sábado, 10 de março de 2012

Moralista

Paul Klee
Em vez de levar a sério
o que o moralista diz,
eu me pergunto primeiro:
o moralista é feliz?

Geir Campos

sexta-feira, 9 de março de 2012

Canção do Amanhecer

Pierre Auguste Renoir
Ouve
Fecha os olhos, meu amor
É noite ainda
Que silêncio
E nós dois
Na tristeza de depois
A contemplar
O grande céu do adeus

Ah, não existe paz
Quando o adeus existe
E é tão triste
O nosso amor
Oh, vem comigo
Em silêncio

Vem olhar
Esta noite amanhecer
Iluminar
Aos nossos passos tão sozinhos
Todos os caminhos
Todos os carinhos.

Vinícius de Moraes (1913-1980)

quinta-feira, 8 de março de 2012

Asas e Azares

Paul Greenwood - Angel of lost hearts
Voar com a asa ferida?
Abram alas quando eu falo.
Que mais foi que fiz na vida?
Fiz, pequeno, quando o tempo
estava todo ao meu lado
e o que se chama passado,
passatempo, pesadelo,
só me existia nos livros.
Fiz, depois, dono de mim,
quando tive que escolher
entre um abismo, o começo,
e essa história sem fim.
Asa ferida, asa ferida,
meu espaço, meu herói.
A asa arde. Voar, isso não dói.

Paulo Leminski (1944-1989)

Sansão

A História Bíblica de Sansão:
um exemplo de Síndrome de Guillain-Barré.

Sansão, de acordo com as escrituras sagradas, foi um homem nazireu, filho de Manoá, que liderou os israelitas contra os filisteus. Pertencia a tribo de Dã e foi o décimo terceiro juiz de Israel.
A Bíblia relata que Sansão foi juiz do povo de Israel durante vinte anos, aproximadamente de 1177 a.C. a 1157 a.C., sendo o sucessor de Abdon e o antecessor de Eli.
Tendo tomado o voto de nazireu ao nascimento, Sansão fora consagrado a Deus. Como parte desse voto, devia abster-se de pecar e cortar os cabelos. Assim cumprido, Sansão se distinguiria mais tarde como portador de uma força sobre-humana concedida pelo Espírito Santo.
A belíssima pintura de Peter Paul Rubens (imagem acima) mostra a traição de Sansão por Dalila, sua amante filisteia. Sansão apaixonou-se por ela, que o traiu entregando-o aos chefes de sua nação.
Então, ela o fez dormir sobre os seus joelhos, e chamou a um homem, e rapou-lhe as sete tranças do cabelo de sua cabeça; e começou a afligi-lo, e retirou-se dele a sua força. (Juízes 16:19).
Dalila fora subordinada pelos filisteus que desejavam capturar Sansão. Em troca de dinheiro.

Mais tarde, tanto os cabelos quanto a força de Sansão foram restaurados. Durante um ritual pagão de sacrifício, os filisteus se reuniram para celebrar o deus Dagom. Como era costume, os prisioneiros desfilavam no templo para entreter a multidão escarnecedora. Provido novamente de sua força, Sansão preparou-se entre os dois pilares de sustentação central do templo e os empurrou, enterrando cerca de mil filisteus.

A lendária história de Sansão pode ser analisada sob a ótica neurológica; o autor que a escreveu no século XI a.C. provavelmente baseou-se em fatos reais. Como se explica que um homem anteriormente saudável desenvolva uma fraqueza muscular súbita, mas reversível?

A Síndrome de Guillain-Barré (SGB) explica tanto a fraqueza aguda e a perda de cabelos quanto a posterior recuperação do quadro.
A SGB é a maior causa de paralisia flácida generalizada no mundo, sendo uma doença de caráter autoimune. Fraqueza progressiva é o sinal mais perceptível dos pacientes. Passada a fase da progressão, a doença entra num platô por vários dias ou semanas com subsequente recuperação gradual da função motora. A maioria das pessoas acometidas se recuperam em três meses após iniciados os sintomas.
O corte de cabelos sob as ordens de Dalila seria apenas uma expressão simbólica do pecado de Sansão ao apaixonar-se por uma mulher “impura” e a ela entregar seus segredos. A transgressão da lei divina causaria a quebra do voto de narizeu (representada pela falta de cabelos) e, como punição, a não concessão de forças pelo Espírito Santo.

