1631
  7. A Grande Praga de Londres, 1664-1665
  8. Grande Praga de Marselha, 1720-1722
  9. Pandemia de cólera, século XIX
  10. Gripe Espanhola, 1918
  11. Gripe Asiática (vírus H2N2), 1956
  12. Gripe de Hong Kong (vírus H3N2), 1968-1970
  13. AIDS (HIV), 1981 até hoje
  14. Surto do SARS, 2002-2004
  15. Epidemia de Ebola, 2007 e 2013-2016

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

↷ Encontrar o que se perdeu

Edmund Dulac

Encontrar o que se perdeu
dentro da cabeça
antes de usar a mão
para pegá-lo fora dela
e encontrar-se no sentimento
longínquo, quase esquecido
é encontrar os óculos para ver melhor
a hora certa do dia, reaprender
apreender, usufruir de novo
o gosto de saber, guardar
ainda que for para dar ou dividir
porque assim não estará
nem perdido, nem preso, nem à parte.

Armando Freitas Filho

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

↷ Ilusões da Vida

Gustav Klimt
Quem passou pela vida em branca nuvem
E em plácido repouso adormeceu,
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu;
Foi espectro de homem, não foi homem,
Só passou pela vida, não viveu.

Francisco Otaviano (1825-1889)


sexta-feira, 18 de setembro de 2015

↷ Todos talentos de Deus estão dentro de você

Georg Friedrich Kersting

Como poderia ser diferente,
uma vez que sua alma
derivou dos genes Dele!

Eu amo esta expressão:
“Todos os talentos de Deus estão dentro de você.”

Às vezes Hafiz não consegue fazer nada senão aplaudir
Certas palavras que surgem de minhas profundezas
como a fragrância do corpo de uma amante.

Segure este livro perto do seu coração
pois ele contém segredos maravilhosos.

Hafez de Xiraz (1315-1390)
Tradução: Nicolas Voss

terça-feira, 15 de setembro de 2015

↷ Destino

Eugène Delacroix
“O destino gosta de inventar desenhos e figuras. A dificuldade dele reside no complicado. A vida mesma, porém, é difícil pela simplicidade. Tem apenas algumas coisas de um tamanho que nos não é adequado. O santo, rejeitando o destino, escolhe estas coisas, em face de Deus. Mas que a mulher, conforme à sua natureza, tenha de fazer a mesma escolha em relação ao homem, é o que evoca a fatalidade de todas as relações de amor: resoluta e sem destino como uma eterna, ergue-se ela ao lado dele, dele que se transforma. Sempre a amante ultrapassa o amado, porque a vida é maior do que o destino. O dom de si mesma quer ser desmedido: é esta a sua ventura. A dor inominada do seu amor, porém, foi sempre esta: que se exija dela que limite este dom de si mesma.”
Rainer Maria Rilker (1875-1926)
Tradução: Paulo Quintela

domingo, 13 de setembro de 2015

↷ O Adjetivo

Sally Rosenbaum

O adjetivo? Que horror
quando não é incisivo
quando atira para o vago
o pobre substantivo
ou o circunda de um halo
de um falso resplendor,
em que o ouro utilizado
não é ouro é só dourado!

O sol assim captado
é sol, mas sol de teatro,
ouro em falsete, luz barata,
e no prego não dá nada,

que o prego não acredita
(senão já estava falido)
nesse ouro sem quilate
que usam a valdevina

e o poeta que se orna
(que orneia, melhor diria)
de luzidias mentiras,
de poética poesia.

Disse pouco do que queria
na parte que antecede.
Se é discursiva, a poesia
também não serve...

Voltando ao adjetivo
(nada tenho contra ele):
é melhor ficar despido,
cosido com a própria pele,

do que pedir emprestada
a piedosos enchumaços
aquela largura de ombros
que nos faz ginasticados,

quando, em verdade, não temos
mais ginástica do que essa
em que somos atletas
e que se resume apenas

no aguentar alegre
do peso quotidiano
(pode ser que para o ano
a terra nos seja leve).

Tal como do mal o menos
- e nesta regra redijo-
antes quero sóbrios termos
do que fingir que sou rico...

Alexandre O'Neill (1924-1986)

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

↷ A língua na nossa identidade

Theresa Bernstein – Os Imigrantes
“Por um tempo, assim como tantos outros emigrantes, estive, para todos os efeitos, sem linguagem, e da tristeza daquela condição, compreendi o quanto o âmago da nossa existência, a nossa compreensão de identidade, depende de ter uma língua viva dentro de nós. Perder toda a linguagem interna é sucumbir a uma escuridão inarticulada em que nos tornamos estrangeiros para nós mesmos; perder a habilidade de descrever o mundo é retratá-lo um pouco menos vívido, um pouco menos lúcido. E além, a riqueza na articulação propicia tonalidades de sutileza e nuance às nossas percepções e ao pensamento. Para mim, uma das passagens mais sensíveis na escrita de Nabokov é sua invocação dos sons do russo, ao final de Lolita. Lá ele evoca não só a melodia, a eufonia dos sons do russo, de maneira convincente, mas também a profundidade e a totalidade da existência da língua no nosso ser. É essa relação com a língua, mais do que o domínio superficial dela, que é difícil de duplicar nas línguas que se aprende posteriormente.”
Eva Hoffman

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

↷ Duma outra infância, inventada...

Stanhope Alexander Forbes

Duma outra infância, inventada,
Guardo memórias que são
Reais reversos do nada
Que as verdadeiras me dão.

