domingo, 29 de agosto de 2010

Se eu puder suavizar a aflição de uma vida

Se eu puder evitar que um coração se parta
Não viverei em vão.
Se eu puder suavizar a aflição de uma vida
Aplacar uma dor,
Ou ajudar um frágil passarinho
A retornar ao ninho,
Não viverei em vão.

Emily Dickinson (1830- 1886)

sábado, 28 de agosto de 2010

As ervas

As ervas são como fios azuis-esverdeados,
A amoreira deixa pender seus ramos verdes.
É o tempo em que se pensa no dia do regresso,
o momento em que a minha dor se torna insuportável.
Vento da primavera, não te conheço!
Por que entras pelas minhas cortinas de gaze?

Li Bai (701-762)

Rosa Vermelha

Daniel F Gerhartz
A esposa do guerreiro está sentada à janela.
De coração aflito, borda uma rosa branca numa almofada de seda.
Picou-se no dedo! Seu sangue corre na rosa branca, que se torna vermelha.
Seu pensamento vai ter com seu amado, que está na guerra
e cujo sangue tinge, talvez, a neve de vermelho.
Ouve o galope de um cavalo... Chega, enfim, seu amado?
É apenas o coração que lhe salta com força no peito...
Curva-se mais sobre a almofada e borda com prata
as lágrimas que cercam a rosa vermelha.

Li Bai (701-762)
Tradução: Cecília Meireles

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Recolha as estrelas

Recolha as estrelas
Ainda em sementes
Desenha o infinito
E plante-as em outros céus,
Bem longe

Adube-as com sonhos
Regue-as com lágrimas
E espera pelos segredos
Daquela que escolheste tê-la,
Bem perto.

Jaak Bosmans

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

A morte chega cedo

A morte chega cedo,
Pois breve é toda vida
O instante é o arremedo
De uma coisa perdida.

O amor foi começado,
O ideal não acabou,
E quem tenha alcançado
Não sabe o que alcançou.

E tudo isto a morte
Risca por não estar certo
No caderno da sorte
Que Deus deixou aberto.

Fernando Pessoa (1888-1935)

terça-feira, 24 de agosto de 2010

As meninas que da alma pulam

Hans Thoma
As meninas que da alma pulam
brincam de esticar
o tempo.

Com suas saias rodadas
dançam a canção mais pura
que aprenderam
correndo
entre as junturas dos ossos.

Vera Lúcia de Oliveira

sábado, 21 de agosto de 2010

A meu favor

A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer.
A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

Alexandre O'Neill (1924-1986)

Verbo amanhecer

Conjugamos em coro
o verbo amanhecer
com sílabas que roubo
ao que a noite nos dê.

David Mourão-Ferreira

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Rosa

Rosa
e todas as rimas
Rosa
e os perfumes todos
Rosa
no florindo espelho
Rosa
na brancura branca
Rosa
no carmim da hora
Rosa
no brinco e pulseira
Rosa
no deslumbramento
Rosa
no distanciamento
Rosa
no que não foi escrito
Rosa
no que deixou de ser dito
Rosa
pétala a pétala
despetalirosada.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

Haikai

Nesta noite
ninguém pode deitar-se:
lua cheia.

Matsuo Bashô
poeta japonês (1644-1694)

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A esperança engana

Henrietta Rae
A esperança engana
Mente o sonho
Eu sei
Que mentiras lindas
eu mesma inventei
e contei para mim...

Helena Kolody (1912-2004)

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Vila Industrial de Campinas

17 de agosto - Dia do Patrimônio Histórico
Bairro Vila Industrial - Campinas
Patrimônio Histórico refere-se a um bem móvel, imóvel ou natural, que possua valor significativo para uma sociedade, podendo ser estético, artístico, documental, científico, social, espiritual ou ecológico.
Preservar bens de valor histórico, cultural, arquitetônico, ambiental e afetivo, impedindo sua destruição ou descaracterização.
A Vila Industrial é composta por várias casas e vilas, dentre elas a Manoel Freire, que é tombada pelo Condepacc desde 1994. O tombamento não impediu que suas casas fossem totalmente degradadas.
A Vila Manoel Dias (Vila Industrial de Campinas - SP), começou a ser construída por volta de 1908, para os funcionários da Mogiana. A construção da estrada de ferro trouxe imigrantes para trabalhar nas oficinas dessa e de outras companhias ferroviárias como a Paulista. Outras fábricas – como as de equipamentos agrícolas e os curtumes – também se instalaram na região.

Observem a História de sua cidade.

domingo, 15 de agosto de 2010

São tão remotas as estrelas

Josephine Wall

São tão remotas as estrelas que,
apesar da vertiginosa velocidade da luz,
elas se apagam. e continuam a brilhar durante séculos.

MORREM OS MUNDOS... Silenciosa e escura,
Eterna noite cinge-os. Mudas, frias,
Nas luminosas solidões da altura
Erguem-se, assim, necrópoles sombrias...

Mas pra nós, di-lo a ciência, além perdura
A vida, e expande as rútilas magias...
Pelos séculos em fora a luz fulgura
Traçando-lhes as órbitas vazias.

Meus ideais! extinta claridade -
Mortos, rompeis, fantásticos e insanos
Da minh'alma a revolta imensidade...

E sois ainda todos os enganos
E toda a luz, e toda a mocidade
Desta velhice trágica aos vinte anos...

Euclides da Cunha
(20 de janeiro de 1866 - 15 de agosto de 1909)

Poema favorito de Mandela

"De dentro da noite que me cobre,
Negra como a cova, de ponta a ponta,
Eu agradeço a quaisquer deuses que sejam,
Pela minha alma inconquistável.

Na cruel garra da situação,
Não estremeci, nem gritei em voz alta.
Sob a pancada do acaso,
Minha cabeça está ensanguentada, mas não curvada.

Além deste lugar de ira e lágrimas
Avulta-se apenas o Horror das sombras.
E apesar da ameaça dos anos,
Encontra-me, e me encontrará destemido.

Não importa quão estreito o portal,
Quão carregada de punições a lista,
Sou o mestre do meu destino.
Sou o capitão da minha alma."

William Ernest Henley

sábado, 14 de agosto de 2010

Reflexão

Passam os séculos, os homens, as repúblicas,
as paixões; a história faz-se dia por dia,
folha a folha; as obras humanas alteram-se,
corrompem-se, modificam-se, transformam-se.
Toda a superfície civilizada da terra
é um vasto renascer de coisas e ideias.

Machado de Assis (1839-1908)