Fontes::
1. SMITH,M. “Neurology in the National Gallery”. J R Soc Med 1999;92:649-652.
2. SALTER, V. “Medical conditions in works of art”. British Journal of Hospital Medicine, February 2008, Vol 69, No 2.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Quiseram-me limitada

Salvador Dali - Person at the Window
Quiseram-me limitada
Presa num quadrado
ou em círculos andando
Nesse mundinho dado
Asas cortadas
Espaço delimitado

Rompo o casulo
Minhas linhas são plenas de movimento
Abstratas e indomáveis
Viajam até sem meu consentimento
E a dor do rompimento
Esgarça meus sentidos
e da liberdade alcançada
uma vida ilimitada se abre
sem prévia autorização
sem óbvios desfechos

Assim me arremesso
Em linhas indefinidas
Amor e dor fora da ordem
Possíveis túneis, infinitos céus
Voando e caindo
Novos caminhos se abrindo
Felicidade sem permissão
Tristezas perpendiculares
Azar do medo
Linhas sempre em expansão...

Paola Caumo

terça-feira, 6 de março de 2012

Provérbio

Rupert Charles Wulsten Bunny
"Chi vó, non pó;
chi pó, non vó. Chi sá, non fá;
chi fá, non sá. Cosi, male il mondo vá."

(Quem quer, não pode;
quem pode, não quer. Quem sabe, não faz;
quem faz, não sabe. E, assim, mal vai o mundo).

Provérbio italiano

segunda-feira, 5 de março de 2012

Oscar Niemeyer

Duy Tuan
“Toda escola superior deveria
oferecer aulas de filosofia e história.
Assim fugiríamos da figura do especialista
e ganharíamos profissionais capacitados a conversar sobre a vida”.

Oscar Niemeyer

Preciso de paciência

John Reinhard Weguelin
Tenho de ter paciência
para não me perder
dentro de mim.
Vivo me perdendo de vista.

Preciso de paciência
porque sou vários caminhos,
inclusive o fatal
beco-sem-saída.

Clarice Lispector (1920-1977)

domingo, 4 de março de 2012

Citação

Heinrich Hirt
“Quando vozes de crianças se ouvem na relva,
E risos se ouvem nas colinas
Meu coração descansa no meu peito,
E todo o resto fica sereno”.

William Blake (1757-1827)

Fraternidade

Léon Jean Bazile Perrault
Razão não tenho para os homens amar
Nem eles uma para amar-me têm;
À sua vileza cego não sei estar
E toda a vileza também eles veem.

Ódio em palavras, por saciar,
Sabendo já que por todos seria
Incompreendido; fosse eu falar
E deles ignoto continuaria.

Um ódio mútuo que de instinto vem
Oculto em sorrisos, mal nos suportando.
A bondade humana conheço-a bem;
Odeio os homens, «irmãos» lhes chamando.

Alexander Search
Fernando Pessoa (1888-1935)

sábado, 3 de março de 2012

Charge

Quando a verdade for flama

Antonio Ciseri - Ecce Homo
As colunas da injustiça
sei que só vão desabar
quando o meu povo, sabendo
que existe, souber achar
dentro da vida o caminho
que leva à libertação.
Vai tardar, mas saberá
que esse caminho começa
na dor que acende uma estrela
no centro da servidão.
De quem já sabe, o dever
(luz repartida) é dizer.
Quando a verdade for flama
nos olhos da multidão,
o que em nós hoje é palavra
no povo vai ser ação.

Thiago de Mello

sexta-feira, 2 de março de 2012

Costurar e Bordar na Arte

Edmund Blair Leighton - Stitching the Standar
Frederick Richard Pickersgill - A Honiton Lace Manufactory
Jean-Marc Nattier - Portrait of Marie Adelaide
Patricia O'Brien - Girl Sewing
Johannes Vermeer - The Lacemaker
William Kay Blacklock - Sewing by a Window

quinta-feira, 1 de março de 2012

Há dois polos na vida

David Vinckbooms
Há dois polos na vida, ambos sinistros, ambos
possuindo a gelidez extrema da Sibéria:
o Luxo, a sanguessuga insaciada; e, em molambos,
o rebotalho vil, famulento - a Miséria.

Não sei quem seja mais miserável: se os bambos,
broncos vultos que dão, a troco de uma féria
mesquinha, anos de vida, ou se os tipos estranhos
que nadam no ouro desde o berço à urna funérea...

Entre esses polos vaga a gente que tem fome
e pede mais amor, mais justiça lhe assista...
E tirita de frio e a lidar se consome...

Ai dos pequenos! Ai dos vencidos! À vista
dessa desigualdade imoral e sem nome,
rompe de cada peito um grito socialista.

Mário de Lima (1886-1936)

Os Três Mal-Amados

Duy Huynh
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
João Cabral de Melo Neto (1920-1999)