Estas, se acaso regressam,
Em tropel e confusão
Ao limiar-me, tropeçam
No corpo das que lá estão.

Assim, mentindo as raízes
Do meu confuso começo,
Segrego imagens felizes
Com que as funestas esqueço.

Reinaldo Ferreira (1922-1959)

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

↷ Minha Família

Tadeusz Makowski

Minha família é disfuncional, completamente. Nunca existiu amor lá. Só ódio, rancor e cobrança.
Meu pai abusou de mim sexualmente a primeira vez que me lembro eu deveria ter 8 a 9 anos. Mas acredito que antes disso deva ter feito outras coisas porque a memória da gente capta apenas alguns fragmentos e isso é estranho. Eu reagi com muito espanto e indignação, mas não obtive apoio familiar, ao contrário minha mãe pegou ódio de mim e ai eu fui abusada com espancamentos, fome, humilhações, abusos psicológicos e tortura. Fui queimada duas vezes com ferro de passar roupa super quente e nem ao médico me levaram . Meu pai ao chegar e ver meu braço e meu choro foi buscar uma pomada e minha mãe nem aí.
Meu irmão que fez isso pela primeira vez o fez antes de ir para a faculdade, ou seja, era adulto e estudado, mas não se arrependeu.
Depois de uns meses uma irmã mais velha fez o mesmo, além dela me cortar o cabelo de maneira totalmente humilhante e por trás, traiçoeiramente, pois ela tem ódio de mim porque eu nasci e tirei o colo do pai dela.
Eu fiquei menstruada com 13 anos e não me compravam Modess. Foi porque eu "roubei" um Modess dela que ela me queimou.
Só fui comprar Modess quando comecei a trabalhar de doméstica de depois na Gessy-Lever.
Eu ia para a escola com uniforme sujo, inclusive de sangue de menstruação, sapato aberto, ou seja, com sola saindo, saia sem barra e com fome, sem almoço. Repeti de ano ai tiraram-me da escola, pois eu não me esforcei para passar de ano.
Ai ficávamos eu e minha mãe em casa e ela aproveitava para me dar surras imensas com cordão de ferro. Dizia quero te matar! Fez isso muitas vezes eu tinha que ficar fora de casa até a hora de dormir até o dia em que a xinguei de todos os nomes possíveis e imagináveis. Ai ela parou. Logo depois comecei a trabalhar e ela ficou doente. Teve câncer e morreu. Isso até meus 23 anos.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

↷ Cadernos do Subterrâneo

Toulouse-Lautrec
Oh, se eu não fizesse nada só por preguiça! Meu Deus, que respeito teria por mim. E teria esse respeito, precisamente, porque era capaz, pelo menos, de ter preguiça; haveria em mim, pelo menos, a certeza de uma característica definida. Se perguntassem de mim: quem é? E respondessem: um mandrião — isso ser-me-ia extremamente agradável de ouvir. Quer dizer que tinha uma característica determinada, logo, era possível dizer algo de mim. «Mandrião!» — mas isso é um título, um cargo, uma carreira. Não é brincadeira, é verdade. Nesse caso, seria membro de pleno direito de um clube de primeira e passava a vida a respeitar-me. Conheci um sujeito que toda a vida se orgulhou de ser perito em champanhe Laffite. Considerava isso uma grande qualidade sua e nunca duvidava de si mesmo. Morreu, não só de consciência tranquila, mas de consciência triunfante, e tinha absoluta razão.
Quanto a mim, escolheria uma carreira de mandrião e glutão, mas não de um simples e corriqueiro mandrião e glutão, antes, por exemplo, de adepto de tudo o que é belo e sublime. Que tal, na vossa opinião? Tive esta ideia há muito tempo. Muito esse «belo e sublime» me oprimiu a nuca, chegado aos meus quarenta anos; mas isso foi aos quarenta — se fosse antes, teria sido outra coisa! Teria também achado para mim, com toda a certeza, a minha correspondente actividade, como seja: beber brindando à saúde de tudo o que é belo e sublime. Não deixaria passar qualquer ocasião de verter, primeiro, uma lágrima no copo e, depois, de o emborcar em honra de tudo o que é belo e sublime. Tornar-me-ia lacrimejante como uma esponja embebida. Por exemplo, um artista pintava um quadro de Gay (1). Imediatamente eu brindava à saúde do artista que pintava um quadro de Gay, porque gosto de tudo o que é belo e sublime. Um autor escrevia que «cada um faz o que lhe dá na gana»; de imediato brindo pela saúde de «quem me dá na gana» porque gosto de todo o «belo e sublime».
Exigiria que me respeitassem por isso mesmo, perseguiria quem não me mostrasse respeito. Vivo sossegado, morro solenemente — mas é uma maravilha, uma verdadeira maravilha! E que barriga deixaria crescer, que papo triplo cultivaria, que nariz de sândalo elaboraria; e qualquer um diria olhando para mim: «Este tem pinta! Tem algo de verdadeiramente positivo!» Seja como for, é extremamente simpático ouvir características destas no nosso século negativo, meus senhores.
Fiódor Dostoiévski (1821-1881)
Tradução: Nina Guerra e Filipe Guerra

Nota:(1) Esta frase sarcasticamente invertida refere-se ao pintor russo Nikolai Gay (1831-1894) e ao seu quadro Última Ceia, que Dostóievski achava transmitir uma ideia falsa.